Capítulo 1.6 - final da temporada.
Mágoas, ressentimentos e a perda forçada da inocência.
(Carlos)
Durante o caminho, comecei a ligar os pontos — não porque eu queria, mas porque parecia impossível não fazer isso.
Minha mente não parava. Era automático, insistente, quase agressivo. Cada pensamento puxava outro, cada conclusão abria mais uma ferida, e quanto mais eu tentava organizar aquilo de forma lógica, mais tudo parecia se encaixar de um jeito errado demais pra ser ignorado.
Meu maxilar estava travado sem que eu percebesse, os dentes pressionados com força, como se eu estivesse tentando segurar alguma coisa dentro de mim… mas não adiantava. Nada adiantava.
Provavelmente, Luana tinha um relacionamento parecido com meus pais e Verônica. Mas se fosse apenas isso, por que não me falar? Não abrir o jogo? Por que eu tinha que ser usado daquela forma?
Usado.
A palavra veio sem pedir licença, e eu tentei rejeitar na hora — tentei mesmo — mas ela voltou mais forte, mais precisa.
Usado.
Tati. Tauane. Os nomes começaram a se repetir na minha cabeça, um atrás do outro, sem pausa, como se meu próprio pensamento estivesse me pressionando a encarar aquilo de frente.
Uma delas ou as duas. Talvez as duas. Talvez… talvez fosse ainda pior. Talvez Verônica também estivesse no meio.
E foi nesse ponto que eu senti o ar falhar por um segundo, como se o peito tivesse esquecido como funcionava.
Porque aquilo já não parecia mais uma suposição. Parecia um padrão. Um roteiro.
Algo que estava acontecendo sem que eu percebesse desde o começo.
Tati, Tauane ou ambas — talvez até com a própria Verônica — combinaram com Luana para ser minha namorada de mentira… só não consegui entender o porquê. E isso era o que mais me destruía. Não era só ter sido feito de idiota… era não saber nem o motivo.
Não saber o que eu era naquela história.
Um teste? Uma piada? Um passatempo?
Minha mão passou pelo rosto devagar, tentando aliviar alguma coisa que nem eu sabia explicar, mas a sensação continuava ali, presa.
Quanto mais eu tentava jogar a culpa nelas, mais uma parte de mim puxava de volta. Não deixava. Não deixava eu fugir.
De qualquer jeito, a minha inocência, a minha necessidade de atenção, afeto… essa foi a verdadeira causa do que aconteceu. E aquilo me deu um tipo de nojo… não delas, mas de mim.
Porque não era só sobre ter sido enganado. Era sobre o quanto eu quis acreditar. O quanto eu precisei daquilo. O quanto eu aceitei qualquer coisa que parecesse, mesmo que minimamente, ser real.
Engoli seco, mas não ajudou. Nada parecia descer.
Isso me fez quebrar.
Como posso ser tão fraco e otário?
A pergunta veio carregada, pesada… mas o pior foi a resposta que veio logo depois, sem esforço nenhum: porque eu quis. Porque eu precisei. Porque foi confortável acreditar, mesmo quando, no fundo, alguma coisa eu já devia saber.
Algumas pessoas nascem para serem pisadas, humilhadas. No fundo eu mereço, por que eu não fiz nada. Apenas aceitei, apenas fui conivente. Fui o tipo de pessoa que sempre fui, que talvez nasci para ser. Um lixo, alguém sem valor…pequeno, frágil, insignificante.
O carro continuava andando, mas parecia rápido demais. Eu precisava de mais tempo. Mais alguns minutos pra tentar juntar os pedaços antes de chegar lá. Porque do jeito que eu estava… eu já sabia que não dava. Eu não estava pronto. Não estava inteiro. E isso só piorava quando o pensamento seguinte vinha.
Verônica.
Só o nome já mudou tudo dentro de mim.
O que eu ia fazer? Como eu ia agir? O que eu ia dizer olhando pra ela sem parecer exatamente o que eu estava me sentindo agora?
Vou chegar na casa de Verônica e falar o quê? Mostrar fraqueza? Me humilhar?
A imagem veio pronta: eu parado na frente dela, travado, sem conseguir sustentar o olhar, sentindo ela me ler inteiro, desmontando qualquer tentativa minha de parecer no controle. E isso apertou meu peito de um jeito que fez minha respiração falhar de novo, mais curta, mais pesada.
Não.
Não, não dava.
A reação veio quase bruta, como se eu precisasse cortar aquilo antes que piorasse.
Não…Serei o dono da minha vida como tio Teixeira me alertou diversas vezes.
