Havia qualquer coisa no ar antes mesmo de Vitória abrir a boca. Era aquele tipo de pressão que vem antes da chuva em São Paulo, um calor abafado que gruda na pele e deixa tudo mais pesado. Ela girava a pulseira de contas no pulso, sentindo a madeira roçar na pele queimada de sol da última marcha de rua, enquanto observava o primo Joel cuidar da churrasqueira no terraço da tia Sônia.
A luz amarela dos pendentes desenhava os corpos de um jeito quase teatral. Vitória estava encostada na bancada de mármore do bar, o corpo formando uma curva que o ambiente reto da casa não esperava. Ela era uma mistura curiosa: a pele muito branca, daquelas que queimam fácil e herdam sardas da avó irlandesa, pontilhada de pintinhas cor de canela que iam do nariz até o começo do peito. O cabelo ruivo raspado na lateral e ondulado não era aquele tom parado de cobre, mas um vermelho vivo que, quando batia sol, parecia que ia pegar fogo a qualquer momento. Era magra, do tipo que corre no Minhocão e esquece de comer porque está lendo. Mas havia ali uma desobediência do corpo: os quadris largos que marcavam o short jeans velho e os seios cheios que esticavam o tecido preto da blusa de gola alta. Era um corpo que não pedia licença.
Do outro lado do terraço, encostado na porta de vidro da piscina, Joel era o contrário absoluto. Enquanto Vitória tinha tatuada no braço uma frase de Simone de Beauvoir, ele vestia uma camisa polo azul-marinho com um cavalinho bordado no peito como se fosse um título de nobreza. O cabelo loiro era daquele tom claro de quem frequenta praia em Santa Catarina. A barba era aparada com cuidado de quem tem um barbeiro fixo. Por baixo da camisa, via-se o desenho do corpo malhado: peito grande, costas largas, braços que pediam mais espaço nas mangas. Era alto o bastante para que Vitória, mesmo com algum salto, precisasse levantar o rosto para discutir com ele.
E havia o volume na calça. Joel não escondia. A calça bege, justa nas coxas grossas, mostrava entre as pernas um relevo que ele carregava com a tranquilidade de quem sabe o que tem. Ficava ali apoiado na porta com as pernas um pouco abertas, numa pose que parecia tão estudada quanto os investimentos que ele dizia fazer. Era o tipo de homem que usa o próprio corpo como mais um argumento, como se aquilo provasse alguma coisa.
Ele virava a carne com uma pinça de aço, rindo alto para a namorada, a Camila — doce, leve, melhor amiga de Vitória desde os tempos de colégio.
— Olha lá, Camila — Joel apontou com o queixo para Vitória, que vinha em direção à mesa de frios. A voz dele tinha aquele tom de gozação que ele achava engraçado, mas que nos ouvidos dela arranhava. — A prima chegou. Hoje ela tá com a camisa do "Lute como uma garota". Deve estar querendo lacrar.
Vitória parou. Não porque se intimidou, mas para ajustar a resposta. Pegou uma azeitona preta e mastigou devagar, olhando para ele por cima dos óculos escuros.
Enquanto mastigava, sua mente viajou por um instante. Lembrou-se de quando era mais nova encontrou, por acaso, um livro de Simone de Beauvoir na estante empoeirada da biblioteca da escola. O Segundo Sexo. A capa estava gasta, as páginas amareladas, mas as palavras dentro dela pareciam escritas diretamente para sua alma inquieta de adolescente. "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher." Aquela frase a atingiu como um raio. Ela não era apenas um corpo, não era apenas as curvas que começavam a despontar e que os meninos já olhavam com uma fome que a incomodava sem que ela soubesse nomear. Ela era um projeto. Uma construção. Algo que poderia ser diferente do que esperavam dela.
Depois vieram outras leituras. Angela Davis aos dezesseis, escondida da mãe que achava aquilo "coisa de comunista". bell hooks aos dezessete, chorando ao entender que o amor que ela buscava nos garotos errados era também uma construção política. Djamila Ribeiro aos dezoito, finalmente se sentindo representada por uma mulher que falava a sua língua, que entendia as nuances de ser mulher no Brasil. As marchas, as amizades com outras meninas que também liam, também questionavam, também se recusavam a caber nas caixinhas que os Joéis da vida tentavam lhes impor.
Agora, aos dezenove, ela era a soma de todas essas descobertas. Uma mulher que entendia seu lugar no mundo e lutava para mudá-lo. Que não aceitava ser reduzida a um corpo, a uma boca calada, a uma presença decorativa.
— Lacrar é o que você faz com esse pacote caro de carne a vácuo, Joel? — respondeu, a voz doce como veneno. — Essa carne tá tão crua que ainda deve estar berrando contra o PT.
Camila riu baixinho. Joel riu mais alto, uma risada curta, satisfeita. Ele gostava daquilo. Enquanto os parentes falavam de dinheiro ou das fofocas do clube, Vitória e Joel tinham uma briga particular, feita de olhares, meias palavras e provocações que só os dois entendiam.
— Crua ou não, foi paga com o meu trabalho — respondeu ele, limpando os dedos na calça de marca. — Não com cota de faculdade pública.
