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Ela me via só como amigo - Cap. 20

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Um conto erótico de Bruno (por Carlos_Leonardo)
Categoria: Heterossexual
Contém 12212 palavras
Data: 22/06/2026 08:47:43

Uma lembrança surgiu em minha mente. Não sei se aquilo aconteceu de verdade ou se minha mente inventou depois.

Era um dia ensolarado, com muito verde ao redor. Uma praça, talvez. Havia movimento e as pessoas eram grandes. Eu mantinha os braços erguidos, com uma mão segurando cada um deles.

Uma senhora mais idosa aproximou-se de nós. Ela abaixou-se na minha altura e olhou em meus olhos:

- Como é linda a sua família, sabia?

Então levantei minha cabeça e vi minha mãe rindo para mim. O sorriso mais doce que eu já tinha encontrado na vida. Virei o rosto para o outro lado e a claridade do sol meu cegou completamente, impedindo de ver meu pai.

Tentei vê-lo, mas fui arrancado daquela lembrança por uma única palavra.

- …aborto.

Wendy disse, as lágrimas caindo sem parar de seus olhos.

– Se isso for atrapalhar sua vida, eu faço um aborto.

Fiquei paralisado, sem reação.

- Me desculpa, Bruno – sua voz era baixinha e chorosa, e ainda assim dócil de um jeito que me arrebatava por dentro – Eu não queria atrapalhar sua vida. Eu juro.

Eu não conseguia pensar. Tudo parecia congelado.

- Bruno…

A voz dela era uma súplica desesperada, mas eu não reagia.

- Bruno…

Eu a olhava sem ainda enxergar, a confusão provavelmente evidente em minha face. Por um momento, o teste em minhas mãos parecia pesar toneladas. E o olhar dela continuava me implorar por algo… mas eu… não estava preparado para aquilo?

Então, meio que de repente, tudo pareceu fazer sentido para mim. A espécie de transe que eu estava se dissipou de imediato. Uma calma me atingiu. E um senso de propósito me dominou por completo.

Passei tanto tempo procurando alguém para me mostrar o caminho que não percebi que era minha vez de abrir caminho para outra pessoa. Pela primeira vez na vida, eu não precisava de respostas para seguir em frente. Só precisava escolher.

Coloquei o teste de gravidez ao lado dela e me aproximei. Com cuidado, limpei suas lágrimas e dei um sorriso breve que até hoje não entendo bem porque fiz isso. Ela se acalmou, o desespero dando lugar a uma curiosidade.

Levantei-me, depois, e acendi as luzes da sala. A claridade suprimiu a opressão que eu sentia.

Voltei até ela e sentei ao seu lado. Peguei sua mão e a puxei para o meu colo. Ela não relutou, apenas aceitou. Eu a abracei, agarrando seu corpo, não soltando mais. Eu só queria protegê-la.

Dei-lhe um beijo no rosto.

- Desculpa… - ela sussurrou enquanto meus lábios ainda tocavam sua face.

- Não precisa – respondi dando-lhe outro beijo no rosto.

Acariciei seu rosto. Tinha tantas vontades ali, mas não me preocupei em enumerá-las.

- Eu estou aqui, tá? E nunca sairei de perto. Nunca!

Ela assentiu, com olhos agora marejados. Um pequeno sorriso tímido surgindo em seu rosto.

- Só me abraça, Wendy – reforcei. – Não precisamos resolver tudo hoje.

Ela se encolheu sobre mim, ainda nervosa e um pouco chorosa.

Aos poucos, a respiração dela foi ficando menos agitada. Seu corpo menos inquieto. Seus olhos fechados. E eu pude perceber, aos poucos, um vislumbre de leveza e de paz que ela sempre me passava e eu nunca tinha dado a devida atenção.

Não sei quanto tempo ficamos ali, naquela posição. Sentia-me como se meu verdadeiro mundo tivesse se revelado para mim. E eu, que sempre vivera diante de pensamentos e reflexões abstratas, agora estava diante de algo concreto, mas que ia me assustando cada vez menos.

Olhei mais uma vez para Wendy, aparentemente dormindo em meu colo. E ali tomei uma decisão: essa criança – e ela – seriam minha prioridade máxima. Eu não poderia ser egoísta. E não seria.

Quando me levantei para levá-la a seu quarto, ela acordou.

- Tenta dormir – falei, com cuidado – Vamos… eu te levo pro quarto. Amanhã, conversamos mais. Vai ficar tudo bem, tá?

- Eu confio em você – ela respondeu me dando um meio sorriso. – Eu preciso fazer algo antes de tentar dormir.

Franzi o cenho.

- Uma ligação muito importante… pra minhas irmãs. Elas precisam saber por mim.

Assenti.

Queria dizer que senti um aperto no peito ou algum incômodo, mas na hora, eu só pensava em Wendy.

Levantamos devagar.

- Eu estarei no meu quarto – eu disse. – Se precisar de qualquer coisa… só me avisar. Eu estou aqui, não se esqueça.

Ela fez um leve aceno e caminhou em direção ao seu quarto. Com a mão na maçaneta, ela parou e se virou para mim.

- Obrigada.

- Eu quem sou grato.

Ela sorriu, um pouco menos assustada, e entrou em seu quarto. Ver aquela porta se fechando não me deu a sensação de estar perdendo alguém.

No meu quarto, tentei dormir, mas não consegui.

Minha mente não parava, mas não era uma situação angustiante. Achei isso curioso pois percebi que eu deveria estar apavorado. Estranhamente, não estava. Havia medo, responsabilidade e incerteza. Mas, por trás de tudo isso, surgia uma empolgação impossível de ignorar.

Sentei-me diante do computador e tentei planejar. Era o território onde sempre me senti confortável. Porém, a quantidade de variáveis também era imensa, mais do que qualquer cenário financeiro complexo que já enfrentei.

Havia muitas questões em aberto: o desespero dela. Os medos. Os enjoos. As consultas. A barriga crescendo. Nossos pais. As irmãs. O futuro. E, no centro de tudo, nós dois. Ou melhor dizendo, nós três.

Dúvidas e mais dúvidas. Normalmente isso me paralisaria. Só que dessa vez não era o caso.

Levantei-me.

Caminhei pelo apartamento, mãos para trás, cruzadas. Fui do meu quarto para cozinha, depois para sala, depois para o quarto novamente.

As questões iam e vinham e para cada uma deles, eu acabava encontrando uma solução. Aos poucos percebi o que meu coração já sentia: não era o fim do mundo. E eu só precisava que Wendy acreditasse nisso também.

Olhei para a porta do quarto dela, fechada. Desde que Wendy se recolhera, tudo parecia tão silencioso. Será mesmo que ela ligou para as irmãs?

Pensei em entrar em seu quarto silenciosamente para ver como ela estava. Ou era isso que eu tentava me justificar para esconder a realidade que era muito diferente. O que eu queria mesmo era dizer a ela tudo o que tinha pensado. Quando disse que “estou aqui”, não era da boca para fora.

Parei em frente a porta.

Hesitei por um instante, mas não entrei. Resignei-me a continuar andando pela casa, pensativo.

Logo amanheceu. E eu ainda estava sem um pingo de sono.

Liguei para Bruna por volta de 6h da manhã. Ela me atendeu com uma voz sonolenta.

- Não irei ao escritório hoje – afirmei. – Cancele todos os meus compromissos.

- Não vai? – sua voz pareceu um tanto alarmada – Está tudo bem, Bruno?

Não tinha pensado numa desculpa. Só queria que ela aceitasse sem me questionar. Não poderia dizer ainda que seria pai.

- Estou… doente.

Bruna pareceu aceitar, me desejou melhoras e logo desligamos.

Preparei, em seguida, um café da manhã do jeito que Wendy gostava. Acho que me peguei sorrindo em alguns momentos. O que deveria ser uma notícia bombástica na realidade estava me deixando empolgado.

No dia anterior, eu voltara para casa querendo compartilhar com ela uma das maiores conquistas da minha carreira. Agora, mal conseguia lembrar dos números, dos clientes ou dos resultados. Ainda queria conversar com Wendy. Ainda queria dividir algo importante com ela. Curiosamente, a pessoa continuava sendo a mesma. Só que, dessa vez, o assunto era infinitamente maior.

Não demorou muito para que a porta do quarto de Wendy se abrisse. Meu coração deu um sobressalto, tomado por expectativa. Virei-me para aguardá-la, contando os segundos que mais pareciam uma eternidade.

Ela apareceu com os cabelos desgrenhados e olheiras. Sua noite não fora tranquila. Ainda havia tensão em seu rosto, mas o desespero da noite anterior parecia ter cedido lugar a algo mais sereno.

- O cheiro está bom – ela disse numa voz baixa, esboçando um pequeno sorriso. – Ainda não estou na fase dos enjoos.

Fui até a mesa e puxei uma cadeira para ela sentar, o que ela fez de imediato.

- Obrigada.

O olhar dela percorreu toda mesa, com certa dose de espanto.

- Você fez tudo isso sozinho?

- Fiz para nós – sorri, o que ela me retribuiu.

Começamos a comer.

Ela estava com apetite, apesar de tudo. Isso me trouxe um alívio silencioso.

- Está ótimo, Bruno – ela disse depois de um tempo.

Wendy já estava terminando de comer quando notei que quase não havia tocado no meu prato.

- Você acordou muito cedo, né? – ela perguntou.

- Na realidade… nem dormi.

Wendy parou de comer e me encarou espantada. Pude perceber um traço inesperado de culpa em seus olhos.

Estendi minha mão e segurei a dela com carinho.

- Está tudo bem.

- Por que não dormiu? Agora me sinto mal por ter conseguido dormir enquanto você ficou acordado. Deveria ter me chamado. Deveríamos ter passado por isso juntos.

- Jamais faria isso, Wendy – respondi com cuidado – E ainda bem que você dormiu.

- Mas…

Passei o polegar sobre seus dedos. Ela não sabia que a madrugada acordado me fez mais bem que o contrário, por isso me olhava temerosa.

- Tenta comer mais – pedi com cuidado.

Ela olhou a comida, mas parecia ter perdido parte da fome que tinha minutos antes.

- Como vai ser daqui pra frente?

