TEX
O ronronar constante de Penelope costumava ser a coisa mais relaxante do mundo. Esta noite, ele simplesmente me dava nos nervos, deixando-me ainda mais tenso enquanto eu me sentava na cama examinando os arquivos do meu pai. A cauda de Penelope balançou, batendo em uma pasta e espalhando papéis pelo edredom.
— Ok, chega. Eu te amo, mas você tem que ir. — Peguei-o no colo, e ele apoiou as patas enormes no meu ombro, me massageando por cima da jaqueta que eu ainda usava. — Que tal um petisco e um pouco de música?
Carreguei Penelope até a cozinha e peguei uma lata de comida úmida. Ele se enrolou nos meus tornozelos, miando tão alto para mim que me fez rir. Coloquei sua tigela no chão e liguei a TV. Uma música suave e calma começou a tocar enquanto eu apagava as luzes, deixando apenas o brilho fraco das luzes de presença que instalei caso Penelope sentisse medo do escuro.
É, isso era estúpido pra caramba. Meus amigos apontaram isso para mim várias vezes, garantindo que ele conseguia enxergar no escuro, mas eu ainda me sentia melhor sabendo que as luzes estavam lá para ele.
Fiz carinho nele com movimentos longos e firmes, e seu ronronar aumentou. Sorrindo, balancei a cauda dele de um lado para o outro até perceber que não podia mais procrastinar. Levantei-me e suspirei.
— Certo, sem volta agora. Preciso analisar esses arquivos. Comporte-se, Pen.
Ele me ignorou enquanto se esbaldava na comida. Aquela dor que crescia rapidamente estava de volta no meu peito. Esfreguei o local, tentando apagar a crise de solidão iminente que costumava me levar a mais uma bebedeira. Penelope era incrível; ele me mantinha vivo. Mas, às vezes, parecia que ainda faltava algo.
Não tenho tempo para refletir sobre a minha vida deprimente.
Acomodei-me novamente na cama e voltei a pesquisar os arquivos. Havia muito mais informação do que eu pensava. Coisas pequenas: pontos de encontro, associados conhecidos, histórico. A maior parte era provavelmente inútil, mas eu rezava por uma agulha em um palheiro.
Meu celular vibrou e eu o peguei.
— E aí — disse Chelsea, com a voz carregada. — Bom saber que você não está morto. Talvez eu tenha dado uma olhada nas suas câmeras de segurança quando você chegou em casa. — Por que eu não estou surpreso? — Você está bem? — Não — respondi com sinceridade. — Uma carreira de pó nunca pareceu tão tentadora na minha vida. — Não faça isso — ela disse baixinho. — Eu sei que é difícil quando as coisas viram de cabeça para baixo, mas você sabe onde isso vai te levar. Além disso, você não quer perder o emprego e ter que começar tudo do zero. Quer que eu vá aí?
Sorri com a preocupação de Chelsea. Éramos velhos amigos por um motivo. Ela era uma das poucas pessoas que conheciam todos os meus segredinhos sujos, e eu conhecia os dela. Sempre que eu estava prestes a vacilar, Chelsea era a primeira pessoa para quem eu ligava para me manter sóbrio.
— Tex? — Não sei. Talvez você pudesse... — Meus dedos deslizaram sobre os papéis na cama e eu parei. Vasculhei-os até descobrir um rosto familiar. — Uau. — "Uau" o quê? — ela perguntou. — Tex?
— Nada — eu disse rapidamente. Analisei a página. Brycen Grennan. O ex-amante de Enzo. Meu estômago deu um nó apertado. Se eu continuasse nesse ritmo, desenvolveria uma úlcera. Aí eu seria realmente igual ao meu pai. — Acho que estou bem por hoje — falei para Chelsea. — Preciso dormir se quiser resolver isso amanhã. — Resolver o quê? — Com quem, porra, eu estou lidando.
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Bati na porta novamente, a tinta verde descascada grudando nos meus nós dos dedos. Esfregando o punho contra o jeans, congelei quando a porta abriu meia polegada. Um olho me avaliou de cima a baixo, e o cheiro de fumaça de cigarro flutuou no meu rosto.
— O que foi? — perguntou uma mulher. — Você é a Abigail? — E quem é você?
