Capítulo 10: O Papel Que Ela Aceitou
Depois daquele posto, a viagem mudou de vez.
Não por fora.
Por fora, continuávamos os três dentro da mesma Kombi, atravessando estradas longas, poeira vermelha e cidades pequenas que pareciam não existir no mapa.
Mas por dentro…
por dentro, eu já não era mais o marido da Letícia.
Eu era alguém tentando não perder o pouco que ainda restava dela.
Mesmo que aquilo já não fosse mais um casamento.
Foi dois dias antes de chegarmos ao Acre que Abel trouxe o assunto.
Estávamos parados num trecho alto da estrada, o céu alaranjado se apagando devagar atrás da mata fechada. O vento quente entrou pela janela. O silêncio pesado entre nós três.
Abel estava sentado na porta lateral da Kombi.
Letícia ao lado dele.
Perto demais.
Eu no banco da frente, fingindo mexer no painel.
Foi quando ele falou:
— "A minha mãe sempre teve um sonho."
Letícia virou o rosto para ele, com atenção imediata.
— "Qual?"
Ele demorou um pouco.
Como se escolhesse as palavras.
— "Me ver casado."
Silêncio.
Ele continuou:
— "Ela diz que esse seria o maior presente da vida dela."
Eu já sabia que aquilo não terminaria bem.
Mas mesmo assim perguntei:
— "E?"
Ele respirou fundo.
Olhou primeiro para ela.
Depois para mim.
— "Queria pedir um favor…"
Meu corpo já ficou tenso.
— "Que favor?"
Ele respondeu direto:
— "Quando a gente chegar… queria que a Letícia fingisse ser minha esposa."
O mundo pareceu parar por um segundo.
Eu virei na hora.
— "Como assim, Abel?"
Ele manteve a calma.
— "Só na frente da minha mãe. Pra dar paz pra ela. Só isso."
Eu olhei para Letícia.
Esperando reação.
Esperando recusa.
Esperando qualquer sinal de desconforto.
Mas não veio.
Ela não se chocou.
Não negou.
Ela… considerou.
E isso foi pior do que qualquer resposta.
— "Thiago…" ela disse, calma — "é só pra consolar uma senhora."
Simples.
Leve.
Como se fosse algo pequeno.
Como se não fosse ela assumindo o lugar de outra pessoa… ao lado de outro homem.
— "E eu fico como nessa história?" perguntei, já sentindo o desconforto crescer.
Ela respondeu sem hesitar:
— "Você pode ser meu irmão."
Aquilo me atingiu de um jeito estranho.
Não pela mentira.
Mas pela facilidade.
Pela naturalidade com que ela me reposicionou na própria vida.
De marido…
pra irmão.
Abel não falou nada.
Mas observava.
Esperando.
E eu…
como sempre…
cedi.
Devagar.
Engolindo tudo.
— "Tá… mas só lá. Só na frente dela."
Letícia assentiu.
Mas o olhar que ela trocou com Abel não foi de alívio.
Foi de entendimento.
Como se aquilo já fosse mais real do que deveria.
No dia seguinte, na estrada, Abel ligou para a mãe.
O sinal falhava.
Cortava.
Voltava.
Até que a chamada completou.
Ele colocou no viva-voz.
A voz da mãe dele veio fraca… mas cheia de emoção.
— "Meu filho… és tu mesmo?"
O rosto dele mudou na hora.
Virou outro homem.
— "Sou eu, mãe."
A emoção tomou conta da ligação.
Palavras misturadas com choro.
Nove anos sem se ver.
Nove anos esperando aquele momento.
Até que, em um certo ponto, Abel fez o que tinha planejado.
Olhou para Letícia.
E disse:
— "Mãe… quero que conheças a minha esposa."
Meu peito travou.
Mas Letícia…
Letícia não hesitou.
Pegou o telefone.
Como se já soubesse exatamente o que fazer.
— "Oi, dona Teresa…"
A voz dela saiu suave.
Doce.
Quase íntima demais.
— "Então és tu que cuidas do meu filho?" veio a resposta emocionada do outro lado.
Letícia sorriu.
E respondeu:
— "Sou eu."
Sem pausa.
Sem dúvida.
Sem culpa.
Eu fiquei imóvel.
Ouvindo minha esposa… sendo esposa de outro homem.
Então veio a frase.
A frase que terminou de destruir qualquer resto que ainda existia.
A mãe dele riu, emocionada:
— "Agora só falta me darem um netinho…"
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E então Letícia respondeu.
Com uma leve risada:
— "A gente tá tentando."
Aquilo não foi um improviso.
Não foi nervosismo.
Foi escolha.
Eu senti o corpo gelar.
Não consegui ficar ali.
Abri a porta da Kombi e desci.
Precisei me afastar.
Andei alguns passos pela beira da estrada.
Respirei fundo.
Mas não adiantou.
Porque então…
eu ouvi.
A voz dela.
Baixa.
Quase um sussurro.
Mas clara o suficiente.
Dentro da Kombi.
— "Do jeito que você não usou camisinha nenhuma vez…"
Uma pequena pausa.
E então a risada.
Baixa.
Cúmplice.
— "Capaz de eu já estar grávida…pirocudo…"
Silêncio curto.
E ela completou:
— "Aí tua mãe ganha o neto mais rápido do que imagina."
Eu fechei os olhos.
Ali mesmo.
Parado na beira da estrada.
Sentindo o peso daquilo tudo.
Porque naquele momento…
já não era mais sobre traição.
Era sobre substituição.
Eles não estavam mais se escondendo.
Eles estavam começando a imaginar…
um futuro.
E, naquele futuro…
eu não existia.
[CONTINUA]
OBS: Antes…vou aqui agradecer todos comentários, mesmo aqueles com opiniões divergentes. como diz o ditado: Gosto é igual a C.. cada um tem o seu. Essa história é de uns 20 ou mais capítulos, para tudo isso que está acontecendo, teve uma “razão". No final, talvez todos esses criticaram, gostaria de ver a cara deles, ou se vão ter a coragem de apagar ou reaver os comentários que fizeram. No entanto, ainda gostaria de que fizessem uma versão dessa história por aqui, ficaria muito feliz em consumir essa leitura.
Embora não sou de criticar conto de ninguém, sendo que gente aqui ainda não se deu conta que aqui é um portal de “contos eróticos”, não Contos pudicos. Viu? Cara-pálida.rs
Agradeço os comentários, mesmos os de críticas, pois engajam muito.kkkk