Na terça-feira, André acordou com a sensação de que a noite anterior ainda estava no apartamento.
Não Rafael.
A ausência de Rafael.
Era diferente.
O cheiro dele já tinha ido embora, ou pelo menos André tentava acreditar nisso. A sala estava normal outra vez: sofá no lugar, copos lavados, ventilador parado, a sacola da farmácia esquecida sobre a mesa como prova ridícula de uma visita que começara com gelo e terminara em fuga.
Mas havia algo no ar.
Um quase.
E o quase ocupava espaço.
André fez café, entrou no banho, vestiu roupa de trabalho, respondeu mensagens, pegou metrô, atravessou o dia como se fosse uma pessoa funcional. Mas por dentro repetia a mesma cena: Rafael ajoelhado diante dele, o gelo na coxa, a boca quente, a camisa tirada, o corpo grande demais para caber no controle. Depois o celular vibrando. Caio. Rafael endurecendo. A partida.
Querer não é ficar.
A frase que André enviara a Rafael parecia ter voltado para morar nele.
Rafael não respondeu mais.
Caio, sim.
Na terça à tarde:
CAIO:
Ele sumiu?
André não respondeu.
Na quarta:
CAIO:
Silêncio de goleiro é pior que áudio de três minutos.
André riu, mas não respondeu.
Na quinta:
CAIO:
Você está me ignorando ou está ignorando todo mundo para parecer equilibrado?
André finalmente digitou:
ANDRÉ:
Estou trabalhando.
Caio respondeu na mesma hora:
CAIO:
Mentira. Ninguém trabalha pensando tanto.
André travou com o celular na mão.
ANDRÉ:
Você acha que sabe demais.
CAIO:
Eu sei o suficiente.
ANDRÉ:
Sobre mim?
CAIO:
Sobre homem que fica querendo fingir que não quer.
André deixou o celular virado para baixo.
Mas o sorriso veio antes da raiva.
Na sexta-feira, às 19h42, Caio mandou:
CAIO:
Estou indo.
André respondeu quase imediatamente:
ANDRÉ:
Indo para onde?
CAIO:
Para aí.
ANDRÉ:
Eu não te convidei.
CAIO:
Convite é uma formalidade burguesa.
ANDRÉ:
Caio.
CAIO:
Relaxa. Não vou subir se você não quiser.
André ficou olhando para a mensagem por tempo demais.
Era isso que irritava nele: Caio atravessava limites, mas parecia saber exatamente onde eles estavam. Avançava até a beira, sorria, esperava o outro dizer sim ou não. A provocação vinha com perigo, mas não com cegueira.
André digitou:
ANDRÉ:
Estou cansado.
CAIO:
Eu também.
A resposta o desarmou.
Demorou alguns segundos para a próxima chegar.
CAIO:
Não vim fazer show. Vim falar.
André olhou para o apartamento. Ainda havia roupa no sofá. Um copo na pia. Uma camiseta pendurada na cadeira. Nada estava preparado para receber alguém. Talvez fosse melhor assim. Com Rafael, ele havia arrumado demais. Com Caio, não queria parecer que esperava.
ANDRÉ:
Quando chegar, avisa.
CAIO:
Já cheguei.
André foi até a janela.
Caio estava na calçada, encostado na moto, capacete pendurado no braço. Usava camiseta branca, jaqueta leve, calça escura. A luz amarelada do poste deixava o rosto dele mais sério do que o normal. Não sorria. Ou sorria pouco, como se guardasse munição.
André desceu.
O porteiro ergueu os olhos da televisão e sorriu daquele jeito de quem sabia mais da vida dos moradores do que deveria. André fingiu não ver.
Na calçada, Caio o olhou de cima a baixo.
— Você desceu rápido.
— Para impedir você de subir.
— Então funcionou.
— Você disse que vinha falar.
— Vim.
— Então fala.