Tirei meu distintivo. — Oficial Caster. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre seu irmão, Brycen Grennan. — Por quê? Já respondi a todas as malditas perguntas que consigo imaginar. A menos que você o tenha encontrado, qual é o objetivo?
Coloquei minha melhor voz oficial, tingida de autoridade e simpatia. — Levará apenas alguns minutos. Por favor, senhora.
Ela suspirou e fechou a porta. O som de uma corrente deslizando ecoou no corredor vazio antes que ela parasse diante de mim. Abigail se parecia com Brycen. Tinham o mesmo cabelo e olhos. Havia olheiras profundas sob os olhos dela, e um cigarro pendia de seus dedos.
— Entre.
Eu a segui para dentro do apartamento. Sentamos, e ela bateu o cigarro contra um cinzeiro de vidro pesado.
— Eu ofereceria café, mas não quero que isso vire uma visita social — disse ela secamente. — Faça suas perguntas e vá embora. — Certo. — Encostei-me na cadeira de metal rangente. — Eu esperava que você pudesse me falar sobre Brycen. Sobre o que aconteceu com ele. — Você não sabe? — ela perguntou. — Eu gostaria de ouvir de alguém que passou por isso.
Isso e o fato de que eu não sabia exatamente. Tinha feito minha pesquisa na noite anterior e consegui encontrar alguns fatos na internet. No entanto, eu não podia simplesmente entrar na delegacia e começar a pesquisar essas coisas. Tudo era monitorado. Se eu fosse pego procurando algo onde não deveria meter o nariz, seria demitido e poderia até responder a processos. Não, era melhor fazer isso por conta própria.
— Brycen é... era... meu irmão mais novo — disse ela brevemente. — Ele estava indo muito bem na vida até se envolver com aquele animal. — Animal? — Enzo Vitale — ela cuspiu. — A família inteira é cheia de bandidos criminosos. — Ela riu secamente. — Eu costumava ter medo de falar sobre eles, mas não me importo mais. Meu irmão pode ter sido muita coisa, mas era bom para mim. Para a nossa família. Mesmo que ele deixasse todos nós loucos.
Franzi a testa. — Como assim? — Brycen gostava de fugir. Ele era selvagem, sabe? Festas, bebidas, caindo na cama com o tipo errado de homem. Eu sempre o avisava que isso o levaria à morte... — Ela parou, uma lágrima rolou por sua bochecha antes de limpá-la com o braço. — E levou.
— Bem, ele é dado como morto a esta altura — ela murmurou. — De acordo com a polícia, é apenas uma pessoa desaparecida, mas eu sei a verdade. Meu irmão está morto, e Enzo o matou.
Um calafrio percorreu minha espinha. — Por que você acha isso? — Ele costumava enviar flores para cá depois que aconteceu. Nunca havia cartão nem nada, mas eu sabia que eram dele. Às vezes eu o via do outro lado da rua, encarando o apartamento. Ou ele ligava e desligava sem dizer nada. Ele me dá calafrios — disse ela. Ela deu uma tragada longa e lenta no cigarro. — Não sei em que o Brycen se meteu, mas o que quer que tenha sido, o matou.
— Sinto muito — eu disse baixinho. Ela deu de ombros. — O que o "sinto muito" resolve? Homens como os Vitale não se importam com ninguém além de si mesmos. Matar pessoas faz parte do que eles fazem. Eu só queria que meu irmão idiota tivesse me ouvido quando eu disse isso a ele. — Ela fungou forte, com a respiração entrecortada. — É só isso?
Estiquei a mão sobre a mesa e coloquei-a sobre a dela. — Eu poderia ver o quarto dele? Abigail riu. — O que mais você quer de mim? — ela disparou. — Você vem aqui remexer em uma história de mais de dois anos e agora quer revistar o quarto dele? Pois adivinhe? Não tem nada lá. Doei o que pude, vendi o resto, e o que sobrou está em um depósito. Agora — ela arrancou a mão da minha enquanto sua cadeira arrastava no chão de linóleo — saia da minha casa. Terminei. A menos que você venha me dizer que aquele filho da puta e a família dele estão presos ou mortos, não volte aqui.
Assenti. — Obrigado pelo seu tempo.
Abigail me acompanhou até a porta sem dizer mais nada. Assim que a porta se fechou, olhei para trás por cima do ombro. Podia sentir os olhos dela em mim pelo olho mágico, então continuei andando.