Vitória sentiu a raiva subir. Era uma coisa antiga, de mulher, que vinha do fundo e pedia espaço.
Ela se lembrou de outra cena. Três anos atrás, na casa da mesma tia Sônia, durante um almoço de família. Joel já era alto, loiro, com aquele ar de quem se acha dono do mundo. Ela estava no canto da sala, lendo um livro que Marina tinha emprestado — Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, de Djamila Ribeiro. Joel passou por ela, arrancou o livro de suas mãos, leu o título em voz alta com deboche e jogou no sofá.
"Lendo essas merdas, priminha? Vai virar esquerdista?"
Ela sentiu o rosto queimar. Não de vergonha, mas de ódio. Levantou-se, pegou o livro de volta e respondeu, com uma calma que não possuía: "Vai estudar, Joel. Quem sabe assim você deixa de ser um zero à esquerda que só sabe repetir o que o pai manda."
Ele riu na época. Mas nunca mais tocou nos livros dela.
Agora, anos depois, a briga continuava. Só que os argumentos tinham mudado, e o campo de batalha também.
Ela se aproximou da churrasqueira, sentindo o calor do carvão e o cheiro da carne misturado ao perfume dele.
— Teu trabalho, Joel? — ela inclinou a cabeça, agora sem doçura nenhuma. — A única vez que você sua é quando o ar do carro do teu pai quebra no caminho para o escritório. E já que você falou em cota, a sua cota de caráter parece que foi cortada. Você sabe muito bem o que eu vi ontem na saída do Doms.
O silêncio que caiu foi mais pesado que a fumaça da churrasqueira. Joel ficou parado, a pinça no ar. Vitória viu o gogó dele subir e descer. Ela sabia de tudo. Sabia da Camila, da amiga, da menina que ainda acreditava em amor de novela enquanto ele tirava a aliança para levar a estagiária para o motel.
Um novo flashback. Dessa vez mais recente. A noite anterior, quando ela passava de carro pela Doms — uma balada cara na Zona Sul — e viu o carro de Joel estacionado. Não deu importância. Mas então viu ele saindo, rindo, com uma loira de saia curta que definitivamente não era Camila. A aliança não estava no dedo. Ele enfiou a mão no bolso da calça quando viu o carro de Vitória passar, mas era tarde. Ela já tinha visto.
Camila merecia saber. Mas Vitória também sabia que a verdade, jogada assim, sem contexto, poderia destruir a amiga. Ela precisava de um plano. Precisava que Camila visse com os próprios olhos o lixo que namorava.
— Do que você tá falando, Vitória? — a voz dele falhou por um segundo, mas ele se arrumou rápido, os olhos azuis apertando num aviso mudo. Não se mete.
— Do teu talento para queimar coisas — ela sorriu, pegando um pedaço de queijo coalho da grelha. — Coisa velha é contigo mesmo, né? Antigo, poluente... e podre por dentro.
Ela não contou para Camila. Ainda não. Porque para Vitória, política não era só frase pronta ou briga de internet; era poder. E naquele momento, sentindo o olhar raivoso de Joel nas costas enquanto voltava para dentro da casa, Vitória entendeu que tem uma coisa muito estranha que acontece quando uma mulher que lê Djamila Ribeiro encontra um homem que nunca precisou ler Angela Davis para perceber que está perdendo o controle da situação.
O jogo estava aberto. E ela tinha acabado de fazer a primeira jogada.
O terraço agora era palco de duas figuras se encarando. Vitória olhou para o primo com a mesma atenção que se dá a um produto vencido na prateleira: sabendo do perigo, mas com uma curiosidade difícil de explicar.
Lembrou-se de uma conversa recente com Marina. As duas estavam no apartamento de Vitória, bebendo vinho barato e falando sobre homens. Marina, mais experiente, dizia que o tesão às vezes era maior que a ideologia. Vitória discordava veementemente.
"Meu corpo responde ao que minha cabeça aprova, Mari. Não tem essa de tesão cego. Se o cara é um escroto, meu corpo fecha."
Marina riu. "Um dia você descobre que o corpo tem vontade própria, amiga. E aí a gente conversa de novo."
Vitória achou que aquilo era besteira. Afinal, ela tinha pleno controle sobre seus desejos. Ela escolhia quem a excitava. Ela decidia quem merecia seu corpo.
Pelo menos era o que ela acreditava.
— Você me olha como se eu fosse propaganda enganosa — Joel quebrou o silêncio, cruzando os braços fortes sobre o peito. O pano da camisa esticou. — Tá estudando a concorrência, prima?
Ela levantou uma sobrancelha fina, quase da cor da pele de tão clara. Os olhos verdes brilharam.
— Concorrência, Joel? Você não vende o que eu compro. — A voz dela saiu baixa e áspera. — Eu só tava pensando em quantas sessões de terapia a Camila vai precisar quando souber que esse teu jeito de machão de shopping não consegue manter a calça fechada nem por respeito a ela.
