(CONTINUANDO)
Eliel: Bom, ainda não pensei em algo, mas que a gente deve fazer alguma coisa a gente deve...
Kayke : Os dois pararam, vamos voltar a treinar antes que ele perceba a gente parado.
Kayke se levantou e foi para seu lugar, me levantei do banco e fui caminhando com dores até um dos aparelhos com argolas pra não precisar usar meu joelho.
Assim que o treino acabou, eu resolvi criar coragem pra finalmente falar sobre meu joelho.
A competição regional estava chegando.
E honestamente? Se eu continuasse daquele jeito, uma hora minha perna simplesmente ia desistir de existir.
O corredor até a sala técnica estava silencioso naquela hora.
Só o barulho distante de equipamentos sendo guardados ecoava pelo ginásio.
A porta da sala do Sandro estava entreaberta.
Respirei fundo antes de bater.
Mas parei, porque ouvi meu nome. Ou melhor,
o nome do Murillo.
— Não, você não tá entendendo — a voz do Sandro veio abafada lá de dentro. — O garoto funciona na câmera.
Estranhei.
A outra pessoa falava alguma coisa pelo telefone, mas baixo demais pra eu entender.
Sandro soltou uma risada curta.
— Talento sozinho não vende mais. Hoje em dia você precisa de imagem.
Meu corpo ficou imóvel no corredor.
— E o Murillo tem exatamente o tipo de imagem que prende público.
Outro silêncio.
Então:
— Bonito, jovem, corpo perfeito, carisma natural…
A voz dele continuava calma.
Profissional demais.
Como se estivesse falando de um produto.
Não de uma pessoa.
— Você coloca aquele moleque em qualquer vídeo e os números sobem sozinhos.
Sandro continuou andando pela sala enquanto falava.
— O público gosta de atleta “vendável”.
Ele fez aspas no ar com os dedos.Eu conseguia ouvir pelo tom.
— E vamos ser sinceros? Metade dos patrocinadores nem entende de ginástica.
Querem alguém que fique bonito na campanha.
Tudo fazia sentido.
As gravações.
O favoritismo.
O jeito que Sandro tratava Murillo diferente.
O olhar constante.
As concessões.
Tudo.
Sandro voltou a falar:
— Ele é ouro de mídia, deve ser aproveitado até onde der.
Pausa.
Então uma risada baixa.
— Os rapazes aqui tem perfil de modelo, Brendon e Eliel são um deles, porém não vejo eles ganhando medalhas, quando você tem alguém bom e bonito, a mídia é maior! E outra, Murillo já esta com 50 mil seguidores, só essa semana apareceram 15 alunos novos por conta dele, ou seja, ele me faz ganhar dinheiro.
Me afastei da porta antes que Sandro pudesse me ver.
Meu coração ainda batia rápido demais.
A sensação era estranha. Como se eu tivesse descoberto alguma coisa que não deveria existir...DINHEIRO, MÍDIA, MÍDIA E DINHEIRO.
O corredor parecia menor agora. Mais abafado. Passei a mão no rosto tentando organizar os pensamentos, mas tudo continuava embaralhado.
Murillo.
O “favoritismo”.
A mídia.
O jeito que Sandro olhava pra ele.
De repente tudo parecia errado.
Ou talvez sempre tivesse sido.
Eu só não queria enxergar.
— Brendon?
A voz me arrancou dos pensamentos na hora.
Levantei o rosto.
Eliel vinha andando pelo corredor com a mochila jogada num ombro só e duas garrafas de água na mão.
Ele diminuiu o passo assim que me viu.
Eliel: Que cara é essa?
Eu: Nada.
Eliel estranhou imediatamente.
Eliel: Nossa, convincente demais.
Tentei rir. Não funcionou muito.
Eliel me observou por alguns segundos em silêncio. E aquilo era uma coisa perigosíssima nele: Eliel percebia, sempre percebia.
Eliel: Sandro falou alguma coisa?
Meu cérebro travou por meio segundo.
Eu: Não.
Tecnicamente não era mentira. E ainda assim pareceu.