Caio apoiou o capacete no banco da moto. Parecia menos expansivo sem a quadra em volta. Menos personagem. Ainda bonito, ainda insolente, mas havia algo no corpo dele mais quieto. Como se o deboche, sem plateia, precisasse descansar.
— Ele foi aí — Caio disse.
André cruzou os braços.
— Se você veio falar de Rafael, pode ir embora.
— Vim falar de mim.
— Começou mal.
Caio assentiu, aceitando o golpe.
— Eu sei.
O silêncio da rua entrou entre eles. Um ônibus passou cuspindo ar quente. Um casal atravessou a calçada discutindo baixo. De algum apartamento vinha cheiro de alho fritando.
Caio respirou fundo.
— Eu não devia ter mandado mensagem naquela hora.
André ficou surpreso, mas não demonstrou.
— Não devia.
— Eu sabia que ele estava aí.
— Sabia ou queria saber?
— As duas coisas.
— E o que você ganhou com isso?
Caio olhou para a própria mão, depois para André.
— Confirmei que eu ainda consigo estragar o que ele tenta começar.
A honestidade veio sem sorriso.
André não respondeu.
Caio continuou:
— Eu fiquei puto. Não porque você beijou ele. Quer dizer, também. Mas não só. Fiquei puto porque eu conheço esse roteiro. Rafael chega perto, fica bonito nessa coisa dele de homem fechado, faz a gente acreditar que agora vai. Aí alguma coisa encosta no medo dele e ele vai embora.
André sentiu a frase entrar.
— Você acha que eu não percebi?
— Percebeu. Mas ainda está no começo. No começo a gente acha que vai ser diferente porque com a gente ele vai ficar.
— E você acha que não vai?
Caio deu um sorriso pequeno.
— Eu acho que você é mais inteligente do que eu era.
— Não parece elogio.
— É inveja.
A palavra ficou no ar.
Caio, que transformava quase tudo em piada, disse aquilo sem enfeite. André viu então algo que até ali aparecia só em rachaduras: Caio não era apenas o provocador que queria entrar no jogo. Era alguém que já tinha perdido nele.
— Por que você veio? — André perguntou, mais baixo.
Caio olhou para ele.
— Porque eu te mandei boa noite com o teu nome e você respondeu com o meu.
André desviou o olhar por meio segundo.
Caio percebeu.
— Viu? Foi pouca coisa. Mas foi alguma coisa.
— Caio...
— Não. Escuta. Eu não sou vítima do Rafael. Também fiz bagunça. Também provoquei quando devia ter ido embora. Também voltei quando sabia que ia doer. Também usei outros caras para fazer ele olhar. Não sou santo. Nem quero ser.
— Isso eu percebi.
Caio sorriu de leve.
— Mas com você ficou estranho.
— Estranho como?
— Eu comecei querendo te usar para tirar ele do sério.
A frase deveria ferir. Feriu um pouco. Mas era tão direta que, de algum modo, respeitava André mais do que qualquer mentira elegante.
— E agora?
Caio deu um passo mais perto.
— Agora eu ainda quero tirar ele do sério.
André estreitou os olhos.
Caio continuou:
— Mas também quero você olhando para mim quando ele não estiver no meio.
A rua pareceu ficar mais silenciosa.
André sentiu o corpo reagir antes de responder. Não como com Rafael. Com Rafael, o desejo vinha pesado, uma coisa que ocupava o peito antes de descer. Com Caio era diferente. Era mais rápido. Mais nervoso. Uma faísca batendo em partes dele que estavam irritadas, feridas, despertas.
— Você é perigoso — André disse.
— Sou.
— E sabe disso.
— Sei.
— E usa.
— Uso.
— Péssima defesa.
— Não estou me defendendo.
Caio estava perto o bastante para que André sentisse o cheiro dele: chuva que não caiu, couro da jaqueta, sabonete, rua, uma ponta de suor de quem veio de moto no calor. Nada do vestiário. Mas, de algum modo, o corpo de André completou o resto.