Esperei até estar de volta ao carro antes de ligar para Chelsea. Ela atendeu, com a voz cautelosamente otimista.
— Preciso que você faça a sua mágica — eu disse. — Abigail Grennan. Ela tem um depósito em algum lugar e eu quero dar uma olhada. Consegue encontrar para mim? — Mais rápido do que você imagina — disse ela. — Devíamos nos encontrar para jantar. — Não estou com fome — murmurei, ignorando o ronco no meu estômago. — Preciso de um tempo para pensar. — Tex, você não parece bem — ela disse, com a voz tensa. — Por favor, vamos jantar e podemos conversar sobre o que quer que esteja acontecendo. Talvez eu possa te ajudar a entender.
Eu amava a Chelsea, mas queria ficar sozinho por enquanto. Minha mente não conseguia processar os detalhes se eu tivesse que conversar com alguém e fingir coragem, agindo como se não estivesse confuso e perdido. E, até agora, eu estava muito perdido.
Brycen Grennan estava presumidamente desaparecido, mas sua irmã achava que ele estava morto. Ele estava? Ou simplesmente tinha ido embora? Abigail disse que ele gostava de fugir, de desaparecer. Dois anos era muito tempo para vagar por aí, mas eu também fugiria se tivesse um mafioso na minha cola. Especialmente se fosse depois daquela foto onde Brycen parecia ter sido espancado brutalmente. Talvez ele tenha sido esperto o suficiente para partir e permanecer sumido.
— Tex. Estou preocupada com você — disse Chelsea. — O que quer que seja isso, você deveria largar e seguir em frente. — Você já analisou o disco rígido? — Não — ela murmurou. — Estou tentando, mas muita coisa está em código. Ele foi esperto o suficiente para criptografar quase tudo ou pedir para alguém fazer isso. — Quanto tempo você acha que vai levar para terminar? — Não tenho certeza se eu deveria fazer isso.
Parei e apertei o volante. — O quê? — Você está ficando obcecado — disse ela com firmeza. — Não quero ser parte do motivo de você entrar em espiral.
Apertei a ponta do nariz. — Só faz o trabalho, Chelsea. Ou me devolve e eu encontro alguém que saiba fazer a porra do serviço. — Fine. Babaca.
Ela desligou e eu encarei a tela. Ótimo. Além de me sentir mal, agora eu me sentia um escroto também. Bati a cabeça no volante. Peço desculpas a ela mais tarde. Eu estava tão perto de descobrir o que estava acontecendo, mas precisava de mais. Aprender sobre Brycen era um projeto pessoal. Eu não fazia ideia se conseguiria culpar o Enzo. Ou se seria o suficiente. Eu tinha que continuar cavando.
Eu estava tão perto de me tornar detetive que podia sentir o gosto. Um grande caso e eu chegaria lá. Girei meus ombros, tentando aliviar a tensão que os deixava rígidos. Mas a tensão permaneceu ali, como uma pedra comprimindo meu peito e deixando minha pele apertada.
Eu poderia estar prestes a conseguir tudo o que sempre quis. Então, por que tudo parecia tão vazio?
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ENZO
O cheiro de cigarro pesava no ar enquanto eu esperava no cais. Nem mesmo o aroma salgado do oceano conseguia dissipá-lo. Fechei as pálpebras por um instante. Precisava de um segundo para me recompor. Vinha fazendo muito isso ultimamente, tentando me agarrar ao controle de que tanto me orgulhava. Mas, no momento em que eu relaxava, aqueles olhos azuis surgiam diante de mim, emoldurados por cílios pretos e espessos em um rosto bem escanhoado. Uma mandíbula marcada, perfeita para ser mordiscada, e lábios rosados e macios que se curvavam em um sorriso ousado.
— Abra o caixote — disse Benito.
Meus olhos se abriram num estalo ao som da voz de Benito, e forcei tudo para o fundo da mente. Se meu irmão percebesse o quanto eu estava aéreo, a história se repetiria. Eu não poderia passar por aquilo de novo.
Três dos nossos homens enfiaram pés de cabra sob a tampa de madeira grossa e a forçaram. A cobertura bateu pesadamente no chão ao lado da caixa enquanto o conteúdo era revelado. Ou a falta dele.
