Primeiros Semestres
Parte 3 — Dormindo no Mesmo Sofá
Depois daquela tarde, tudo mudou.
Mas ao mesmo tempo… nada mudou de verdade.
Eles continuavam indo para a faculdade juntos.
Continuavam dividindo café ruim antes das aulas.
Continuavam reclamando dos professores e fingindo normalidade perto dos amigos.
Só que agora existia outra coisa ali.
Uma tensão constante.
Olhares demorados.
Toques rápidos demais para parecerem acidentais.
Mensagens enviadas de madrugada quando nenhum dos dois conseguia dormir.
E o pior era que, quanto mais próximos ficavam, mais difícil parecia controlar aquilo.
Leonardo percebeu isso numa sexta-feira à noite.
O apartamento de Miguel estava vazio outra vez. O colega de quarto tinha viajado para visitar a família, e os dois aproveitaram a desculpa de “assistir um filme” para passarem tempo juntos.
Nenhum deles realmente prestava atenção na televisão.
Miguel estava deitado no sofá, a cabeça apoiada na perna de Leonardo enquanto mexia distraidamente no celular.
Aquela cena deveria parecer simples.
Mas não parecia.
Porque Leonardo ainda estava aprendendo a lidar com a intimidade pequena das coisas.
O peso da cabeça dele em sua coxa.
Os dedos de Miguel tocando distraidamente sua mão.
A sensação perigosa de conforto.
Aquilo assustava mais do que o beijo.
Beijos podiam ser impulso.
Mas carinho?
Carinho significava alguma coisa.
— Você tá pensando demais outra vez — Miguel murmurou sem tirar os olhos do celular.
Leonardo soltou um suspiro baixo.
— Como você sabe?
— Porque você fica quieto desse jeito.
Miguel ergueu os olhos então.
E Leonardo sentiu imediatamente o coração acelerar.
Era absurdo como ainda não conseguia sustentar aquele olhar por muito tempo.
— Me conta — Miguel disse baixo.
Leonardo hesitou.
Por alguns segundos, ficou ouvindo apenas o som da chuva batendo nas janelas do apartamento.
— Eu acho estranho… gostar disso tudo.
Miguel franziu levemente a testa.
— Disso como?
Leonardo desviou os olhos, nervoso.
— De você perto assim.
O silêncio ficou diferente outra vez.
Mais íntimo.
Miguel desligou o celular devagar e se sentou no sofá, agora completamente voltado para ele.
— Estranho ruim?
Leonardo demorou para responder.
— Não. — ele respirou fundo. — Estranho porque eu passei tanto tempo tentando não sentir essas coisas.
Aquilo atingiu Miguel imediatamente.
Leonardo percebeu pela forma como os olhos dele suavizaram na mesma hora.
— Eu entendo.
E entendia mesmo.
Os dois passaram anos aprendendo a esconder pequenos pedaços de si mesmos para sobreviver mais facilmente.
Agora estavam ali, tentando desaprender tudo isso juntos.
Era bonito.
E assustador.
Miguel aproximou a mão devagar da dele.
Entrelaçou os dedos com cuidado.
Como se ainda existisse medo de ultrapassar algum limite invisível.
— Você sabe que não precisa fingir comigo, né?
Leonardo sentiu o peito apertar forte.
Porque ninguém nunca tinha dito aquilo para ele antes.
Ninguém.
A vulnerabilidade daquele momento deixou o ar pesado.
Miguel se aproximou mais no sofá, devagar o suficiente para Leonardo perceber cada centímetro diminuindo entre eles.
O beijo veio lento dessa vez.
Sem urgência.
Sem desespero.
Só calor.
Só descoberta.
Leonardo segurou o rosto dele enquanto Miguel aprofundava o beijo aos poucos, e aquilo parecia perigosamente íntimo.
Como se cada toque estivesse dizendo coisas que nenhum dos dois ainda sabia colocar em palavras.
Quando Miguel puxou ele cuidadosamente para mais perto, Leonardo acabou praticamente sentado sobre suas pernas no sofá.
Os dois riram baixo imediatamente pela falta de jeito.
E aquilo tornou tudo ainda mais real.
Mais humano.
Miguel passou as mãos lentamente pela cintura dele, olhando como se ainda estivesse tentando entender que aquilo finalmente estava acontecendo.
— Você fica lindo nervoso — ele murmurou.
Leonardo sentiu o rosto esquentar na mesma hora.
— Cala a boca.
Miguel sorriu antes de beijá-lo outra vez.
Mais intenso agora.
Leonardo começou a perceber pequenas coisas sobre ele naquele instante.
O jeito como Miguel segurava sua cintura com firmeza, mas ainda cuidadoso.
Como respirava fundo entre um beijo e outro.
Como seus dedos tremiam levemente às vezes, denunciando que ele também estava nervoso.
Aquilo confortava Leonardo.
Porque significava que não estava sozinho naquela descoberta.
O filme já tinha acabado fazia tempo quando os dois finalmente se afastaram, ainda próximos demais.
A chuva continuava caindo lá fora.
Miguel encostou a testa na dele e soltou uma risada cansada.
— Acho que a gente nunca vai terminar esse filme.
Leonardo sorriu pequeno.
— Acho que não quero terminar.
Miguel ficou olhando para ele em silêncio por alguns segundos.
Daquele jeito intenso que sempre parecia enxergar coisas escondidas.
Então segurou sua mão outra vez.
— Dorme aqui hoje.
O coração de Leonardo disparou imediatamente.
Não pelo tom da voz.
Mas porque, pela primeira vez, aquilo parecia muito mais do que desejo.
Parecia começo.