Ah... O desejo... Por si só, um percurso perverso.
Tem uma coisa no desejo que muita gente insiste em reduzir ao impulso, como se tesão fosse apenas um estalo no corpo, uma urgência sem profundidade, quando, na verdade, ele começa bem antes de qualquer toque. Para mim, ele mora primeiro no olhar, na intenção, na forma como a presença de alguém vai ocupando espaço dentro da cabeça da gente até virar pensamento recorrente, vontade discreta, curiosidade quente, uma espécie de expectativa que cresce sem alarde. O clima não aparece do nada. Ele vai sendo tecido no cotidiano, no intervalo entre uma frase e outra, no jeito de encostar sem pressa, numa provocação jogada de leve e depois fingida de inocente, na consciência deliciosa de saber exatamente o efeito que se causa e de aceitar, com prazer, ser afetada de volta. É quase uma conversa silenciosa entre dois corpos que já se reconhecem, mesmo quando ainda nem se tocaram de verdade.
Eu acho gostoso demais essa manutenção da chama, porque ela não depende só dos grandes momentos, mas dessas pequenas brincadeiras que deixam tudo vivo no meio da rotina. Um comentário atravessado com malícia, uma mão que passa de propósito onde poderia passar de qualquer outro jeito, um sorriso mais longo do que o necessário, uma provocação dita no tom certo, na hora certa, como quem acende um fósforo e observa o outro tentar manter a postura enquanto, por dentro, já está em combustão. Isso alimenta uma tensão que não cansa, pelo contrário, atiça. Faz o desejo se sentir cuidado, notado, desejado de volta. E, sinceramente, existe algo muito mais interessante em ser atravessada por esse fogo aos poucos do que simplesmente deixá-lo explodir sem construção nenhuma. O prazer também está nesse jogo de demora, nessa inteligência do querer, nessa arte de saber seduzir sem entregar tudo de uma vez.
Talvez seja por isso que o impedimento me incomode tanto. Não por falta de maturidade, não por incapacidade de esperar, mas porque, quando o desejo é construído com tanta atenção, quando o corpo e a mente já estão inteiros envolvidos naquela expectativa, ser barrada, interrompida, obrigada a conter tudo isso de repente vira uma espécie de frustração física e mental ao mesmo tempo. Não é só abstinência do toque; é a consciência cruel de um fogo que já ganhou forma dentro da gente e que, por algum motivo, precisa ficar preso, contido, suspenso no ar. E isso irrita, claro. Irrita porque o corpo lembra, a cabeça fantasia, o olhar procura, a pele responde, e tudo o que vem depois parece pequeno demais para dar conta do tamanho da vontade. É um incômodo bonito e cruel, daqueles que fazem a gente perceber o quanto desejo não é só sexo, é presença, vínculo, provocação, cumplicidade e, principalmente, essa fome mansa de querer alguém com o corpo inteiro antes mesmo de tocar de fato.
Dito isso... Minha mulher estava ficando LOUCAAAA!
Estávamos há apenas quatro dias com Dom em casa e, embora a rede de apoio fosse generosa, a exaustão nos encontrou. Não importava quantas mãos aparecessem para ajudar, quantas refeições chegassem prontas ou quantas pessoas se oferecessem para segurar o menino por alguns minutos. Existiam cansaços que eram nossos e só nossos. Aquele tipo de desgaste de quem está vivendo em uma rotina quebrada, exercitando a atenção constante e se forçando a manter o estado de alerta que não desliga nunca.
Ninho só queria colo. Quase sempre o de Júlia e bastava sentir outro braço, outro cheiro ou a mínima tentativa de ousar mudar de posição, era motivo para ele se remexer inteiro em protesto até voltar para ela. E o sono... O sono daquele menino parecia de passarinho. Curtinho e interrompido por qualquer barulho, qualquer mudança de temperatura ou qualquer ausência mínima de contato. Quando parecia que embalaria por mais tempo, lá vinha um resmungo, um chorinho ou um biquinho denunciando que a gente tinha se enganado.
A mamadeira havia sido introduzida, o que já ajudava em alguns momentos, e, para alívio geral, passou longe da temida confusão de bicos que tanto preocupava Júlia. Dom pegava bem quando queria, aceitava sem grandes dramas, porém havia ocasiões em que ele simplesmente decidia que não negociaria com ninguém. Nessas horas, só servia o peito mesmo. Não adiantava insistir, balançar, trocar posição, aquecer leite ou pedir paciência aos céus. Ele reconhecia o que queria e fazia questão de ser atendido.
