Shawn passou algumas horas brincando com Emily e Bee depois do jantar. Quando as gêmeas finalmente ficaram exaustas e pegaram no sono, ele voltou para o seu — deles — quarto.
Estava vazio.
Sem saber se sentia alívio ou decepção, Shawn pegou roupas limpas e tomou um banho demorado. Ficou parado por um tempo sob a água que caía em seu corpo nu, pensando no fato de que iria dividir a cama com Rutledge. A noite toda.
Shawn olhou para o próprio pau semiereto e suspirou. Tudo aquilo era tão confuso. Rutledge era um homem. E também era um baita de um babaca problemático. Não era possível que ele estivesse animado com a ideia de dividir a cama com ele.
Irritado com o próprio corpo, Shawn se secou, vestiu-se e voltou para o quarto.
A princípio, achou que Rutledge ainda estivesse em outro lugar. Então, avistou a silhueta alta do lado de fora, na sacada.
Lentamente, Shawn caminhou até a porta, deslizou-a para abrir e saiu para a noite. Quando o ar frio o atingiu, ele estremeceu um pouco e cruzou os braços para se aquecer. Ainda estava consideravelmente quente para novembro, mas não o suficiente para uma única camada fina de roupa.
Rutledge tinha um cigarro na mão. Ele não virou a cabeça.
Shawn se apoiou no parapeito da sacada, imitando a postura de Rutledge. — Ele está realmente doente, você sabe.
Ele notou o sutil enrijecimento nos ombros de Rutledge apenas porque o estava observando de perto.
— Sim — disse Rutledge, sem emoção. — Ele está morrendo.
Shawn não podia dizer que estava surpreso.
— Sinto muito.
Dando de ombros, Rutledge deu uma longa tragada no cigarro. — Não há amor entre nós.
Shawn olhou para a lua que espiava entre as nuvens. — Quando meus pais morreram, deixaram dívidas enormes. A casa teve que ser vendida para pagar os credores, então acabei desabrigado, mal tendo atingido a maioridade e com duas gêmeas para cuidar. Às vezes eu os odeio. Por terem morrido, por terem sido tão irresponsáveis e me colocado nessa situação. — Ele sentiu a garganta apertar e teve que engolir o nó que se formava. Respirando o ar puro da noite, inclinou o rosto para cima para sentir a brisa roçar sua pele. — Mas eu sinto falta deles. Sinto uma falta desgraçada.
Rutledge não disse nada.
Em algum lugar distante, uma coruja piou.
— Ele é o seu pai — disse Shawn.
Rutledge apagou o cigarro. — Eu não te trouxe aqui para você me dar sermão sobre a importância da família. — Sua voz era ríspida. Irritada.
— Não. Você me trouxe aqui para irritar o seu pai e provar o seu ponto. Você não acha isso mesquinho e cruel?
— Ele não é uma vítima. Morrer não o torna menos bosta do que ele é.
— Não torna mesmo — concordou Shawn.
— E você não sabe nada sobre a nossa relação.
— Você tem razão: eu não sei de nada. Já estabelecemos que eu sou apenas um loirinho burro e bonito.
Rutledge virou-se para ele. Shawn conseguia sentir o calor do seu olhar fulminante mesmo na escuridão.
— Você é incrivelmente irritante — disse Rutledge, antes de puxar Shawn para si e esmagar seus lábios nos dele.
Vários minutos depois, Shawn abriu os olhos e disse: — Isso também é irritante. Você está usando essa minha fixação oral contra mim.
Rutledge o beijou novamente, e tudo ficou tonto, quente e avassalador.
Algum tempo indefinido depois, Shawn abriu os olhos novamente e se viu deitado na cama. Nu. E Rutledge estava lambendo seu mamilo.
— Nós não vamos fazer sexo — disse Shawn.
— É claro que não vamos — concordou Rutledge. Ele também estava nu.
O olhar atordoado de Shawn percorreu os ombros largos, o peito densamente musculoso e o abdômen tenso dele, antes de se demorar no pau duro e avermelhado de Rutledge. Ele sentiu a boca aguando.
— Não, sério — Shawn tentou novamente, mas mordeu o lábio quando Rutledge envolveu sua ereção com a mão. Deus. — Nós não vamos fazer sexo.