— Você não devia ter vindo — André disse.
Caio olhou para a boca dele.
— Mas você desceu.
A frase foi pequena.
Grande o suficiente.
André o beijou.
Não planejou. Não calculou. Apenas cansou de medir.
Caio respondeu como se estivesse esperando desde antes de chegar. A mão dele subiu para a nuca de André com uma firmeza imediata, quente, sem hesitação. O beijo não teve a contenção de Rafael. Não pediu desculpa. Veio com pressa, com raiva, com riso preso, com uma vontade quase desafiadora.
André sentiu o impacto no corpo inteiro.
Caio beijava como jogava: avançava, recuava, enganava, voltava mais perto. Havia insolência até na forma como respirava. A boca dele parecia dizer: eu estou aqui, eu fico, eu não vou fingir que não quero.
André segurou a frente da jaqueta dele e o puxou mais perto.
Caio soltou um som baixo, quase uma risada quebrada, e isso atravessou André de um jeito indecente. Não havia vestiário, não havia time, não havia Rafael olhando. Havia só uma calçada, uma moto, um poste amarelo e dois homens adultos deixando o corpo falar alto demais em público.
André se afastou primeiro.
— Aqui não.
Caio estava ofegante. Os olhos dele brilhavam.
— Onde?
André olhou para a portaria.
— Sobe.
Caio sorriu.
Dessa vez, o sorriso veio inteiro.
— Viu? Você sabe decidir.
— Não estraga.
— Ainda não.
Subiram.
No elevador, Caio ficou encostado na parede, capacete na mão, olhando para André como se ele fosse uma pergunta aberta. André encarou a porta de metal, mas via o reflexo dos dois. O corpo dele ainda sentia o beijo. A boca, principalmente. A nuca, onde Caio tinha segurado. A cintura, onde a mão dele não chegou, mas parecia prometer.
— Você está arrependido? — Caio perguntou.
— Ainda não.
— Resposta honesta.
— Aproveita. Não sei quanto tempo dura.
Caio riu.
Quando entraram no apartamento, André fechou a porta e ficou parado com a mão na maçaneta por um segundo.
Caio percebeu.
— Posso ir embora.
André virou.
— Pode.
— Mas você quer?
André olhou para ele.
— Não.
O silêncio depois disso foi mais forte que qualquer convite.
Caio largou o capacete no chão com cuidado. Tirou a jaqueta devagar. Por baixo, a camiseta branca marcava o peito, os ombros, o corpo mais seco e ágil do que o de Rafael. Caio não tinha o peso de monumento. Tinha movimento. Mesmo parado, parecia prestes a fazer alguma coisa.
— Seu apartamento é a tua cara — ele disse.
— Bagunçado?
— Tentando parecer mais calmo do que é.
André riu pelo nariz.
— Você fala como se fosse psicólogo de boteco.
— Funciona melhor que muito terapeuta caro.
— Você devia se ouvir mais.
Caio chegou perto.
— Você quer conversar mesmo?
André sustentou o olhar.
— Quero saber o que estou fazendo.
— Mentira.
— Está abusando do direito de me interpretar.
— Você não quer saber o que está fazendo. Quer saber se vai se arrepender.
André ficou quieto.
Caio tocou a lateral do braço dele. Um toque pequeno, com os dedos. Nada da agressividade da calçada. Quase cuidadoso.
— Vai — Caio disse. — Talvez.
— Ótimo.
— Mas não hoje.
André sentiu o ar mudar.
— Como você sabe?
Caio se aproximou mais.
— Porque hoje você está com raiva demais para se arrepender.
O beijo seguinte veio de André de novo, mas Caio o recebeu como se fosse dono do tempo. A mão dele encaixou na cintura de André, puxando-o para perto. A outra subiu para o rosto, polegar roçando a barba. O corpo dos dois se encontrou com menos delicadeza que necessidade. André sentiu a firmeza de Caio contra ele, a respiração acelerando, a camiseta amassando entre as mãos.
