Breno então suspirou e enfim disse:
- O que acontece no festival, fica no festival... não é Bárbara?
Bárbara abriu um sorriso venenoso e se virou de costas para ele, fazendo um sinal com os dedos para que ele a seguisse. Aquele festival ainda não havia terminado, mas a curtição daria lugar a algo muito diferente do que todos poderiam imaginar.
[CONTINUANDO]
Breno limpou, uma vez mais, com o dorso da mão, o sangue que ainda teimava em escorrer pelo canto de sua boca e olhou demoradamente para a bunda rebolativa de Bárbara. Seus olhos desceram pelo corpo dela como se avaliasse as promessas contidas naquele absurdo. Um sorriso torto, avermelhado, se abriu devagar em seus lábios machucados:
- Por que não? - Resmungou para si mesmo.
Bárbara seguia alheia a seus pensamentos. A única coisa que fez foi chamar suas amigas para acompanha-la, mas nem unanimidade obteve, já que Isa permaneceu onde estava, olhando para Breno de uma forma acanhada. Bárbara parou, olhou para quem as seguia e, mesmo sabendo da situação vexatória, quase gritou:
- Vem, leão! O paraíso te espera.
Ynara deu um passo à frente, o rosto molhado de lágrimas e contorcido de fúria:
- Breno, para com isso! Você... Você só pode estar blefando, né? Tá querendo me machucar... Isso! É isso. Eu sei que é isso! - A voz dela saiu distorcida pela dor e pela angústia: - Não faz isso. Por favor...
Breno nem olhou para ela de imediato. Continuou encarando a bunda de Bárbara, como se medisse o peso da oferta. Dogão, ainda com a camiseta pressionada contra o nariz sangrando, soltou uma risada abafada e dolorida:
- Olha só... De chifrado para um touro selvagem... Vai mesmo comer as minas, cara? Porra, isso é foda! Ganhou o meu respeito.
Ruan colocou a mão enorme no peito de Dogão, sentindo a provocação em suas palavras. Ele conhecia o amigo e sabia que nada ali era afável, tampouco favorável a Breno:
- Cala a boca, cara! Deixa o mano em paz.
Breno finalmente virou o rosto para Ynara. O olhar dele estava frio, mas havia algo queimando por baixo, certamente uma mistura de dor, raiva e um prazer desconhecido de vê-la se desfazer:
- Por que não, Ynara? - Perguntou ele, a voz baixa e assustadora: - Você deu para dois caras ontem a noite toda. Aliás, ontem e anteontem, não foi? Nem adiante negar! Eu vi você sem calcinha, rebolando na mão deles, gemendo, enquanto eles te sarravam. Agora é a minha vez de equilibrar a balança. Acho muito justo...
- Eu não fiquei com eles anteontem.
- Ah não!? E onde você ficou então?
- Eu... Eu... - Ynara suspirou fundo, olhando para o chão, mas logo encarou Breno: - Eu dormi na barraca das meninas...
- Isso é o que você diz. - Breno a interrompeu.
- Não! Essa é a verdade. Eu transei sim, mas foi com elas; não com eles.
- Com elas!? Com elas, quem? As quatro?
- Não! Só com a Isa e a Bárbara...
Breno então olhou para Isa que ainda permanecia por ali, ao lado de Santiago. Ela notou seu olhar e não desviou:
- Sou bissexual, Breno. Eu estou aqui para curtir e quando a Ynara deu chance, pensei que vocês estivessem de acordo.
- Na verdade, era para o Breno ter participado. - Disse Ynara, continuando: - Só que depois você sumiu e eu já estava tão louca que acabei deixando rolar.
- Eu participar... com vocês?
- Isso! - Concordou Isa: - Só que você sumiu. A gente até deu umas voltas, te procurando, fomos até na sua barraca, mas como não te encontramos e a Ynara disse que logo você apareceria, fomos para a nossa e rolou.
Breno olhou para Ynara que não perdeu a chance:
- Tá vendo? Eu não te deixei de lado, eu só não te achei e...
- EEEEEI! Cês vem ou não? - Gritou Bárbara, interrompendo Ynara.