Rutledge acariciou o pau de Shawn algumas vezes antes de soltá-lo e abrir suas coxas. Shawn ficou tenso. Rutledge acariciou a parte interna de suas coxas; as mãos dele eram fortes, grandes e tão boas...
— Nem pense nisso — Shawn conseguiu dizer.
— Apenas deite e aproveite, Wyatt.
Shawn riu. — Certo. Como se eu não soubesse o que você quer de verdade. Você quer enfiar o seu pau em mim.
Os olhos de Rutledge pareciam negros quando encontraram os dele. — Eu quero, sim, "enfiar o meu pau" em você. E antes que a noite acabe, você vai querer que eu enfie também.
Shawn bufou, olhando para o pau grosso de Rutledge. — Não tem a menor chance de eu deixar essa coisa chegar perto da minha bunda.
— Veremos. — O dedo de Rutledge pressionou firmemente o ponto atrás das bolas de Shawn, fazendo-o arfar. — Eu acho que você vai deixar. E você vai ficar lindo no meu pau.
Shawn corou. — Vá se foder. Você é um tremendo babaca. Mandão e...
— Pare de fingir que não gosta. — As mãos grandes de Rutledge acariciaram as coxas de Shawn novamente. — Você gosta de ter alguém no comando. Gosta de não ter que ser responsável por uma vez na vida e apenas se entregar.
Shawn abriu a boca para protestar, mas não conseguiu negar. Seu pau parecia gostar muito daquela autoridade de Rutledge. — Isso não significa que eu queira o seu pau no meu rabo. Nem sei como isso poderia ser bom. Não tem como caber.
— Vai caber, não se preocupe. — Os olhos de Rutledge pareciam turvos de luxúria enquanto percorriam o corpo nu de Shawn. — Eu preciso te foder. Quanto antes, melhor.
Shawn lambeu os lábios. — Eu não acho que...
— Fique de bruços — disse Rutledge.
— Eu...
— Fique de bruços — repetiu Rutledge, no tom de voz que usava na sala de aula.
O pau de Shawn deu um solavanco. Ele virou, fechou os olhos e disse a si mesmo que poderia parar Rutledge a qualquer momento se as coisas ficassem estranhas demais. Ele pararia.
Mãos massagearam e acariciaram sua bunda antes que algo úmido e macio tocasse sua nádega.
Shawn ficou tenso. — Espera...
— Relaxa, você vai gostar. Todos os garotos héteros gostam. — Rutledge soltou uma risada sombria. — Não se preocupe, isso não vai te tornar gay.
Shawn se viu corando. — Hum, eu tomei banho e estou limpo, mas...
— Você tem uma bunda linda. — Rutledge mordeu sua nádega. — Eu quero fazer isso com você há eras.
Os lábios de Rutledge se fecharam em torno de sua entrada e sugaram, e o cérebro de Shawn desistiu da batalha. A língua de Rutledge pressionou para frente, traçando o contorno do seu buraco antes de dar uma lambida longa, e Shawn gemeu, suas coxas se abrindo mais por vontade própria. Cristo, nada deveria ser tão bom assim.
Macio e úmido, ele sentia a língua de Rutledge o lambendo, explorando sua entrada com abandono. Então, os polegares de Rutledge o abriram para o assalto. Porra. A língua de Rutledge trabalhava dentro dele lentamente, dando estocadas suaves em seu centro, abrindo o músculo, incentivando-o a relaxar, deslizando para dentro. Comendo-o. Tão sujo, tão errado, mas Shawn soltou um som que parecia suspeitosamente um soluço, esfregando-se contra o colchão, com o pau duro como pedra e latejando.
— Mais — ele arquejou, mudando o corpo até ficar de joelhos, pernas abertas e cabeça baixa. A barba por fazer no rosto de Rutledge arranhava a carne macia de suas nádegas, intensificando as sensações e lembrando-o mais uma vez de que era um homem lambendo seu rabo. Era o seu professor o comendo por trás.
O pensamento enviou uma onda de sangue para o seu pau e ele choramingou, empurrando-se contra a boca de Rutledge enquanto Rutledge o fodia com a língua. Não era o suficiente. Sua entrada estava hipersensível, contraindo-se em busca de algo duro para agarrar.