A pergunta dela veio inevitavelmente.

- Tudo parece nebuloso pra mim – ela continuou. – Eu tenho medo. Não quero ser um fardo para você.

- Fardo para mim seria ficar longe de você.

Fiz uma pausa.

- E do nosso bebê.

Um silêncio se instaurou entre nós, cada qual imerso em seus pensamentos. Eu queria dizer tantas coisas, mas precisava respeitar o tempo dela. Não queria assustá-la de nenhuma forma.

Não parei de olhá-la. Aos poucos, ela criou coragem para se abrir mais comigo, agora com mais serenidade.

- Eu sei que gravidez não é um conto de fadas. Eu dormi, mas antes pensei bastante. Agradeço isso a você, sua calma me trouxe alguma paz de espírito.

Assenti, mas deixei que ela continuasse.

- Eu andei pensando… Eu não quero te atrapalhar, Bruno. Eu pensei que, talvez, fosse melhor eu voltar pra casa dos meus pais.

- O quê? Por quê? – falei de um jeito exasperado. Ela sentiu.

- Você trabalha, Bruno. É uma pessoa importante, famosa e muito ocupada. E eu vou ficar aqui sozinha…

Entendi onde ela queria chegar.

- Não, Wendy. Isso não. Eu também pensei bastante durante a madrugada. Eu sei que não será fácil, que vai dar trabalho, que teremos medo, mas não precisamos tratar isso como uma tragédia. Eu quero estar presente e acompanhar cada passo ao seu lado.

- Mas e o seu trabalho?

Olhei para ela, tentando parecer confiante.

- Vou passar mais tempo trabalhando do apartamento.

- Tenho minha mãe para ajudar. Sei que ela não me negaria ajuda…

- Minha mãe também não negaria, mas... sou eu, Wendy. Eu quero estar presente.

Ela ficou pensativa. Aguardei. Por fim, ela falou:

- Não vai ser fácil.

- Não vai – concordei. – Mas estarei com você… Ainda não sei como, mas quero participar de tudo.

Wendy deu um sorriso triste.

- Agora, estudar é o menor dos meus problemas.

- A vida não acaba porque você engravidou, Wendy.

- Um bebê requer muita dedicação, Bruno.

- Requer sim, eu concordo. Mas eu sou o pai e um dos responsáveis. Não quero que você pare de construir a vida que sonhou.

Ainda nos encarávamos. Tudo ao nosso redor parecia secundário.

- E se eu não conseguir lidar com tanta responsabilidade?

- Aí lidaremos com isso também.

Deixei um pequeno silêncio entre nós antes de continuar.

- Não tenho todas as respostas. Só sei que não quero que você enfrente isso sozinha.

Wendy baixou o olhar.

- Eu tinha tantos planos para os próximos anos.

Esperei.

- Eu ia terminar Hotelaria primeiro. Depois Administração. Depois…

Ela sorriu sem humor.

- Nem sei mais.

Mas eu sabia. Os sonhos que ela tinha com o pai. A compra de um hotel e um local para eventos corporativos.

- Meu pai e eu passamos anos falando desses dois projetos.

- Eu sei.

- Semana passada eu estava discutindo isso com ele.

Ela deu um suspiro.

- Uma semana, Bruno. Minha vida inteira mudou em uma semana.

Eu a vi engolir em seco. Ela tentou continuar, mas não conseguiu. Parecia querer segurar o choro.

- Desculpa.

Foi o que ela se limitou a dizer antes de ficar em silêncio.

Fiquei observando-a por mais um instante, esperando ela se recompor. Ela ficou mexendo no garfo, o olhar fixo no prato. Depois de um tempo, ela continuou:

- O pior é que agora nem estou pensando em mim.

Franzi o cenho.

- Estou pensando no meu pai. Ele é mais entusiasmado que eu. Acredita em mim mais do que eu mesma.

A voz dela perdeu força.

- Eu não queria decepcioná-lo.

- Ei… – falei com calma – você não decepcionou ninguém.

- Será mesmo?

Senti um frio na barriga. Ela permaneceu alguns segundos olhando para a mesa. Então, falou:

- Eu liguei para minhas irmãs antes de dormir.

Meu coração acelerou um pouco. Eu não tinha esquecido da ligação, mas não queria dar peso a isso.

- E?

Wendy sorriu de leve.

- Elas foram gentis. Até gentis demais. Disseram as coisas certas. Mas não sei o que realmente sentiram.

Não soube o que dizer.

Pensei em perguntar mais, saber que palavras elas disseram exatamente. Mas não fiz isso. O assunto ainda carregava um peso que eu não sabia medir, eu não podia negar, mas pela primeira vez, a reação delas não parecia tão importante assim para mim.

Não diante de uma vida que estava nascendo.

- Posso te fazer uma pergunta, Bruno? – ela perguntou antes que me aprofundasse em pensamentos.

- Claro.

Wendy respirou fundo.

- E se você mudar de ideia?

Em nenhum momento me passou pela cabeça fugir da minha responsabilidade. Porém, vê-la perguntando tão claramente mexeu comigo de um jeito que não soube explicar.

E eu… não respondi imediatamente. Fiquei alguns segundos em silêncio. Com minha demora, ela desviou o olhar como se temesse minha resposta. Com cuidado, falei:

- Eu passei boa parte da minha vida sem saber o que queria.

Wendy me encarou novamente.

- E isso não está acontecendo agora – continuei.

Ela não reagiu de imediato. Parecia estudar o que não era propriamente dito.

- Wendy… eu não consigo prometer que vou acertar tudo. Não consigo prometer que não vou sentir medo. Mas consigo prometer uma coisa. Não vou fugir do que temos. Da vida que está surgindo. Não vou.

Pela primeira vez naquela manhã, a tensão desapareceu do rosto dela. E ela voltou a comer.

Naquele dia, ainda fiz questão de deixá-la e buscá-la na faculdade.

- Bruno, minha barriga nem cresceu e você já está tão cuidadoso e alarmado.

Não havia provocação na voz, porém.

- Não consigo ser diferente – me defendi.

Rimos.

Continuei trabalhando do apartamento nos dias seguintes. A ideia de passar horas longe de Wendy me parecia errada por motivos que eu ainda não sabia explicar.

Ainda tivemos mais conversas importantes. Uma gravidez não era o tipo de assunto que se resolvia em uma única noite. Em muitos momentos, porém, apenas o silêncio restava entre nós e ainda assim, parecia reconfortante em alguma medida saber que estávamos ali um pelo outro.

Certa noite, acordei de súbito, assustado. Fui até a cozinha e encontrei Wendy sentada à mesa, também acordada, contemplando um copo de água enquanto assistia a vídeos no seu celular.

- Estou sem sono – ela disse assim que me viu.

- Eu também.

Ela me deu um sorriso contido e voltou a olhar para a tela.

- O que está vendo?

- Como segurar um recém-nascido.

- Parece simples.

Wendy mexeu no celular. Procurou um vídeo visto anteriormente. Então, se levantou e ficou ao meu lado, mostrando a tela para mim. Surgiu um vídeo mostrando cinco posições diferentes.

- É… não parece tão simples assim – eu disse.

Ficamos alguns minutos assistindo.

- Você acha que vamos aprender isso? – perguntei.

- Não.

- Também acho que não.

- Mas vamos fingir confiança.

- Combinado.

Conversávamos isso com aparente seriedade. Aparente. Mas logo caímos no riso. Ela encostou a mão no meu peito como se fosse um gesto natural de quem adorou essa troca e depois saiu.

- Vou tentar dormir, Bruno. Boa noite.

- Boa noite.

Noutro dia, enquanto trabalhava no meu quarto, ela veio e sentou-se na minha cama, de modo que ficasse escorada. Conversamos mais ainda sobre a gravidez, mas parecia que o que importava mesmo era a presença de cada um.

Em outra ocasião, Wendy apareceu na sala segurando duas blusas.

- Qual delas?

Levantei os olhos do notebook, sem entender onde ela queria chegar.

- Para quê?

- Faculdade.

Observei as duas por alguns segundos.

- A azul.

Ela analisou novamente.

- Também achei.

E voltou para o quarto.

Só depois percebi que não fazia a menor ideia da diferença entre as duas. E ri para mim mesmo.

No dia que voltei presencial, não consegui trabalhar direito. Abri relatórios. Fechei relatórios. Em algum momento percebi que estava lendo sobre vitaminas pré-natais enquanto um mercado inteiro se movimentava sem mim.

Bruna e Trajano perceberam que eu estava distante, mas não insistiram no assunto.

Perto do final da aula de Wendy, eu peguei um Uber e fui buscá-la na faculdade. Quando me viu, ela me deu um sorriso contido, que me atingiu com uma naturalidade perigosa. Como se eu já esperasse encontrá-lo todos os dias.

- Bruno, pelo amor de Deus, eu consigo dirigir sozinha, tá?

- Não estou dizendo que não consegue.

- Então por que veio me buscar?

- Porque estava passando por aqui.

- A PHX fica do outro lado da cidade.

- Coincidência.

- Coincidência? E vai deixar meu carro aqui?

- Vim de Uber.

Ela sorriu abertamente, não acreditando no que eu tinha feito. Apesar disso, eu vi seus olhos brilharem.

No caminho de volta, comigo dirigindo, ela me disse que seu pai perguntou se estava tudo bem entre nós porque eu estava estranho.

Senti um frio na barriga, como se eu fosse culpado de algo.

- E o que você disse? – perguntei.

- Disse que não sabia de nada. Que você passou o tempo todo trancado no quarto.

- E ele acreditou?

- Bem… ele não insistiu.

Suspirei aliviado, mas sabia que isso era apenas momentâneo.

- Uma hora teremos que contar – afirmei.

- Sim, mas podemos combinar o melhor momento depois da primeira consulta com a obstetra.

Assenti, antes de continuar falando.

- Falando nisso, a gente precisa pesquisar um obstetra, olhar referências, não importa o preço, quero um que seja competente…

Ela riu e se virou para mim, como se me pedisse calma.

- Bruno, já tenho uma obstetra que quero que me acompanhe. Que nos acompanhe.

- Quem?

- Dra Isabelle Pires. Ela cuidou da gravidez da irmã da Andréa. Conversei com elas ontem. Pesquisei sobre ela também. E as referências dela são ótimas.