A frase apareceu forte na minha cabeça, firme… mas, dessa vez, diferente. Não veio como certeza. Veio como esforço. Como algo que eu estava tentando segurar, não algo que realmente já fosse meu.
Sem vitimismo. Sem drama.
Repeti internamente, uma vez… duas… três.
Como se aquilo fosse suficiente. Como se repetir fosse o mesmo que sentir. Mas não era. Porque, enquanto eu dizia isso pra mim mesmo, meu corpo continuava tenso, minha cabeça continuava girando, e aquela sensação de estar sendo pequeno não ia embora.
Eu não estava no controle. Eu só estava tentando parecer que estava.
E, mesmo assim, eu precisava chegar lá como se estivesse.
Por alguns segundos, eu até consegui sustentar essa ideia. Consegui imaginar uma versão minha mais firme, mais fria, mais distante de tudo aquilo.
Uma versão que não se abalaria, que não deixaria espaço pra ninguém entrar… que não se deixaria levar de novo.
Mas aquilo não durou.
Porque no fundo, bem no fundo, eu sabia que bastava um olhar errado, uma palavra atravessada… pra tudo desmoronar de novo.
……..
(Tauane)
O amanhecer naquela merda de casa tinha sido horrível — não daquele tipo comum de manhã pesada, mas de um jeito que parecia que o ar ainda estava contaminado pelo que tinha acontecido na noite anterior, como se nada ali tivesse realmente terminado.
Luana e o namorado já tinham ido embora, cedo demais, silenciosos demais… como se fugir fosse parte do plano desde o começo.
Hugo deu uma desculpa qualquer e também se mandou, sem nem tentar sustentar presença, sem olhar pra trás. Único problema é que viemos com o carro do filho da puta.
Aquilo por si só já me irritava de um jeito desproporcional, como se fosse mais uma prova de que eu tinha perdido o controle de tudo, até das coisas mais básicas.
Que dedo para escolha de homem eu tenho. Puta que pariu.
A frase veio automática, ácida, mas não aliviou nada.
Era só mais uma forma de desviar do que realmente importava.
Nunca mais vi o idiota, graças a Deus — e mesmo assim aquilo não trazia paz nenhuma, porque o problema nunca foi só ele.
Na mesa do café, o silêncio era estranho, pesado, como se qualquer som pudesse quebrar alguma coisa que já estava no limite.
Tati me olhava com os olhos avermelhados, fundos, cansados… um rosto que denunciava uma noite inteira sem descanso. As olheiras estavam ali, evidentes, mas no caso dela os motivos foram o que causaram tudo isso — e isso tornava tudo ainda mais difícil de ignorar.
— Tau… eu acho que o Carlos… ele ouviu quando o namorado da Luana falou algo do tipo: “estava com saudades de mim” e também “você se comportou?? Deixou o nerd apenas na vontade como mandei?”
As palavras bateram em mim com força. Não pelo conteúdo em si — que já era suficiente — mas pela confirmação. Pelo peso de saber que aquilo não tinha ficado escondido.
Não consegui disfarçar o ódio que estava sentindo. Dela, deles… mas principalmente de mim mesma. Era isso que mais incomodava. Era isso que mais doía.
Não quis papo num primeiro momento. Não tinha espaço dentro de mim pra isso. Respirei fundo e me levantei, deixando ela no silêncio — não como punição, mas como defesa. Se eu abrisse a boca naquele momento, ia piorar.
Tati pareceu não se importar. Ou talvez estivesse desesperada demais pra respeitar aquilo. Tentou mais uma vez.
— Tau… podemos conversar?
Tati falou, parando na minha frente. A voz baixa, contida, quase como se tivesse medo de ser ouvida… até por mim.
Ela não conseguia parar de apertar as próprias mãos, os dedos se entrelaçando, se pressionando com força, como se aquilo fosse a única coisa mantendo ela inteira. O corpo inteiro tenso, rígido, travado — e aquilo me irritava mais do que deveria, porque deixava tudo mais real.
— Não sei se quero conversar agora. Vamos esperar a mamãe chegar.
Respondi quase no automático. Firme. Direta. Sem dar espaço. Sem dar abertura.
Como se aquela resposta já estivesse pronta antes mesmo dela falar, como se eu já soubesse que esse momento viria… e quisesse evitar a qualquer custo.
Ela ficou ali. Parada. Me olhando.
Segundos que se esticaram, desconfortáveis demais.
Então ela se aproximou devagar, com cuidado, como quem se aproxima de algo que pode quebrar ou explodir a qualquer momento. Pegou na minha mão.