Eliel inclinou um pouco a cabeça.
Eliel: Então por que você tá com cara de quem viu um fantasma?
Desviei o olhar imediatamente.
Eu: Só tô cansado.
Eliel ficou quieto por um instante.
Depois suspirou baixinho e me entregou uma das garrafas de água.
Eliel: Você precisa parar de achar que consegue sobreviver só na base do sofrimento e isotônico.
Aquilo arrancou uma risada pequena de mim. Finalmente uma de verdade.
Eu: Funciona às vezes.
Eliel: Seu joelho discorda.
Revirei os olhos automaticamente
Começamos a andar em direção à saída do ginásio juntos.
O céu lá fora já estava começando a escurecer, tingido naquele azul meio apagado do fim da tarde.
A rua estava movimentada. Ônibus passando. Gente saindo do trabalho. Barulho de cidade viva. E por algum motivo…aquilo ajudava.
Porque o ginásio parecia distante dali.
Menos sufocante.
Chegamos no ponto quase em silêncio.
Não um silêncio ruim. Só confortável e o ônibus chegou alguns minutos depois praticamente vazio.
Fui direto pro fundo e me joguei no banco ao lado da janela.
Eliel sentou do meu lado logo em seguida.
Meu corpo inteiro doía.
Principalmente o joelho.
Principalmente a cabeça.
O ônibus começou a andar devagar.
Passei a olhar as luzes da cidade pela janela sem realmente prestar atenção nelas.
De tão cansado que eu estava, minha cabeça começou a pesar devagar até encostar no ombro de Eliel.
Eliel não se mexeu.
Nem um pouco.
Pelo contrário.
Senti ele ajeitando levemente a própria postura só pra eu ficar mais confortável.
Fechei os olhos devagar, e acordei com Eliel me despertando, minha parada de descida estava chegando...
Eliel: Acorda Cinderela...
Eu: Nossa, apaguei...
Eliel: Lembre-se de quando chegar em casa, colocar um gele nesse seu joelho, principalmente aquela pomada que a gente ganhou semana passada...
Eu: Irei usar rsrs
Quando cheguei em casa, meu corpo inteiro parecia prestes a desligar sozinho.
A luz da cozinha estava acesa.
O cheiro de café fresco misturado com comida requentada tomou o ambiente assim que entrei.
Minha mãe apareceu primeiro.
Mãe: Olha quem resolveu voltar pra família.
Eu: Dramática.
Mãe: Eu criei você. Tenho direito.
Soltei a mochila perto da porta e imediatamente me arrependi porque precisei abaixar pra pegar de novo.
Meu joelho protestou na hora.
Meu pai tirou os olhos da televisão na mesma hora.
Pai: De novo isso?
Droga.
Tentei andar normalmente até a cozinha.
Péssima ideia.
Minha mãe cruzou os braços.
Mãe: Brendon.
Eu: Tá tudo bem.
Pai: Você tá mancando.
Eu: É só dor muscular.
Pai: Dor muscular né?!
Já conhecia aquele tom.
Minha mãe se aproximou primeiro.
Mãe: Você colocou gelo pelo menos?
Eu: Ainda não.
Mãe: Então coloca.
Pai: Ou melhor: para de insistir nisso antes que você destrua esse joelho de vez...Já pagamos uma cirurgia pra você nesse mesmo joelho...
O silêncio veio instantaneamente.
Porque aquilo também não era novidade.
Meu pai nunca tinha odiado a ginástica. Mas também nunca tinha entendido.
Pai: Você é inteligente, Brendon. Pode fazer faculdade. Pode trabalhar com outra coisa. Pode ter uma vida menos desgastante.
Ele passou a mão no rosto.
Pai: Parece que esse esporte tá arrancando pedaços seus toda semana.
Porque uma parte de mim sabia que ele talvez tivesse razão.
Mas outra parte…
outra parte ainda amava o ginásio, mesmo quando odiava tudo nele.
Minha mãe percebeu que eu estava ficando quieto demais e encostou de leve no meu braço.
Mãe: Vai tomar banho. Depois coloca gelo nisso.