- Eu…

- Eu ia te falar mais tarde, para decidirmos em conjunto.

O jeito dela me desarmava.

- Confio em você, Wendy – foi o que consegui responder.

Depois de um tempo em silêncio, perguntei:

- Suas amigas sabem?

- Só Andréa. Ela prometeu guardar segredo. Mas… devo contar para as outras em breve.

- Certo.

Os dias até a primeira consulta foram de uma tortura silenciosa para mim. A única coisa que tínhamos era um teste positivo e uma possibilidade.

E se não fosse uma gravidez?

E se fosse um problema?

Suei frio, mas tentei esconder da Wendy.

Uma vez a encontrei parada diante do espelho, olhando para a própria barriga que ainda nem existia direito. Fiquei em silêncio. Aquele era um momento só dela, e não me pareceu certo invadi-lo. Às vezes eu a encontrava olhando vídeos sobre gravidez sem realmente prestar atenção. Ela também parecia carregar preocupações que preferia não dividir.

Certa vez, enquanto estávamos na sala em silêncio, cada qual imerso em seus pensamentos, ela me perguntou:

- Você está bem mesmo? Parece tenso. É sobre a gravidez? Tá com medo de algo?

- Não, não é nada. São algumas coisas de trabalho que preciso lidar quando minha mente só quer pensar em vocês.

Ela pareceu aceitar.

- E você? – devolvi a pergunta – Tá tudo bem?

- Sim, só um pouco ansiosa pra primeira consulta.

Sua voz era um pouco vacilante. Fui até ela e segurei suas mãos:

- Eu também estou ansioso. Não é só você. Mas sei que está tudo bem com o bebê.

Fiz uma leve pausa.

- Eu sinto.

Não era verdade. Ou pelo menos não completamente. Eu também estava assustado. Mas precisava acreditar naquilo por nós dois.

- Te entendo – ela disse, com um pequeno sorriso temeroso no rosto.

Em determinado momento, comecei a perceber que Wendy pesquisava sobre gravidez exatamente como eu pesquisava sobre investimentos. Abas abertas. Vídeos. Artigos. Livros. Comparações. Planilhas improvisadas. Numa noite, encontrei três cadernos diferentes sobre a mesa.

- O que é isso? – perguntei.

- Organização.

- Isso parece um projeto empresarial.

- É um bebê.

- Não vejo diferença.

- Insensível.

Mas em seguida rimos bastante disso. E pouco tempo depois, lá estava eu escrevendo mais nos cadernos que ela mesma.

Quando ela foi dormir, senti um temor que me fez suar frio. Meus pensamentos escaparam um pouco do meu controle. Será que… não estávamos avançando demais na preparação? E se não fosse uma gravidez? Acabei não tendo uma boa noite de sono. Nos dias seguintes, procurei não pensar muito nisso para não pirar.

Na noite anterior à consulta, perto da meia-noite, Wendy apareceu na porta do meu quarto. Eu estava escorado, lendo um livro qualquer sobre investimentos para tentar esconder minha ansiedade.

- Tá acordado, Bruno?

- Tô.

Ela entrou. Sentou-se na cama, próxima a mim. Ficamos alguns minutos sem dizer nada. Então, ela perguntou:

- E se alguma coisa estiver errada?

Olhei para ela.

- Eu também pensei nisso por um ou dois dias. Depois não pensei mais.

Wendy baixou o olhar, sua postura corporal evidenciando alguma angústia.

Percebi que estávamos exatamente com medo da mesma coisa. Depois, ela apenas encostou o ombro no meu. E ficamos assim, apenas sentindo a presença do outro até que o sono viesse.

Na primeira consulta, Wendy estava claramente nervosa e eu tive que fingir calma para que ela também ficasse tranquila. Mas a verdade é que eu estava tão nervoso quanto ela.

Dra Isabelle foi incrível. Simpática. Amorosa. Fez os exames necessários primeiro. Wendy apertava minha mão enquanto a médica analisava os resultados e, então, disse a frase que explodiu nosso coração de alegria e… de alívio.

- Está tudo bem com o bebê. Vocês serão pais.

Lembro de cada detalhe desse momento inesquecível. Estávamos de mãos dadas. Wendy olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas. Ali percebi que já não estava esperando uma resposta. Estava esperando um filho.

Da consulta, passeamos pelo shopping. Visitamos lojas de bebês. Muitas. Wendy parecia ter tirado um peso das costas, como se agora pudesse pensar nos meses seguintes, na preparação, no parto e na parte boa do que viria a seguir. Para ela, era como se fosse a hora de… aproveitar. E eu... estava nas nuvens. Ou perto disso. Um tipo inédito de sensação que me aquecia.

Do shopping, fomos para a casa dos pais dela. Um local de tantas histórias. Minha mãe também estaria lá.

- Nervosa? – questionei antes de chegarmos.

- Um pouco, mas… – ela fez uma pausa – Meus pais não são como a maioria.

Assenti. Ela tinha razão.

Lá, estávamos todos sentados na sala de estar e havia uma curiosidade crescente dos nossos genitores. A conversa inicial entre a gente parecia mais apressada que o normal, um preâmbulo para o que viria a seguir.

- Você disse que tinha algo para me contar – Trajano foi direto ao ponto, olhando diretamente para sua filha. – O que seria?

Ele parecia o mais inquieto de todos. Wendy me olhou e fiz um leve aceno com a cabeça, encorajando-a.

- Pai… mãe… tia… eu estou grávida. Nós – ela me olhou – teremos um bebê.

Um pequeno silêncio se fez. Os três nos olharam espantados. Cecília pôs a mão na boca, olhos arregalados. Minha mãe começou a chorar de felicidade. E Trajano parecia em choque, processando lentamente o que acabara de ouvir. Então, Cecília veio até Wendy e se jogou num abraço.

- Minha filha, que felicidade! Que felicidade! Eu vou ser avó? Meu Deus… Eu vou ser avó!

Já minha mãe veio até mim, me puxando pelos braços, me colocando em pé. Ela pôs as mãos em meu rosto, pouco se importando com as lágrimas que caíam sem parar em suas bochechas.

- Que notícia maravilhosa, Bruno! Inesperada! Eu estou tão feliz… de verdade. Eu acredito que esse bebê veio na hora certa.

Trajano permaneceu sentado. Em silêncio. Eu entendia. Era sua filha.

- Vocês têm certeza? – ele perguntou depois de um tempo, ainda sentado, claramente impactado.

- Sim, pai – respondeu Wendy, sem esconder uma excitação crescente. – Fomos na primeira consulta hoje. Está tudo bem com o bebê.

- Isso aconteceu tão rápido… – ele balbuciou – É muito para eu processar…

Cecília olhou para o marido, rindo, depois para nós dois e antes que pudéssemos responder algo, ela perguntou:

- Vocês estão juntos?

Wendy e eu nos entreolhamos.

- Não – ela respondeu.

Foi a vez dos três se entreolharem.

Mas antes que dissessem ou perguntassem qualquer coisa, contamos como aconteceu, sobre o que conversamos e o que decidimos. De fato, parecíamos ensaiados de tão sincronizados que estávamos.

- Já pensamos em tudo – disse Wendy.

- Wendy continuará morando comigo. Vamos dividir responsabilidades – complementei.

- Não vou abandonar a faculdade.

Ela virou-se para mim, como se quisesse confirmar tudo que já estava acertado entre nós. Depois virou-se para o pai e continuou:

- Sei que vai atrasar um pouco, pai, mas eu vou terminar as duas. O Bruno vai me ajudar e… o bebê também.

Trajano assentiu, ainda desconfiado. Wendy continuou:

- A gente vai criar essa criança junto. De verdade. Eu e Bruno queremos que o outro esteja presente em tudo. E… não estamos começando um relacionamento. Sei que parece estranho pra vocês…

Ela me olhou novamente e sorriu.

– Confiamos um no outro. E mais que isso, acreditamos que conseguiremos fazer isso funcionar.

Cecília e minha mãe estavam nas nuvens.

- Mas vocês vão contar com a gente também, né? – perguntou a mãe dela. – Quero ajudar no que for preciso, minha filha.

- Eu também quero estar presente. É meu neto. Bruno, nada de me esconder as coisas, ouviu bem?

Sorri e fui adiante:

- Falando em ajuda… acho que já passamos mais tempo olhando quartos de bebê do que qualquer outra coisa.

A conversa ainda continuou por um bom tempo.

Dos exames, de possíveis nomes, de onde seria o parto, de como agiriam como avós. O clima estava caminhando para a felicidade, apesar de ainda haver uma tensão no ar, principalmente de Trajano. Em dado momento, estávamos só eu e ele. As mulheres conversavam mais distantes de nós, numa rodinha só delas.

- Wendy está bem mesmo? – ele me perguntou.

- Está sim.

- O bebê está bem? Digo, bem mesmo?

- Sim. Confirmado pela médica.

- E vocês realmente têm um plano? Você tem um plano?

Entendi onde ele queria chegar.

- Tenho muitos – falei, com o máximo de convicção que poderia ter.

- Me conte.

Nos minutos que se passaram, contei todos os meus planos, muitos dos quais pedi que ele guardasse segredo. Aos poucos, ele foi amolecendo, um sorriso fácil brotando em seu rosto.

- Confio em você, Bruno – ele me disse, depois me dando um abraço efusivo e apertado. Não era a primeira vez que eu ouvia aquelas palavras, mas nunca tiveram um peso tão grande.

Depois voltamos até elas. A conversa prosseguiu por mais tempo ainda. Quando os assuntos já estavam em círculo, minha mãe soltou de repente:

- Bruno está tão feliz.

Depois abriu um sorriso amplo e complementou:

- E eu vou ser avó.

Trajano respondeu de imediato:

- Tecnicamente, nós três vamos, minha querida Marluce.

Todos rimos.

Já éramos uma família há muito tempo e ainda assim, noites como aquela mostravam o quanto nosso vínculo poderia ser muito mais forte.

Na volta, ainda no carro, perguntei se Wendy ficou feliz com a forma como contamos e como tudo se sucedeu.