— Por favor. Olha pra mim.
O toque dela me atravessou de um jeito ruim. Não foi carinho. Foi incômodo. Foi invasivo. Arranquei minha mão de volta, de forma brusca, mais forte do que precisava.
Puxei o ar fundo, tentando segurar o que já subia pelo peito, mas quando olhei pra ela… acabou.
— Eu não acredito que você fez isso com ele. Além de ficar a semana inteira ignorando o que ele sentia, você ainda trouxe o namorado dela…
As palavras saíram carregadas, mais pesadas do que eu tinha planejado — e talvez mais honestas também.
Ela reagiu na hora.
Travou. Hesitou. Desviou o olhar por um segundo — e aquilo já dizia tudo.
— Eu… eu… ela prometeu que o Carlos já tinha praticamente terminado com ela. Ele não falava nada, parecia que ele queria apenas ficar perto de você.
Aquilo me irritou — não pela justificativa, mas pela tentativa de justificar. Pela necessidade de aliviar o próprio peso jogando a responsabilidade em outro lugar.
— Não!! Não me venha com esse papinho. Eu não sou idiota, e a mamãe muito menos.
Minha voz saiu mais alta, mais dura, cortando o ar entre a gente.
Ela se aproximou de novo, com mais cuidado ainda, como se agora estivesse lidando com algo realmente perigoso. Me puxou pra sentar com ela no sofá.
— Por favor. Eu vou falar tudo. Juro.
E tinha algo ali… algo diferente. Não era só medo. Era urgência. Era necessidade de ser ouvida antes que fosse tarde.
Eu sentei.
Mais por curiosidade… ou talvez porque, no fundo, eu já sabia que aquilo precisava acontecer.
Fiquei esperando. Ela demorou.
Os olhos inquietos, o corpo inquieto, a respiração curta — como se cada palavra custasse mais do que deveria.
E eu conhecia minha irmã. Conhecia o suficiente pra saber que aquilo ali não era atuação. Ela estava sofrendo. De verdade.
Respirei fundo. Soltei o ar devagar. Relaxei um pouco a expressão, mesmo sem querer realmente fazer isso.
Peguei na mão dela — dessa vez sem afastar.
— Pode falar. Seja o que for que aconteceu, vou estar com você. Só não tente mentir pra mim, por favor.
Ela se agarrou ao meu braço na hora, como se aquilo fosse o mínimo que ela precisava pra continuar.
— Quando eu falei com você em aproximar a Luana e o Carlos, eu juro que foi a melhor das intenções.
A voz saiu baixa, envergonhada.
— Ela me chamou de canto um dia e disse que achava ele bonito. Pediu pra eu apresentar. Eu mal conhecia ela, mas sabia que você a conhecia, por causa do time de vôlei.
Eu respirei mais fundo. Lento. Pesado.
Talvez ali tivesse sido o começo de tudo.
— Eu sabia que os meninos estavam pegando no pé dele. Aquelas brincadeiras não paravam de aumentar. Se outra menina começasse a falar com ele, o ciúme do Antônio e tudo aquilo pelo menos diminuiria.
Não consegui segurar.
— Você sabia do namorado dela?? Quando você soube?
Ela travou. Um segundo inteiro. Um silêncio que pesou mais do que qualquer resposta.
— Naquele momento, não! Na verdade, eu só soube do namoro dela porque ouvi as meninas comentando…
Ela puxou o ar, se preparando.
— Antes disso, ela começou a ficar mais próxima… começou a me elogiar, a me mostrar fotos sensuais, a pedir também essas fotos…
Ela foi falando, e o desconforto foi crescendo. O ambiente parecia menor. Mais apertado.
— Teve um dia que ela me abraçou um pouco mais forte… foi aí que comecei a perceber… ficava molhada lá embaixo quando a gente ficava juntas. Começamos a sair mais, fazer compras, trocar de roupa na frente uma da outra…a voz dela no meu ouvido, o modo como ela me olhava.
Ela parou. O silêncio veio carregado. O rosto vermelho, a vergonha evidente.
— Ela me explicou que um menino como Carlos tinha que desejar… tinha que implorar. Ela nunca chegou perto de fazer sexo com ele, falava que dava a desculpa da virgindade.
A voz começou a falhar.
— Eu sei que isso não era legal. Mas eu lembrei de você e do Antônio. Lembrei que mamãe falava que amava o papai mas que não conseguia ter um prazer completo só com ele. Eu…eu achei que isso era o normal. Eu não pensei que fosse fazer mal para ele, juro.