O problema era que o peito de Juh já estava muuuito dolorido. As fissuras tinham transformado algo que deveria ser natural em um exercício de resistência. Cada mamada vinha acompanhada daquela contração involuntária no rosto e da respiração presa por segundos enquanto a dor passava rasgando. Nem o laser, que tanta gente descrevia como milagroso, estava dando conta de resolver na velocidade que precisávamos. Ela seguia firme, insistindo, cuidando, tentando sustentar tudo com bravura sem igual, sustentada apenas pelo amor...
Mas eu via... Via o quanto doía... Via o quanto cansava... Via o quanto cobrava dela física e emocionalmente.
E em dia de vacina tudo parecia piorar. O coração já amanhecia apertado antes mesmo da equipe chegar. Tinha o medo da reação, o choro sentido depois da picadinha, Dom ainda mais manhoso ao longo do dia, querendo ainda mais colo, mais aconchego, mais peito e, principalmente, mais de nós.
E, mesmo assim, os pequenos sorrisinhos involuntários que ele dava, o som dele cheirando Juh até encontrar o peito, quando ele ficava quietinho contra o peito olhando dentro dos meus olhos e quando a mãozinha dele fazia "carinho" no colo da mamãe ao mamar faziam tudo valer a pena, nos faziam sorrir à toa em meio ao cansaço e dar graças a Deus por tê-lo nos braços.
Quatro dias em casa. Trinta e nove de nascido. Um dos dias de vacina. E, para completar, véspera da consulta de Júlia com Sabrine. A vida, pelo visto, tinha decidido condensar todos os acontecimentos possíveis no mesmo intervalo de tempo.
— Amor, eu vou para o quarto dele e você dorme. Amanhã, depois de chegar do consultório, você fica com ele e a gente conta com a sorte — Júlia sugeriu.
— Qualquer coisa me chama, gatinha — aceitei.
Dom estava todo manhosinho por conta da vacina e chorando um pouco mais do que o normal dele.
Eu pisquei e despertei no meio da madrugada. A luz do banheiro estava acesa e ouvi a água caindo. Imaginei, então, que Dom tinha dormido e Juh resolveu tomar um banho para relaxar, o que se confirmou segundos depois com a vinda dela até a cama.
Quer dizer, quase tudo se confirmou.
— Banhozinho para relaxar? — perguntei, enquanto ela se sentava sobre mim.
— Ele fez xixi em mim — Juh me respondeu, o que nos fez rir.
Júlia se recostou contra minhas pernas, que eu havia flexionado quase por instinto. Ela encaixou as costas em mim com uma naturalidade perigosa que, pela bela visão, desorganizou qualquer tentativa de lucidez que eu pensasse em ter. Passei a mão devagar por sua coxa, num carinho despretensioso que de despretensioso não tinha nada.
Ela vestia uma camisola fininha, daquelas de tecido tão macio que dava vontade de continuar tocando só pelo prazer da textura. O pano escorregava sob meus dedos e, por baixo dele, a pele de Júlia reagia. Conforme eu prolongava o carinho, senti seus arrepios surgindo, denunciando que algo estava acontecendo... E eu adoro observar o corpo dela se entregar sem que minha gatinha precise usar a boca para admitir qualquer coisa.
— É melhor eu ir, porque daqui a pouco ele acorda — Júlia falou, mas não se moveu.
Sorri sozinha ao ouvir isso. A boca do meu amô dizia uma coisa e o corpo dela dizia outra completamente diferente. Apertei de leve sua coxa e ouvi o suspiro escapar baixo, involuntário, como se eu tivesse encontrado um ponto exato em que deveria tocar. Adoraria continuar com as carícias, mas parecia ser de bom tom parar por ali... Eu só não contava que Júlia guiaria minhas mãos um pouco mais para cima, pedindo que eu continuasse.
Fui deslizando sobre a pele dela, sentindo mil e uma sensações. O caminho curto pareceu longo demais, justamente porque cada centímetro dela me distraía por inteiro. Quando cheguei à sua cintura, inevitavelmente a puxei e ela veio facinho, toda molinha, como se já estivesse esperando ser chamada há tempos.
Nos beijamos bem lentamente. Eu acho que nós duas queríamos tentar entender o caminho que estávamos trilhando. Mas durou pouco. A fome que a gente tinha uma da outra tomou conta e nós prosseguimos com mais precisão, mais pressa e mais tudo. Minha boca encontrou a dela de novo e de novo. Nós íamos alternando pressão e demora. O beijo foi ficando quente no ritmo em que nossas respirações se confundiam, em que nenhum espaço parecia necessário, em que recuar já não fazia qualquer sentido. Havia algo inevitável na forma como nossas bocas se procuravam, como se só aquilo importasse naquele exato momento.