Eles se moviam juntos, aquela língua perversa tentando ir mais fundo a cada estocada. Ele estava choramingando e tremendo tanto, no limite e incapaz de gozar. Ele ansiava por algo, e a língua de Rutledge não era grande o suficiente, não conseguia chegar fundo o bastante, e Shawn precisava de mais. — Mais.
Rutledge se afastou dele, e então dedos lubrificados começaram a massagear a entrada de Shawn com um movimento circular, e ele gemeu. Ele estava tendo dificuldades para pensar, seu corpo assumindo o controle e tentando se empalar nos dedos de Rutledge. Rutledge empurrou os dedos para dentro — um, depois outro, fazendo um movimento de tesoura rápido antes de retirá-los novamente.
Arfando, Shawn esperou. Ele ouviu o som de uma embalagem de preservativo sendo rasgada. Aquilo deveria tê-lo feito entrar em pânico — o que estava prestes a acontecer — mas ele já tinha passado do ponto de se desesperar. Ele se sentia tão vazio. Tão duro.
Rutledge o virou de costas. Enfiando um travesseiro sob os quadris de Shawn, ele se posicionou entre suas pernas, com os olhos escuros vidrados de desejo. Shawn forçou-se a relaxar enquanto a cabeça grossa do pau de Rutledge começava lentamente a alargá-lo. Ele sentiu-se esticado, queimando, enquanto Rutledge empurrava devagar para dentro dele, com o interior de Shawn cedendo relutantemente à intrusão.
— Oh — Shawn exalou quando Rutledge estava totalmente dentro dele. Ele agarrou os braços de Rutledge, as coxas tremendo. Doía um pouco.
Rutledge respirou fundo, os músculos rígidos sob os dedos de Shawn. O corpo de Rutledge estava tenso pra cacete, como se ele estivesse lutando pelo controle.
Os olhos de Shawn se fecharam, a boca se abrindo enquanto ele arfava com calor. Ele estava praticamente empalado no pau de Rutledge, o prazer perseguindo a dor enquanto era esticado ao limite. Ele se sentia tão cheio, o pau de Rutledge pesado dentro dele de todas as formas certas. Ainda doía, criando uma agonia deliciosa que fazia seu pau latejar e vazar contra o próprio abdômen. A sensação de preenchimento era satisfatória de uma maneira que ele não conseguia explicar.
— Eu estou bem — disse Shawn e, para sua surpresa, estava mesmo. A intensidade, a sensação de vulnerabilidade estava fazendo coisas estranhas com ele; ele estava derretendo e queria...
Rutledge começou a se mover.
Shawn só conseguia abrir e fechar a boca inutilmente enquanto o prazer estranho e intenso começava a aumentar.
O pau de Rutledge cutucou sua próstata, com força, e Shawn gritou, os dedos cravando-se nos ombros de Rutledge. — Oh Deus, oh Deus — ele murmurava entre palavras e ruídos inteligíveis enquanto Rutledge estocava para dentro e para fora, fodendo-o a valer agora. Ainda doía, mas Shawn só conseguia se concentrar no prazer intenso e enlouquecedor que crescia dentro dele. Ele estava latejando por inteiro, a necessidade bombeando em suas veias conforme o pau de Rutledge se enterrava fundo nele, mas nunca fundo o suficiente, nunca o bastante, e era bom, tão bom, tão bom mesmo...
Jogando a cabeça para trás, Shawn mordeu o lábio quando Rutledge praticamente o dobrou ao meio, direcionando o pau em um ângulo que o fazia ganir.
Rutledge inclinou-se e começou a beijá-lo no ritmo de suas estocadas, sua língua explorando profundamente, e tudo o que Shawn podia fazer era se segurar e cavalgar naquela tempestade. Ele perdeu completamente a noção do tempo, seu mundo inteiro se reduzindo a Rutledge — Derek —, sua boca quente, seu pau, suas mãos percorrendo todo o corpo de Shawn. Ele nem falava mais, apenas recebia e gemia. Sua entrada se contraía ao redor do pau de Rutledge enquanto ele o bombardeava sem restrições, beijando e mordendo o pescoço e os ombros de Shawn. O pau de Shawn estava prestes a explodir e ele tentou se tocar, mas Rutledge não deixou.
