Capítulo 1
Lembro do sofrimento da mamãe. Os anos de tratamento, remissão, morte, foram também os meus anos de sofrimento com os dentes de leite e os permanentes. A mamãe era quem os amolecia e os tirava sem que eu percebesse porque tinha mãos suaves, macias e leves.
Hector ajudava bastante. Porque a mamãe viajava mais de três vezes ao mês por causa da saúde. Como éramos, ela, ele e eu, quando a mamãe partia, ele assumia as rédeas dos cuidados com a casa e todo o resto.
Eu não tenho lembranças do período anterior a ele. A mamãe nunca disse como meu pai biológico sumiu. Mas sempre fez questão da verdade: Hector não era o meu pai, sim padrasto.
Hector era carinhoso comigo do jeito dele. A mamãe achava engraçado quando ele brincava comigo:
- Você é um cachorrinho, au, au - e dava algum petisco, geralmente doce.
Eu não entendo de muita coisa, muita coisa mesmo, posso estar sendo injusta com ele, julgando com os olhos de hoje, acredito, acredito de verdade que o Hector usou psicologia em mim desde cedo. Bobagem ou não, acredito nisso quando lembro, por exemplo, dos momentos em que mesmo na frente da mamãe, me fazia descer do sofá para o tapete dizendo em seguida:
- Cachorrinho no chão... - e afagava minha cabeça quando eu obedecia rápido. - Boa garota.
Apesar disso, nunca tocou em mim, suas mãos, boca, e tudo o mais, sempre ficaram a uma distância segura. Não posso mentir e dizer que Hector fez o que não fez, nesse período, nunca, nunquinha! Mesmo depois também, exceto por esses gestos do apelido de cachorrinho e situações nas quais hoje interpreto como preparação do terreno.
Como eu disse acima, a mamãe viajava muito e no final ainda mais porque dependendo do seu estado nem voltava, era internação por dias. Até melhorar. O que devia levar três dias, tornava-se semanas.
Na hora do café da manhã, Hector demarcava bem que o meu devia ser no chão ao pé da mesa próximo ao Io, o seu cachorro doberman, e eu só podia começar depois do Io terminar o dele. Almoço, janta, petiscos, tudo no chão mas Hector sempre em pé ou sentado a mesa. Nas horas de sono, eu cochilava no tapete da sala durante a tarde, Hector vinha, me despertava sem alarde, e dizia:
- Cachorrinho, brincar, quintal.
A noite, para dormir, vinha ao meu quarto e se me via na cama, suspirava pesado, enrugava as sobrancelhas. Às vezes bastava para eu descer para o tapete. Hector comprou uma caminha daquelas parecendo um saco de acampar, médio, e a colocou na varanda do quintal próxima a churrasqueira. Longe da casa do Io, que ficava no muro.
Ele esperava eu dormir, entrava, me pegava no colo e punha dentro do saco no chão, encostada na churrasqueira. No inicio estranhei. Hector dizia que Io dormia no quintal também, era injusto deixá-lo sozinho.
- Cachorrinho, brinca, come, faz as necessidades e dorme do lado de fora - repetia para mim sem mais explicações
Eu voltava a dormir do lado de dentro quando a mamãe estava em casa mas com o passar do tempo, eu já fazia xixi e cocô do lado de fora também. Hector se afastava quando via. Depois, sempre dava um petisco gostoso, afagava nossas cabeças e orelhas.
- Cachorros inteligentes, - dizia enquanto nós dava os petiscos.
À mesa, às vezes, mamãe fazia questão de me colocar sentada em seu colo, eu evitava os olhos dele. Comia quietinha, e inquieta querendo descer. Hector mandava a mamãe me deixar no meu lugar.
Ele sempre dizia frases machistas e não importava quem estivesse a mesa, concordasse ou não.
Hector falava:
- A raça macho é superior. Na natureza é assim, na sociedade também.
Eu não prestava atenção em tudo, tudo, porque preferia brincar mas como Hector martelava as mesmas teclas, e os seus comandos eram naturais para mim, eu gravava logo, mesmo sem fazer esforço.
Outra frase que gostava de esfregar na cara de todos era:
- As fêmeas mais felizes de todas as espécies são as que entendem logo que o macho é dominante. Em todas as espécies. - Ele repetia.
A mamãe desde cedo, ensinou para mim como lavar o cabelo, escovar os dentes, higienizar frente e fundo, orelhas, olhos e nariz, então, eu era bem independente.
No dia em que o velório dela aconteceu lembro que chorei de sentir a cabeça doer e os ouvidos tampados. Fraca para banho, comida, ou brincadeiras.
Eu ficava dia e noite no meu saco de dormir. Hector botava a comida, a água, de hora em hora tocava em minha testa e pescoço, para medir a temperatura, acho, e deixava eu chorar meu luto.
Ele possuía dominio sobre mim o suficiente para saber que jamais deixaria de comer o que me desse mesmo triste de morte como eu estava. Sem fome. Mesmo assim, eu comia tudo.
Sem família materna ou paterna biológica próxima, Hector era minha única referência.
Não posso cravar certeza quanto tempo levou para fazermos as malas. Nem gosto de lembrar, a viagem desconfortável para outro estado, interior, zona rural de dificil acesso.
Mas foi aí que tudo realmente teve um inicio mais claro de como funcionaria dali para a frente.
* Trata-se de obra de ficção.
* Todos os personagens envolvidos na história são maiores de idade.