Eu sempre me defini como uma mulher livre. O casamento não mudou nada. A maternidade, aliás, reforçou. Ter parido dois homens e criado eles me deixou ainda mais convencida de que o corpo é meu, a regra é minha, e o resto que se foda. Meu marido, uns anos mais velho, sempre foi cúmplice. Ele olha pra mim como quem olha pra uma obra de arte que, por sorte, também dorme na mesma cama. “Deixa ela”, é o mantra dele. E eu deixo mesmo.
Em casa, sexo nunca foi tabu. A gente conversa sobre tudo: posição, tesão, fantasia, o que deu certo, o que deu errado, o que deu tão certo que repetimos três vezes na mesma noite. Eu ando pelada pela casa desde sempre. No começo, quando os meninos eram pequenos, era a coisa mais natural do mundo. Mamãe nua pegando suco na geladeira, mamãe nua dobrando roupa, mamãe nua conversando no telefone. Eles passavam reto, como quem vê um móvel. Mas quando a puberdade chegou, o móvel ganhou curvas, ganhou pelos, ganhou mistério. E o olhar deles mudou. Eu percebia. Meu marido também percebia. E nunca reclamou. Pelo contrário. Dizia que era bom poder apreciar a beleza da esposa sem ter que esperar a porta do quarto fechar.
De uns tempos pra cá, os meninos começaram a ver que a mãe também é uma mulher. Não só “a mãe”. Uma mulher de verdade, com corpo, com desejo, com bunda e peitos que ainda chamam atenção. Eu via como eles olhavam. Não ligava. Na verdade, achava gostoso, de certa forma. Aquele desconforto misturado com curiosidade deles me dava um friozinho bom na barriga. Era como se eu estivesse fazendo uma sacanagem pequena e deliciosa dentro da própria casa. Gosto de ser a mãe que não se encaixa na caixinha de “mãe comportada”.
E os meninos, sentindo que o pai não ia botar freio, começaram a soltar piadinhas. No começo eram tímidas, depois foram ficando mais ousadas. Eu deixava. Achava graça.
Teve o dia em que eu estava pelada na cozinha, só de avental, fritando ovo pro café da manhã. O mais velho entrou, parou na porta e ficou me olhando. Eu senti, sabia que ele estava me olhando. Eu balancei a bunda de leve, só pra provocar, e disse:
— Bom dia, meu filho! Acordou animado?
O caçula, que vinha atrás, não perdeu a chance:
— E tem como não ficar animado, com um bom dia desses?
Os dois riram, meio sem graça, mas riram. Meu marido, sentado à mesa com o jornal, só balançou a cabeça, sorrindo por trás da xícara de café.
Outra vez, eu estava pelada no sofá da sala, de pernas cruzadas, lendo um livro. O mais velho passou com o controle do videogame na mão e parou:
— Mãe, você sabe que tá com tudo à mostra, né?
— Sei — respondi, sem tirar os olhos do livro. — Algum problema?
— Problema nenhum. Só tô avisando que o delivery deve chegar em dez minutos.
Eu fechei o livro devagar, olhei pra ele e sorri:
— Então vai ser uma entrega com vista privilegiada. Quer que eu abra a porta assim mesmo?
Ele ficou vermelho, mas não recuou:
— Se você abrir, eu filmo.
— Filma nada, seu safado — eu ri. — Mas pode olhar quanto quiser. É de família.
O caçula, que ouviu da cozinha, gritou:
— Eu quero ver o vídeo depois!
Meu marido, da varanda, só gritou de volta:
— Deixa a mãe de vocês em paz… ou não. Tanto faz.
A terceira situação foi a melhor. Eu tinha acabado de sair do banho, estava pelada no corredor, secando o cabelo com a toalha. O mais velho veio do quarto e quase trombou comigo. Em vez de desviar o olhar, ele parou e fez uma cara exagerada de espanto:
— Caramba, mãe… você tá brilhando. Usou óleo novo?
Eu ri, passando a toalha entre os peitos sem pressa.
— Não. É só suor de quem acabou de tomar banho quente. Quer sentir?
Ele engoliu em seco, balbuciou alguma coisa que eu não entendi, e saiu, encabulado. Eu ri, e senti outras coisas além de graça.
Eu joguei a toalha por cima do ombro, fiquei ali parada, nua, mãos na cintura, e respondi com o meu melhor deboche:
— Pois é, meninos. Aproveitem enquanto podem. Um dia vocês vão morar sozinhos e vão ter que pagar pra ver mulher pelada. Aqui é cortesia da casa.
Os dois riram, ainda meio encabulados, mas já sem aquele choque de antigamente. Meu marido, que ouviu tudo da sala, só deu uma risada baixa e disse:
— Deixa a mãe de vocês. Ela gosta de liberdade.
E eu gosto mesmo.