Shawn sentia o ventre se contraindo, sentia sua entrada começar a pulsar, latejando ao redor do pau duro que continuava a fodê-lo, sem nunca parar, levando seu fôlego, sua sanidade e suas inibições.
Shawn gemeu, cravando os dedos nos ombros de Rutledge. — Eu não consigo...
— Você consegue. — Rutledge deu uma estocada brutal contra a próstata de Shawn, seus dedos apertando os quadris dele dolorosamente. — Vai, porra.
E Shawn gozou, o corpo estremecendo enquanto o orgasmo o atravessava com violência.
Rutledge investiu contra ele mais algumas vezes antes de gemer e ficar imóvel por cima dele.
Shawn ficou deitado inerte sob ele, a respiração ainda errática, o corpo tremendo com os espasmos posteriores.
Ele sentiu o sono chegando, sentindo-se aquecido, bem e satisfeito.
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Quando Shawn acordou, estava sozinho. A julgar pela luz do sol que entrava pela janela, eram cerca de oito da manhã.
Bocejando, ele se sentou e se espreguiçou, tentando organizar os pensamentos. Os eventos da noite passada pareciam bizarros e surreais. Se seus músculos não estivessem doloridos e sua bunda não doesse um pouco, ele teria pensado que fora apenas um sonho.
Mas não fora um sonho.
Ele tivera sexo de verdade com Rutledge. Tivera o pau de Rutledge dentro dele.
Lambendo os lábios, Shawn saiu da cama, estremecendo um pouco quando o movimento enviou uma nova onda de dor surda pelo seu traseiro, e caminhou até o espelho.
Ele estava coberto de hematomas.
Shawn encarou as manchas roxas em formato de dedos em seus quadris e coxas e tentou decidir se estava em pânico ou não. Estava, um pouco, mas não por causa de toda a questão gay. Com certeza, ele nunca esperara ter relações com um homem, mas o sexo gay em si não o incomodava tanto — pelo menos não ao ponto de entrar em pânico e ficar histérico. Seus pais haviam partido e seu melhor amigo era bi, então não havia ninguém para julgá-lo — ninguém com quem ele se importasse.
O que incomodava Shawn era o fato de ter feito aquilo com Rutledge. Não estava no acordo. Claro, Rutledge fora bastante autoritário e determinado a fodê-lo, mas Shawn poderia facilmente ter recusado. Poderia facilmente tê-lo parado. Mas não o fizera. Isso o assustava.
Sem mencionar que a intensidade do sexo fora quase assustadora. Assustadoramente boa.
Mordendo o lábio, Shawn passou o dedo sobre o hematoma no quadril. Sua pele formigou.
A porta do banheiro se abriu de repente, e Shawn deu um pequeno salto. Rutledge saiu do banheiro, abotoando a camisa. Ele parou ao ver Shawn, e Shawn teve que suprimir o impulso de se cobrir com as mãos. Forçou seu corpo a relaxar, dizendo a si mesmo para não ser ridículo. Ele não tinha nada que Rutledge já não tivesse visto na noite anterior.
Algo passou pelo rosto de Rutledge antes de se fechar, suas feições tornando-se duras e distantes. — Quanto você quer?
— O quê?
— Quanto você quer pela noite passada?
Shawn inspirou bruscamente. — Quanto eu quero? — repetiu ele.
Rutledge caminhou até a mesa e pegou seu celular. — Sim. Diga o seu preço.
Shawn encarou as costas largas dele. — Preço.
— Sim, preço — disse Rutledge, um tom de irritação surgindo em sua voz. — O que é tão difícil de entender?
Com o estômago se contraindo, Shawn pegou suas cuecas descartadas e as vestiu, ignorando o desconforto. Ele queria um banho — sentia-se sujo —, mas não queria permanecer nu e vulnerável.
— Cinco mil — disse ele. Isso teria que deixar Rutledge irritado, certo?
Uma pausa. — Feito.
Aparentemente, não.
Shawn teria rido, exceto que o nó em seu estômago subiu, tornando-se um caroço apertado na garganta e fazendo-o sentir-se vagamente enjoado. Sem uma palavra, ele se dirigiu ao banheiro e fechou a porta silenciosamente. Encostando-se nela, Shawn fechou os olhos. A porta estava fria contra sua pele.
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Um banho longo e quente clareou sua mente.
