O silêncio ficou estranho por alguns segundos.
Murillo se levantou devagar depois de terminar de ajustar a joelheira.
Murillo: Pronto. Deve ajudar um pouco.
Eu: Valeu.
Murillo: Só tenta não destruir o outro joelho também.
Eu: Assim espero.
Murillo soltou uma risada baixa.
Atrás de nós, Eliel fechou o armário.
Eliel: Se ele tivesse juízo, ele estaria em casa descansando...
Murillo deu uma risadinha e foi terminando de se arrumar
De repente um grito do lado de fora dos vestiários:
Sandro: TODO MUNDO NO CENTRO DO GINÁSIO. AGORA.
Murillo: Lá vem problema.
Eliel: Com ele, sempre vem.
Peguei minha mochila e me levantei.
Meu joelho ainda doía , mas naquele momento eu tinha a sensação de que aquilo seria o menor dos problemas daquele dia.
O ginásio inteiro começou a se mover em direção ao centro.
Ninguém gostava quando Sandro gritava daquele jeito.
Normalmente significava cobrança.
Ou sofrimento.
Às vezes os dois.
Saí do vestiário junto com Eliel e Murillo. O clima estranho entre eles ainda estava ali, mas os dois pareciam focados demais no chamado para continuar qualquer coisa.
Quando chegamos ao centro do ginásio, praticamente todo mundo já estava reunido.
Dayana estava sentada em um colchão.
Paulo mexia no celular.
Talita e Juliana cochichavam alguma coisa que provavelmente colocaria alguém em problemas.
Então a porta principal abriu.
E Sandro entrou.
Mas não estava sozinho.
Atrás dele vinham três pessoas carregando câmeras.
Uma mulher segurava um microfone.
Um rapaz carregava iluminação portátil.
E outro já filmava o ambiente.
O ginásio inteiro ficou em silêncio.
Paulo: Ih...
Dayana: Lá vem.
Juliana: Eu odeio quando aparece gente de televisão.
Talita: Eu adoro. Fico dez por cento mais bonita automaticamente.
Dayana: Você já se acha bonita sem câmera.
Talita: Porque eu sou.
Dayana: Justo.
Sandro bateu palmas uma vez.
Todo mundo calou.
Sandro: Atenção.
A voz dele atravessou o ginásio inteiro.
Sandro: Hoje teremos uma equipe acompanhando os treinos.
Os olhos de quase todo mundo foram automaticamente para Murillo.
Murillo percebeu.
E imediatamente pareceu querer desaparecer.
Paulo: Coitado.
Eu: Do Murillo?
Paulo: Não. Do cameraman que vai ter que aguentar o Sandro babando nele o dia inteiro.
Dayana quase engasgou tentando segurar a risada.
Até Murillo abaixou a cabeça escondendo um sorriso.
Sandro continuou.
Sandro: Além da reportagem, vamos realizar uma competição interna.
O ginásio ficou sério na hora.
Sandro: Individual.
Sandro: Eliminatória.
Sandro: E o desempenho de hoje será considerado para futuras convocações.
Pronto.
O silêncio ficou pesado.
Porque todos entenderam a mensagem. O REGIONAL ESTÁ CHEGANDO.
Kayke: Ferrou...
Juliana: Eu odeio competição interna.
Talita: Eu odeio perder.
Paulo: Então hoje vai ser difícil.
Talita: Paulo.
Paulo: Sim?
Talita: Morra.
Sandro ignorou completamente.
Sandro: Dez minutos para aquecimento.
Sandro: Depois começamos.
Ele virou as costas.
A equipe de TV foi atrás dele.
E pela primeira vez naquela manhã...
Meu joelho deixou de ser a coisa que mais me preocupava.
Os minutos de aquecimento passaram rápido demais.
A equipe de TV já estava espalhada pelo ginásio.
Uma câmera acompanhava Sandro.
Outra seguia os atletas.
E, para desespero de Murillo, uma terceira parecia ter sido criada especificamente para persegui-lo.
Todos estavam alinhados próximos ao primeiro aparelho.
O desafio era simples.
Na teoria.
Na prática, qualquer erro significava eliminação
Sandro: Um por vez.
Sandro: Caiu, errou execução ou perder ponto demais...
Sandro: Tá fora.
O silêncio tomou conta do ginásio.
Até Talita parecia nervosa.
O primeiro a se apresentar foi Kayke.
O pobre coitado parecia que ia desmaiar antes mesmo de começar.
Paulo: Respira, irmão.