— Porra — resmungou Gin. Nossos olhares se cruzaram por um segundo antes de ambos olharmos para Benito. Ele estava parado diante do caixote vazio que deveria conter o carregamento de rifles. Armas que já tínhamos vendido.
— Abram todas as malditas caixas — disse Benito por entre os dentes cerrados.
Gin e eu pegamos pés de cabra e fomos para os outros caixotes. Todos os homens estavam lá fora abrindo as caixas. Uma por uma, elas apareciam vazias. Havia apenas palha.
Gin veio em minha direção. — O que diabos você acha que aconteceu?
Balancei a cabeça. Talvez se minha mente não estivesse dispersa e meus pensamentos não estivessem saltando constantemente para um certo policial, eu teria uma resposta.
O som de um tiro ecoou ao nosso redor. Não precisamos correr para saber o que tinha acontecido. Endireitei as costas e caminhei até meu irmão, enquanto um dos homens jazia no chão, balançando-se para frente e para trás enquanto segurava o joelho ensanguentado.
— Você estava encarregado do carregamento. Não consigo conceber como duzentos rifles de assalto e pistolas sem numeração desaparecem. — Benito estava parado sobre ele, com a arma firme apontada para o rosto de Benjamin.
— Eu não sei — Benjamin conseguiu balbuciar.
Ele estava conosco há algum tempo, quase dois anos, e deveria saber que as palavras favoritas de Benito não eram "eu não sei". Como se para lembrá-lo desse fato, Benito disparou a bala seguinte no outro joelho.
Benjamin soltou um grito indignado que superou de longe o estrondo da arma. Ele xingava enquanto agarrava as duas pernas ensanguentadas. O sangue espirrou por todo o chão e em alguns caixotes próximos. A cena era comum, e todos ficaram ali parados observando-o enquanto ele tentava estancar a hemorragia.
Quanto mais irritado meu irmão ficava, mais carregado seu sotaque italiano se tornava. — Você espera que eu acredite nessa merda? Onde estão as minhas armas? — Benito perguntou.
Ele olhou para os outros que estavam em volta, e cada um evitou seu olhar. Nada bom. Minhas mãos tremeram. Eu me divertiria mais tarde naquela noite. Conseguia visualizar agora: o sangue e os gritos da verdade finalmente vindo à tona. Geralmente isso me enchia de uma excitação fria que durava horas, mas agora parecia nada mais do que um formigamento na base da minha espinha.
— Então ninguém aqui sabe? — Benito perguntou.
Ninguém falou, e Gin girou os ombros para trás, parecendo igualmente furioso. Deu muito trabalho conseguir as armas e ainda mais trabalho para garantir que fossem entregues sem interrupções.
— Chefe, eu estou dizendo a verda— — Benito puxou o gatilho, inevitavelmente silenciando Benjamin para sempre. O corpo dele caiu pesadamente contra o chão. Suas pernas ficaram em ângulos estranhos enquanto o sangramento diminuía por conta própria. Ninguém se atreveu a se mexer.
— Alguém quer se adiantar e falar, ou esta vai ser a nossa noite? — Benito perguntou calmamente. Seu olhar percorreu nossos homens. Havia alguns que pareciam prontos para sair correndo na primeira oportunidade.
— Tente e será o último passo que você dará — Gin ameaçou.
Um erro é um depósito ser descoberto, mas aquilo foi deliberado. A quantidade de dinheiro que acabáramos de perder era um golpe pesado. Primeiro, o depósito com as drogas, e agora isso.
— Quem estava abaixo de Benjamin? — Gin perguntou.
Dois homens deram um passo à frente. — Nós estávamos.
Benito guardou a arma. — O resto de vocês, limpem essa merda. Vocês dois, vamos conversar.
Eles assentiram e seguiram meu irmão. Peguei o olhar de Benito e soube que deveria ir atrás. Gin ficou para supervisionar a limpeza. Atravessamos inúmeros contêineres de transporte, alguns pertencentes a outras famílias. Os dois à minha frente olhavam ao redor nervosamente.
— Eu não tentaria — eu disse quando o da direita hesitou no passo. Ele olhou por cima do ombro, e seus olhos se arregalaram como se me notasse pela primeira vez. Ele engoliu em seco audivelmente.
— Chefe, nós só fizemos o que o Benjamin disse. Nós não...
