​Capítulo XVI: O Peso da Coroa ​(E o alívio de tirá-la)

Um conto erótico de Entre fogo e agua
Categoria: Heterossexual
Contém 957 palavras
Data: 07/05/2026 20:16:06

​[Perspectiva de Ayandara]

​Diante do espelho, eu não era mais a Ayandara que resolvia tudo. Eu não era a mãe, a profissional, a rocha. Eu era apenas carne, nervo e entrega.

​As mãos de Malik seguravam meu quadril com uma firmeza que deixava marcas na minha pele e na minha alma. Ele me socava com um ritmo brutal, e eu, perdida em pensamentos turvos de prazer, observava meu próprio corpo reagir no reflexo.

​Malik se inclinou sobre mim, e eu senti a respiração quente dele bater na minha nuca. A boca dele encontrou minha orelha, e os dentes rasparam de leve no lóbulo, numa mordida provocante que me fez arrepiar inteira. A língua dele deslizou por trás da minha orelha, úmida e quente, excitando terminações nervosas que eu nem sabia que tinha. Aquilo foi o golpe final na minha sanidade.

​Havia uma contradição deliciosa ali: a mulher que estava acostumada a dominar, a ditar as regras, agora se sentia completamente dominada. Meu corpo me traía. Ele denunciava uma necessidade que eu escondi por muito tempo, uma fome que atravessava toda a minha existência.

Minhas pernas fraquejaram. Eu não conseguia mais me sustentar. Mas eu não caí. Meu corpo era sustentado por aquele macho. Meu macho.

​O orgasmo invadiu nossos corpos como uma tempestade. Explodimos juntos. Senti o gozo dele preencher meu interior, quente e pulsante, misturando-se com o meu. O êxtase me deixou cega por um instante, e quando a visão voltou, vi no espelho duas figuras colapsadas, respirando o mesmo ar pesado.

​A casa tinha rastros da nossa foda. A calcinha rasgada no tapete, o suor no chão, a marca das mãos no espelho.

​Eu nunca tinha deixado ninguém chegar tão longe. Nunca deixei ninguém me ver tão vulnerável, tão desfeita, tão entregue. E, no entanto, ali, com as costas coladas no peito dele e as pernas bambas, eu me sentia segura.

​Escorregamos pela parede até o chão. Ficamos ali, num emaranhado de membros e silêncio.

​Momentos depois, Malik saiu de dentro de mim. A separação física deixou um vazio imediato, um frio que me fez encolher. Mas ele não permitiu que o frio ficasse.

​Malik se levantou e, sem dizer uma palavra, me tomou em seu colo.

​Eu fechei os olhos e encostei a cabeça no ombro dele. A ironia daquele gesto me atingiu em cheio. Eu, que sempre carreguei o mundo nas costas — as contas, a criação do meu filho, as expectativas, o peso de ser forte o tempo todo —, agora estava sendo carregada. Eu não precisava andar. Eu não precisava decidir a direção. Eu podia apenas ser leve.

​Ele me levou até o banheiro e me colocou no box com uma delicadeza que contrastava violentamente com o homem que tinha acabado de rasgar minha roupa com os dentes.

​Ele ligou o chuveiro. A água morna caiu sobre nós, lavando o suor, mas não a memória.

​Malik pegou o sabonete. As mãos dele, grandes e calejadas, ensaboaram meus ombros, minhas costas, meus seios. Não havia malícia naquele toque, apenas cuidado. Era uma troca silenciosa de papéis: a mãe que sempre cuidou do filho, que sempre deu banho e secou lágrimas, agora era a mulher sendo cuidada.

​O toque dele era uma reverência.

​Eu o observei através dos cílios molhados. A pele dele brilhava sob a água. Senti um orgulho possessivo inflar meu peito. A conquista daquele homem — tão novo, tão viril, tão másculo e, ao mesmo tempo, capaz de uma ternura tão profunda — era minha. Ele era meu prêmio e meu descanso.

​Senti um nó na garganta se desfazer. As lágrimas vieram, misturando-se com a água do chuveiro. Chorei escondida, soltando a tensão de meses, de anos de armadura. Ali, nua e molhada, deixei minha fragilidade escorrer pelo ralo, entregando meu peso nas mãos e nos ombros de Malik.

​Ele percebeu, mas não falou nada. Apenas me abraçou mais forte debaixo d'água, deixando que eu me reconstruísse no tempo dele.

​Ao sairmos do banho, ele me envolveu numa toalha felpuda e começou a me secar. Havia sorrisos leves, toques de nariz, uma intimidade doméstica que assustava e acolhia.

​Malik me encostou contra a pia fria do banheiro, mas o corpo dele me manteve aquecida. Ele segurou meu rosto e me beijou. Não foi um beijo de fome. Foi um beijo de reconhecimento. Olhei nos olhos dele e vi o reflexo do que eu sentia. Era inevitável. Era o amor nascendo no meio do vapor.

​Ele beijou meu pescoço, e eu o abracei, escondendo o rosto na curva do ombro dele, sentindo o cheiro de sabonete e homem.

​Fomos para o quarto. A cama estava arrumada, os lençóis de algodão egípcio nos esperando. Eu não queria minhas roupas de volta. Fui até a gaveta dele, peguei uma regata branca e vesti. Ficou grande, com o cheiro dele, cobrindo meu corpo como uma segunda pele. E mais nada.

​Nos enrolamos na coberta, num casulo de calor.

​Minha cabeça repousou no peito dele, ouvindo as batidas do coração desacelerando. Meus pensamentos voaram para Limeira, para o meu pequeno. A culpa materna tentou aparecer, aquela voz chata dizendo que eu deveria estar lá. Mas eu a silenciei. Eu sou mãe, mas também sou mulher. E aquela mulher precisava ser cuidada para poder cuidar.

​Levantei o rosto e olhei para o pescoço de Malik. A marca roxa que eu tinha deixado dias atrás ainda estava lá, viva.

​Inclinei-me e beijei o local, suavemente, selando a ferida e o pacto.

​— Minha marca... — sussurrei contra a pele dele.

​Ele apertou os braços ao meu redor.

​— Sua casa, Ayandara.

​E eu finalmente dormi, sem o peso da coroa, apenas com o peso do braço dele sobre a minha cintura e a mão grande e protetora repousando possessivamente sobre a minha bunda.

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