- Muito feliz – ela respondeu. – Não poderia esperar outra coisa dos nosso pais. Eles são incríveis. Não convencionais. Saber que teremos o apoio deles me deixa muito confiante para o futuro. E você tem razão numa coisa.

Franzi o cenho.

- Não sinto que perdi meus sonhos.

Fez uma pausa.

- Sinto que eles ficaram maiores e mais especiais ainda.

Fiz um leve aceno e segurei suas mãos, ficando assim até chegarmos ao apartamento. Não falamos muito mais, apesar da leveza que existia naquele momento. Cada qual imerso em suas próprias reflexões.

E nessa, acabei flutuando entre vários pensamentos.

Um deles me chamou atenção.

Wanda e Wis não tinham me procurado. Achei estranho, inicialmente. Talvez eu devesse encarar como um elefante na sala, mas na realidade não foi o suficiente para me preocupar. Pela primeira vez em muito tempo, havia coisas mais importantes ocupando meu estado de espírito.

Não demorou muito, porém, para que Wanda e Wis entrassem em contato comigo. Dias depois de comunicar aos pais de Wendy, a primogênita foi a primeira a me mandar uma mensagem. Era quase final do expediente na PHX quando meu celular vibrou e a janelinha de notificação subiu com o nome de Wanda:

> Wanda: Bruno, toda felicidade do mundo para você e Wendy. Espero que essa criança venha com muita saúde. Vocês serão pais incríveis, não tenho dúvida disso. Parabéns!

Fiquei alguns segundos olhando para a tela. Era a primeira vez que conversávamos desde que ela fora embora para a Itália. Hesitei por um instante e bloqueei o aparelho. Só respondi à noite, em casa, pouco antes de dormir.

> Bruno: Obrigado, Wanda. Fico muito feliz por sua mensagem. De verdade.

E ficou por isso mesmo.

No dia seguinte, perto da hora do almoço, foi a vez de Wis, também por mensagem:

> Wis: Soube que você e minha irmã terão um filho… Que surpresa boa. Cuide bem da Wendy e do bebê. Sejam felizes.

Desta vez, respondi de imediato, mas tentando seguir a mesma linha que tracei ao responder Wanda. Melhor dizendo, literalmente a mesma resposta.

> Bruno: Obrigado, Wis Nara. Fico muito feliz por sua mensagem. De verdade.

Não quis aprofundar mais.

Ambas foram gentis, respeitosas e… distantes. Algumas histórias pareciam mesmo encerradas. Meu foco mirava noutro lugar.

Aos poucos, Wendy e eu fomos adaptando nossa rotina. Não é como se nós tivéssemos combinado algo, detalhado a tarefa que cabia a cada um. Simplesmente aconteceu.

Muitas vezes, eu preparava o café da manhã. Já Wendy organizava o almoço quando não entrava em conflito com a faculdade. À noite, jantávamos juntos assistindo qualquer coisa que nenhum dos dois realmente prestava atenção. Não conversávamos o tempo todo. Mas estranhamente parecia natural.

Algumas noites terminavam exatamente do mesmo jeito. Wendy escolhia um filme. Eu dizia que parecia ruim. Ela insistia. Eu cedia. Trinta minutos depois, era eu quem estava completamente envolvido na história enquanto ela já tinha adormecido no sofá. Quando isso acontecia, eu desligava a televisão, cobria suas pernas com uma manta e ficava alguns segundos observando seu rosto tranquilo, indeciso se deixava ela dormir ali mesmo ou a levava nos braços até seu quarto.

A verdade é que passei a ficar mais presente no seu dia a dia, cada vez mais de home-office. Continuei deixando e buscando ela na faculdade. Às vezes vinham Cecília e minha mãe, ou alguma amiga dela – ou todas – e passavam um tempo com a gente, mas na maior parte do tempo, éramos só nós dois.

E, embora não tenha dito explicitamente, eu gostava cada vez mais quando era só nós dois.

Numa noite, encontrei uma lista sobre a mesa da cozinha. Vitaminas. Consultas. Exames. Horários. Dúvidas para a médica. Meu nome aparecia ao lado de vários itens. Quando perguntei o motivo, Wendy respondeu como se fosse óbvio:

- Porque você vai comigo.

Foi a primeira vez que percebi que ela já me incluía naturalmente nos planos.

Horas depois, voltei à cozinha e encontrei Wendy sentada à mesa fazendo contas. Havia folhas espalhadas por todos os lados.

- O que aconteceu? – perguntei.

- Estou calculando os custos.

Sentei ao lado dela.

- Custos de quê?

Ela me entregou uma folha. Fraldas. Roupas. Berço. Carrinho. Vacinas. Fiquei alguns segundos em silêncio.

- Wendy.

- O quê?

- Acho que vamos precisar de mais dinheiro.

Ela começou a rir. E eu também.

Na realidade, dinheiro não seria problema. Ainda assim, isso mostrava a realidade chegando para nós.

De todo modo, isso me fez ficar mais atento às consultas, ao que ela sentia, ao que ela precisava comer. E, claro, eu não poderia esquecer, as compras para o bebê, que proporcionavam quase sempre interações engraçadas, divertidas e “conflituosas” entre nós.

- O quarto do bebê precisa realmente de tudo isso? – perguntei, olhando para um carrinho daqueles de mercantil abarrotado de itens.

Wendy virou-se para mim, com aquela sorriso amplo que sempre me desarmava.

- Eu acho que falta coisa ainda.

- Que coisa?

- Outra cortina, por exemplo.

- Mais uma?

Ela passou os quarenta minutos seguintes me explicando por que duas cortinas eram indispensáveis.

Eu argumentei.

Perdi.

Certo dia, cheguei em casa com duas babás eletrônicas com câmera para o quarto do bebê. Wendy arregalou os olhos quando viu as caixas, surpresa.

- Você comprou isso?

- Sim. No shopping.

Ela sorriu, talvez por ter visto minha empolgação.

- Eu pesquisei bastante – expliquei. – Envolve tecnologia, área que tenho muito conhecimento.

- Eu imagino… mas ainda faltam seis meses.

- Eu sei. Ainda assim, quis comprar… Não gostou?

Wendy não tinha tempo ruim. Ela veio até mim, pegando as caixas, abrindo, analisando junto comigo. Fui explicando e tirando as dúvidas dela.

- Confesso que não tinha pensado nessa ideia – ela afirmou, observando cada uma das babás eletrônicas – Só não entendi uma coisa…

Franzi o cenho.

- O quê?

- Por que duas?

- Ah… usei a lógica da cortina.

Ela caiu na gargalhada. Uma gostosa gargalhada, seguido de um abraço reconfortante.

- Você é o melhor, Bruno – ela me deu um beijo no rosto e saiu com os aparelhos. – Vou guardar no quarto.

E eu fiquei na sala, vendo-a ir, com um sentimento tão bom que me recusava complicar com qualquer pensamento ou reflexão para tentar entender.

A verdade é que naquele momento, depois dela sair, me peguei imaginando uma criança correndo pelo apartamento. Foi a primeira vez, diga-se de passagem. De muitas.

Não sei em que momento as demais amigas dela souberam da gravidez, mas as quatro ficaram encarregadas de organizar o chá de revelação.

- A moda agora é fazer da revelação um evento chique, Bruno – argumentou Ana Cristina – Saber pelo Morfológico ou pelo exame de sangue é coisa do passado.

- Pode confiar na gente. Wendy vai fazer a sexagem fetal amanhã, mas só a gente vai saber o resultado – pontuou Camila.

- E vamos ajudar na organização da festa. O melhor local é na casa dos pais dela. O espaço é amplo e aquele jardim é tudo – disse Andréa.

- E claro, Wendy não terá trabalho nenhum exceto ficar sentadinha nos dando ordens, coisa que ela faz muito bem – concluiu Elaine.

Todas riram. Também tive que rir.

O mundo de Wendy era grande.

Cheio de pessoas.

Cheio de histórias.

Cheio de afetos.

E, sem perceber, eu estava começando a me sentir parte também.

- Gente – falei depois de um tempo – eu adorei a ideia. Vai ser como vocês estão planejando. Eu… já estou numa ansiedade grande. E curioso também: como será o anúncio?

As quatro responderam uníssonas:

- Surpresa.

- Não podemos revelar ainda – disse Elaine.

- É surpresa até mesmo pra Wendy – complementou Ana Cristina.

Olhei para a futura mãe do meu bebê e ela simplesmente deu de ombros, mas inegavelmente empolgada com a ideia.

- Confio nelas, Bruno.

Assenti.

Eu sabia que esse evento era mais um dos novos sonhos que Wendy passou a ter desde que soube que seria mãe.

Também não poderíamos deixar de avisar a Remo e Érica sobre a gravidez. Convidamos ambos para um jantar no apartamento, num sábado à noite. Quando contamos, a reação de ambos foi genuinamente emotiva e sincera. Depois do choque inicial, eles se jogaram em cima de nós, nos abraçando e nos beijando, lágrimas caindo de seus olhos.

- Eu vou ser tio – repetiu Remo, sem parar – Eu vou ser tio!

- Essa criança vai ser linda – disse Érica, agarrada a Wendy – Quem quer que ela puxe, ela será linda. Vai ser um misto dos dois. E eu acho que será uma menina.

Conversamos bastante ainda. Wendy e Érica demonstravam uma química fora do comum, mas no sentido puramente de amizade. Com o tempo, não tive dúvidas de que Érica se tornaria uma amiga do mesmo nível que suas outras quatro amigas.

Remo, por sua vez, não me largou. Passamos horas falando sobre a criança e contei para ele algum dos meus planos, alguns dos quais Wendy não saberia ainda.

- Por que não contou?

- Estou esperando um momento especial, só nós dois.

Ele me olhou por um instante, um sorriso malicioso surgindo em seu rosto.

- Você gosta dela, não é?

- Não começa, Remo. Estamos falando do bebê.

- Sei…

Não respondi. Isso resultaria num pensamento e reflexão que eu não queria ter naquele momento.

- Foco no bebê, cara – eu disse, depois de um tempo. – É a nossa prioridade. Já tem coisa demais acontecendo. Sei que você entende isso. O mais importante é que deixo claro, dia após dia, que estarei com ela em todos os momentos. Que nosso filho é tão prioridade para mim quanto para ela.