Aquilo apertou meu peito de um jeito estranho.
Interrompi.
— Tati, olha pra mim.
Ela levantou o rosto devagar.
— O que ela fez com ele, seja com você, seja com o namorado, não é igual ao que aconteceu comigo e o Antônio. E muito menos entre o papai e a mamãe.
Me aproximei mais. Abracei. Segurei.
— Você enganar uma pessoa… você fazer coisas sem a outra saber… não é normal. Não é legal.
Ela desabou.
— Eu sei…no fundo eu sabia. Isso nunca tinha acontecido, apesar de tudo que eu sentia. Nunca passamos de beijos e carícias até a viagem. Quando entramos no quarto naquele dia, ela me puxou e já me beijou. Ela colocou minha mão dentro da bermuda dela. Dentro da calcinha mostrando o quanto estava encharcada. Ela me falou que pensou em mim a viagem toda. Os beijos continuaram. Quando eu vi a gente estava na cama. Ela foi com a boca lá…eu…eu…nunca senti o que senti.
O choro veio forte.
Sem controle.
— No banho, eu falei sobre o Carlos. Ela me disse que o namorado iria pra praia. Que o Carlos provavelmente não iria continuar o namoro.
Minha cabeça travou em outro ponto.
— Me conta direito sobre esse namorado. Eu nunca entendi essa história.
Ela desviou o olhar.
Pensou.
— Eu ouvi as meninas comentarem com ela, rindo. Eu continuei na rodinha mas não entendi nada. Depois ela me chamou para conversar. Disse que tinha um namorado e que começou a sair com o Carlos por causa de uma aposta com uns meninos da turma dela. Aposta era que ela não conseguiria segurar ele por um ano todo sem transar com ele.
Aquilo me deu um nó.
Uma raiva forte subiu.
— Ela me falou isso me beijando. Me fazendo carinho, me fazendo esquecer de como isso era grave. Eu não consegui reagi. Eu acho que me apaixonei. Eu não sei…eu nunca senti isso…eu só sei que eu sempre pensava motivos para acreditar que aquilo não era nada demais. Eu nunca achei que o namorado dela fosse aparecer. Ele estava viajando, num intercâmbio.
Ela parou.
Me olhou. Dessa vez mais firme.
— Na verdade, eu comecei a sentir até ciúmes dela com o Carlos…a desejar…a gente se beijava, tocava no corpo uma da outra, mas ficava apenas nisso. Quando finalmente aconteceu quando chegamos. Eu não consegui pensar no Carlos. Não consegui e não queria parar.
Ela me puxou.
Me abraçou mais forte.
— Eu sabia que era errado. Eu falei com você sobre o namorado dela. Não falei sobre esse negócio de aposta e nem sobre como ela estava deixando ele na vontade, mas…eu falei com você. Quando vi que você não falou nada, eu…eu…
— Pode parar! Eu falei que isso era errado. Eu falei que ela não estava sendo legal com ele. Eu não falei com ele por que…por que, por que…
Eu não consegui continuar.
A dor veio de uma vez.
Pesada.
Sufocante.
Minha respiração falhou. O corpo cedeu. A pressão caiu.
Se eu estivesse em pé, teria caído.
Ela percebeu na hora. Me abraçou forte.
Muito forte.
E ficamos assim.
Tempo suficiente para o silêncio dizer tudo que a gente não conseguia.
Até que a conversa voltou. Mais leve.
— Sabe…eu gostei de sentir um menino também. Doeu, mas eu gostei.
Eu ainda estava tentando me recompor.
— Foi com aquele amigo dele?? Aquele dia que vocês sumiram?
Ela me olhou com um meio sorriso.
— Foi com os dois. Mas não ao mesmo tempo igual a Luana. E eu…eu gostei mais do amigo dele. Mesmo ele sendo um pouco menor.
Eu ri. Sem querer.
— Os homens se preocupam com isso muito mais do que deveriam. Não é isso, ou só isso, que faz um cara ser bom de cama.
Ela se virou mais pra mim.
Interessada.
— o Miguel até agora foi o melhor. Mesmo ele sendo um pouco afoito. O Hugo no início me impressionou porque se esforçou para me satisfazer, mas depois fez o que todos fazem. Pensam que somos um objetivo, que não sentimos, que não gozamos.
— O Miguel é muito bom, né?
— Ele é ótimo. Ele sabe comandar. Mas sabe ouvir. Minha primeira vez atrás foi com ele.
— Eu..você me falou. Bem no dia que o Carlos foi para casa.