Quando Shawn saiu do banheiro, já sabia o que fazer, mas Rutledge havia saído. Shawn estava prestes a ligar para ele quando notou o celular de Rutledge sobre a mesa. Suspirando, Shawn foi verificar as gêmeas, mas elas ainda dormiam, então decidiu ir procurar Rutledge. Quanto antes acabasse com aquilo, melhor.
Após cerca de quinze minutos vagando, Shawn finalmente admitiu que não tinha a menor ideia de onde estava. Aquela ala da mansão era completamente desconhecida para ele, e não conseguia encontrar nenhum empregado para dizer onde Rutledge estava.
A mansão estava quase estranhamente silenciosa. O lugar era luxuoso, mas parecia um museu, não a casa de alguém. Shawn se perguntou como teria sido crescer ali, e um calafrio percorreu sua espinha.
Ao entrar em mais uma sala, Shawn congelou ao ver Joseph Rutledge sentado atrás de uma mesa enorme.
— Desculpe — disse Shawn, dando um passo atrás. — Eu não queria...
— Na verdade, eu queria falar com você, Sr. Wyatt.
— Comigo? — Shawn olhou para ele com cautela, mas voltou para a sala e fechou a porta.
As grossas sobrancelhas grisalhas de Joseph se uniram. — Exatamente. Sente-se.
Shawn sentou-se na cadeira oposta ao velho e esperou. O silêncio se estendeu enquanto eles se encaravam. Mais uma vez, Shawn ficou surpreso com o quanto Joseph Rutledge e o filho se pareciam. Parecia que os homens dessa família envelheciam muito bem. Era assim que Rutledge seria daqui a trinta ou quarenta anos. Não que Shawn estivesse lá para ver.
— Sr. Wyatt — disse Joseph Rutledge finalmente, quando Shawn se recusou a desviar o olhar. — Há quanto tempo você está nesse relacionamento antinatural com meu filho?
Shawn teve que lembrar a si mesmo que Joseph Rutledge estava muito doente. Ele não deveria entrar em discussões com um homem moribundo. — Há menos de um mês, senhor.
— Isso torna as coisas mais fáceis. — Joseph Rutledge pegou uma caneta e escreveu algo em um pedaço de papel antes de deslizá-lo sobre a mesa para Shawn. — Acredito que isso seria uma compensação justa por encerrar sua associação com meu filho.
Shawn olhou para o papel e depois ficou encarando-o.
— Uau, fico lisonjeado por você me valorizar tanto — disse ele e levantou-se. — Obrigado, mas não, obrigado.
— Você é um tolo, rapaz — disse o velho com um olhar desdenhoso. — Ele vai te descartar em algumas semanas, no máximo. Ele sempre faz isso.
— Como o senhor sabe disso? O senhor não o vê há quinze anos.
Joseph zombou. — Ele pode não morar mais aqui, mas isso não muda nada. Eu sei tudo sobre ele. Cada brinquedo que ele teve e jogou fora. É verdade, houve alguns persistentes, mas todo mundo tem um preço.
Quando o significado daquelas palavras foi absorvido, Shawn sentiu um enjoo no estômago. — O senhor é doente — sussurrou ele. — Ele sabe que o senhor pagava os amantes dele para irem embora?
Joseph ergueu uma sobrancelha. — É claro que sabe. Ele é meu filho. Não é tolo — exceto por sua insistência tola de que é homossexual.
Balançando a cabeça, Shawn levantou-se e dirigiu-se à porta. Não havia como raciocinar com aquele homem. Quando ele abriu a porta, a voz de Joseph o deteve:
— Diga o seu preço, Sr. Wyatt. Tudo tem um preço.
— Algumas coisas não têm. — Shawn saiu.
Todo mundo tem um preço.
Então era isso que Joseph Rutledge ensinara ao filho. Shawn não tinha certeza de quem sentia mais pena naquele momento: de Rutledge, de seu pai ou de si mesmo.
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Ele finalmente encontrou Rutledge no terraço meia hora depois.
— Eu vou para casa — disse Shawn.
As costas de Rutledge ficaram tensas. Ele se virou, com um cigarro na mão. Estranho. Até ontem, Shawn pensava que ele não fumava. Rutledge deu uma longa tragada, estudando-o com uma expressão indecifrável.
— Por quê? Deveríamos partir amanhã.
