Chegamos bem cedinho à pousada. Meus sogros estavam no centro fazendo algumas compras e acabamos nem tirando as malas do carro. A última coisa que queríamos era acordar alguém da casa e, muito menos, atrapalhar os hóspedes logo nas primeiras horas da manhã.
Milena e Kaique foram direto para o haras com Brad. Os dois estavam morrendo de saudade dos cavalos e praticamente desapareceram assim que tiveram a oportunidade de vê-los novamente. Em seguida, minha gatinha sugeriu que aproveitássemos o tempo para caminhar um pouco com Dom enquanto o restante da família não chegava, e eu achei a ideia perfeita.
Ainda estávamos curiosas para entender melhor toda a história de Gabriel, especialmente eu, mas não adiantava ficar criando teorias antes de todo mundo aparecer, principalmente meus irmãos. Então resolvi deixar a curiosidade para depois e aproveitar aquele tempinho com os dois amores que estavam ao meu lado.
Como tínhamos rompido completamente a rotina de Dom, o humor do nosso pequeno estava uma verdadeira montanha-russa. Parecia que os Divertida Mente tinham resolvido apertar todos os botões ao mesmo tempo dentro daquela cabecinha porque, em questão de segundos, ele saía de gargalhadas gostosas para uma expressão indignada de quem tinha acabado de sofrer a maior injustiça da história. Eu observava aquelas mudanças repentinas rindo muito e tentando não esmagá-lo de tanto amor. É impossível não achar graça da forma como um bebê consegue sentir tudo com tanta intensidade.
— Eu amo estar aqui — falei para Juh.
— Eu sei, fica nítido... Amo ver você assim... — ela respondeu, me abraçando.
Não combinamos para onde iríamos, mas acabamos chegando a um laguinho e sentamos em um banco logo à frente dele. Estava um friozinho bom, daqueles que dão um pequeno arrepio na pele, mas não chegam a congelar a alma, e Ninho achou ideal fazer a mamãe dele pôr o peito para fora bem ali.
— O farol mais aceso do que nunca — brinquei.
— Pare com isso — Juh fingiu me repreender, rindo.
Me ajeitei no banco e ela se encaixou entre as minhas pernas. Ninho estava olhando fixamente nos olhos de Juh, com a mãozinha apoiada no peito da mamãe.
— Muito perfeitinho... — cochichei em seu ouvido e dei alguns cheirinhos em seu pescoço.
— Muito... Parece um sonho... — Juh respondeu, também em um tom de voz baixo.
— Não aguento com esses olhinhos de vocês — cochichei e depositei alguns beijinhos nela.
Nisso, ele começou a olhar para mim.
— Que foi, neném? Eu não posso namorar sua mamãe, não é? — perguntei.
Não sei se foi pelo tom de voz que eu já usava para brincar com ele ou pelas minhas expressões faciais, mas ele começou a rir, todo descaradinho.
— Você já privatizou o peito e agora não quer deixar nem eu dar uns beijinhos na sua mamãe? — questionei, me divertindo.
Então ele largou o peito para gargalhar, e nós duas também caímos na risada.
— Amor, para! Deixa ele se concentrar... — Júlia me repreendeu, mas ainda com um sorriso no rosto.
— Não fiz nada, gatinha — falei, voltando a beijá-la.
Ela riu, balançando a cabeça negativamente.
Em determinado momento, peguei Ninho no colo porque ele já havia dormido fazia algum tempo e me deitei no banco, ajeitando aquele pacotinho no meu peito. Pedi para Juh sentar sobre mim e ela foi se acomodando. Flexionei os joelhos para que minha gatinha se encostasse ali, confortável, contra as minhas pernas.
O sol estava começando a nos aquecer de verdade. Juh aproveitou o calor que ressurgia e foi deixando o casaco cair até os cotovelos, expondo os braços ao sol.
— Você é tão linda... — falei baixinho, sem conseguir impedir que as palavras escapassem. — Sabia que está ainda mais linda hoje? Como consegue?
Ela virou o rosto para mim e sorriu.
— É porque passei bastante tempo com você hoje — respondeu, toda vermelhinha.
— Muito gatinha... — falei, apertando sua cintura com uma das mãos.