Assenti devagar.
Antes de subir pro quarto, meu pai ainda falou mais baixo:
Pai: Eu só não quero ver você desperdiçando sua vida por gente que te vê como substituível...Pelo pouco que eu vi, você não é o destaque de lá...E seu treinador não está nen ae pra você!
Meu peito apertou na hora.
Porque sem ele saber…
aquilo tinha acertado exatamente onde doía.
No outro dia, acordar pareceu violência física.
Meu joelho reclamou no segundo em que encostei o pé no chão. Fiquei alguns segundos sentado na cama encarando o vazio e questionando sinceramente todas as escolhas que tinham me levado até ali.
Ainda estava escuro lá fora.
O despertador marcava 4:37 da manhã.
Perfeito. Horrível.
Me arrumei devagar, tentando ignorar a dor na perna enquanto prendia o cabelo e colocava a roupa de treino.
O espelho do quarto devolveu uma versão minha claramente cansada.
Olheiras. Sono acumulado. E uma expressão de quem provavelmente precisava de terapia e férias. Talvez as duas coisas.
Saí de casa ainda mastigando uma barra de cereal pela metade.
A cidade estava naquele estado estranho entre madrugada e manhã. Poucos carros. Padarias abrindo. Luzes acesas nas janelas dos prédios.
E foi justamente perto da esquina da padaria que ouvi alguém gritando meu nome.
— BRENDON!
Virei o rosto imediatamente.
Dayana vinha atravessando a rua segurando um copo gigante de café enquanto tentava ajeitar a própria bolsa no ombro.
E sinceramente?
Dayana tinha o direito de ser considerada a super gostosa.
O cabelo castanho-escuro caía em ondas bagunçadas pelas costas, a pele bronzeada parecia perfeita até naquele horário criminoso e o corpo lembrava modelo fitness de propaganda cara...Mais uma para o Sandro tentar tirar algo...
A calça legging preta marcava pernas absurdamente torneadas, o moletom oversized claro escorregava levemente de um dos ombros e o tênis branco parecia recém tirado da caixa.
Até descabelada ela parecia produzida.
Dayana: Meu Deus, você tá com uma cara TERRÍVEL.
Eu: Obrigado por me lembrar...
Ela me entregou um café sem nem perguntar.
Dayana: Trouxe um extra porque imaginei que você estaria parecendo um cadáver funcional.
Eu: Isso foi estranhamente fofo.
Dayana: Não acostuma.
Começamos a andar juntos em direção ao ponto.
Dayana tomou um gole do café antes de me olhar de lado.
Dayana: Então… ouvi dizer que você tá treinando lesionado igual um imbecil.
Eu: Como você sabe?
Dayana: Que você é um imbecil? Não descobri agora hahaha...Brincadeira, o Eliel me contou.
Eu: Ah, quem poderia ser....
Dayana: Ele é preocupado com você, até demais!
Eu: É eu sei...
Dayana: Mas falando sério… cuidado com esse joelho.
A voz dela ficou menos brincalhona por um segundo.
Dayana: Regional tá perto.
Eu: Obrigado pelo incentivo.
Dayana: Disponha.
Chegamos de frente para o ginásio e meu semblante caiu um pouco...
Dayana: Pronta pra mais um dia sendo humilhada emocionalmente pelo Sandro.
Eu: Você fala como se tivesse escolha.
Dayana: Não tenho.
Empurramos a porta do ginásio juntos.
E imediatamente o cheiro familiar de magnésio, suor e café ruim atingiu meu cérebro.
Casa, infelizmente.
Assim que entramos na área principal do ginásio, o som de música baixa e gente aquecendo já preenchia o ambiente.
E claro, as Ervas Venenosas já estavam ali.
Talita e Juliana ocupavam dois colchonetes perto do espelho, Juliana estava fazendo uma massagem em Talita...
As duas levantaram os olhos quase ao mesmo tempo quando eu e Dayana nos aproximamos.
E imediatamente sorriram.
Talita: Olha só quem resolveu voltar...
Dayana: Vocês falam como se eu tivesse morrido.