Aliás, Bárbara voltou caminhando languidamente. Ao se aproximar de Breno e Ynara, sorriu toda maliciosa e passou a mão de leve no braço de Breno:
- Vamos lá, gatão... Digo, leão! Raaaaau! - Brincou e deu uma gargalhada: - Vem. A gente tá louca para te chupar junto. Depois, eu quero sentar no teu pau até ele arder enquanto a Aline senta na sua cara. Para não dizerem que não sou boazinha, se a Ynara quiser participar, ela pode. Ou pode ficar do lado de fora também, ouvindo. Ou só assistir quietinha, se tiver coragem.
Aline ficou parada lá adiante, com um sorrisinho estranho no rosto, mas claramente interessado. Tamara olhava para Breno como se ele fosse um pedaço de carne prestes a ser devorado, também excitada com a ideia de um sexo com alguém novo.
Ynara tremia inteira. As mãos fechadas em punhos ao lado do corpo:
- Você é nojenta, Bárbara! - Explodiu ela, a voz agora falhando: - Eu... Eu confiei em vocês! E agora querem foder o meu namorado na minha cara?!
- Hipócrita do caralho! - Retrucou Bárbara, quase rindo: - Você deu para os meninos mais de uma vez. Deu para os dois juntos feito uma vadia profissional, gemendo no pau de um enquanto o outro te enrabava e quer pagar de santinha!? Vá se foder Ynara, porque ele, a gente é que vai foder...
Breno deu alguns passos na direção da barraca verde, como se realmente estivesse disposto a participar daquela sandice. Ynara correu e agarrou o braço dele com as duas mãos, as unhas cravando na pele:
- Breno, não! Olha pra mim... Eu te amo, cara! Eu errei, eu sei que errei feio! Mas não faz isso... não assim. Eu não vou aguentar ouvir você gemendo o nome delas. Por favor, amor... Eu faço qualquer coisa, qualquer coisa, mas não isso.
Breno parou. Olhou para a mão dela em seu braço, depois para o rosto devastado de Ynara. Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Até o vento parecia ter parado. Então, ele soltou um suspiro longo, cansado, e com uma delicadeza surpreendente, tirou a mão dela do seu braço.
- Sabe qual é a diferença entre nós, Ynara? - Perguntou ele, a voz baixa, quase íntima, como se só os dois estivessem ali: - Você fez escondido. Traiu na surdina, enquanto eu tava apagado por aí. Você pode até ter pensado em mim anteontem, mas ainda assim escolheu fazer. Já ontem... Tenho quase certeza que você nem lembrou que namorava.
- A gente te procurou. Juro! Só que não achamos em lugar nenhum...
- Caralho que procurou... - Disse Breno, invocado: - Eu tava abraçado naquela porra de cupim perto da nossa barraca. Se você tivesse vindo me procurar e tivesse olhado de lado, teria me visto.
- Breno... Eu sou testemunha. A gente te procurou mesmo. - Disse Isa, dando um passo mais perto: - A brincadeira deveria ter sido entre nós quatro.
- Tá bom... - Desdenhou Breno e voltou a encarar Ynara: - E sabe do que mais? Eu poderia fazer o mesmo com você agora. Poderia entrar na porra daquela barraca verde, foder as três, gozar na cara delas, pouco me importando se você estaria ouvindo ou não. Ia ser justo, né?
Ele olhou para Bárbara, que esperava com os braços cruzados e um sorriso agora vacilante. Então, falou:
- Mas eu não sou como você, Ynara.
Breno deu um passo para trás, voltando na direção do Uno. A expressão de Bárbara mudou instantaneamente:
- Tá brincando, né? Vai recusar de novo? Depois de tudo acertado?
- Vou. - Breno respondeu, firme: - Porque se eu entrar ali, eu viro exatamente o que vocês são. Um bando de gente que transa sem se importar se vão foder com a vida dos outros. Eu posso estar destruído, sangrando, com o peito aberto... mas ainda tenho vergonha na cara!