— Ótimo, então esta será uma conversa rápida e vocês poderão ir para casa para suas esposas — disse Benito.
Era mentira. Ele não ia deixá-los sair; eles nunca veriam o sol de amanhã. Eles tinham feito merda, e sabiam disso.
— Sério, chefe. Dei toda a minha vida à família Vitale. A organização é tudo o que eu tenho.
Ignorei os apelos do cara; estavam caindo em ouvidos moucos. Benito dava tudo de si pela família e pelo que construímos, mas não tolerava que ninguém tentasse foder com os nossos.
O cara da direita torceu o corpo levemente e, se eu não estivesse observando desde o momento em que saímos das docas, não teria percebido. Enquanto o colega implorava, ele saiu em disparada.
— Não o mate — disse Benito.
Suspirei enquanto corria atrás dele, o ar frio de Nova York batendo contra meu rosto. Meus pulmões ardiam com o ar gélido entrando e saindo enquanto eu o perseguia.
Ele se virou com a arma na mão. Estava dificultando as coisas para si mesmo. Mergulhei para o lado no momento em que ele disparou duas vezes.
— Eu não sei de nada! — ele gritou.
Então por que está correndo? Não perguntei em voz alta; eu o questionaria mais tarde. Esperei até ouvi-lo correndo novamente antes de persegui-lo. Subi no topo de um dos contêineres, o metal gelado queimando minhas mãos enquanto eu rastejava por cima.
Meu olhar percorreu a área e o avistei, com a cabeça espiando por uma esquina, esperando que eu aparecesse. Sua arma estava apontada para o ponto onde eu estaria se ainda estivesse no chão.
Respirei fundo, ergui minha arma e disparei. A bala cortou o ar e atingiu o braço dele. A arma dele caiu no chão com um barulho metálico. Levantei-me e pulei do topo, agachando-me ao aterrissar. Ignorei a leve dor nos joelhos. Eu estava ficando velho demais para essa merda.
— Porra, porra, porra. — Ele estava curvado, segurando o braço.
Caminhei calmamente até ele, com a arma ainda erguida. Ele levantou a cabeça e nossos olhos se encontraram antes que eu desferisse a coronhada da arma contra sua têmpora. Ele desabou, e mais três dos nossos homens dobraram a esquina.
— Amarrem-no e levem-no para o depósito.
— Sim, chefe. — Eles se moveram em uníssono.
Encontrei Benito parado ao lado de seu carro. — Diga-me que não vou ter que mandar limpar o pátio de cargas inteiro.
Balancei a cabeça. — Apenas um ferimento de bala.
Ele assentiu. — Descubra tudo. Alguém está nos fodendo.
Gin veio correndo até nós, com uma leve camada de suor cobrindo a pele. — O cara que costuma ficar de guarda por aqui disse que foi dispensado várias vezes na última semana. Pelos nossos caras.
Benito praguejou. — Lealdade não vale mais merda nenhuma hoje em dia?
— Vamos colocar isso sob controle, Benito — disse Gin.
Era raro Benito perder a compostura por mais de um milésimo de segundo. Ele respirou fundo, de forma controlada. — Eu sei. — Ele encarou cada um de nós antes de assumir o volante de seu carro.
— Só espero que não seja um fiasco como há dois anos — disse Gin.
Meu estômago revirou e assenti em concordância. Ele colocou a mão no meu ombro.
— Precisamos sair daqui. Já causamos uma cena desgraçada. Eles já desviaram a polícia o máximo possível.
A menção à polícia trouxe o rosto de Tex à minha mente. Gin assobiou.
— Enzo — disse ele em tom de alerta.
— Eu sei.
Ele me encarou antes de assentir. Girei nos calcanhares e fui para o meu carro. Antes de dar a partida, verifiquei onde Tex estava. Eu tinha apenas um rastro dele agora.
Tex estava trabalhando, mas estava do outro lado da cidade, e um suspiro de alívio escapou. Eu precisava colocar as coisas sob controle. Logo.
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O Santuário de Sangue
Enfiei o bisturi sob a unha e o movi para frente e para trás lentamente, enquanto gritos abafados ecoavam ao meu redor. A unha saiu, fios de sangue e carne grudados na parte de trás dela. Foi uma extração razoavelmente limpa. Gotas de carmesim borbulharam na superfície antes de escorrerem e pingarem no chão, juntando-se à poça crescente.