— Isso. Depois continuamos transando, nunca sem que o Antônio soubesse, ouviu??
Falei com uma entonação leve.
Mas firme.
— Ele além de meter bem, ainda sabe ouvir. Em pouco tempo ele melhorou muito. Eu não deixava ninguém ir atrás, apenas ele.
Ela sorriu. Seus olhos brilharam. Algo permaneceu dessa conversa, mesmo sem eu entender direito naquele momento.
O cansaço e a exaustão emocional venceram
A conversa se dissolveu.
Sem conclusão.
Sem resolução.
Fomos para a cama de casal.
E dormimos.
…………..
Por volta das 09 horas, mamãe chegou.
A porta abriu com força demais para ser normal. O som ecoou pela casa antes mesmo da voz vir, já carregada, já quebrada.
— Tauane… Tatiane… cadê vocês???
O desespero na voz dela não deixou espaço para dúvida. Levantamos no pulo, quase ao mesmo tempo, o corpo reagindo antes da cabeça, e nos colocamos de pé segundos antes dela abrir a porta do quarto.
— cadê os meninos?? Carlos… cadê o Carlos??
Senti meu corpo enrijecer na hora. Não foi um susto simples… foi como se algo frio atravessasse por dentro, cortando, descendo rápido demais. Por um momento, nenhuma de nós conseguiu responder. O silêncio que veio foi pior do que qualquer palavra.
Tati — não sei de onde tirou força — conseguiu se mover. Pediu para ela se acalmar, conduziu mamãe até a cama, fez ela sentar.
Eu permaneci em pé, ao lado, mas me sentia menor, como se estivesse encolhendo por dentro.
E então Tati começou.
Ela contou tudo.
Sem esconder.
Sem poupar.
Cada palavra parecia pior do que a anterior, e eu conseguia sentir o ambiente ficando mais pesado a cada detalhe.
A aposta idiota da Luana com os amigos. O modo como ela se aproximou. Como foi entrando, se infiltrando, conquistando espaço. A forma como seduziu Tati… como transformou aquilo em algo que parecia natural, aceitável.
Eu via o rosto da mamãe mudar.
Devagar.
Não era explosão. Era pior.
Era queda.
A relação entre Tati e Luana. O envolvimento. O namorado. Como ele entrou. Como tudo foi acontecendo sem freio… sem limite… sem ninguém parar.
A perda da virgindade.
A perda da inocência.
As palavras ficaram no ar por alguns segundos depois que ela terminou, como se ainda não tivessem terminado de cair.
Então foi a minha vez.
Eu falei.
Contei o que aconteceu quando chegamos. Como o Hugo tratava o Carlos. Como eu via. Como eu percebia. Como eu entendia… e mesmo assim não fiz nada.
E foi ali que eu senti o peso real.
Porque dizer em voz alta tirava qualquer desculpa.
Mamãe permaneceu calada.
Mas o silêncio dela não era vazio.
Era cheio.
Cheio de tudo.
Eu nunca tinha visto os olhos dela daquele jeito. O brilho… simplesmente não estava mais lá. No lugar, tinha algo opaco, pesado. Decepção. Clara. Escancarada.
E aquilo machucava mais do que qualquer grito.
Então ela começou a falar.
O rosto sério. A voz instável. Quase chorosa… mas ainda controlada.
“Eu errei com vocês, principalmente com você, Tati.
As pessoas de um modo geral… o Carlos… eles não entendem o sexo como eu entendo e como tentei passar para vocês.
Os pais dele eram mais certinhos. E não conversavam com ele sobre essas coisas.
Pelo jeito dele, ele dificilmente conseguiria ter uma relação com alguma garota tão cedo. Os meninos normalmente amadurecem depois, isso é científico.
Pessoas como o Carlos têm a maturidade, entre elas a sexual, ainda mais atrasada.
Eu já expliquei para vocês. Vocês são testemunhas, basta olhar como ele se relaciona com as pessoas na escola.
Eu errei em tentar mudar isso… na verdade, eu queria que ele apenas não sofresse mais do que deveria, mais do que eu mesma estava sofrendo.”
Cada frase vinha carregada, mas não alta. E talvez fosse isso que tornava tudo pior.
Não tinha explosão. Tinha consciência.
Tinha dor.
“Eu estou completamente decepcionada com vocês. Você, Tauane, a mais velha… já tinha uma experiência de vida que nenhum dos dois tinha.
Tanto que ajudou a colocar minhoca na cabeça da sua irmã.
Mas eu tinha um orgulho danado de você. Em como você conseguia se impor, conseguia ser uma garota dominante, conseguia reinar num mundo feito para as mulheres servirem.