Breno então olhou uma última vez para o grupo, especialmente para Dogão, que o encarava com ódio. Ruan estava impassível. Por mais estranho que possa parecer, ele parecia ser o único verdadeiramente arrependido ali. E olhou para as meninas, que agora pareciam desconfortáveis, especialmente Isa que ainda disse:
- Você está certo, Breno. Vacilamos. Mas você não precisa vacilar também. Segue o teu caminho e se um dia cruzar com o nosso, e você estiver à vontade, a gente deixa rolar. - Disse Isa.
- Difícil, hein!? - Retrucou Breno: - Vocês podem ficar com o festival, com a merda das lembranças de vocês, com o que tiver sobrado. Façam bom proveito. Eu tô fora!
Ynara caiu de joelhos na terra, soluçando alto, o corpo inteiro tremendo:
- Breno... não me deixa aqui... por favor...
Breno encarou Ynara que se desmanchava em lágrimas novamente. Então, ele abriu a porta do Uno, sentou no banco do motorista e ligou o motor. O ronco familiar cortou o ar. Entretanto, não engatou a primeira, uma âncora moral o prendendo ali. Abriu a janela do passageiro e gritou:
- Entra, Ynara. Eu te levo pra casa. Pega as tuas coisas...
Ynara se levantou devagar, como se cada movimento doesse. Arrastou suas mochilas e algumas poucas coisas ainda espalhadas até o Uno. Abriu a porta de trás do passageiro e a colocou de qualquer jeito lá dentro. Depois, ela olhou para as meninas com ódio. Isa foi a única poupada, pois foi a única a ficar do seu lado, e entrou no carro. O cheiro familiar do Uno, misturado ao suor, sangue e terra, encheu o pequeno espaço.
Enquanto o carro começava a se mover devagar pela terra batida, Ynara chorava baixinho, encolhida no banco. Breno olhava fixo para a frente, as mãos apertando o volante com força.
No retrovisor, o grupo ficava menor a cada segundo. Bárbara balançava a cabeça negativamente, rindo de algo enquanto falava com alguém. Dogão já estava de pé, ainda segurando o pano contra seu nariz.
Nenhum dos dois dentro do Uno falou por quase uma hora. O silêncio era denso, carregado de tudo o que havia sido quebrado e que nunca mais seria consertado.
A estrada de terra já havia se vestido de piche e brita, e o Uno agora embalava valente por vales e morros. O festival ficara para trás. Mas as imagens, os sons e as feridas... essas iam viajar com eles. Talvez pela vida toda.
Só se ouvia o ronco cansado do motor, o vento batendo nas janelas entreabertas e, de vez em quando, o soluço abafado de Ynara, que tentava controlar o choro mas falhava miseravelmente. Somente quando quase chegavam na sua cidade é que Ynara abriu a boca, a voz rouca de tanto chorar:
- O que você vai fazer comigo?
Breno não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram fixos na pista, os dedos apertando o volante com tanta força que os nós estavam brancos. O corte no lábio ainda latejava e a costela doía a cada respiração mais profunda:
- Vou te levar até a casa dos seus pais... - Respondeu por fim, seco.
Ynara virou o rosto para ele, os olhos inchados e vermelhos:
- Está terminando comigo?
Breno soltou uma risada curta, amarga, sem qualquer humor:
- A gente termina quando existe algo, Ynara. Hoje, eu me pergunto se a gente teve algo de verdade.
As palavras acertaram Ynara como uma tijolada. Ela encolheu-se no banco, abraçando os próprios joelhos, a saia jeans ainda suja de terra e com marcas amassadas da manhã:
- Vai contar para os meus pais?
- Não. Esse problema é nosso, não deles.
- O que eu preciso fazer para você me perdoar, Breno? É só me pedir. Eu faço... Eu faço qualquer coisa. Eu nunca mais saio sozinha. Eu te dou a senha do meu celular, do Instagram, tudo. Eu...
- Então me dê tempo. - Cortou ele, a voz baixa mas firme: - Vou pensar em tudo o que aconteceu e prometo que conversamos depois.
- Tá... - Murmurou Ynara, as lágrimas voltando a tomar conta de seus olhos castanhos.