Remo sorriu, satisfeito.

- Eu não poderia esperar outra coisa de você, meu amigo.

Noutro momento, ele me contou algo que o incomodava e que já queria ter me contado antes, mas que não tinha tido oportunidade.

- Saímos para jantar com Adriana e o namorado dela, semanas atrás.

Engoli em seco. Não que fosse por ciúmes, mas porque Adriana sequer passava pela minha cabeça naqueles dias e isso me trouxe algo parecido com culpa.

- Não sei o que você pensa dela e dessa situação toda. Se mesmo se importa – continuou Remo – mas eu precisava te contar mesmo assim. A verdade é que Érica e ela nunca perderam o contato, você deve saber… E, bem, a vida seguiu, né? Então, rolou esse jantar. Foi agradável. O namorado dela deve te conhecer, apesar do seu nome não ter sido citado nenhuma vez.

- Sim, o conheço também. Ricardo Dudamel. Ele é muito bom no que faz e muito importante na XP, sendo o número dois de lá.

Remo me estudou por um instante. Pareceu hesitante, até.

- Adriana me pareceu feliz.

- Que bom. Ela merece. Ricardo não poderia ter escolhido alguém melhor.

Ficamos em silêncio por um instante. Cada qual medindo o que mais poderia ser falado ou discutido desse assunto. Mas Remo, como sempre, quebrou o clima estranho que tinha ficado.

- Prefiro a Wendy, se quer saber.

- Acho que você já falou isso em diferentes contextos.

Rimos um bocado disso, até que ele finalizou:

- Agora é no verdadeiro contexto que importa. Bruno, Wendy, o bebê e a linda família que está se formando.

Família.

A ideia me agradava, mas que tipo de família teríamos? Em outras épocas, refletiria sobre isso por horas. Mas ao olhar para Wendy, com seu sorriso delicioso, totalmente entretida por Érica, preferi confiar que o futuro traria todas as respostas.

Esses primeiros meses também tiveram momentos tensos também. Nem tudo foi alegria. Havia dias que ela tinha muitos enjoos. Vezes em que vomitava. Eu cuidava dela e procurava entendê-la nos momentos em que ela mais se sentia afetada e inexplicavelmente… culpada.

- Você deve me achar nojenta – ela disse, ainda apoiada na privada, com clara ânsia de vômito.

- Claro que não – respondi – Eu e você sabíamos que dias bons e ruins viriam e que eu te prometi que estaria presente em todos.

- Mesmo vomitando?

Sorri para ela.

- Mesmo vomitando.

Ela me devolveu um sorriso triste e cansado. Dias assim nos deixavam cada vez mais cúmplices e confiantes um no outro. Para mim, isso seria essencial para a co-parentalidade que pretendíamos ter.

Numa manhã de sábado qualquer, encontrei a cozinha ocupada por Wendy. Ela estava tentando preparar panquecas. O resultado parecia uma experiência científica malsucedida. Havia farinha na bancada, na roupa dela e, de alguma forma, até no chão. Quando me viu, cruzou os braços.

- Não fala nada.

- Eu não falei nada.

- Mas pensou.

Pensei mesmo.

Acabamos tomando café numa padaria próxima. No caminho, ela reclamou que eu não tinha espírito de equipe. Eu respondi que espírito de equipe não incluía ingerir massa crua. Ela ficou indignada. E eu gostei de ouvi-la “indignada”.

- Acho que meu olfato se alterou um pouco – ela se defendeu – Por isso aconteceu aquela “tragédia” que você viu.

- Deve ter sido isso mesmo – concordei.

Apesar de tudo, essas interações me deixavam leve. E percebia que ela também.

Mas o que realmente virou uma chave em mim foi numa das vezes em que fui buscá-la na faculdade.

Parei no local combinado de sempre e logo a avistei.

Ela conversava com um rapaz, um pouco mais baixo que eu.

Eles conversavam animadamente, riam com facilidade. Em alguns momentos, ela colocava a mão na barriga, noutro gesticulava como se tivessem colocando o papo em dia depois de muito tempo. A química entre eles era inegável, apesar de manterem uma distância amigável entre si. Eles pareciam claramente se conhecer há um muito tempo.

Quando Wendy viu meu carro, ela e o rapaz vieram caminhando. Nada mudou na expressão da futura mãe do meu filho. Ela continuou agindo do mesmo jeito. E isso, de alguma forma, me trouxe algum alívio. Talvez fosse um amigo dela do tempo de escola.

Ao se aproximaram, eles se despediram com um abraço, mas não sei por quanto tempo ficaram assim. Eu não consegui ver. Desviei o olhar e me senti um… covarde. Alguma coisa me incomodava.

Não era o abraço.

Não era o sorriso.

Então o que era?

Quando olhei novamente, eles já tinham se soltado, deram as mãos e se despediram alegremente. Não me pareceu haver malícia, embora o carinho fosse evidente.

Assim que entrou no carro, ela já foi logo se explicando antes que eu dissesse qualquer coisa:

- Desculpa a demora. Eu estava falando com o Gabriel.

- Gabriel? – questionei, minha voz não tão alegre.

Wendy sentiu pelo tom, mas ainda assim não escondeu nada.

- É… meu primeiro namorado. Agora, um amigo.

- Ah.

Tentei, mas não consegui esconder meu desânimo, como se tivesse algum direito.

Saí com o carro e havia um silêncio desconfortável entre a gente. Eu pensava em algo para dizer, mas minha mente permanecia travada.

- Bruno – ela quebrou o gelo.

- Oi?

- Vamos sair hoje à noite? Vamos… para um restaurante. Queria conversar sobre nós. Acho que precisamos disso. A gente tá tão bem… – ela pausou por um instante – Eu não quero deixar isso ficar estranho.

Sorri para ela, numa tentativa de ser simpático.

- Tudo bem. Vou caprichar no meu visual, hein?

- E eu vou usar a barriga como arma – retrucou ela, aos risos.

No restaurante, rapidamente fomos guiados até a mesa pelo garçom. Acompanhei ao lado de Wendy, minha mão repousando em suas costas, gesto pelo qual ela me deu um leve sorriso de aprovação.

Passado os momentos iniciais e feito os nossos pedidos, um pequeno silêncio surgiu entre a gente. Parecíamos envergonhados. Tomei a iniciativa:

- Você e Gabriel parecem se gostar bastante.

Wendy deu um sorriso tímido, baixando o olhar. Antes que falasse, o garçom chegou com dois copos e uma garrafa de água. Quando ele se foi, ela me olhou nos olhos e havia verdade ali.

- Gabriel foi meu primeiro namorado, como te disse mais cedo. Foi importante. Ficou um carinho. Um respeito. Mas ele pertence a uma versão antiga da minha vida.

Ela fez uma pausa, mas sem tirar os olhos de mim. Então, concluiu:

- Lucas também.

Dei um sorriso contido, talvez mais satisfeito do que deveria.

- Tem certeza? – perguntei.

Arrependi-me no instante seguinte.

- Tenho – ela respondeu de imediato.

Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.

- Uma pessoa pode guardar carinho pelo passado sem querer viver nele.

Não soube o que falar em seguida. Ela parecia me estudar e eu encontrava dificuldade em encarar seus olhos cor de mel.

- Você sabe qual sempre foi seu problema? – ela disse, meio inesperadamente, depois de um tempo.

Devo ter arregalado os olhos, surpreso.

- Imagino que existam vários – tentei responder com alguma cautela.

Wendy riu. Não havia, porém, um tom de crítica em seu semblante.

- Você sempre achou que as pessoas gostavam de você por acidente.

Fiquei sem reação. Isso não era uma fala de quem me conhecia superficialmente.

- Posso enumerar várias situações onde você teve cuidado, paciência, generosidade, lealdade…

Engoli em seco na última palavra. Lembrei de Wanda em Nova Iorque. Da dor que causei em Adriana. Uma culpa que nunca conseguirei superar.

Wendy percebeu.

- Não estou dizendo que você é infalível. As pessoas erram. Você erra. Eu erro. Ainda assim, é muito fácil gostar de você.

Não havia pressa na sua fala. Era pausada. Consciente. Como se colocasse para fora o que sempre achou de mim e nunca tivera oportunidade antes.

- Você sempre foi o homem que aparecia quando alguém precisava. Só nunca percebeu isso.

Ela pousou a mão sobre a minha. Minha mente entrou em polvorosa, querendo entender o significado daquilo. Procurei não entrar nessa, apenas sentir e aceitar o sentimento que estava sendo evocado.

- Eu não poderia escolher um pai melhor para o nosso filho.

O sorriso em seu rosto era doce. Não havia cobrança. Era mais como se fosse uma constatação. Depois, ela pousou a mão na barriga antes de emendar:

- Nós adoramos você, papai.

Eu queria dizer algo, mas tive que segurar a emoção. Não queria desabar em choro na frente dela. Não naquele momento. Eu fiquei muito tímido, possivelmente corado. E não é que eu concordasse com o que ela tinha dito, mas se ela pensava assim de mim, sentia-me um tanto… envaidecido.

Ela, por outro lado, parecia satisfeita com minha reação e com o fato de ter colocado tudo aquilo para fora. O efeito que me causou parecia ser o que ela realmente queria.

Quando me controlei, senti que era necessário contar algo que eu julgava ela não saber sobre mim.

- Preciso te dizer algo também. Não sobre você porque… se fosse falar de você, precisaria de um dia inteiro e haverá um momento certo para isso.

Wendy pôs as mãos no rosto, atenta.

- Não quero segredos entre nós – continuei, antes de esperar um instante a mais.

Queria ver se haveria algum desconforto nela, mas tudo que encontrei foi… expectativa. Apenas isso. Ela continuava serena, como se eu fosse um livro aberto que ela já soubesse tudo.

Senti um frio na barriga, mas precisava continuar.

- Eu e Érica tivemos uma amizade colorida.

Ela provavelmente sabia tudo sobre meus relacionamentos com Wanda, Wis e Adriana, mas não com Érica. Eu queria deixar tudo às claras o quanto antes.

- Vejo vocês cada vez mais próximas, íntimas, se dando muito bem, mas saiba que o que houve entre a gente terminou muito antes de você morar comigo. E… está tudo certo com o Remo também. A gente…

Então, parei.