O fedor de urina perfumava o ar, e franzi o nariz com nojo. Olhei para o homem na minha mesa. Seus olhos verdes estavam arregalados e vermelhos enquanto ele me encarava, implorando sem palavras.
— Eu só cheguei na metade desta mão e você já está desistindo? — O desapontamento transbordava em minhas palavras.
Ele tremeu e balançou a cabeça. — Ainda não sei de nada.
Sorri. — Então vou continuar.
O outro homem estava amarrado ao teto. Seus olhos estavam vidrados enquanto ele olhava para mim. Eu podia alternar entre os dois, indo e vindo. Os tentáculos gelados da calma me desaceleravam, lembrando-me de que eu não precisava ter pressa. Respostas era o que eu buscava. Assim que as tivesse, estaria livre para fazer o que quisesse.
Removi todas as unhas de uma mão e depois da outra. Errei no dedo mindinho porque ele começou a se debater na mesa. Removendo o pano úmido de sua boca, ele cuspiu e tossiu.
— Com quem você está trabalhando?
Ele balançou a cabeça. — Ninguém. Eu juro.
Assenti e fui até o que estava pendurado no teto. O sangue escorria do ferimento de bala no braço. Mas, com o membro elevado, o fluxo tinha diminuído drasticamente.
Minha mão colidiu com o rosto dele, mas o olhar vago permaneceu em seus olhos. Abri o armário que mantínhamos à mão e peguei a motosserra no fundo. Não era a minha favorita, mas funcionava.
— O-o que você está fazendo? — gaguejou o que estava na mesa.
Não me dei ao trabalho de responder enquanto pressionava o dedo no acelerador e puxava a corda para ligá-la. O motor rugiu à vida, e a vibração me sacudiu até os dedos dos pés. Se o cara na mesa disse mais alguma coisa, eu não consegui ouvir por causa do barulho da serra.
Dando um passo à frente, ergui a ferramenta. Como se eu tivesse jogado água gelada nele, o homem suspenso no teto estremeceu. As correntes que o seguravam chocalharam.
— Mas que porra! — ele gritou por socorro enquanto lutava, balançando de um lado para o outro.
Meus dedos ficaram dormentes quanto mais eu segurava a motosserra. Deixei-o balançar, mas ele perdeu o controle. Seu corpo começou a girar em círculos. O sangue da ferida dele caiu na minha camisa branca, fazendo surgir uma mancha escarlate.
Foquei nela por um segundo, ignorando os dois e mergulhando no êxtase do caos. Onde alguns se sentiam fora de controle, eu me sentia normal. Era como eu imaginava que todos se sentiam todos os dias: com o cérebro sem estar em chamas e sem tentar destruí-los constantemente.
Um sorriso lento curvou meus lábios enquanto eu dava um passo à frente e estendia a motosserra. Ele não conseguiu parar o ímpeto de seu corpo e balançou direto contra a serra. Ele ficou preso, e os gritos se intensificaram quando a corrente começou a rasgar a carne.
Com ele pendurado, eu não conseguia aplicar pressão suficiente para cortar o osso. Puxei a motosserra, piscando para afastar os pontos vermelhos na minha visão. Tive que limpar meus olhos e óculos. O sangue jorrou da ferida e eu pude distinguir os músculos e o osso que não tinha conseguido atravessar.
O corpo dele balançava inerte para frente e para trás, e eu não precisava olhar para cima para saber que a vida estava se esvaindo de seus olhos. Fui até o amigo dele, deixando a motosserra morrer para que pudesse falar com ele.
— Ele estava se encontrando com um policial! — o homem na mesa gritou. Ele balançou a cabeça, recusando-se a olhar para o outro sujeito. — Por favor, nós não sabíamos que isso ia acontecer.
— O que você achou que ia acontecer?
— O cara só deveria levar um caixote ou dois. — Seus olhos saltaram quando puxei a corda da motosserra. — Espere. Espere!
O motor não tinha pegado, e parei, deixando o cabo retrair. Ergui uma sobrancelha.
— Eu não tenho um nome. — Ele lambeu os lábios rachados antes de tossir. — Eu juro. Por favor.
— Quem era?