Juliana: Não morreu. Só abandonou a equipe...
Dayana colocou a mão no peito dramaticamente.
Dayana: Nossa. Me fez sentir uma pessoa importante agora!
Talita deixou os olhos passarem por mim lentamente antes de sorrir de canto.
Talita: E o Brendon continua com cara de quem sofreu uma tragédia pessoal antes das sete da manhã.
Eu: Eu acordei às quatro. Isso ja é uma tragédia pessoal.
Juliana soltou uma risada curta.
Juliana: Ele tá ainda mais acabado hoje.
Dayana: Isso acontece quando a pessoa pratica o hobby favorito dela: treinar lesionado e tomar decisões ruins.
Eu: Ah, esse assunto rendendo novamente...
Talita inclinou um pouco a cabeça enquanto me observava.
Talita: Sandro vai adorar isso, saber que você está lesionado!
Juliana: E por falar em Sandro...Vocês vão adorar o que tenho pra contar!
Dayana: Fala que eu te escuto
Juliana: Uma rede de TV vem hoje gravar matéria do Murillo.
Talita: O príncipe olímpico do ginásio, o preferido, o escolhido, o único, o the best!
Eu: Vocês exageram também...Ele é talentoso, merece!
Juliana olhou diretamente pra mim.
Juliana: Brendon defendendo Murillo agora?
Talita: Isso tá ficando suspeito já.
Dayana virou pra mim imediatamente com um sorriso enorme.
Eu: Meu Deus, vocês são insuportáveis.
Talita começou a rir.
Talita: Relaxa. Se eu tivesse um ginasta gostoso fazendo mortal em câmera lenta num prédio eu também defenderia.
Juliana: É, imagina ele mais o Brendon no quarto?
Talita: Brendon deve babar horrores!...
( OBS: Murillo tem um vídeo viral no topo de um prédio fazendo manobras de ginástica)
Eu: TALITA.
Juliana: Ela mentiu?
Dayana estava quase morrendo de rir do meu lado.
Eu: Vocês precisam urgentemente se tratar.
Talita: E você precisa urgentemente aceitar que tem bom gosto...Se ele não fosse gay eu pegaria!
Antes que eu pudesse responder, Dayana cruzou os braços olhando pras duas.
Dayana: Engraçado vocês falarem tanto do Murillo sendo que metade do ginásio acha que o Sandro adotaria ele legalmente se pudesse.
Juliana soltou um “opa” baixo imediatamente.
Talita sorriu lentamente.
Talita: Mentira?
Dayana: Se o Murillo espirra, o Sandro entrega um patrocínio da Nike!
Eu quase engasguei tentando segurar a risada.
Juliana olhou em volta como se tivesse fazendo uma cena teatral
Juliana: Cuidado. Daqui a pouco ele aparece atrás da gente igual entidade maligna.
Talita abaixou a voz falsamente séria:
Talita: “POSTURA, JULIANA.”
Dayana entrou na brincadeira na hora:
Dayana: “VOCÊS QUEREM IR PRO CAMPEONATO REGIONAL ASSIM?”
Eu comecei a rir junto sem conseguir evitar.
E honestamente? Pela primeira vez em dias…
o ginásio parecia leve de novo.
Fui direto pro vestiário masculino antes que Sandro resolvesse aparecer e transformar a manhã de alguém em trauma psicológico.
O lugar estava vazio.
Ou quase. Assim que empurrei a porta, ouvi o som contínuo de um chuveiro ligado no fundo do ambiente.
Vapor quente pairava no ar, deixando tudo meio abafado.
Soltei a mochila no banco devagar e sentei logo em seguida.
Meu joelho latejou imediatamente.
Forte.
Soltei o ar pelo nariz enquanto puxava a barra da calça de treino um pouco pra cima.
A região estava mais inchada do que ontem.
Apoiei os cotovelos nas pernas e comecei a pressionar o músculo ao redor do joelho devagar, tentando aliviar a tensão.
O chuveiro desligou no fundo do vestiário.
