Capítulo 7
Bebemos o resto das cervejas e quando acabaram, entornamos a vodka misturada com suco, o álcool desceu quente pela garganta e logo bateu forte, deixando a cabeça leve, o corpo mole, as risadas saindo mais fáceis ajudando a aliviar a tensão de mais cedo.
Mas o efeito foi cortado de uma hora pra outra pelo pânico puro.
A chuvinha fina que tinha começado a cair, fazendo aquele barulhinho gostoso no telhado, virou outra coisa em minutos. O vento uivou de repente, forte o suficiente pra sacudir as janelas, e a chuva veio grossa, pesada, batendo como se quisesse entrar pela casa inteira. As árvores do quintal começaram a balançar loucamente, galhos estalando alto, troncos rangendo como se estivessem sendo arrancados do chão. A gente ouviu o primeiro estrondo: uma árvore maior tombou com um baque surdo que fez o chão tremer, caindo bem perto da varanda. Outra veio logo depois, levando junto o alpendre inteiro. Madeira estalando, telhado despejando as telhas pelo chão e pedaços voando com o vento.
A gente correu pra sala, abraçada uma na outra, coração na boca. Jana pegou o celular primeiro, dedos tremendo enquanto tentava ligar pros pais, pra qualquer um. Nada. Sem sinal, sem barra, sem nada. Eu tentei o meu também, mesmo sabendo que era inútil. A rede tinha sumido, como se o mundo lá fora tivesse sido desligado. A energia foi embora segundos depois: as luzes piscaram duas vezes e apagaram de vez. A casa ficou escura, só iluminada pelos relâmpagos que cortavam o céu, iluminando tudo por frações de segundo e deixando a gente cega logo em seguida.
Jana começou a chorar baixinho, encostada na parede, celular ainda na mão como se fosse salvar a gente. Eu abracei ela por trás, tentando parecer calma, mas minha voz saiu tremida.
— Tá tudo bem, Jana... a casa é forte, vai aguentar. A gente só precisa esperar passar.
Mas eu mesma tava morrendo de medo. O vento entrava pelas frestas, gelado, carregando cheiro de terra molhada e madeira quebrada. A chuva batia tão forte que parecia que ia furar o telhado. Relâmpagos iluminavam o quintal destruído: árvores caídas atravessando o caminho, galhos espalhados, o alpendre virado um monte de entulho. A gente não ia a lugar nenhum. Estava isolada de verdade, trancada ali dentro, só nós duas, a tempestade e o escuro.
Sentamos no sofá, enroladas no cobertor mais grosso que achamos, ouvindo o barulho do mundo lá fora tentando entrar. Jana encostou a cabeça no meu ombro, ainda fungando, e eu passei o braço em volta dela, apertando forte. O álcool ainda rodava no sangue, mas agora misturado com adrenalina, deixando tudo mais intenso: o frio na pele, o cheiro dela perto, o coração batendo rápido contra o meu.
A tempestade não dava trégua. Relâmpago, trovão, vento uivando. A casa rangia, mas aguentava. E a gente ficou ali, esperando, sem saber quanto tempo ia durar, sem saber o que viria depois que o céu acalmasse.
Tudo foi rápido demais. Tempestades assim na serra são comuns, com relâmpagos que iluminam o céu inteiro e trovões que parecem explodir dentro do peito, mas essa veio diferente, mais violenta, mais faminta. E foi embora do mesmo jeito que chegou: instantaneamente. O vento parou de uivar, a chuva virou um chuvisco preguiçoso, e o silêncio caiu pesado, quebrado só pelo gotejar da água nas calhas amassadas e pelo rangido ocasional da madeira da casa se acomodando.
Eu fui até a janela da sala que abria com dificuldade, empurrando com o ombro porque a madeira inchou com a umidade. Sem coragem de abrir a porta e sair, só fiquei olhando os danos lá fora. O quintal era um caos: árvores tombadas atravessando o caminho como se tivessem sido jogadas por uma mão gigante, galhos espalhados, o alpendre virado entulho, telhado de telhas de barro retorcido. Ao redor tudo era breu absoluto, só umas luzinhas fracas tremendo nas casas vizinhas — lanternas ou velas nas janelas, iluminando pouco, como se o mundo tivesse voltado cem anos. Eu nem tinha pensado em ter vela ou lampião em casa. A gente passou todo esse tempo na escuridão, iluminando só com a luz fraca dos celulares que tavam com as baterias quase mortas, piscando vermelho de aviso.
— Jana, a gente é burra pra caralho. Vê se tem vela na cozinha.
Ela saiu tropeçando no escuro, tateando as paredes, enquanto eu fiquei ali parada, encostada no vidro frio, olhando pro nada. Foi quando vi uma luz mais forte crescendo lá longe. Vinha na nossa direção, cambaleante, piscando como um fogo-fátuo que não decide se quer apagar ou ficar. Parecia uma pessoa carregando um lampião ou uma lanterna forte, balançando com o passo irregular.
Uma mulher, talvez? Eu conseguia ver os cabelos longos balançando contra a claridade, silhueta fina contra o breu. Ela parava de vez em quando, ziguezagueava, como se procurasse um caminho entre as árvores caídas e a lama, mas era certo que vinha direto pra cá. Talvez um vizinho preocupado, pensei. Alguém que viu a árvore cair na nossa varanda e resolveu checar se a gente tava bem. Ou talvez só alguém perdido na escuridão, procurando abrigo.
Meu coração acelerou de novo, mas dessa vez não era medo puro. Era curiosidade misturada com alívio. A luz ficava mais forte, mais perto, balançando ritmada, como se quem carregava soubesse exatamente pra onde ia.
Quando o vulto carregando a luz tomou forma de verdade, Jana e eu ficamos morrendo de medo. A silhueta se aproximou devagar, pisando na lama grossa que cobria o quintal, e a claridade do lampião revelou tudo: era um homem de uns cinquenta anos, cabelos longos caindo molhados pelos ombros, maquiagem borrada pelo temporal. Batoms vermelho escorrido nos cantos da boca, lápis de olho preto escorrendo em linhas finas pelas bochechas, cílios postiços ainda grudados, mas tortos. Vestia galochas pretas sujas de barro, um poncho de chuva amarelo velho que pingava água, e na cintura um facão grande, daqueles de roçar mato, balançando na bainha de couro. O sorriso que ele trazia era largo, mas tinha algo estranho ali, como se não chegasse aos olhos.
— Vocês tão bem?
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