Ela tentou tocar o braço dele, mas Breno puxou o cotovelo instintivamente:
- Só não tenha muita esperança... - Completou ele, quase num sussurro.
- Tá...
O silêncio voltou, mais pesado que antes. O Uno parou num semáforo. Breno aproveitou para olhar para o lado. Ynara estava destruída: cabelo desgrenhado, maquiagem borrada, o cropped sujo e amassado. Nem parecia a mesma mulher que, menos de doze horas antes, ria sem calcinha entre dois homens. E a imagem voltou com força, a calcinha vermelha balançando na mão de Dogão, as pernas dela trançadas na cintura dele, a saia levantada, Ruan atrás, bolinando... E ele sentiu o estômago revirar:
- Pensei que você gostasse do nosso sexo... – Resmungou Breno, olhando para o semáforo.
- Mas eu gosto. Amo, na verdade.
- Então por que deu para eles, caralho? Eu não te satisfaço, é isso?
- Breno, por favor... Não foi você. Fui eu. Você sempre foi perfeito, eu é que... – Ela voltou a chorar, pesado, sofrido.
Breno a olhou e quase sentiu pena. Quase...
- Você gozou com eles? - Perguntou de repente, a voz rouca.
Ynara piscou, surpresa com a pergunta direta:
- Breno...
- Só quero entender.
Ela baixou a cabeça e suspirou profundamente:
- Não sei... Acho que sim. Não me lembro direito, eu tava muito chapada.
- Deve ter sido muito bom, né? Os dois te fodendo juntos...
- Eu não consigo me lembrar direito. Só lembro de flashes... de algumas situações. - A voz dela falhou: - Mas eu juro que pensei em você. Em vários momentos eu pensei em você.
Breno riu de novo, dessa vez com mais dor do que ironia:
- Pensou em mim enquanto dois caras te fodiam ao mesmo tempo!? Nossa! Que coisa mais romântica. Porra...
- Eu sei que não tem desculpa... - Sussurrou ela, olhando para a frente: - Eu fui mesmo uma egoísta idiota, uma vadia. Eu deveria ter te procurado até encontrar e conversado antes. Mas eu... sei lá... Acho que eu gostei de me sentir desejada daquele jeito. Você não ia entender...
- Acho que não...
- Só que agora eu me sinto suja. Sinto nojo de mim mesma.
O semáforo abriu. Breno engatou a marcha com raiva e o Uno seguiu. Ela prosseguiu:
- Não sei como vou continuar sem você.
- Não sei. – Ele concordou, olhando para a frente, o olhar triste: - O pior é que eu ainda te amo. Mas agora, quando eu olho pra você agora, só consigo ver aqueles dois se esfregando como dois cachorros atrás de uma cadela no cio. E isso me dói de uma forma...
Ynara começou a chorar alto, sem conseguir se controlar. Esticou a mão e tocou a coxa dele. Ele, sem ter para onde ir, acabou deixando:
- Me dá uma chance de consertar, Breno? Por favor... Eu vou ser a mulher que você merece. Eu juro pela minha vida.
Breno não respondeu. Apenas dirigiu os últimos quarteirões até a casa dos pais dela. Quando parou em frente ao portão, o motor continuou ligado. Ele não desligou. Ynara ficou parada, esperando. As lágrimas caíam no colo dela:
- Você vai me ligar? - Perguntou ela, a voz miúda.
- Vou. Quando eu conseguir olhar pra você sem ver eles.
Ela assentiu devagar. Desceu do carro e pegou sua mochila no banco de trás. Antes de Breno partir, voltou até a janela do passageiro e disse uma última vez:
- Eu te amo, Breno. De verdade. Mesmo que você nunca mais acredite em mim.
Ele não respondeu. Apenas olhou a olhou de soslaio, forçando sua atenção para a frente.
Ynara ficou parada na calçada, abraçando a mochila contra o peito, vendo o Uno se afastar devagar. Dentro do carro, Breno sentiu as primeiras lágrimas quentes descerem pelo rosto machucado. Não soluçou. Apenas deixou que caíssem enquanto dirigia para casa, sentindo que aquela história ainda não havia acabado.
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
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