Primeiros Semestres
Parte 2 — Depois da Festa
Leonardo praticamente não dormiu naquela noite.
Mesmo horas depois de voltar para casa, ainda conseguia sentir o gosto do beijo de Miguel como se estivesse preso na própria pele.
E aquilo era desesperador.
Porque não tinha sido só um beijo.
Tinha sido a confirmação silenciosa de tudo que ele passou anos tentando esconder de si mesmo.
Na manhã seguinte, acordou cedo demais, mesmo tendo dormido tarde. Ficou encarando o teto do quarto enquanto o ventilador girava lentamente acima dele.
Seu celular permanecia virado para baixo na mesa.
Ele sabia que, em algum momento, precisaria olhar.
Precisaria descobrir se a noite anterior tinha significado para Miguel o mesmo que significou para ele.
O problema era justamente esse.
Tinha significado demais.
O celular vibrou.
Leonardo ficou olhando para ele por alguns segundos antes de finalmente pegar.
Miguel:
“Você tá vivo ou morreu de vergonha?”
Leonardo soltou uma risada involuntária.
O coração acelerou imediatamente depois.
Leonardo:
“Ainda decidindo.”
A resposta veio quase instantânea.
Miguel:
“Ótimo. Porque eu preciso te ver hoje.”
Aquilo fez o estômago dele virar completamente.
⸻
O campus estava lotado naquela tarde.
Gente atravessando corredores apressada, grupos sentados na grama, música saindo de caixas de som pequenas perto do bloco de artes.
Tudo parecia absurdamente normal.
O que irritava Leonardo.
Porque dentro dele absolutamente nada estava normal.
Ele encontrou Miguel sentado nos degraus perto da biblioteca, mexendo distraidamente no celular.
A simples visão dele já foi suficiente para trazer tudo de volta.
O sofá.
A chuva.
As mãos dele segurando sua cintura.
O beijo ficando mais intenso aos poucos.
Miguel levantou os olhos.
E sorriu imediatamente.
Aquilo deveria ser ilegal.
— Você veio.
— Você mandou mensagem como se fosse uma emergência.
— E é.
Leonardo arqueou a sobrancelha.
Miguel guardou o celular no bolso e ficou de pé devagar.
Perto demais outra vez.
Sempre perto demais.
— Eu passei a noite inteira pensando em você.
A sinceridade na voz dele fez Leonardo perder completamente a capacidade de responder por alguns segundos.
— Miguel…
— Não, espera. — ele respirou fundo. — Se você se arrependeu, tudo bem. Eu só… precisava saber.
Leonardo sentiu o peito apertar imediatamente.
Porque aquela insegurança também existia nele.
O medo de ter entendido tudo errado.
O medo de ser só curiosidade passageira.
O medo de acabar estragando a única amizade que realmente importava.
Mas então Miguel desviou os olhos por um instante.
E Leonardo percebeu.
Ele estava nervoso também.
Muito.
Aquilo deu coragem suficiente para diminuir a distância entre eles.
— Eu não me arrependi.
Miguel ergueu os olhos lentamente.
A tensão voltou inteira.
Mais forte.
Mais consciente agora.
Porque nenhum dos dois podia fingir que aquilo não existia mais.
— Então por que você tá me olhando como se eu fosse explodir? — Miguel perguntou baixo.
Leonardo soltou uma risada nervosa.
— Porque eu não faço ideia do que tô fazendo.
Miguel se aproximou mais um passo.
— Nem eu.
O silêncio entre eles ficou quente outra vez.
Cheio daquela eletricidade absurda que parecia surgir sempre que estavam próximos.
Leonardo percebeu o momento exato em que o olhar de Miguel caiu para sua boca.
E aquilo quase acabou com ele.
— A gente tá no meio da faculdade — Leonardo murmurou.
— Eu sei.
— Tem gente passando.
Miguel deu um sorriso pequeno.
— E você tá pensando nisso enquanto me olha desse jeito?
Leonardo odiava o efeito que ele tinha sobre ele.
Porque Miguel conseguia transformar nervosismo em tensão com facilidade assustadora.
Antes que pudesse responder, Miguel segurou sua mão discretamente.
Foi só um toque rápido.
Mas íntimo o suficiente para fazer Leonardo prender a respiração.
— Vem comigo — Miguel disse baixo.
⸻
O apartamento estava silencioso quando chegaram.
Dessa vez, a tensão apareceu imediatamente.
Sem distrações.
Sem chuva escondendo o som da respiração dos dois.
Sem álcool para servir de desculpa.
Só eles.
Miguel jogou a mochila no chão perto do sofá enquanto Leonardo permanecia parado perto da porta, nervoso demais para esconder.
— Você tá com medo? — Miguel perguntou.
Leonardo demorou alguns segundos para responder.
— Um pouco.
Miguel se aproximou devagar.
Cuidadoso.
Como se entendesse que aquilo era novo demais para os dois.
— Eu também tô.
A honestidade dele desmontava qualquer defesa.
Leonardo soltou o ar lentamente quando Miguel parou bem na sua frente.
Perto o suficiente para tocar.
Perto o suficiente para beijar.
Mas, dessa vez, Miguel esperou.
E aquilo foi pior.
Porque Leonardo percebeu que a escolha estava nas mãos dele agora.
O coração batia tão forte que parecia impossível esconder.
Então, antes que pudesse pensar demais, segurou a camisa de Miguel e puxou ele para perto.
O beijo veio intenso imediatamente.
Quente.
Ansioso.
Muito diferente da noite anterior.
Agora existia vontade acumulada ali.
Miguel segurou sua cintura com força enquanto aprofundava o beijo devagar, arrancando um arrepio imediato de Leonardo.
Tudo parecia novo.
O toque.
O calor da pele.
A forma como os corpos se encaixavam sem jeito no começo.
E talvez fosse justamente isso que deixava tudo tão intenso.
Eles estavam aprendendo um ao outro aos poucos.
Descobrindo.
Quando Miguel encostou Leonardo contra a parede perto da sala, os dois já estavam completamente sem ar.
Leonardo fechou os olhos por um segundo ao sentir os beijos descerem lentamente pelo seu pescoço.
Aquilo quase desmontou ele inteiro.
— Você não faz ideia do efeito que tem em mim — Miguel murmurou contra sua pele.
Leonardo sentiu o corpo inteiro arrepiar.
Porque, pela primeira vez na vida…
Ele também queria ser desejado.