Capítulo 1: A Abertura do Perdedor

Um conto erótico de Psicopodo
Categoria: Heterossexual
Contém 1377 palavras
Data: 15/05/2026 10:37:07

Dizem que o adultério é um prato de sabor metálico, como sangue na boca após um soco. Para mim, a traição não tinha esse gosto. O que eu sentia ao estacionar o carro a duas quadras daquela mansão de muros cobertos por hera não era um desejo de substituir Mariana. Eu a amava com uma ternura quase religiosa; ela era o meu porto seguro, a luz clara do meu dia a dia. Mas havia uma parte de mim que a luz não alcançava. Uma criatura rastejante, sedenta por correntes, que habitava o porão da minha psique e que gritava por silêncio. Aos trinta e quatro anos, eu havia descoberto que o meu maior segredo não era outra mulher, mas a minha própria vontade de ser anulado.

Caminhei em direção à entrada discreta do casarão no Jardim Europa. Não havia placas, apenas uma pequena insígnia de metal: um cavalo de xadrez negro sobre um fundo de madrepérola. Ao cruzar o umbral, o mundo lá fora — o escritório de advocacia, as contas a pagar, o jantar de domingo na casa dos sogros — evaporou-se. Fui recebido por um aroma denso de madeira de carvalho, tabaco de cachimbo e o rastro inconfundível de perfumes caros, daqueles que não se compram em shoppings, mas em viagens à Côte d'Azur.

O som era hipnótico. O clack-clack seco das peças de marfim atingindo o tabuleiros de ébano ecoava sob o teto alto. Olhei ao redor e o peso da minha vulnerabilidade me atingiu no peito. Eu era o único homem na sala. Mulheres maduras, na casa dos seus cinquenta anos, vestindo seda e linho, com joias que brilhavam sob a luz âmbar dos lustres, estavam debruçadas sobre mesas de jogo. Seus olhares eram aguçados, predatórios. Elas não conversavam; elas analisavam. Senti-me como um cervo que, por erro, entrou em um salão de caçadoras.

— O senhor deve ser o convidado de hoje — uma voz aveludada, mas cortante, soou às minhas costas.

Virei-me e encontrei uma mulher que parecia esculpida em mármore. Seus cabelos eram de um castanho profundo, presos em um coque impecável, e seus olhos, de um verde cinzento, pareciam atravessar minha pele, meus ossos, e ler o contrato de sigilo que eu havia assinado digitalmente horas antes. Ela devia ter uns quarenta e oito anos, mas sua presença tinha a força de séculos de autoridade.

— Sou eu — respondi, minha voz soando pateticamente trêmula aos meus próprios ouvidos.

— Sou a Dra. Helena — ela disse, com um sorriso que não chegava aos olhos, mas que prometia incêndios. — Sente-se na mesa sete. Espero que sua estratégia seja melhor que o seu controle emocional. Você está suando.

Ela me conduziu até uma mesa isolada por biombos de laca. O tabuleiro já estava montado. Eu olhei para as peças e senti um pânico gelado. O contrato era claro: quem vencesse realizava seus fetiches no perdedor. Quem perdesse, tornava-se propriedade por uma noite. O problema? Eu não sabia a diferença entre um bispo e uma torre. Eu estava ali apenas pelo castigo.

— Brancas começam — ela sussurrou, sentando-se à minha frente com a coluna perfeitamente ereta, as pernas cruzadas revelando um sapato de verniz de sola vermelha que parecia uma arma. — Movimente-se.

Minha mão tremeu ao tocar um peão. Fiz um movimento aleatório, empurrando-o para frente. Ela nem hesitou. Moveu um de seus cavalos com uma elegância insultuosa.

— Um gambito? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Ou apenas ignorância fantasiada de coragem?

— Eu... eu estou tentando — murmurei, sentindo o tesão subir pela minha garganta como um veneno doce. O jeito que ela me olhava, como se eu fosse um objeto de estudo particularmente defeituoso, era extasiante.

— Você não sabe o que está fazendo, não é? — Helena inclinou-se para frente, o decote discreto de sua blusa de seda revelando o início de seios firmes e uma pele que exalava o aroma de sândalo. — Você veio aqui para ser devorado.