Ela não mudou de postura.

Não parecia sequer afetada com a revelação.

Na realidade, pude perceber um pequeno sorriso em seu rosto, como se tivesse gostado da minha sinceridade.

E veio a resposta dela que me desconcertou por completo:

- Eu sei.

Abri a boca, mas não consegui dizer nada. Percebendo minha reação, a mão dela encontrou a minha novamente.

- Tá tudo bem, Bruno. Todos tivemos um passado. Sei muito sobre o seu e ele nunca me assustou.

Ela me deu um sorriso travesso e completou:

- Espero que o meu, bem menos movimentado, também não te assuste.

- Jamais – foi o que consegui responder.

Mas o passado dela ainda viria me assombrar…

Conversamos sobre outros assuntos, quase tudo relacionado ao bebê. Expressamos nossas expectativas quanto ao ultrassom morfológico, compras que ainda precisávamos fazer e o chá de revelação.

- Minhas irmãs confirmaram presença no chá de revelação. Isso seria um problema pra você?

A revelação e a pergunta me pegaram desprevenido. Foi o único momento daquela noite que Wendy ficou um pouco mais séria.

O elefante na sala.

Embora fizesse todo sentido, afinal são as irmãs dela, não tinha parado para pensar que era bastante provável – praticamente certo – que todos estaríamos no mesmo ambiente em muitas situações envolvendo o bebê. Minha mente queria refletir sobre as consequências, mas, mais uma vez, consegui me controlar.

- Não, problema nenhum – respondi seco, a voz querendo falhar um pouco. – São suas irmãs e… elas têm um apreço enorme por você. Fico feliz delas estarem num momento tão importante para você… para nós.

Percebi que Wendy me pareceu um pouco incomodada com a resposta. Ela não havia transparecido nenhum incômodo em relação às irmãs nas semanas anteriores. Isso pareceu ter surgido de repente.

- É que…

Ela tentou falar, mas interrompi. Wendy precisava saber de uma verdade:

- Hoje, elas não são o que ocupa meus pensamentos.

Fiz uma pausa. Olhei em seus olhos. Não era sobre as palavras…

- Eu só consigo pensar no bebê... e em você.

Ela baixou o olhar, mas vi sua tentativa de esconder um sorriso tímido, mas contente. Gostei disso na hora. Depois, ela voltou a me encarar e pude perceber em sua expressão que havia entendido o que queria dizer.

Houve um pequeno silêncio entre nós, mas não desconfortável. Logo, ela emendou um assunto que gostava bastante:

- Você pensou em nomes de bebês?

Sorri.

O assunto nome era algo que ela vinha pensando fazia semanas e sempre pedia minha opinião. E sempre pedia para eu trazer sugestões. Eu nunca encontrava um nome legal, que eu gostasse e que principalmente ela gostasse. Até aquele dia.

- Pensei. Se for menino, gostei de Cristiano – falei para apreciação dela.

- Bonito nome. Homenagem ao seu pai, né?

- Sim.

Ela pareceu gostar.

- E se for menina?

- Não sei. Gosto de Priscila.

- Bonito também.

Apesar disso, Wendy estava com uma expectativa crescente. Parecia querer me dizer algo e estivesse testando terreno.

- E você? – perguntei – Pensou em algum outro nome para compartilhar comigo.

- Pensei em vários. Tanto masculinos quanto femininos. Você viu nos últimos dias. Minha mente anda fértil demais – ela riu de si mesma antes de continuar – Gostei de um bocado, mas só um nome mesmo pareceu atingir meu coração por completo.

- Qual seria?

Ela hesitou por um instante.

- Não sei se você vai gostar.

Foi o único momento da noite que ela pareceu vacilante.

- Sei que vou gostar – reforcei.

Wendy ainda relutou um pouco para então dizer:

- Aurora.

Seus olhos encontraram o meu.

- Aurora Nara.

Naquele momento, senti que teria uma filha.

E, de algum modo estranho, já sabia seu nome.

Aurora Nara.

Era uma verdade tão plena que dominou minha alma por inteiro.

Não contei sobre isso a Wendy. Não queria enchê-la de mais expectativas e, pior, uma ansiedade que poderia ser ruim caso não fosse menina.

Mas eu tive certeza absoluta.

E sorri.

- Eu… amei.

O sorriso dela se abriu. Uma mistura de alívio e felicidade. Talvez ela também sentisse em seu coração que teríamos uma menina, embora nunca tenha me dito.

- Pois está combinado – eu disse – Se for menina... vai ser difícil eu aceitar outro nome.

Vi os olhos dela marejarem. A felicidade daquele momento, de nós dois – três –, era imensa. Ela também completou:

- E se for menino, será Cristiano. Em homenagem ao seu pai.

- Combinado.

Pouco tempo depois chegou o prato que pedimos. Risoto de Funghi.

Comemos com calma, apreciando a comida e a presença do outro. Pequenas conversas surgiam no meio, com muitos risos contidos, depois amplos.

Antes da sobremesa, contei dos meus planos para ela. Planos esses que só tinha confidenciado para Trajano e Remo.

- Criei um fundo para a faculdade do nosso bebê.

Foi a vez dela arregalar os olhos.

- Você sabe – continuei – Já estou cuidando do futuro da nossa criancinha.

Wendy ficou emocionada. E já emendou:

- Quero participar também.

Assenti levemente.

- Contava com isso. Por isso já deixei tudo preparado para você contribuir também.

- Obrigada, Bruno. Eu não tinha pensado nisso, mas faz todo sentido.

Depois de explicar os pormenores do fundo, contei sobre o outro plano:

- Não é só da faculdade da criança que eu quero participar.

Wendy olhou-me curiosa.

- Quero participar dos seus sonhos também.

Ela abriu a boca, ficando sem reação.

- O hotel. O espaço para eventos corporativos. Tudo. Quero ajudar a construir isso com você.

Seu tique nervoso voltou. Ela mordia os lábios enquanto alternava o olhar entre meus olhos.

- Você tem certeza? – ela perguntou, a cautela evidente em sua voz, o semblante recheado de um tipo diferente de esperança.

- Como nunca nessa vida – respondi sem hesitar.

- Eu vou adorar, Bruno. Com você e meu pai, eu posso confiar muita coisa em vocês enquanto cuido da parte que eu realmente domino.

- Essa é a ideia.

Expliquei por cima como seria e que seu pai já estava ciente do meu plano. E já tinha concordado totalmente comigo. Lembrando do dia que falei com ele, não me esqueço da resposta que ele me deu:

- Você lidará com a burocracia melhor do que eu. E juntos, realizaremos o sonho dela.

- E tudo que quero, Seu Trajano.

Na volta para o apartamento, Wendy procurou minha mão. Ela não disse nada. Nem eu. Nem nos entreolhamos. Apenas aconteceu. Fomos o caminho inteiro assim, de mãos dadas.

- E se for menina mesmo? – perguntou ela, como se saísse de um desvaneio.

- Vai mandar em mim.

- Igual a quem?

Olhei de relance para ela. Corei um pouco e tentei esconder meu sorriso. Ela não pareceu “satisfeita”.

- Você está dizendo que eu mando em você?

Sorri.

- Estou dizendo que nossa filha terá excelentes referências.

Ela também riu. Pareceu aceitar.

Num sinal fechado, foi minha vez de sair de um desvaneio. Pensei em voz alta:

- Às vezes, acho que a gente está construindo uma vida inteira sem ter decidido o que somos.

Depois, logo me arrependi. Fiquei até sem coragem de olhar para o lado. Não conseguia imaginar o que Wendy tinha achado.

Houve um silêncio que pareceu demorar uma eternidade. Então ouvi a risada baixa dela. E sua voz:

- Talvez algumas coisas precisem ser construídas antes de serem nomeadas.

O sinal abriu, mas fiquei parado. Virei-me para ela. Havia brilho nos seus olhos. E uma vontade imensa de…

Buzinas.

Rimos, assustados.

E voltei minha visão para frente, continuando a dirigir.

Apesar disso, não senti que o momento fora perdido. Fiquei… empolgado, aquele frenesi gostoso irrompendo pela barriga e irradiando por todo meu corpo. Havia algo entre nós que não fora traduzido em lógica ainda.

Ainda não.

Já no meu apartamento, no escuro do meu quarto, talvez estimulado pela minha insônia, acabei, entre outras coisas, vendo postagens de Wanda e de Wis nas redes sociais. Vi viagens. Restaurantes. Festas. Sorrisos. Romance. Pareciam felizes com seus namorados.

E talvez estivessem mesmo.

Não fui atrás para descobrir mais que isso. Em outros tempos, eu estaria compelido a isso. Naquele momento, parecia apenas uma simples consulta, fruto de uma curiosidade cada vez mais distante.

Alguns dias depois, os sentimentos bons continuavam dentro de mim. Meus pensamentos dividiam-se entre trabalho e a gravidez que estávamos vivenciando. Porém, a vida ao redor também continuava.

Em um dia que fui presencial, estranhei que Bruna não tivesse chegado ainda. Logo ela, sempre tão pontual. Também não havia deixado nenhum recado de que se ausentaria. No momento, não dei muito cabimento. Eu tinha algumas reuniões para participar.

Mas não demorou muito e meu telefone tocou. Olhei o visor. Era Bruna. Senti um estranhamento. Rapidamente atendi.

- Bruno – ela disse com uma voz fraca – Estou na Delegacia da Mulher. Por isso que…

- Me manda o endereço – interrompi – Estou indo aí.

- Não precisa, Bruno.

- Manda rápido – falei mais incisivo – Já estou indo.

- Estou na do Tatuapé.

Eu sabia onde ficava.

Fui correndo até lá. Era como se fosse uma obrigação. Na hora, não tive dúvidas de que tinha a ver com Henrique. Aquele evento, a forma como ele olhou para Wendy…

Na delegacia, encontrei Bruna sentada diante da mesa, conversando com duas oficiais. Uma delas trazia o distintivo de delegada.

Quando me aproximei, percebi um machucado na sua bochecha, mas nenhuma outra marca aparente.

Abaixei-me diante dela. As oficiais ficaram momentaneamente em segundo plano.