— Ai... — Júlia gemeu, olhando para mim, e nós rimos.
— Hoje tem amorzinho? — quis saber, fazendo carinho nela com o polegar.
— Não quero gastar suas energias — Juh cochichou, ironicamente.
— Seria um prazer imenso, você sabe... — respondi no mesmo tom.
Ficamos bastante tempo ali e Dom permaneceu dormindo durante praticamente todo o período, aconchegado no meu peito como se aquele banco tivesse sido feito especialmente para ficarmos daquela maneira. De vez em quando eu abaixava o rosto apenas para conferir se continuava dormindo, e lá estava meu gurizinho, apagadinho e sereno, com a chupeta na boca.
Enquanto isso, eu e Juh conversamos sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. Inúmeros assuntos aleatórios surgiam na nossa cabeça o tempo inteiro, e até temas que provavelmente já tínhamos discutido dezenas de vezes voltaram à tona. Mas pouco importava... Não é segredo para ninguém que eu sempre gostei de conversar, ainda mais com ela. Existem momentos em que a companhia da minha esposa, em um lugar lindo daqueles, é tudo o que eu preciso na vida.
Quando finalmente resolvemos voltar para a pousada, vi que Loren e Lorenzo já tinham chegado porque os carros deles estavam estacionados próximos ao nosso.
— Olha só... — comentei, apontando.
— Então a reunião investigativa está prestes a começar — Júlia disse, e eu ri.
Assim que chegamos, minha gatinha entrou com Dom para colocá-lo no quarto de Milena e Kaique, enquanto eu finalmente comecei a descarregar as mochilas e algumas coisas que ainda estavam no carro desde a nossa chegada, entre elas três balaios grandes.
Quando eu era criança, lembro de Lorenzo dormindo em um deles lá na ilha enquanto eu brincava de ajudar meu pai na empresa. Resolvi comprar alguns para repetir a cena com Dom, Alice e Tiago quando precisassem tirar um soninho na área externa.
A casa continuava silenciosa e isso significava duas possibilidades: ou Lana e Iury não tinham dormido em casa ou ainda estavam dormindo. Sinceramente... Eu apostava nas duas opções com a mesma facilidade.
Como nem chegamos a entrar na casa quando desembarcamos pela manhã, só fomos perceber, perto do horário do almoço, que a mesa do café ainda estava montada. Pães, bolos, frutas, café, sucos... Tudo organizado e extremamente convidativo.
Olhei para aquilo e depois para Juh. Ela olhou para a mesa e depois para mim, e chegamos exatamente à mesma conclusão. Se a mesa ainda estava posta, quem éramos nós para desperdiçar aquele café da manhã?
Então me sentei decidida a aproveitar mesmo assim e puxei minha gatinha para o meu colo, enchendo-a de beijos.
— Ahhh... Mas eu queria fazer alguma coisa para você... — ela disse.
— É mesmo? — perguntei, me enfiando em seu pescoço.
— Hunrum... Quer um ovinho cremoso? — Júlia quis saber.
Para falar a verdade, eu comeria qualquer coisa daquela mesa e não precisava de mais nada. Porém, não custava nada agradar minha muié, que só queria me agradar também.
— Faz o ovinho cremoso — disse, enquanto ela devolvia todos os beijos.
Ela começou a preparar e eu a agarrei para roubar mais um beijo.
— Enquanto você faz, eu te atrapalho — brinquei.
— Se você continuar assim, não tem ovinho — Juh falou, rindo.
Dei uma mordida em sua orelha e saí rindo para que ela terminasse. Foi então que percebi que Lana e Iury realmente estavam dormindo, o que significava que, de alguma forma, a noite tinha sido usada com outra finalidade. Uma finalidade que eu adoraria perturbar depois que eles acordassem.
— Seus irmãos estão dormindo — disse, quando Juh já servia o ovo.
— Nossa, mas que sono é esse... — minha gatinha começou a dizer.
Novamente tomei seus lábios em um beijo.
Juh soltou uma risadinha surpresa contra minha boca, mas não demorou nem um segundo para retribuir. Passei os braços por sua cintura e a coloquei sentada na bancada à minha frente.