Nem dei atenção no começo, continuei massageando a própria perna até ouvir passos se aproximando.
— Isso tá bem feio.
Levantei o rosto na hora.
Murillo.
Ele vinha saindo da área dos chuveiros enrolado numa toalha branca presa na cintura, o cabelo cacheado ainda molhado pingando levemente na nuca.
E sinceramente?
Aquilo devia ser proibido às seis da manhã.
Meu cérebro falhou por um segundo completamente desnecessário.
Eu: Você aparece silenciosamente igual espírito maligno.
Murillo soltou uma risada baixa.
Ele caminhou até o banco na minha frente calmamente.
Mesmo relaxado daquele jeito, Murillo ainda tinha presença demais.
Murillo observou minha perna por alguns segundos antes de suspirar.
Murillo: Posso?
Nem esperei direito antes dele já se abaixar na minha frente.
Meu cérebro travou de novo.
Ele apoiou uma das mãos na minha canela cuidadosamente e puxou minha perna um pouco pra frente.
Murillo tinha mãos quentes.
Descoberta perigosíssima.
Murillo: Relaxa a perna.
Eu: Você fala isso como se fosse fácil.
Murillo: Você tá todo tensionado.
Ele pressionou levemente perto do joelho.
A dor veio forte.
Eu: Ai, caralho
Murillo: Exatamente.
Ele começou a massagear os músculos ao redor da articulação devagar, usando os polegares com firmeza suficiente pra doer e aliviar ao mesmo tempo.
E honestamente?
Funcionava.
Muito.
Soltei o ar lentamente sem perceber.
Murillo percebeu na hora e abriu um sorriso pequeno de canto.
Murillo: Você devia usar suporte.
Eu: Tipo?
Murillo: Tipo parar de fingir que seu corpo é indestrutível.
Aquilo me arrancou uma risada curta.
Então Murillo levantou devagar e caminhou até o próprio armário.
Começou a procurar alguma coisa ali dentro antes de tirar uma joelheira ortopédica preta.
Não parecia nova, parecia usada há bastante tempo.
Murillo voltou e jogou ela no meu colo.
Murillo: Usa isso.
Pisquei algumas vezes olhando pra joelheira.
Eu: Você usa?
Murillo tirou vários equipamentos do armário.
Murillo: Uso tudo isso, só não perceberam ainda por conta da roupa de treino kk
Eu literalmente nunca tinha notado.
Murillo: Meus dois joelhos são meio destruídos.
A frase saiu leve. Mas cansada.
Meu peito apertou um pouco sem querer.
Eu: E você ainda faz aquelas manobras absurdas?
Murillo: Ginasta é meio doente da cabeça.
Eu: Isso explica muita coisa.
Murillo sorriu de canto outra vez antes de se abaixar novamente na minha frente.
Ele ajustou a joelheira na minha perna com calma, os dedos deslizando cuidadosamente pela lateral do meu joelho.
Meu cérebro simplesmente decidiu parar de funcionar direito.
Murillo: Vai ajudar na estabilidade.
Eu: Valeu.
Murillo levantou os olhos pra mim.
Murillo: Mas esconde isso do Sandro.
Eu: Por quê?
Murillo soltou o ar devagar antes de responder.
Murillo: Porque na cabeça dele atleta lesionado é atleta fraco.
Aquilo bateu diferente depois da ligação que ouvi ontem, muito diferente.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, a porta do vestiário abriu.
Eliel.
Ele entrou distraído mexendo na mochila… até os olhos baterem na cena.
Minha perna apoiada no colo do Murillo.
Murillo ajoelhado na minha frente.
As mãos dele ainda ajustando a joelheira.
Eliel parou de andar por meio segundo.
Murillo: O joelho dele está todo ferrado...
Eliel: Percebi
Murillo: Bom dia...
Eliel: Uhum.
Meu Deus.
O clima ficou estranho tão rápido que dava quase pra tocar.
Murillo me lançou um olhar curto como se também tivesse percebido.
Claro que percebeu.
Eliel começou a trocar de camisa em silêncio, claramente tentando agir normal.
( CONTINUA )