Mas é tudo mentira?? Você é uma mentira? Esse sentimento que você sente por ele é mentira?”
Senti aquilo entrar direto.
Sem filtro.
Sem defesa.
Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento. Minha respiração travou, e eu precisei forçar o ar a entrar de novo.
“Como alguém que diz amar uma pessoa consegue ver essa pessoa ser humilhada por um filho da puta qualquer que entrou na sua vida há poucas semanas atrás?? Como você quer que eu confie? Que ele confie?
Você não sabia da relação delas, mas ficou sabendo, porque é mais atenta, é mais experiente, mais vivida, e o que você fez??? Nada!!!
Você é pura decepção para mim.”
Aquilo não bateu. Aquilo afundou.
Sem impacto. Só descendo.
“Você sabia que tinha um namorado no jogo. Sua irmã, mesmo confusa, te contou, e você o que fez?? Se omitiu?? Pior ainda, deixou sua irmã mais nova, que você deveria proteger, continuar se relacionando com essas duas pessoas.
Aprendam… se relacionar com pessoas ruins, com pessoas desonestas, com pessoas mau-caráter sempre tende a dar merda! A não ser que vocês também sejam pessoas ruins… pessoas mau-caráter.
É isso que vocês são?? Foi pra isso que eu criei vocês?? Foi isso que vocês aprenderam comigo?? Com seu pai…”
O silêncio depois disso não foi silêncio.
Foi quebra.
O choro veio.
Não de uma vez só.
Mas quando começou… não parou.
Cada uma no seu canto.
Cada uma com o próprio peso.
Eu não conseguia olhar pra nenhuma das duas. Nem pra Tati. Nem pra mamãe. Nem pra mim mesma.
O tempo passou estranho. Lento… e rápido ao mesmo tempo.
Até que mamãe voltou.
A voz ainda abalada… mas mais firme.
“Tati… chegando em casa, nós vamos chamar o Carlos para conversar e você vai falar tudo. Se tentar omitir alguma coisa eu não deixaria e nunca mais falarei com você.
A vergonha que sinto por sua causa é imensa. Mas eu até te entendo, você é jovem, teve a sua primeira experiência, já bem movimentada inclusive.
Mas eu não vou aceitar esse tipo de pessoa como filha.
Eu nunca, nunca trairia alguém que eu amo. E eu sei que o seu amor pelo Carlos é como o de uma irmã.
Eu espero que você nunca pense em ficar ou se deixar seduzir por um namorado da sua irmã, ou um “amigo” meu, ainda mais fazendo isso de forma escondida.
Por que você acha que é normal, que é correto fazer isso com o Carlos?
Um dia eu já falei isso para sua irmã, e agora eu falo para você. Antes de agir, antes de fazer qualquer coisa, se coloque no lugar da outra pessoa.
Como você acha que ele está se sentindo agora? Como ele vai voltar a acreditar em alguém na vida dele?
Você, eu, a Tau, somos a família dele. Você entende isso???
Ele só tem a nós.
Imagina você viver num mundo em que, de uma hora para outra, todos se vão, e você é obrigado a viver e conviver com estranhos. Ainda mais para ele, que tem todo esse problema de relacionamento interpessoal.
Você fazer isso com qualquer pessoa é errado, muito errado. Você fazer isso com o Carlos, dessa forma tão dissimulada. Traindo, mentindo, ajudando a manipular.
Isso é crueldade. Psicopatas não agem como você agiu.
É isso que você virou, uma psicopata? Uma pessoa cruel? Sem nenhuma empatia?”
Tati não aguentou.
Se jogou no colo dela, abraçando com força.
E aquilo quebrou o pouco que ainda restava em mim.
Eu estava destruída.
Mas, mesmo assim… parecia pouco.
Muito pouco.
Perto do que a gente fez o Carlos passar.
A imagem dele veio sem pedir.
E ficou.
Fui até a cozinha buscar água. As mãos tremiam tanto que segurar o copo parecia mais difícil do que deveria. Tudo que mamãe falou continuava rodando na minha cabeça, repetindo, encaixando… fazendo mais sentido do que eu queria admitir.
Porque olhando de fora… era simples.
Era óbvio.
Era feio.
Mas vivendo… a gente sempre acha um jeito de justificar.
De minimizar.
De empurrar.
E isso não muda nada.
Não apaga nada.
E uma coisa eu sabia.
O tipo de pessoa que eu não queria ser. Mas que não tinha como negar que era. Pelo menos até aquele dia.