Caio tinha gosto de hortelã e provocação.
André o empurrou até o sofá sem pensar.
Caio caiu sentado e riu, mas o riso morreu quando André ficou de pé entre as pernas dele.
— Ainda acha engraçado? — André perguntou.
Caio levantou os olhos.
— Acho perigoso.
— Bom.
Caio puxou André pela cintura, e o corpo de André veio junto. O contato fez os dois respirarem mais fundo. A excitação estava ali, evidente, sem a solenidade atormentada de Rafael. Caio não parecia assustado com o próprio desejo. Parecia provocado por ele.
A mão dele subiu por baixo da camiseta de André.
André fechou os olhos por um segundo.
Os dedos de Caio eram quentes, firmes, rápidos, mas pararam antes de avançar demais. Ele olhou para André, esperando. A espera surpreendeu mais que a ousadia.
— Tudo bem? — Caio perguntou.
A pergunta saiu baixa, quase sem personagem.
André abriu os olhos.
— Está.
— Se não estiver, fala.
André tocou o rosto dele.
— Você faz isso?
— O quê?
— Para e pergunta.
Caio sorriu, mas havia algo triste no sorriso.
— Eu provoco. Não forço.
André ficou olhando para ele por um instante.
Talvez fosse ali que Caio ficava perigoso de verdade: não na insolência, mas na consciência. Ele sabia exatamente como incendiar uma sala e, ainda assim, reparar se alguém estava queimando de verdade.
André tirou a própria camiseta.
Caio parou de sorrir.
O olhar dele desceu com uma franqueza que fez André sentir o corpo inteiro. Não havia deboche. Havia fome, sim, mas também admiração. Como se Caio tivesse sido pego desprevenido por algo que ele mesmo chamara.
— O quê? — André perguntou.
Caio respirou.
— Nada.
— Você sempre fala.
— Agora estou ocupado.
— Com o quê?
Caio levantou a mão e tocou o peito de André, devagar.
— Com isso.
O toque veio sem piada. A palma aberta, quente, subindo pela pele, sentindo a respiração. André deixou. O corpo dele, ainda marcado por Rafael na noite anterior, agora recebia outra linguagem. Caio não cuidava como Rafael. Caio acendia. Mas naquele momento havia uma atenção que André não esperava.
André se inclinou e beijou Caio de novo.
Caio puxou-o para o sofá. Os dois se embolaram entre almofadas, respiração, tecido, calor. Não havia coreografia bonita. Havia joelho batendo na mesa de centro, risada abafada, mão errando caminho, boca encontrando pescoço, barba raspando pele, o corpo tentando se ajustar ao pouco espaço.
André gostou da imperfeição.
Gostou mais do que deveria.
Com Rafael, tudo parecia grave, como se cada gesto precisasse justificar uma história inteira. Com Caio, o desejo vinha com bagunça. Com vida. Com a sensação de que cair do sofá seria parte da cena, não interrupção dela.
Caio mordeu de leve o ombro de André, mais provocação que dor.
André segurou o cabelo dele.
— Você não presta.
Caio riu contra a pele.
— Mas eu fico.
A frase voltou.
Dessa vez mais perto.
André sentiu alguma coisa apertar no peito.
Parou.
Caio percebeu imediatamente.
— Foi demais?
André apoiou uma mão no encosto do sofá, respirando.
— Não.
— Então?
— Eu preciso saber se você está aqui por mim.
Caio ficou imóvel.
O corpo dele ainda estava quente, próximo, evidente na respiração, no olhar, na tensão das mãos. Mas a pergunta fez algo recuar. Não o desejo. A máscara.
— Eu estou aqui porque você me deixou sem resposta — Caio disse.
— Isso não é a mesma coisa.
— Não.
Caio passou a mão no rosto.
— Merda.
— Finalmente uma palavra honesta.
— Eu estou aqui por você — Caio disse. — E também porque Rafael me enlouquece. E também porque eu odeio que ele queira você agora que eu ainda não consegui parar de querer ele.