- O que houve, Bruna? Eu estou aqui, não tenha medo de nada.

Ela me deu um sorriso tímido, agradecido, mas não me falou ainda. A oficial se aproximou e tomou a palavra.

- Ela foi agredida pelo namorado depois dela descobrir mensagens comprometedoras dele para outra mulher.

Bruna baixou a cabeça por um instante. Senti um nó no estômago. A oficial continuou.

- Ele está foragido, mas já estamos indo atrás.

- Obrigado, oficial – respondi.

Aguardei Bruna terminar seu depoimento e depois fomos sentar num banco próximo. Ainda havia uma parte burocrática para ser resolvida.

Abracei-a pelo ombro. O gesto quebrou a tensão que existia em seu corpo. Ela desatou a chorar.

- Era pra Wendy, Bruno. Ele mandava mensagem pra ela quase todos os dias. Nenhuma respondida. E mandava fotos também. Várias. Não aceitava ser ignorado.

Cerrei o punho de raiva. Ela continuou.

- Quando questionei, ele se revoltou comigo. Gritou que eu estava invadindo sua privacidade. Muitos xingamentos. Ele…

Bruna respirou fundo, como se criasse coragem.

- Ele me empurrou e me deu um tapa forte no rosto.

Abracei-a mais forte.

- Ele não vai mais fazer isso – eu disse. – Eu não vou deixar você passar por isso sozinha. Nós vamos resolver isso.

Ela virou o rosto para mim. Ergui levemente seu queixo para que nossos olhares se encontrassem.

- Eu prometo – eu disse, convicto.

Ela continuava a chorar.

- Eu tenho medo.

- Não tenha mais – retruquei – Você não vai passar por isso sozinha.

- Eu sempre achei que isso nunca aconteceria comigo.

Apertei seu ombro com mais força. Não existia resposta fácil para aquilo. Ela continuou:

- Eu defendia mulheres que passavam por isso.

Ela riu sem humor.

- Sempre pensava: comigo seria diferente.

Os olhos dela voltaram a marejar.

- E bastou uma noite.

Procurei acalmá-la. Não tinha muito o que falar além de confortá-la, de mostrar minha presença. Quando percebi que ela estava mais estável, pedi uma licença rápida e fui a um local mais reservado ligar para Trajano.

- O que houve, Bruno? – ele disse tão logo atendeu.

- Temos um problema que envolve a Bruna e… – fiz a pausa – a Wendy.

- Onde você está?

Menos de meia hora depois, Trajano chegou, com sua postura firme, ereta, acostumada com situações assim.

A sensação que dava era que muitos naquela delegacia conheciam ele. Isso também tinha acontecido na outra delegacia em que fui detido por conta da briga com Vitor.

O pai de Wendy escutou tudo. Conversou com oficiais, com a delegada. Fez ligações. Algumas bem afastadas da gente. Depois aproximou-se de Bruna, dando-lhe um abraço.

- Você fez a coisa certa vindo aqui.

Ele acariciou o rosto dela. Não era segunda intenção. Era proteção.

- Você já fez a parte mais difícil, Bruna – ele completou – Agora deixa a lei fazer o trabalho dela.

Virando-se para mim, ele me puxou para um canto mais reservado:

- Vou garantir que ela tenha todo suporte necessário.

- Há algo mais que ela tenha que fazer aqui? – questionei.

- Por aqui já está tudo resolvido. Por favor, leve ela para casa. Eu finalizo os trâmites finais.

Assenti.

Voltando para Bruna, ele complementou:

- Henrique não será mais problema para você. Sua nova vida começa agora, sem qualquer sombra.

- Obrigada, Seu Trajano – ela disse, a emoção evidente em seu rosto – Obrigada a você também, Bruno.

No caminho para sua casa, Bruna me contou que seus pais e seu irmão estavam vindo de Jundiaí para ficar com ela alguns dias.

- Você foi a primeira pessoa que pensei em ligar. Eu devo ter atrapalhado o seu dia. Me desculpe – ela disse, com cansaço na voz.

- Não precisa agradecer.

Dei um leve sorriso.

- Você resolve metade da minha vida há anos.

Ela franziu o cenho.

- Organiza minha agenda, me lembra do que esqueço, me impede de cometer idiotices administrativas...

Virei-me para ela quando o sinal fechou.

- Acho justo eu resolver um problema seu de vez em quando.

Ela assentiu.

- Tire uns dias de folga. E não hesite em me procurar. Certo?

- Certo.

Chegando em sua casa, temi por deixá-la sozinha. Mas logo alguns vizinhos apareceram. Pessoas que queriam o bem dela, que escutaram os gritos e que aconselharam Bruna a ir na Delegacia da Mulher.

- Se não fosse pelos meus vizinhos, eu teria ficado em casa chorando. Eles que me resgataram. Ela – Bruna apontou para uma mulher na casa dos trinta anos, com jeito simples – que pagou um táxi para me deixar lá.

Agradeci a todos.

Senti-me confortável em deixar Bruna ali… naquele momento. Ela não estaria sozinha. Havia pessoas dispostas a ajudá-la muito antes de eu chegar.

Voltando para o meu apartamento, eu pensei em não contar nada para Wendy, mas achei que pior seria esconder. Assim que abri a porta, ela percebeu minha expressão, provavelmente tensa e carregada.

- Aconteceu algo, Bruno?

- Wendy, aconteceu algo com a Bruna e… tem a ver com aquele Henrique. Lembra dele?

- O do telefone falso que dei?

- Sim.

Contei para Wendy o que aconteceu. Notei que ela ficou ansiosa. Me preocupei com o bebê. Me questionei se tinha tomado a atitude certa de contar, mas enfatizei a todo momento que, comigo, ela estaria protegida.

Também conversamos com o pai dela numa chamada de vídeo e ele disse, sem entrar em muitos detalhes, que tudo estaria resolvido até o fim de semana, com a detenção de Henrique.

Ao final, Wendy pareceu mais calma. Então, ela me surpreendeu.

- Quero visitar a Bruna.

- Você quer ir agora? – estranhei, surpreso.

- Quero.

- Wendy…

- Ela está sozinha.

- Tem os vizinhos – retruquei.

Ela me olhou e percebeu que nem eu mesmo acreditava nisso. Não tinha como lutar contra a natureza da mãe do meu filho. Dei-me por vencido.

- Vamos – respondi.

Quando chegamos, senti-me relutante em deixar Wendy sozinha com Bruna. Minha preocupação tinha um nome: Henrique.

- Você tem certeza que é uma boa? – perguntei, um tanto aflito.

- Tenho sim.

Ao sair do carro, ela me deu um beijo no rosto.

- Te ligo para me buscar, tá?

- Certo.

Antes que entrasse na casa, Wendy se virou para mim.

- Bruno…

- Hum?

- Eu sou forte, viu?

Ela flexionou um dos braços, querendo mostrar força. Aquele sorriso aberto e doce que me fazia ceder toda vez. Como ela conseguia? Só pude rir… eu estava “derrotado” de novo.

Depois que ela entrou, fiquei na redondeza, em uma lanchonete. Fiquei perto o suficiente para caso algo ruim acontecesse. Aproveitei e fiz algumas reuniões que estavam pendentes por chamada de vídeo a partir do meu celular. Apesar de algumas horas de atraso, todas deram certo.

Cerca de três horas depois, Wendy me ligou para buscá-la. Ao entrar no carro, percebi que ela parecia muito mais leve do que algumas horas antes.

- Como foi? – perguntei.

Ela virou-se para mim, um sorriso cativante no rosto.

- Tenho uma nova amiga.

Franzi o cenho.

- Ela também era apaixonada por Barbies, como eu. Passamos mais tempo falando das nossas bonecas do que do Henrique.

Franzi ainda mais o cenho.

- Vai ficar tudo bem com ela, Bruno. Você vai ver…

No fim de semana seguinte, Henrique foi detido, conforme Trajano disse que aconteceria.

- Ele não será mais problema – ele disse. – Nunca mais.

Bruna, ao meu lado, já de volta ao trabalho, não escondeu a sensação de alívio.

- Agora viva sua vida, Bruna. Crie uma nova história – complementou Trajano.

Algumas semanas depois, num sábado, cheguei no apartamento e encontrei Wendy, Érica e Bruna conversando como melhores amigas.

Um trio.

E havia muita cumplicidade ali.

Observando as três juntas, finalmente entendi algo sobre Wendy. Algumas pessoas ocupavam os espaços. Wendy criava laços.

Bruna, ao me ver, correu em minha direção, me dando um abraço apertado.

- Parabéns, chefinho – sua voz era exultante – Acho que ainda não te dei os parabéns como deveria. Estou muito feliz por você e pela Wendy. Muito mesmo. Vou ser uma tia incrível para essa criança. Você vai ver.

O gesto me tocou. Ela esperou nos encontrarmos fora da PHX para me parabenizar. Bruna era realmente uma boa pessoa. Bastante distinta, inclusive. E fiquei feliz de saber que agora ela tinha novas amigas.

De relance, olhei para Wendy e Érica. Elas me olhavam com satisfação. Sorri para elas. Como se fossêmos três cúmplices.

O chá de revelação se aproximava e nossa rotina continuava com seus dias bons, que eram maioria, e dias ruins. A ajuda da minha mãe, de Cecília, de Érica e de Bruna veio a calhar, ainda mais porque suas outras quatro amigas estavam totalmente concentradas na preparação do evento que revelaria o sexo do nosso bebê.

Gradativamente, Wendy passou a sentir dores nas costas. Não eram poucas às vezes em que eu parava tudo para dar-lhe massagens. Por isso, contratamos uma fisioterapeuta que atendia em domicílio para dar a ela um cuidado mais profissional.

No ultrassom morfológico, pedimos que Dra Isabelle só não revelasse o sexo do bebê. Ela entendeu de imediato.

- Chá de revelação, acertei?

- Sim – respondeu Wendy, sorridente.

- Pode deixar. Não vou dar nenhuma dica.

O ultrassom foi rápido e a médica confirmou que estava tudo bem com o bebê, para nosso alívio.

Naquela noite, já de madrugada, acordei para beber água e encontrei Wendy sentada no chão do quarto que seria do bebê. Não havia móveis ainda. Não havia decoração. Mas havia sacolas, embalagens, compras que estavam apenas amontoadas uma sobre as outras.