Kayke: Eu tô respirando...
Paulo: Não parece.
Kayke lançou um olhar desesperado para ele antes de entrar na área.
A sequência começou bem.
Corrida.
Impulso.
Um mortal carpado limpo.
Depois um flic-flac.
Até que veio o Tsukahara.
O apoio da mão saiu torto.
O corpo girou desalinhado.
A aterrissagem foi um desastre.
Kayke caiu sentado no colchão.
Silêncio.
Sandro: Eliminado.
Kayke fechou os olhos imediatamente.
Kayke: Eu sabia...
Dayana: Você foi bem.
Kayke: Eu caí.
Dayana: Mas caiu tentando, isso que importa!
Kayke pareceu considerar aquilo.
Kayke: Obrigado.
A próxima foi Talita.
Ela entrou cheia de confiança.
Até demais.
Talita: Aprendam.
Juliana: Meu Deus.
A sequência foi ótima.
Até o final.
No último giro ela exagerou na força.
Perdeu o equilíbrio.
Precisou colocar a mão no chão.
A câmera registrou exatamente o momento.
Sandro: Eliminada.
Talita: Isso foi uma perseguição pessoal.
Sandro: Foi erro técnico.
Talita: Discordo.
Sandro: Ninguém perguntou.
Dayana foi a terceira.
E honestamente?
Foi uma das melhores apresentações até então.
Elegante.
Segura.
Bonita de assistir.
Mas no final da série, durante uma aterrissagem, deu um pequeno passo para trás.
Pequeno.
Minúsculo.
Mas suficiente.
Sandro: Eliminada
Dayana: Ah, vai tomar no—
Ela parou no meio da frase ao perceber a câmera apontada para ela.
Dayana: ...tomar cuidado com esses critérios.
Paulo: Covarde.
Dayana: Eu vi a câmera.
Juliana veio logo depois.
Tentou manter a calma.
Não conseguiu.
Durante uma sequência simples de ligação entre elementos, hesitou.
Pequena pausa.
Ponto perdido.
Eliminação.
Juliana: Ótimo.
Talita: Bem-vinda ao clube.
Juliana: Eu odeio esse clube.
A próxima eliminação foi a de Paulo.
A apresentação dele nem foi ruim.
Na verdade, foi boa.
Mas boa não era suficiente naquele dia.
Um erro pequeno na aterrissagem custou pontos demais.
Sandro: Eliminado.
O ginásio ficou mais silencioso depois da eliminação de Paulo.
As risadas desapareceram aos poucos.
Agora só restavam três.
Eu, Murillo e Eliel.
Até a equipe de TV pareceu perceber que o clima tinha mudado.
A câmera principal se aproximou.
Sandro observava tudo de braços cruzados.
Os olhos dele foram primeiro para Murillo.
Depois para Eliel.
E por algum motivo aquilo me deixou desconfortável.
Porque o olhar dele parecia diferente.
Mais pesado.
Mais pessoal.
Sandro: Vamos ver então.
Eliel olhou para Sandro.
Sandro: Todo mundo fala do Murillo.
O ginásio ficou em silêncio.
Sandro: Mas você gosta de agir como se estivesse no mesmo nível dele.
Aquilo fez alguns atletas se entreolharem.
Murillo imediatamente desviou o olhar.
Até ele parecia desconfortável.
Eliel permaneceu parado.
Sandro continuou.
Sandro: Então me mostra, porque até agora eu só vi você reclamar!
Silêncio.
Pesado.
Eliel respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Depois caminhou até a área de apresentação.
O ginásio inteiro observava.
Ele começou.
Corrida.
Impulso.
Um mortal grupado perfeito.
A aterrissagem veio limpa.
Sem um único ajuste.
Depois um flic-flac.
Outro.
Ligação direta.
Velocidade absurda.
Controle absurdo.
Tudo encaixando.
Tudo limpo.
Tudo preciso.
Até Sandro parecia mais atento agora.
A sequência continuou.
Um mortal estendido.
Um giro.
Outro giro.
E então a última passagem.
Eliel acelerou.
Impulsionou.
Girou no ar.
E aterrissou perfeitamente.
Perfeitamente.
Nenhum passo.
Nenhuma oscilação.
Nada.
Silêncio.
Um segundo inteiro de silêncio.
Até que...
Dayana: CARALHO!
O ginásio explodiu.
Paulo quase caiu do banco.
Paulo: EU SABIA!
Kayke levantou dos colchões.