Ela jogou com uma precisão cirúrgica. A cada peça minha que ela retirava do tabuleiro, ela a colocava de lado com um ruído seco, como se estivesse descartando partes da minha dignidade. Eu tentava mover as peças, mas minha mente era um borrão de desejo e humilhação. Eu via apenas as mãos dela — unhas curtas, impecáveis, sem esmalte, dedos longos que manuseavam o rei com uma autoridade que me fazia querer cair de joelhos ali mesmo.

— Sabe o que acontece com os peões que se perdem no tabuleiro, meu caro? — ela perguntou, o tom agora mais baixo, mais íntimo. — Eles são sacrificados para que a Rainha possa reinar. E você... você é um peão muito pequeno em um mundo de rainhas.

Com um movimento final, ela bateu sua rainha contra o meu rei, derrubando-o.

— Xeque-mate — ela sentenciou.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Helena não se moveu. Ela apenas me encarou, e a elegância social que ela exibia até então começou a dar lugar a algo muito mais sombrio e faminto. Ela apertou um botão sob a mesa e a luz do nosso nicho ficou ainda mais baixa.

— O jogo acabou — ela disse, sua voz agora destituída de qualquer polidez. Era o tom de uma proprietária falando com sua posse. — O contrato está ativo. No chão. Agora.

Eu não hesitei. Meu corpo agiu antes que minha mente pudesse processar a ordem. Deslizei da cadeira de veludo e me ajoelhei no tapete persa, minhas mãos apoiadas nas coxas, a cabeça baixa. O cheiro do couro dos sapatos dela estava agora a centímetros do meu rosto.

— Mais baixo — ela ordenou. — Quero que sinta o pó deste chão e a sola do meu sapato. Você não é mais um jogador. Você é o meu tapete.

Senti a pressão do bico fino do sapato dela sob o meu queixo, forçando-me a olhar para cima. O rosto dela estava gélido, uma máscara de dominação refinada.

— Você é um homem casado, bem-sucedido, que gosta de ser tratado como lixo por mulheres que poderiam ser suas mentoras, não é? — Ela sorriu, um sorriso predatório. — Tire os meus sapatos. Com os dentes.

Com o coração martelando contra as costelas, aproximei-me de seus pés. O verniz do sapato tinha um gosto frio e químico. Usei os dentes para puxar a tira delicada, sentindo a vibração do riso silencioso dela em sua perna. Quando o sapato caiu, vi o pé dela — pele pálida, veias delicadas, unhas pintadas de um vermelho sangue profundo.

Helena não perdeu tempo. Ela se levantou parcialmente da cadeira e, com um movimento fluido, pressionou a planta do pé descalço contra a minha boca. O contraste entre a maciez da pele e a firmeza do comando foi como um choque elétrico.

— Abra — ela comandou.

Eu obedeci, recebendo os dedos dela em minha boca. O gosto era de pele e poder. Ela começou a usar o pé para explorar meu rosto, apertando minha bochecha com os dedos, depois subindo para os meus olhos, obrigando-me a fechá-los sob o peso de sua carne.

— Você quer tanto sumir, não quer? — Ela se levantou completamente, ficando de pé sobre mim enquanto eu permanecia encolhido no chão. Ela ajeitou a saia lápis, que subiu levemente pelas coxas poderosas. — Eu vou te dar o que você quer. Vou te dar o peso da minha autoridade até que você esqueça seu próprio nome.

Ela deu um passo à frente, posicionando-se exatamente acima do meu rosto. Senti o calor que emanava debaixo de sua saia, um perfume íntimo e avassalador que se misturava ao sândalo. Helena segurou minha nuca com uma das mãos, os dedos cravando-se no meu cabelo com uma força surpreendente.

— Olhe para mim — ela sussurrou, e quando meus olhos encontraram os dela, vi a promessa de uma ruína deliciosa.

Sem aviso, ela se abaixou, pressionando o centro de sua feminilidade, protegida apenas pela seda fina da lingerie, contra o meu nariz e minha boca. O peso de seu corpo desceu sobre meu rosto, sufocando-me com sua essência e com a pressão absoluta de sua carne. Eu era apenas um suporte para o prazer de sua dominação.

— Respire apenas o que eu permitir — ela disse, sua voz vibrando contra a minha pele enquanto ela se acomodava, sentando-se com todo o seu peso sobre meu rosto. — Você me pertence agora. E eu ainda nem comecei a punir a sua péssima partida de xadrez.

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