— Eu falei com o seu pai.
Por um momento, Rutledge ficou imóvel, antes que um sorriso sardônico surgisse em seu rosto.
— Quanto ele te ofereceu?
— Muito. Só um idiota recusaria.
Rutledge virou-se de costas.
— Parabéns. O dinheiro mais fácil que você já ganhou na vida.
Shawn observou a postura ereta dele.
— Bem, já estabelecemos que eu sou burro, não foi?
Houve uma pausa. Rutledge soltou uma risada seca.
— Você deveria ter aceitado o dinheiro, Wyatt.
— Eu não gosto dele.
Rutledge virou-se novamente e esmagou o cigarro com o sapato.
— Ninguém gosta dele. Não é um motivo bom o suficiente para não aceitar o dinheiro dele. Nós sabemos que não teria feito diferença alguma.
— Nós sabemos, mas ele não. — Shawn inclinou a cabeça. — Você realmente ficaria de boa se eu aceitasse o dinheiro dele? Ele acha que eu sou seu namorado.
Os lábios de Rutledge se torceram.
— Meu pai paga meus namorados para irem embora desde sempre. Você não teria sido o primeiro. O velho é teimoso o suficiente para achar que vou me casar com uma boa moça se ele acabar com todo relacionamento que eu tento ter. Embora eu esteja um pouco surpreso desta vez. Geralmente ele só se incomoda se o cara dura mais de um mês — o que não acontece com frequência.
Shawn ficou olhando para ele, atônito.
— Você não pode estar dizendo que todos eles aceitaram o dinheiro.
— Não. Todos não. Mas a maioria, sim.
Havia uma máscara de indiferença no rosto de Rutledge, e Shawn teve que cerrar os punhos e desviar o olhar, tentando afastar a vontade de tocá-lo.
— Você disse que ele te lembrava a mim — disse Rutledge. — Mas ele leva isso a um nível totalmente novo. Ele não sabe a hora de parar.
— É — murmurou Shawn. — Ele é um babaca de mente fechada, egocêntrico e autoritário, e ele fodeu com a sua cabeça. Mas isso não te dá desculpa para agir como um imbecil. E se você continuar sendo tão insensível e tratando as pessoas como peões, vai acabar virando ele. É isso que você quer?
— Eu não te trouxe aqui para você me fazer uma análise psicológica.
— Não, você não me trouxe para isso — disse Shawn, com a voz baixa. — Mas eu cansei.
O olhar de Rutledge se aguçou.
— O quê?
— Estou um pouco farto de ser tratado como uma puta barata pela sua família.
— Eu não te chamaria de barato — disse Rutledge, com a voz ríspida.
Shawn soltou uma risada suave.
— Tá legal, talvez eu mereça isso. Eu precisava de dinheiro e não fui orgulhoso o bastante para dizer não, mas agora eu cansei disso tudo. Acabou, Professor.
Ele se virou para sair, mas Rutledge cruzou a distância entre eles em poucos passos e agarrou seu braço.
— Você não pode ir embora. Nós temos um acordo.
Shawn olhou para ele, ignorando o aperto doloroso em seu braço.
— Nós tínhamos um acordo. Estou encerrando-o agora. Acho que já fiz mais do que o suficiente para merecer o dinheiro que você me pagou por esta viagem. Pode ficar com o pagamento pelo sexo da noite passada. Cortesia da casa.
Ele tentou soltar o braço, mas o aperto de Rutledge só aumentou.
— Você não pode simplesmente decidir ir embora.
— Por que não? Por que você se importa? — Ele sorriu radiantemente. — Você não disse que fica entediado com caras héteros depois que os fode? Sorte a sua, então.
Os lábios de Rutledge se comprimiram em uma linha fina. Ele afrouxou o aperto. Shawn puxou o braço e se afastou a passos largos.
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Quando Shawn finalmente conseguiu vestir as gêmeas e tirá-las de casa, o carro de Rutledge já as esperava.
