Capítulo 11: A Noite Antes de Chegar
Naquela altura, eu já não precisava mais entender.
Eu só precisava… suportar.
E naquela noite, pela última vez antes de chegar, eu bebi mais do que devia.
Deitei no banco da frente, o corpo pesado, a mente lenta… mas não apagada.
Nunca completamente apagada.
Atrás de mim…
os dois estavam na cama.
No escuro.
Só um filete de luz escapando pela cortina mal fechada.
O suficiente pra não ver.
Mas o bastante pra perceber.
No começo, silêncio.
Depois…
o som leve do colchão cedendo.
A madeira rangendo baixo.
Respirações mais próximas.
Mais ritmadas.
Foi ela quem falou primeiro.
Baixo.
Mas firme.
Sem hesitação.
— "Ele apagou."
Abel respondeu logo depois, num tom mais contido:
— "Tem certeza?"
Letícia soltou um pequeno riso.
Aquele riso que eu já não reconhecia como sendo meu.
— "Tenho… você ainda não entendeu como ele funciona?"
Aquilo me atravessou.
Mas eu continuei imóvel.
O colchão rangeu de novo.
Um movimento mais claro agora.
Mais próximo.
Mais íntimo.
Abel ainda tentou manter alguma linha:
— "A gente devia ir com calma…"
Ela interrompeu.
Sem levantar a voz.
Mas impondo.
— "Você pensa demais."
Silêncio curto.
E então ela completou, mais baixo:
— "E eu já cansei de esperar."
O ar dentro da Kombi parecia mais quente.
Mais denso.
Mais pesado.
Mesmo com as janelas abertas.
— "Letícia…" ele começou.
Mas ela não deixou terminar.
— "Agora tem motivo."
Pausa.
A voz dela ficou ainda mais baixa.
Quase um sussurro colado.
— "Não é só vontade…"
Outro pequeno movimento do colchão.
— "É pra dar um neto pra tua mãe."
O silêncio que veio depois não era dúvida.
Era entrega.
A respiração dela mudou.
Mais profunda.
Mais irregular.
E mesmo tentando ser discreta…
escapava.
Abel ainda parecia dividido:
— "Você fala isso como se fosse simples…"
Ela respondeu na hora.
Sem pensar.
— "E não é?"
Um leve riso abafado.
— "Ou você vai dizer que não quer?"
O som do lençol se mexendo.
A madeira da cama rangendo mais uma vez.
Agora sem tanto cuidado.
Ela voltou a falar.
Mais próxima.
Mais intensa.
— "Para de pensar…"
Pausa curta.
— "Só continua."
O silêncio entre as frases começou a diminuir.
Substituído por respiração.
Contato.
Presença.
Em um momento, a voz dela veio mais baixa ainda.
Mas clara.
Direta.
— "Assim…maia fundo…"
Uma pausa.
— "Isso…"
E então, quase imperceptível:
— "Mais…jorra tudo no meu útero…me engravida…"
Meu corpo inteiro estava tenso.
Mas eu não me mexi.
Não podia.
Porque naquele ponto…
eu já não era mais parte daquilo.
Eu era só alguém ouvindo o próprio casamento acabar…
sem interromper.
A Kombi parecia pequena demais.
O ar pesado demais.
O som alto demais…
mesmo sendo quase silêncio.
E ali, de olhos fechados…
fingindo dormir…
eu entendi uma coisa que nunca mais saiu da minha cabeça:
não era só traição.
Era escolha.
E ela já tinha escolhido.
[CONTINUA]
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