Porque nada me diverte mais do que ver meus filhos descobrindo, aos poucos, que a mãe deles não é uma santa de altar. É uma mulher. Livre, pelada e completamente à vontade na própria casa.
E o melhor: o pai deles acha ótimo.
Apesar de tudo, eu não sou uma depravada. Até gosto de observar certos limites. Por exemplo, quando o marido ou os filhos trazem amigos em casa. Não é que eu tenha vergonha do meu corpo — longe disso —, mas tem uma diferença entre ser livre e ser mal-educada. Amigo dos meninos não precisa ver a mãe deles pelada servindo refrigerante. Isso já seria exagero até para os meus padrões.
Por isso, os meninos aprenderam rápido: quando vêm amigos, mandam mensagem antes de chegar. “Mãe, tô levando o João e o Pedro pra jogar”, “Mãe, chegando com três caras em 15 minutos”. Eu respondo com um “ok” e vou me vestir. Coloco uma camiseta, um short, um vestidinho leve — o suficiente para manter o decoro social. Calcinha e sutiã? Só com ordem expressa do Papa, e mesmo assim eu ainda pensaria duas vezes.
O engraçado é que, mesmo vestida, os amigos dos meninos me devoram com os olhos. Eu sinto. São olhares rápidos, disfarçados, mas famintos. E eu vejo o ciúme disfarçado dos meus filhos. Eles ficam mais ruidosos, mais possessivos, como se quisessem dizer “é minha mãe, olha pra outro lado”. Eu acho graça. No fundo, é até fofo.
Teve um dia que ficou especialmente divertido.
O mais velho mandou mensagem: “Mãe, uns amigos vão vir jogar videogame, pode?”. Eu respondi que sim e avisei que ia botar uma roupa. Quando eles chegaram, eu estava com o mesmo vestidinho floral do dia do supermercado — leve, solto, o mesmo que mal cobria a bunda. Sem nada por baixo. Eu não disse nada. Mas percebi, pelo olhar rápido dos meus filhos, que eles sabiam. Sabiam perfeitamente. Aquele olhar de “mãe, você prometeu” misturado com “caramba, ela fez mesmo”. Eu senti um calor gostoso subir pela barriga. Era excitante saber que eles sabiam do meu segredinho safado enquanto os amigos deles estavam ali, inocentes, achando que eu era só uma mãe normal de camiseta e vestido.
Eu me sentia poderosa. Livre. Um pouco safada, admito. Mas poderosa.
Uma hora, o mais velho perdeu feio no videogame, xingou baixinho e deu a vez pro amigo. Saiu da sala resmungando e veio pra cozinha pegar água. A casa é aberta, o balcão da cozinha dá vista direta pra sala. Eu estava ali, de costas, fingindo organizar umas coisas.
Ele chegou por trás, bem perto, e falou no meu ouvido, em tom de piada:
— Mãe… tá sem nada por baixo de novo, né?
Eu sorri, sem me virar.
— Você já sabe a resposta, não sabe?
Ele deu uma risadinha baixa.
— Não sei não. Ia ter que conferir.
Eu virei o rosto um pouco, ainda com o sorrisinho debochado:
— Então confere.
O que ele fez em seguida me surpreendeu até a mim.
Sem hesitar, o safado enfiou a mão por baixo do vestido, devagar, e passou a palma aberta na minha bunda toda — apertando de leve, sentindo a pele nua, subindo até a curva da lombar. Depois tirou a mão, olhou nos meus olhos e disse, com a maior cara de pau:
— É. Tá mesmo.
Eu ri, incrédula, sentindo um arrepio subir pela espinha. Fingi uma bronca, virando-me pra ele com as mãos na cintura:
— Que isso, menino? Isso são modos com a sua mãe?
Ele não se abalou. Deu de ombros e respondeu, com aquele tom que misturava piada e provocação:
— Foi você quem nos ensinou a ser assim, mãe. Livre, sem frescura.
Eu fiquei ali, sem palavras por um segundo, só rindo por dentro. Depois balancei a cabeça e disse:
— Agora que matou a curiosidade, vai lá pra sala de novo antes que seus amigos venham atrás de você.
Ele piscou pra mim e voltou pra sala como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei na cozinha mais um tempo, refletindo. A ousadia do meu filho me pegou de surpresa — e, confesso, me excitou um pouco. Era como se ele tivesse cruzado uma linha que eu mesma havia desenhado anos atrás, com toda aquela liberdade que eu tanto defendia. E agora o aluno estava superando a professora. Irônico, né? Eu, que sempre ri das convenções, de repente me vendo surpreendida pela própria criação.
No fundo, pensei enquanto guardava os copos, a vida é cheia de lições inesperadas. E a maior delas é que, quando você cria filhos sem tabus, não pode reclamar quando eles resolvem aplicar a lição na própria mãe.
Especialmente quando a lição envolve passar a mão na bunda dela sem pedir licença.
E o pior — ou o melhor — é que eu ainda estava rindo.