Meu corpo inteiro entrou em ebulição. Era sempre impressionante o efeito quase automático que Juh causava em mim, como se ela acionasse alguma chave secreta que ninguém mais conhecia. O calor dela em mim, o perfume recém-saído do banho misturado ao cheiro natural da sua pele, a maciez de sua pele em minhas mãos e a facilidade com que ela se entregava ao toque me deixavam sem chance alguma de resistência. Eu queria encostar mais, sentir mais, puxá-la mais para perto. Era impossível ter Júlia tão perto e agir como se aquilo não mexesse comigo da cabeça aos pés. E, pior (ou melhor), estava gostoso demais para fingir qualquer autocontrole.
Naquele estado em que já não existia mais prudência possível, fui para cima dela com a rapidez de quem passou tempo demais se contendo. Juh caiu de costas no colchão rindo, me olhando daquele jeitinho que sempre me desmonta. Desci distribuindo beijos pelo caminho de seu corpo, sentindo suas mãos me incentivando a prosseguir. Ela empurrava a minha cabeça de leve e, quanto mais eu seguia, mais suas pernas se ajustavam, mais a nossa respiração se perdia, mais os dedos dela buscavam onde se apoiar. Suguei seu clitóris e a observei enlouquecer. Minha gatinha agarrou meus cabelos com força e arqueou o corpo, completamente rendida, deixando escapar meu nome entre um gemido e outro, se entregando ao gozo e deixando seu mel tocar meus lábios.
Sorri contra a pele dela e continuei sem pressa, aproveitando cada reação. Júlia ainda tremia quando voltou a me puxar para perto, totalmente entregue, sensível... E linda de observar! Deslizei as mãos por suas coxas e senti o quanto ela me queria em sua pepeca. Cada movimento arrancava dela um novo som, uma nova contração, uma nova súplica baixinha por mais.
Os dedos dela se fecharam no lençol, enquanto o corpo acompanhava o ritmo que eu impunha. Ela se remexia sem conseguir decidir entre fugir e pedir mais, perdida naquela linha tênue entre aguentar e desejar que eu intensificasse ainda mais. A cada reação, eu também enlouquecia um pouco. Não havia nada no mundo mais provocante do que Júlia assim, sem filtro, sem pose, sem esconder o quanto sentia.
— Amor... — ela me chamou em um fio de voz rouquinho, o que só me incentivou mais.
O jeito como ela se rendia ao que eu fazia, como tremia, como me chamava baixinho e se perdia nas próprias reações, me carregou junto, como quase sempre acontece. O prazer me tomou sem que eu precisasse me tocar, arrancando de mim um gemido abafado enquanto eu seguia entregue aos estímulos dela, sentindo meu corpo responder sozinho àquela cena inteira. Era sempre assim, Juh tem um poder absurdo de me desorganizar só existindo daquele jeito, completamente entregue, diante de mim.
Respirei fundo, ainda estremecendo, e continuei a provocá-la, chupando mais forte, porque parar naquela altura do campeonato era algo que eu nem cogitava. Júlia arqueou o corpo outra vez, completamente sensível, a respiração curta e descompassada. Cada movimento fazia seus olhos se fecharem com força e sua boca procurar ar entre um som e outro.
Eu estava prestes a levá-la de novo ao limite quando, do quarto ao lado, o choro de Dom rasgou os nossos.
Nós duas congelamos por uns segundos. Foi como se o meu cérebro estivesse tentando entender a mudança brusca entre um cenário e o outro. Juh arregalou os olhos, me empurrou para o lado num reflexo automático e deu um pulo da cama com a rapidez de quem atendia aquele chamado por puro instinto. Ao tocar o pé no chão, quase se desequilibrou, precisando se apoiar na parede para não cair, acredito que por ainda estar desnorteada entre a pressa e tudo o que tinha acabado de sentir. Ela puxou a camisola para baixo de qualquer jeito, tentando se recompor, e saiu apressada, toda desajeitada, tropeçando em tudo que via pela frente, enquanto corria para o quarto do nosso filho.
E eu... bom, eu achei a cena absurdamente sexy!
Fiquei ali na cama, largada entre os lençóis revirados com o cheiro gostoso dela, enfiei o rosto no travesseiro e ri sem fôlego algum, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. A mudança brusca entre a minha esposa derretida sob as minhas carícias e a mesma mulher, segundos depois, correndo atrapalhada pelo corredor para acudir nosso filho, era tão engraçada quanto encantadora.