- O que está fazendo? – perguntei.

- Tentando imaginar.

Sentei ao lado dela. Ficamos alguns minutos em silêncio.

- Dá medo? – ela perguntou.

- Dá.

- Em mim também.

Depois de um tempo, ela encostou o ombro no meu.

- Vai dar certo, não vai?

- Vai.

Tentei imaginar quem ocuparia aquele espaço. Não consegui visualizar um rosto. Apenas a sensação de que aquela criança já fazia parte da nossa vida.

Veio o dia do chá de revelação e Wendy caprichou no visual. O que mais me chamava atenção – e me encantava – era sua barriga.

A gravidez já era impossível de ignorar. Não era mais um exame, um ultrassom ou uma consulta. Estava ali, diante de mim, desenhando o futuro no corpo dela.

Tive vontade de tocar sua barriga. Não por curiosidade. Por causa do que ela significava. Não tive coragem, porém. Não era exatamente vergonha. Era receio de invadir algo que ainda parecia pertencer mais a ela do que a mim.

No caminho para a casa dos pais dela, conversamos bastante. Ela estava radiante de um jeito que eu ainda não conhecia. E isso me contagiou também.

Quando chegamos, todos os convidados já tinham chegado. Fomos recepcionados por Trajano, Cecília e minha mãe.

- Suas amigas capricharam – disse minha mãe para Wendy.

De fato, estava tudo muito bem organizado. Mesas com estampas douradas. Balões dourados espalhados por todo ambiente. A mesa principal com um bolo enfeitado nas cores azul e rosa, tendo ao lado, um confete dourado. Ao lado, algumas embalagens de fraldas e presentes começavam a se acumular. Simples. Prático.

As amigas de Wendy se aproximaram nos explicando tudo o que tínhamos visto. Quando mirei o confete, Elaine confirmou com um sorriso malicioso:

- É ali mesmo que está a resposta que vocês tanto esperam.

Enquanto Wendy conversava com suas amigas, vi Remo, Érica e Bruna se aproximarem.

Fiquei feliz com a presença de Bruna, cada vez mais recuperada e livre da presença nefasta de Henrique.

Porém, vendo os três ali, tão integrados, quis pensar que algo de diferente poderia estar acontecendo, mas… deixei isso para lá. O foco era o bebê. E Wendy.

Enquanto conversávamos, Remo aproveitou uma brecha e cochichou no meu ouvido:

- A festa está um tanto poliglota, amigo. Espero que saiba falar outros idiomas.

Ele se afastou um pouco. Franzi o cenho, não entendendo onde ele queria chegar.

- Acho que você precisa ser um bom anfitrião e cumprimentar os convidados – completou ele.

Engoli em seco.

Olhei ao redor e vi.

Na mesma mesa. Wanda e Lorenzo Cassano. Wis e Tyler.

Wanda foi a primeira a perceber que eu os havia visto. Alguns segundos depois, os outros também voltaram a atenção para mim. Fingi interesse em outra mesa, mas meu coração acelerou um pouco.

Remo percebeu minha inquietação.

- Cara, respira…

Ele disse num tom ameno, até compreensível.

- Você tá parecendo quem viu um fantasma.

Logo, ele tratou de me distrair com conversas aleatórias. Funcionou por alguns minutos. Até Wendy surgir ao meu lado e começar a me arrastar de mesa em mesa para cumprimentar os convidados.

Eventualmente chegamos à única mesa que eu ainda evitava. Wendy percebeu minha hesitação. Sem dizer nada, encostou de leve no meu braço. Então seguimos em frente.

Wanda foi a primeira a se levantar, abraçando a irmã. Trocaram algumas palavras carinhosas. Risos. Olhos marejados.

Depois veio Wis. O mesmo ritual.

Havia algo entre as irmãs que era inquebrável, mesmo eu passando pela vida das três. Aquela cumplicidade era linda de se ver, apesar de, confesso, estar um pouco travado. Talvez pelo que aquela mesa representava.

Depois desse momento, Wanda veio ao meu encontro e me deu um abraço educado, distante o suficiente para não denunciar o nosso passado, como se fosse um segredo que ninguém soubesse – mas que todos ali sabiam.

- Então é verdade mesmo – ela disse – Você vai ser pai.

- Pois é. Ainda estou me acostumando com a ideia.

Ela sorriu. Reconheci o sorriso. Era o mesmo de sempre. Só não reconheci o lugar que eu ocupava nele.

Wis veio logo depois, quando Wanda abriu espaço e retornou para sua irmã grávida.

A caçula estava mais contida, mais econômica, mais difícil de ler. E me deu um abraço muito mais rápido que o de Wanda, largando-me o quanto antes como se quisesse evitar levar um choque.

- Parabéns pelo bebê – ela disse.

Direto, limpo e seco. Bem do jeito dela.

Apenas assenti, sem dizer nada.

Havia uma barreira ali. E talvez fosse melhor que continuasse assim. Ela estava mudada. Talvez eu também.

Cumprimentei seus namorados também.

Lorenzo levantou-se com altivez. Aperto de mão firme. Educado. Um pouco mais formal do que o necessário. Mas… não me importei.

- Boa tarde.

Ele disse num sotaque estranho, numa tentativa cortês de falar português, mas que ainda assim deu para entender. Sorri de leve e então olhei para o lado. Ele acompanhou meu olhar. Talvez pensasse que eu estivesse olhando para Wanda. Mas eu olhava para Wendy.

- Seja bem vindo – foi o que me limitei a responder.

Lorenzo soltou minha mão e voltou para o lado de Wanda, que acabara de sentar, nos olhando de forma indecifrável. Antes de sentar, ele inclinou-se para dizer algo no ouvido dela. Ela revirou os olhos e sorriu daquele jeito específico que as pessoas reservam para quem já ocupa espaço suficiente em suas vidas.

Depois me aproximei de Wis, embora meu objetivo fosse cumprimentar Tyler. Este fez menção de se levantar, mas pus a mão em seu ombro de forma gentil, enfatizando gestualmente que só seria um aperto de mão rápido.

Foi o que fizemos. E vendo sua reação, percebi que ele preferia assim também.

Conversamos brevemente em inglês.

- Parabéns pelo bebê – ele disse.

- Obrigado. E obrigado pela presença.

Quando me afastei, vi Wis ajeitar distraidamente a manga da camisa de Tyler. O gesto foi rápido. Automático. Familiar. Não pensei muito mais que isso.

Wendy me observava a poucos passos de distância. Aproximei-me dela.

Havia uma espécie de compreensão no seu olhar. Como se soubesse que aquele encontro não era tão simples assim para mim.

Estendi minha mão em direção a ela.

Ela franziu o cenho. Ainda não tínhamos dado as mãos naquele evento. Seu olhar alternou entre minha mão e meus olhos. E um pequeno sorriso brotou em seu rosto.

Demos as mãos e saímos para a próxima mesa, cumprindo o que esperavam da gente.

Para aquele momento, parecia suficiente.

Depois, acabei me entretendo numa roda de conversa com Remo, Érica e Bruna. De tempos em tempos, Wendy e minha mãe apareciam. Aos poucos, a pequena tensão por estar no mesmo ambiente que Wanda e Wis foi se dissipando e passei a me sentir mais confortável.

Era estranho perceber que não me sentia tão compelido assim para observar como estavam Wanda e Wis e o que faziam. Apesar disso, de vez em quando me pegava olhando para elas. E para Lorenzo e Tyler também. Eles pareciam felizes. Ou uma fachada disso. Não soube precisar. Talvez por serem histórias que não me pertenciam mais. E não falava isso por sentir dúvidas.

Mais vezes me peguei procurando e observando Wendy. A vi interagir com todos, diversas vezes. Seu sorriso cativante trazia leveza para todo o evento. E isso me fazia sentir… orgulhoso. Ou algo assim.

Então veio o momento da revelação.

Todos se reuniram ao redor da mesa principal. Ana Cristina entregou-me o confete. Wendy estava do meu lado, de mãos dadas comigo, sorriso amplo no rosto.

Vieram discursos antes. Trajano e minha mãe falaram. Eu voltei a ficar nervoso. Era a expectativa, assim julguei. Por isso sequer prestei atenção no que falaram.

Fotos foram tiradas. Ajustamos a pose para mais fotos.

Wendy posicionou-se na minha frente, corpo encostado no meu, ela com as duas mãos segurando a minha em sua barriga. Prendendo-a como se não a quisesse tirá-la dali nunca mais.

Ana Cristina, então, explicou como seria a revelação.

E veio o momento que todos esperavam.

Tive uma certa dificuldade para abrir o confete. Pessoas riram. Eu ri de mim mesmo.

Mas consegui abrir.

Uma pequena explosão.

Um grito feminino assustado ecoou próximo da gente.

Confetes subiram ao ar e foram caindo por todo local.

Pequenos papéis cor-de-rosa começaram a cair sobre nós.

Rosa.

Wendy chorava emocionada. Eu a abracei. Minha mão foi ao encontro de sua barriga.

Nós teríamos uma filha.

Aurora Nara.

Era uma sensação de realidade. Pela primeira vez, o nome da minha filha ganhou peso.

Ao meu redor, as pessoas continuavam sorrindo, aplaudindo, tirando fotos, se abraçando e comemorando.

E o chá de revelação… esse estava apenas começando.

Continua...

Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.

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Comentários

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Carlão...Fantástico o capítulo meu amigo!!

Imagino que muitos vão criticar o Bruno por sua "vagareza" com relação a Wendy, mas esta totalmente condizente com a personalidade que vc impôs a ele. Esse capitulo foi "a" transição do Bruno!

Bruno esta se construindo e Wendy é a mais doce de todas.

Agora meu amigo, vc ta sendo maldoso gerendo uma expectativa de que algo ruim vai acontecer. Estranho Henrique mandar mensagens para Wendy e ela esconder. Reconfortante saber que ela conversou e se entendeu com Bruna, então descarto que Wendy se envolveu com ele, mas...to muito ansioso!!

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"Mas o passado dela ainda viria me assombrar…"

Essa frase foi tensa, muito tensa!

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