Depois de um tempo, mamãe me chamou.
Era hora de ir embora.
No carro, o silêncio voltou — mas diferente. Mais pesado. Mais definitivo.
Ela avisou que, se o Carlos saísse de casa, ambas teríamos que rever a vida… e iríamos para o colégio interno ultra tradicional onde ela estudou.
Aquilo não soou como ameaça.
Soou como consequência.
Paramos na farmácia. Ela comprou uma pílula do dia seguinte e a mesma pílula que usei até ter idade suficiente para colocar o DIU para Tati.
— Vou marcar ginecologista para você, a mesma que eu e a Tauane vamos. Após os 18 anos você terá direito de continuar com ela ou procurar uma do seu agrado. Até colocar o DIU, irá usar a pílula, sem desculpa.
Saímos da farmácia.
Voltamos para o carro.
E, quando chegamos em casa…
Graças a Deus…
Carlos estava no quarto.
Pelo menos…
não tinha ido embora.
………
(Carlos)
Decidi simplesmente ignorar as meninas e a Verônica.
Não foi algo impulsivo, não teve explosão nem cena — foi mais silencioso do que isso, mais frio, como se a decisão tivesse amadurecido sozinha dentro de mim até não sobrar mais espaço para dúvida.
Uma a uma, todas vieram tentar falar comigo, começando pela mãe, depois Tauane, depois Tati.
Sempre com o mesmo cuidado calculado, a mesma urgência contida, o mesmo jeito de quem já sabia exatamente o que dizer. Parecia ensaiado demais, cirúrgico demais para não ser algo combinado.
Talvez mais uma tramoia.
Eu já fui feito de otário muitas vezes por elas. Dessa vez não seria tão fácil. Eu não ia discutir, não ia levantar a voz, não ia dar explicação, não ia dar esse gostinho.
Eu realmente decidi não fazer cena, não criar drama, não alimentar nada daquilo.
Minha vida seguiu normalmente. Do jeito que deveria ser — ou, pelo menos, era isso que eu repetia pra mim mesmo.
Voltei a ocupar meu lugar no mundo, voltei a ser apenas eu… eu e meus estudos, meus objetivos, minha rotina.
Foquei ainda mais nos estudos, apenas nos estudos, como se aquilo pudesse reorganizar o resto.
Mas não podia.
Tinha algo ali, um incômodo que não se resolvia, o modo como eu me senti pequeno. Não só emocionalmente mas fisicamente.
A lembrança do Hugo voltava com frequência demais, o tamanho, a presença, o jeito como ele ocupava o espaço… e como eu desaparecia dentro dele. E junto disso vieram as risadas, os comentários, as “brincadeiras” que nunca foram só brincadeiras, o bullying, tudo voltando como se nunca tivesse ido embora.
Só que, dessa vez, aquilo não ficou só na minha cabeça — virou decisão. Procurei uma academia voltada para defesa pessoal. Não queria estética, queria resposta, queria controle, queria não me sentir vulnerável daquele jeito nunca mais.
Contratei um personal trainer e fiz uma promessa simples, quase infantil de tão direta: nunca mais me sentir menor do que ninguém.
Naquela época achei que isso fosse o suficiente. Não era. Mas era o que eu tinha.
Após uma ou duas semanas de tanto ouvir as súplicas delas por uma conversa — sempre insistentes, sempre presentes — resolvi aceitar.
Não por elas. Por mim. Pra resolver, pra encerrar, pra seguir em frente.
Chamei Tati e Tauane para conversar no escritório. Elas demoraram um segundo pra acreditar, mas não hesitaram, entraram juntas, e foi ali que começou.
O show de horrores.
Eu ouvi tudo calado, sem interromper, sem reagir, deixando cada palavra cair exatamente como vinha, e quanto mais eu ouvia, mais aquilo deixava de ser suspeita e virava confirmação.
Tati falou mais, sobre a aposta — absurda demais pra ser verdade… e ainda assim fazendo sentido. E foi isso que mais me incomodou: fazia sentido.
Porque eu tinha ouvido. Porque eu estava lá. Porque eu vi.
Ouvi sobre como a Luana seduziu a Tati debaixo dos olhos de todo mundo, como as coisas foram simplesmente acontecendo, como ninguém parou, como ninguém questionou, como ninguém pensou em mim.
Ouvi sobre como todo mundo parecia saber mais do que eu, como a Tauane sabia, como percebeu, como entendeu… e como não fez nada.
Ou não quis fazer.
Ou não se importou.