Ele balançou a cabeça. — Nenhuma ideia. Só o vi uma vez, e ele estava de máscara.
— Em outras palavras, você não é mais útil.
— Espere, eu poderia identificá-lo! — Ele estava tentando se salvar a qualquer custo.
Minha cabeça já negava antes mesmo de ele sugerir. — Impossível fazer todos os policiais de Nova York ficarem em fila para você escolher quem acha que pode ser.
Eu teria que investigar todo o trabalho passado de Benjamin e ver onde e quando o dinheiro começou a sumir, junto com os produtos. A motosserra rugiu mais uma vez, abafando os gritos e xingamentos.
Isso é o paraíso.
Assim que tudo terminou, saí da sala, limpando o sangue dos óculos antes de colocá-los. O sangue me cobria da cabeça aos pés. Eu não precisava ver meu reflexo para saber como estava. Um sorriso se estendeu em meus lábios enquanto eu permanecia ali, na bagunça que eu mesmo fizera. Era o único momento em que tudo não era esmagador. Nenhuma quantidade de barulho, cheiro ou toque conseguia me privar da calma que corria por mim.
— Enzo — Benito chamou.
Eu não pulei; a reação fora extirpada de mim há muito tempo. Virei-me para olhar para meu irmão. Ele normalmente nunca ficava por perto quando eu tinha que torturar. Um cigarro pendia entre seu dedo indicador e o médio. A brasa brilhava vermelha antes de um fio de fumaça se curvar no ar.
Eu estava tão inebriado pelo momento de normalidade que nem tinha notado o cheiro. Benito se desencostou da parede, seu olhar pesado me prendendo no lugar enquanto ele se aproximava. Ele deu outra tragada ao parar bem na minha frente. Ele era muito mais alto que eu, mas meu irmão nunca usara isso contra mim, pelo menos não desde que éramos crianças. Inclinei a cabeça levemente para trás.
— Você ainda tem aquela foto?
Meu estômago apertou, sabendo exatamente a qual ele se referia. Lutei para continuar encarando-o de frente. A normalidade estava escapando antes que eu estivesse pronto.
— Sim.
Benito assentiu e fez menção de passar por mim. Ele colocou uma mão pesada no meu ombro e apertou. — Você sabe por que eu fiz você guardá-la, não sabe?
— Para que eu não repetisse meu erro.
O aperto de Benito aumentou. — Você está? — Virei-me para olhar para meu irmão mais velho. Seu olhar era inabalável. — Você está repetindo seus erros, Enzo?
Meus batimentos cardíacos diminuíram enquanto as pontas dos meus dedos esfriavam. Minha resposta instantânea deveria ser não. No entanto, o rosto de Tex surgiu diante de mim e como eu o deixara sair da minha casa. Eu nem sequer o tinha revistado.
— Enzo. — A voz de Benito baixou um tom. — Non mentirmi, fratello.
Minha língua pareceu pesada na boca, e o sangue que me cobria pareceu apertar. Eu queria lavar tudo aquilo. Quanto mais tempo eu ficava com aquilo em cima de mim, mais parecia que eu estava em um quarto do tamanho de um armário que encolhia a cada segundo.
Se eu contasse a verdade, Tex teria o mesmo destino. Ou ele seria tirado de mim, e esse pensamento tornava a respiração difícil.
— Foco. — Um italiano rápido saiu da boca de Benito.
Para mim, soava como palavras distorcidas com estática por cima. Abri a boca para perguntar "o quê", mas isso também não funcionou. Meu peito começou a queimar, e fiquei ali congelado, incapaz de falar.
— Respire, fratello. — Benito pressionou nossas testas uma contra a outra. — Você é meu irmão, e sempre teremos um ao outro.
— Familia é tudo.
Benito se afastou, e um pouco de sangue seco grudou em sua pele morena clara. Ele não se incomodou, mas meus olhos não saíam da mancha até que ele a limpasse. Ele passou a mão sobre ela, e os pedaços flutuaram até o chão.
— Preciso me envolver?
Balancei a cabeça. — Não vou repetir o erro.
Os ombros de Benito relaxaram. — Bom. — Ele deu um tapinha no meu ombro antes de caminhar em direção à saída. Parou antes de sair. — Descubra quem está nos traindo.
Eu descobriria. Só esperava que não tivesse nada a ver com Tex.