— Amor... — ela sussurrou entre um beijo e outro, claramente sem qualquer intenção real de me afastar.
— O quê? — perguntei, roubando mais um selinho.
— Você não me deixa terminar uma frase.
— Porque essas frases são muito demoradas.
Ela riu e segurou meu rosto entre as mãos.
Acariciei sua perna distraidamente, deixando a mão repousar um pouco mais acima da coxa enquanto continuávamos trocando beijos lentos, sem pressa alguma de terminar.
A manhã inteira tinha sido daquela maneira: leve, tranquila, e eu estava determinada a continuar aproveitando cada segundo.
Quando finalmente nos afastamos, permanecemos alguns instantes apenas nos olhando, com um sorrisinho bobo no rosto. Então começamos a trocar uma série de selinhos, coisa que sempre acontece quando a gente não quer encerrar um momento.
Foi justamente durante um deles que ouvimos um barulho atrás de nós. Viramos para olhar na direção do som e encontramos Lana parada na entrada da cozinha. Ela tinha acabado de entrar e estava com os olhos fechados, uma mão na testa e a cabeça balançando enquanto ria.
— Bom dia... Eu nem abri os olhos ainda e já estou vendo essa cena... — Minha cunhada resmungou.
Eu imediatamente comecei a rir.
— Acho que você quis dizer boa tarde — respondi, conferindo o horário.
— Péssimo dia, inclusive. Vou precisar de café para apagar essa imagem da memória — Lana zoou.
— Mentira, você acha fofinho — Juh rebateu, rindo.
— Acho constrangedor — Lana disse.
— Fofo — Júlia insistiu.
— Constrangedor — repetiu minha cunhada.
— Fofo — falou Júlia.
— Constrangedor — Lana disse novamente.
— Eita, que mau humor... Acho que você está precisando desse constrangimento, viu?! — brinquei e roubei mais um beijinho da minha gata.
Olhei para minha esposa, ela olhou para mim e nós duas começamos a rir de novo. Lana apenas suspirou e caminhou até a cafeteira.
— Não sei como vocês conseguem — ela disse, rindo e balançando a cabeça.
— Problemas com o nego? — perguntei.
— O problema sou eu... Enjoo muito fácil. Não consigo me imaginar assim que nem vocês, mesmo tendo anos juntas — Lana falou e logo depois colocou a mão na cabeça, como se tivesse se arrependido de dizer aquelas palavras.
Eu estava prestes a continuar o papo quando Juh colocou a mão na minha boca.
— Você quer que a gente esqueça, não é? — Júlia perguntou, rindo.
Minha cunhada confirmou, balançando a cabeça lentamente.
— Apagado do HD — confirmei.
Ela deu um sorrisinho.
Tomamos café juntos até Dom acordar. Levantei para pegá-lo e, quando estava retornando para a cozinha, pensei em acordar meu querido cunhado. Na verdade, nem precisei fazer muita coisa. Apenas coloquei o sobrinho dele junto na cama e meu filhote fez o restante.
De imediato, enfiou a mão no rosto dele, que acordou desnorteado enquanto eu ria da cena.
— Acorda, vagabundo... Isso lá é hora? — perguntei, enquanto ele ria e carregava Dom para pertinho dele.
— É sábado... — meu cunhado tentou se justificar.
— Levanta e me conta a fofoca. Eu estou curiosa — falei, me dirigindo até a sala, e ele me acompanhou.
Ninho estava no colo dele, contudo começou a chorar querendo ficar comigo ou com Juh.
Liguei para Lorenzo dizendo que a Central do Léo Dias estava se reunindo e logo ele apareceu com Sarah, Loren e Victor, além de Alice e Tiago, porque todo mundo queria entender a história de Gabriel.
— Gente, não tem muito o que falar, vocês precisam ver! — Iury exclamou, porque a gente não parava de questionar.
— Ele apareceu com um menino dizendo que era filho dele. Todo mundo ficou feliz e, pela idade, começaram a falar que era adoção. Depois de muito tempo ele desmentiu, dizendo que a gente tinha se confundido e que era biologicamente filho dele mesmo... Só que Iury e eu não acreditamos nem na história da adoção. Quando vocês virem, vão entender — Lana explicou.