Ouvi até sobre o pedido de apoio da Verônica para as filhas e, nesse ponto, algo encaixou de vez. A viagem. As conversas. As entrelinhas. Era sobre a Tauane. Sempre foi. E, ali, a conclusão veio inteira, limpa, cruel: a escola inteira sabia de tudo, menos eu.
Aquilo não me deixou com raiva. Me deixou menor. Muito menor.
Que tipo de pessoa eu era? Que tipo de pessoa eles achavam que eu era?
E a resposta veio fácil demais: eu era essa pessoa, eu era esse cara, patético, fraco, indefeso.
Todos viam isso.
Os meninos não estavam errados quando me atacavam, quando me zuavam, quando me diminuíam.
Era aquilo que eu era.
E aquilo só tinha deixado de acontecer porque alguém decidiu interferir, porque alguém resolveu mexer os próprios pauzinhos.
Mas a realidade… a realidade sempre esteve ali.
Não dá pra colocar em palavras tudo que senti naquele momento, só sei que alguma coisa dentro de mim desligou.
Fiquei fora do ar. O som ao redor começou a ficar distante, como se viesse de longe demais, os rostos na minha frente perderam definição por um instante, como se eu não conseguisse focar direito.
Minhas mãos começaram a formigar, meu coração acelerou de um jeito descompassado, forte demais, meu corpo começou a tremer sem que eu conseguisse controlar.
Eu tentava puxar o ar, mas ele vinha curto, incompleto.
Na hora eu não entendi. Hoje eu entendo.
Minha terapeuta chama isso de crise de ansiedade, eu chamo de choque da realidade.
O silêncio que ficou no escritório era sufocante, ninguém falava, ninguém se mexia, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo que já estava por um fio — e talvez já tivesse quebrado.
Foi aí que eu resolvi agir.
Sem pensar muito, levantei, saí do escritório e chamei Verônica para participar da conversa. Ela parecia prever, como se já estivesse esperando, chegou rápido demais. Pedi que ela se sentasse na poltrona.
Esperei alguns segundos. Respirei fundo. Precisava falar tudo de uma vez, sem hesitar.
— As meninas me contaram tudo. Inclusive o seu pedido para…
Ela não deixou eu terminar. Levantou rápido, veio até mim.
— Carlos…eu…
Foi só isso.
E então ela chorou. Mas não foi um choro qualquer — foi desorganizado, intenso, como se tivesse escapado sem controle, e aquilo me atingiu de um jeito que eu não queria sentir naquele momento. Por um segundo eu tentei manter a postura. Tentei mesmo.
Mas não consegui.
Na verdade, eu falhei.
Aproximei.
Abracei.
Sem pensar. Como naquele dia. E olhei nos olhos dela.
— Obrigado…obrigado…eu apenas posso agradecer por tudo. Você me salvou, você me tirou daquela sala naquele dia, você me trouxe para sua casa, para dentro da sua família. Obrigado por tudo.
Ficamos assim por alguns segundos, talvez mais. Eu não sei. O tempo ali não fazia sentido.
Olhei novamente nos olhos dela.
— Obrigado pelo bem que você fez aos meus pais. A felicidade que sempre esteve presente na vida deles, na nossa vida, se deve em boa parte a você também.
Minha voz quase falhou, mas eu segurei.
Respirei fundo.
Soltei ela.
Dei um passo para trás. Me reposicionei. Endireitei o corpo. Cruzei os braços. O momento tinha acabado.
— Eu quero deixar claro para todas. O Carlos fraco, indefeso, que precisava ser cuidado morreu. Eu não irei aceitar mais que vocês interfiram na minha vida. Não haverá contatos e interações desnecessários, tentativas de amizades forçadas, por que alguém achou que era necessário, ou por interesses pessoais. Eu prefiro não ter amigos, do que ter amizades superficiais, que não tenham motivos reais para existir.
O silêncio depois disso foi imediato, pesado, como se o ar tivesse ficado mais denso.
Parei por um segundo apenas para recuperar o ar e finalizei.
— O Carlos inocente morreu!
Atrás de mim, alguém começou a dizer meu nome.
Eu ouvi. Claro que ouvi.
Mas não parei.
Não virei.
Não respondi.
Não tinha mais nada ali pra mim.
Virei o corpo, abri a porta e saí sem olhar para trás.
Fim da primeira temporada.
Nota do autor: esse é o capítulo final da temporada, mas terá um outro, extra. Quando nosso menininho virara homem. Kkkk...
Obrigado por todos que comentaram, criticando ou elogiando. Desse jeito eu me motivo a escrever sempre.
Só tenho até agradecer.
Abraço