Joel descruzou os braços e deu dois passos. O chão pareceu tremer. Ele chegou perto, invadindo o espaço dela com a certeza de quem nunca ouviu um não de verdade. Vitória sentiu o cheiro dele: perfume caro, carne de churrasco e suor limpo. Ela não recuou. A ponta do tênis velho encostou no couro caro do tênis dele.
— Você adora me vigiar, né, Vick? — A voz dele veio baixa, só para ela. Os olhos azuis desceram do rosto para a boca, depois para a gola preta que cobria o pescoço, parando um pouco mais na curva dos seios que puxava o tecido. — Fica aí com esse corpo de capa de revista me chamando de opressor. Você tem nojo de mim, mas eu vejo você me olhando quando saio do mar. Vejo você ficar vermelha debaixo dessas sardas.
Vitória sentiu o calor subir, mas não era vergonha. Era raiva. Raiva de ser lida por um homem que ela desprezava, mas que de alguma forma idiota acertava onde doía. Ela odiava que o corpo reagisse a coisas que a cabeça recusava.
Mais uma lembrança. Verão passado, na praia. Joel saindo do mar, o corpo molhado, os músculos definidos pela água salgada, o calção colado nas coxas grossas. Ela desviou o olhar rápido demais. Sentiu o rosto queimar. Odiou-se por isso. Repetiu para si mesma que era apenas uma reação biológica, que não significava nada, que ela não sentia atração por ele. Mas naquela noite, sozinha no quarto da casa de praia, ela se tocou pensando naquela imagem. E gozou com mais força do que com qualquer outra fantasia.
No dia seguinte, ela foi para a marcha feminista em Copacabana e gritou mais alto que todas as outras. Como se pudesse exorcizar o desejo com palavras de ordem.
Levantou a mão e, com a ponta do dedo pintado de esmalte preto descascado, tocou o meio do peito dele, bem em cima do cavalinho bordado.
— O que eu olho, Joel, é o desperdício. — Ela falou baixo, apertando o dedo contra o osso do peito dele. — Esse corpo de academia, essa cara quadrada, esse pau que você acha que é o centro do mundo... Tudo isso pra ser só mais um reacionário sem graça que bate punheta pra vídeo de Jordan Peterson e trai a namorada com menina que compra roupa na Shein. Você é comum, Joel. A palavra é essa. Comum.
Ela tirou o dedo como se tivesse encostado em graxa. Deu um passo para o lado, desviando do corpo grande dele. Ao passar, o cabelo ruivo e ondulado roçou de leve no braço bronzeado. Foi um choque pequeno, um estalo seco no ar gelado. Joel ficou parado, o nariz aberto, o volume na calça bege agora mais visível, mostrando que o ódio dela excitava ele.
Ela foi andando para a sala, os quadris largos se movendo dentro do short velho, as sardas nas costas aparecendo como estrelas que ele não sabia nomear.
Joel ficou olhando. A mão grande apertou a pinça de churrasco até os dedos ficarem brancos. Ele odiava como ela conseguia fazer ele se sentir pequeno e ao mesmo tempo com uma fome esquisita. Era uma fome que Camila, tão boazinha e certinha, nunca ia matar. Vitória era a única mulher que não ria das piadas dele, que não ligava para o carro ou para o volume na calça. E isso, para um homem que vivia de ser aprovado pelos outros, era o que mais mexia com ele.
Do outro lado do vidro, Camila ria de alguma coisa que a tia Sônia dizia, sem saber da guerra que acontecia a três metros dali, onde o cheiro de carne queimada se misturava com perfume e suor. A festa continuava, mas por baixo daquele terraço bonito, a rachadura já estava feita. E Vitória, com seu corpo cheio de curvas e sua língua afiada, tinha acabado de enfiar o dedo na ferida de um homem que não sabia lidar com a própria mediocridade.
Ela se afastou, sentindo o coração bater forte, mas a cabeça erguida. Lembrou-se de uma frase que lera em algum livro, não sabia mais qual: "A mulher que sabe o que quer é a mais perigosa de todas." Ela sabia o que queria. Queria justiça. Queria que Camila abrisse os olhos. Queria que Joel pagasse por ser quem era.
Mas havia algo mais. Algo que ela não queria admitir nem para si mesma. Algo que a fazia se tocar à noite pensando no corpo do primo, no cheiro dele, na sensação daquele volume na calça bege. Algo que a fazia sentir uma raiva imensa — não dele, mas de si mesma.
Ela empurrou esses pensamentos para o fundo da mente, onde guardava tudo que não sabia como processar. Agora era hora de guerra. Depois ela lidava com o resto.
A festa continuava, os parentes alheios ao que se passava. Camila ria, servia vinho, feliz na sua ignorância. Joel voltou para a churrasqueira, o rosto fechado, a mandíbula tensa. E Vitória, sentada no sofá da sala, bebia sua taça e planejava o próximo movimento.
Ela não sabia ainda, mas aquela noite mudaria tudo. Mudaria ela. Mudaria o que ela acreditava ser. E no fim, ela descobriria que Marina tinha razão: o corpo tem vontade própria. E o dela estava prestes a falar mais alto que qualquer livro, qualquer marcha, qualquer ideologia.
NOTA DO AUTOR:
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