— Eu queria esperar meus sogros, mas... Bora lá? — propus.
— Bora! — quase todos responderam.
— Gente, se Léo está dizendo que é filho biológico dele, eu acredito. É muito grave sugerir qualquer coisa que seja o contrário disso — Juh falou.
— Você é muito besta, isso sim — Iury respondeu, revirando os olhos.
— Ei! — Lana chamou a atenção dele.
— Só estou dizendo que... Enfim, deixa para lá. Vamos lá que você vai entender, Júlia — meu cunhado falou, e Juh concordou.
Acabamos indo todos juntos até a casa de Léo, que ficava na parte das terras do pai dele.
O caminho não era longo, porém foi suficiente para a conversa continuar. Na verdade, ninguém conseguia falar de outra coisa.
Fui andando ao lado de Juh, rindo, enquanto o restante da família tentava adivinhar qual era exatamente o motivo de tanto mistério.
— Vocês estão exagerando — Juh insistiu.
— Não estamos — Iury respondeu.
— Estão sim — Júlia continuou.
— Não estamos! — Lana exclamou.
— Estão... — Juh disse, convencida.
— Espera cinco minutos — Iury falou ironicamente.
— Eu vou esperar e vocês vão ficar com cara de besta — Juh respondeu.
— A gente vê isso já já — Lana debochou.
— Ter irmãos é engraçado, não é, Juh? — Lorenzo perguntou, abraçando-a, e eu ri.
— Tenho certeza de que eles estão exagerando para nos deixar curiosos — ela disse, rindo.
— E está funcionando... — fingi lamentar, e todos riram.
Lana e Iury não pareciam nem um pouco estar brincando.
Quando finalmente chegamos, encontrei Léo na varanda. Ele nos recebeu com um sorriso sem jeito e uma expressão que eu não consegui interpretar muito bem. Parecia nervoso.
— Pensei que chegariam mais cedo — ele disse, rindo.
— Tinha um café delicioso na casa da minha sogra... Não consegui dizer não para aquela mesa — respondi.
— Entrem logo — Léo nos chamou.
Nós nos espalhamos pela sala enquanto ele desapareceu por alguns segundos. Quando voltou, estava acompanhado de Gabriel.
Naquele exato instante, eu e todos ali entendemos o tal suspense e a história mal contada.
— Caralho... — Lorenzo falou bem baixinho ao meu lado.
Eu não consegui dizer nada porque a única coisa que passava pela minha cabeça era: PUTA QUE PARIU, O QUE LÉO FEZ?
O menino simplesmente era a cara de padre João. Não era dizer que parecia, que lembrava ou que tinha alguns traços parecidos. Era a cara dele... Os mesmos olhos, o mesmo nariz, o mesmo formato de rosto, o mesmo cabelo e até a expressão era parecida.
Consegui entender perfeitamente por que Lana e Iury tinham desistido de explicar. Aquilo realmente precisava ser visto para ser, de certa forma, compreendido.
— Oi, príncipe, eu sou a tia Juh! — Júlia se apresentou para ele e o pegou no colo, dando um beijão.
— Tecnicamente, ele é seu primo — Iury corrigiu.
— Nuss, como você está mais chato hoje, viu? Aff! — Juh reclamou.
— Pode ser tia Juh — Léo falou, sorrindo para Gabriel e colocando a chupeta na boca dele.
— O menino deve estar assustado com tanta gente olhando assim para ele. Deixa ele brincar com os priminhos — falei, apresentando Alice e Tiago.
— Eles têm a mesma idade, não é? — Victor perguntou, e Léo confirmou.
Ver Gabriel respondeu muitas questões e nos deu o dobro de perguntas. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas não era o momento de colocar as dúvidas para fora.
Felizmente, o clima estranho se dispersou e deu lugar ao clima familiar, com aqueles três pequenininhos correndo pela grama.
Quando Milena e Kaique estavam indo para casa, fiz sinal para que viessem ver onde estávamos. Os dois também conheceram o novo membro da família, que inicialmente ficou morrendo de medo do cachorrão Brad, mas logo percebeu que nosso dog era um verdadeiro bobão.