Kayke: Meu Deus...
Juliana levou as mãos à cabeça.
Juliana: Isso foi ridículo.
Talita: Eu odeio quando ele resolve humilhar todo mundo.
Até alguns membros da equipe de TV começaram a comentar entre si.
A câmera não saiu de Eliel nem por um segundo.
Ele apenas respirava.
Como se não tivesse acabado de fazer a melhor apresentação da manhã.
Meu coração estava acelerado.
Porque eu treinava com ele há anos.
E mesmo assim...
Aquilo tinha sido absurdo.
Murillo observava em silêncio.
E talvez pela primeira vez naquele dia...
Sandro ficou sem palavras.
Eliel virou na direção dele.
Eliel: Foi suficiente?
O ginásio inteiro ficou em silêncio de novo.
Esperando a resposta.
Sandro: Proximo, Brendon!
Sandro não elogiou Eliel, apenas me chamou, fiquei com bastante medo e se pudesse fugir dali eu faria isso.
Lentamente me levantei.
Meu joelho já estava doendo antes mesmo de começar.
E agora parecia pior.
Passei por Eliel.
Ele percebeu na hora.
Eliel: Não força.
Murillo também me encarou.
Murillo: Se sentir que não dá, para.
Eu apenas assenti.
Entrei na área.
A equipe de TV apontou uma câmera para mim.
O primeiro impulso já saiu estranho.
A dor veio no exato momento em que meu pé tocou o solo.
Meu corpo hesitou.
A primeira aterrissagem saiu torta.
Pequeno erro.
Mas já era um erro.
Continuei.
Flic-flac.
Mortal grupado.
Quase perdi o equilíbrio.
Recuperei por muito pouco.
O ginásio inteiro percebeu.
A sequência seguinte foi pior.
Muito pior.
Meu joelho falhou durante a impulsão.
A altura desapareceu.
A rotação saiu incompleta.
A aterrissagem foi pesada.
Feia.
Dolorosa.
Ouvi algumas risadas...
Continuei mesmo assim.
Porque desistir seria pior.
Mais alguns passos.
Mais uma tentativa.
Mais um erro.
A essa altura eu já sabia.
Aquilo tinha virado a pior apresentação do dia.
De longe.
Quando terminei, o silêncio foi constrangedor.
Ninguém sabia o que dizer.
Nem eu.
Sandro caminhou na minha direção.
Furioso.
Dava para perceber.
A cada passo dele, eu já imaginava o pior
Sandro: O que foi isso?
A pergunta saiu seca.
Eu abaixei a cabeça.
Sandro: Me responde.
Eu: Eu...
Sandro: Você esqueceu como faz ginástica?
O silêncio tomou conta do ginásio.
Sandro: Porque foi exatamente isso que pareceu.
Antes que eu conseguisse responder, uma voz surgiu atrás dele.
Murillo: O joelho dele tá machucado.
Todo mundo ficou em silêncio.
Sandro virou lentamente o rosto na direção de Murillo.
Sandro: Como é?
Murillo se levantou.
Murillo: O joelho dele tá ruim desde ontem.
Os olhos de Sandro voltaram para mim.
Sandro: Isso é verdade?
Tentei responder.
Mas no momento em que apoiei o peso na perna, a dor veio forte.
Acabei mancando involuntariamente.
A equipe de TV registrou tudo.
A câmera aproximou imediatamente.
Sandro percebeu.
E sua expressão mudou na mesma hora.
Como se alguém tivesse apertado um botão.
Ele se aproximou e colocou uma mão em meu ombro.
Sandro: Brendon... por que você não me contou?
Eu pisquei algumas vezes.
Confuso.
Porque aquela definitivamente não era a reação que eu esperava.
Sandro: Lesões são sérias.
Sandro: Sua saúde vem primeiro.
Atrás dele, vi Paulo arregalar os olhos.
Dayana parecia prestes a rir.
Talita cobriu a boca com a mão.
Sandro continuou olhando diretamente para a câmera.
Sandro: Nenhum atleta deveria treinar lesionado.
Sandro: Aqui nós sempre priorizamos o bem-estar da equipe.
Murillo desviou o olhar.
Sandro apertou meu ombro de leve.
Sandro: Depois da competição você vem falar comigo.
Vamos cuidar disso, certo?
Eu apenas assenti.
Não porque acreditava nele.
Mas porque a câmera ainda estava gravando.
E aparentemente Sandro tinha decidido interpretar o papel de treinador perfeito.
(CONTINUA)