Shawn passou a maior parte da viagem olhando pela janela, fingindo interesse na paisagem. As gêmeas faziam todo o barulho. Ele não olhou para Rutledge, mas a tensão no ar entre eles era palpável, e a quantidade de raiva e frustração era esmagadora. Shawn nem tinha certeza do porquê. Não era como se Rutledge fosse seu ex ou algo assim; eles não estavam namorando; não havia motivo para aquilo afetá-lo tanto. Ele tinha chupado o pau do seu professor por algumas semanas (algo de que, admita-se, não se orgulhava), fora arrastado para irritar Joseph Rutledge e fora pago generosamente por isso. Ele finalmente tinha terminado de se vender e agora tinha alguns meses para encontrar um emprego melhor sem se preocupar com as contas todo santo dia. Então estava tudo bem. Ótimo. Fantástico, na verdade.
Mesmo assim, foi um alívio enorme quando o carro finalmente parou em frente ao seu prédio.
Levou alguns minutos para tirar elas do carro. Rutledge já estava com a mala de Shawn do lado de fora.
— Obrigado, eu levo agora — disse Shawn, sem olhá-lo nos olhos.
— Não seja bobo — disse Rutledge, caminhando em direção ao prédio. — Você não tem três mãos.
— As gêmeas não precisam que eu as carregue. Já têm idade para andar.
Rutledge o ignorou, é claro. Como sempre.
— A gente sabe andar — confirmou Emily.
— Mas eu quero colo — disse Bee.
Shawn fuzilou as costas de Rutledge com o olhar e pegou as meninas.
— Você nem sabe para onde está indo.
— Eu sei o seu endereço. Sou perfeitamente capaz de descobrir onde fica o seu apartamento.
Carrancudo, Shawn não teve escolha a não ser segui-lo, ainda que a contragosto. Quando chegaram ao apartamento, Shawn hesitou. Ele não queria que Rutledge o visse por dentro. Não que tivesse vergonha — tudo bem, talvez tivesse um pouco de vergonha.
Ele abriu a porta e conduziu para dentro antes de fechá-la e virar-se para Rutledge. Rutledge pousou a mala no chão, com a expressão petrificada.
— Eu... — começou Shawn, mudando o peso do corpo levemente. — A gente se vê por aí, eu suponho.
Rutledge assentiu bruscamente. Mas não se moveu.
Shawn limpou a garganta, enganchando os polegares nos bolsos.
— Obrigado, aliás.
— Pelo quê?
— Por me ajudar a descobrir que eu não sou hétero.
— O quê? — Rutledge disse, quase sem entonação.
— É. Caso você não tenha percebido, eu gostei de transar com um homem. — Shawn sorriu de leve. — Eu não esperava, mas gostei. Muito. Então... agora eu tenho mais opções. Acho que devo te agradecer por isso.
— Opções — repetiu Rutledge.
— É. — Shawn esfregou a nuca. — Agora eu posso sair com caras também.
Algo mudou na expressão de Rutledge, mas sumiu antes que Shawn pudesse decifrar o que era.
— Pode — concordou Rutledge, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta.
Droga. Por que aquilo estava tão estranho, tão constrangedor — e seja lá mais o que fosse? Shawn tinha certeza de que não estava imaginando a tensão, a frustração no ar, mas o rosto de Rutledge não revelava nada. E aquilo irritava Shawn profundamente. Ele queria sacudi-lo. Queria chocá-lo.
Então, ele disse:
— Sabe, na verdade mal posso esperar para descobrir se o sexo com outros caras vai ser diferente. É tudo novo e muito empolgante.
Rutledge desviou o olhar por um momento antes que um sorriso se formasse em seu rosto.
— Você está tentando me deixar com ciúmes, Wyatt? Eu não sinto ciúmes. Ciúme é para homens inseguros, com paus pequenos e baixa autoestima. E é preciso se importar para ter ciúmes. Eu não me importo.
Shawn se eriçou com a implicação.
— Por que eu iria querer te deixar com ciúmes? Eu não gosto de você. Sua família é horrível, você é um babaca, você é totalmente perturbado e tem pavor de compromisso. E você não gosta das gêmeas — o que obviamente é um problemão para mim. Você é tudo o que eu não quero.
— Ótimo. — Rutledge o encarou com frieza.
Seus olhares se chocaram e uma onda de fome carnal atingiu Shawn com uma força que lhe tirou o fôlego. Com os dedos trêmulos, Shawn tateou a maçaneta atrás de si e recuou para dentro do apartamento. Fechando a porta, ele se encostou nela, respirando com dificuldade.
Foda-se.