No estado em que eu estava, não existia a menor condição de levantar dali imediatamente. Meu corpo ainda fervia, a respiração seguia descompassada e a cabeça parecia presa entre o riso e o desejo. Inclusive, nem sei como Júlia conseguiu sair correndo daquele jeito... Então fiquei mais alguns minutos tentando me reorganizar, encarando o teto e ouvindo de longe os sons abafados dela ninando Dom no outro quarto. Quando finalmente consegui reunir dignidade suficiente para me mover, levantei devagar e fui para o banheiro. Precisava de um banho para esfriar a pele. Precisava, principalmente, tentar convencer meu corpo de que a madrugada tinha mudado de rumo.
Fui até o quarto de Dom ainda com o corpo mais calmo e a cabeça finalmente no lugar, e encontrei Júlia sentada na poltrona, amamentando Ninho, já quase dormindo outra vez. A cena por si só já era bonita, mas o detalhe que me desconcentrou foi vê-la com uma das mãos cobrindo os olhos em pura negação, como se tentasse apagar mentalmente os últimos acontecimentos. Precisei morder o riso para não acordar o menino. Aproximei-me devagar e depositei alguns beijinhos em seu pescoço, sentindo-a se arrepiar.
Dom terminou de mamar e adormeceu pesado no colo dela. Juh o colocou no berço com todo o cuidado do mundo, ajeitou a naninha e veio até a cama auxiliar onde eu já estava deitada, chamando-a com a mão. Ela veio toda envergonhada, evitando olhar diretamente para mim, o que só me fez rir mais. Assim que se aproximou, puxei-a pela cintura e a enchi de beijos pelo rosto inteiro, sem dar chance de defesa à minha amada.
— Não ri, eu estou me sentindo a mãe mais suja do mundo — Juh fingiu reclamar, contudo tinha um tom dinâmico na voz.
— Por que estava fazendo amorzinho com sua muié???? — questionei, cheirando a pele dela.
— Amor, pare de safadezas agora! — ela pediu, e eu ri.
Júlia virou de frente para mim e eu dei um selinho nela.
— Você é tão tentadora, meu Deus... — Juh soltou em um suspiro.
Segurou meu rosto e me deu um beijo rápido. Logo me abraçou e eu a apertei contra mim, sentindo o corpo dela finalmente desacelerar um pouquinho.
— O cansaço evaporou lá no quarto, não foi? — perguntei, dando um tapinha no bumbum dela.
— O seu também! — Júlia exclamou, e eu confirmei, roubando um selinho dela logo depois.
Dormimos bem gostosinho e eu só acordei no dia seguinte com Dom deitado ao meu lado, Kaká o entretendo em silêncio com uma concentração admirável, e Júlia de costas para nós em frente ao espelho, já se arrumando. Quando percebeu que eu havia despertado, virou o rosto e me lançou um sorrisinho tão lindo que quase me fez voltar a dormir só para acordar de novo vendo aquilo.
— Ainda bem que você acordou. Eu estava com peninha de te chamar... Ia deixar para o último segundo possível — ela disse.
— Mamãe, ele está rindo para mim desde que acordou — Kaique festejou.
— É impossível não rir sentindo tanto amor — respondi, sorrindo e encarando Júlia, que veio me dar um selinho.
Entre eu me arrumar e finalmente irmos para o carro, ouvi Kaká se gabar inúmeras vezes por ter vestido o irmãozinho para a primeira saidinha dele. Eu estava achando bonitinha demais a felicidade dele e aquela animação genuína de irmão mais velho levando a missão tão a sério.
Porém, segundos depois de eu dar a partida no carro, todos fomos surpreendidos por um odor bastante peculiar tomando conta do ambiente. Bastou um olhar coletivo para entendermos o que havia acontecido. Dom, em sua estreia oficial fora de casa, havia entregado uma bomba histórica dentro da fralda.
Kaique ficou em absoluto choque, alternando entre caretas e perguntas indignadas sobre como um mini ser humano daquele tamanho conseguia produzir um estrago daquele porte. A admiração pelo próprio trabalho de estilista infantil durou pouco, já que toda a roupa precisou ser trocada antes mesmo de sairmos da garagem.
No fim, deu tudo certo na consulta com Sabrine. Júlia foi examinada, recebemos boas notícias e ela estava bem. Saímos de lá com a sensação de que, devagarinho, tudo ia chegando para o lugar.