André absorveu a frase em silêncio.
Caio continuou, quase irritado:
— Eu queria te dar uma resposta limpa. Queria dizer “é só você”, bonito, adulto, maduro. Mas seria mentira. Eu não sou limpo nessa história.
André se sentou um pouco, afastando o corpo, mas não saindo de perto.
— Então por que eu deveria deixar você ficar?
Caio olhou para ele.
— Porque eu estou dizendo a verdade antes de te machucar com ela.
A resposta ficou.
André baixou os olhos por um segundo.
— Péssima declaração.
— Mas é minha.
— Você é um desastre.
— Sou.
Caio tocou a mão dele.
— Mas eu fico.
A frase, pela terceira vez, veio sem ornamento.
E André entendeu que, para Caio, ficar também era confissão.
Rafael queria, mas fugia. Caio queria, mas vinha cheio de estilhaços. Nenhum dos dois era seguro. Talvez André também não fosse. Talvez a parte dele que gostava de estar no meio, de ser olhado, desejado, disputado, também fosse menos inocente do que ele gostaria.
— Hoje não — André disse.
Caio fechou os olhos.
— Você está me punindo?
— Estou me preservando.
— De mim?
— De vocês dois.
Caio assentiu devagar.
Dessa vez não rebateu.
Levantou-se, ajeitou a camiseta amassada, pegou a jaqueta do chão. O apartamento parecia mais frio de repente, embora o calor ainda estivesse nos dois.
— Eu posso beber uma água antes de ser expulso? — Caio perguntou.
André quase sorriu.
— Pode.
Na cozinha, Caio bebeu água em silêncio. Isso era raro nele. André encostou na bancada, ainda sem camiseta, braços cruzados, observando.
— Você vai contar para ele? — Caio perguntou.
— Não sou relatório.
— Mas se ele perguntar?
— Digo a verdade.
Caio olhou para o copo.
— Ele vai perguntar sem perguntar.
— Eu sei.
— Você vai saber responder?
André respirou fundo.
— Não.
Caio sorriu de leve.
— Bem-vindo ao clube.
O celular de André vibrou no quarto.
Os dois olharam na mesma direção.
— É ele — Caio disse.
André foi até a cama e pegou o aparelho.
Rafael.
RAFAEL:
Amanhã eu passo aí antes do jogo?
André ficou parado.
Caio apareceu na porta do quarto, mas não entrou.
— Você vai responder?
André olhou para ele.
— Não agora.
Caio assentiu.
— Boa escolha.
— Não transforma isso em vitória.
— Não é vitória.
— Parece.
Caio ficou sério.
— Vitória seria você me escolher porque me quer, não porque ele fugiu.
André não esperava aquela frase.
Caio pegou o capacete.
— Eu vou.
— Caio.
Ele parou na porta.
André caminhou até ele.
— Eu te quis hoje.
Caio fechou a mão no capacete.
— Eu sei.
— Não como vingança.
Caio sustentou o olhar, e havia ali um alívio pequeno, quase dolorido.
— Eu sei também.
André tocou o rosto dele. Não beijou. Só tocou.
Caio inclinou levemente a cabeça contra a mão, como se o gesto tivesse encontrado um lugar cansado.
Depois se afastou.
— Amanhã, na quadra, ele vai perceber.
— Que você veio?
— Que você não ficou esperando.
André não respondeu.
Caio abriu a porta.
Antes de sair, virou:
— E, André?
— Fala.
— Você beija como quem quer resposta. Mas quando para, parece que já sabe o problema.
André riu baixo.
— Boa noite, Caio.
— Boa noite.
A porta fechou.
André ficou no apartamento em silêncio.
Não havia cheiro de Rafael agora.
Havia Caio.
Mais leve. Mais elétrico. Mais recente.
A camiseta dele ainda estava no chão perto do sofá. A dele, não a de Caio. Mas, por um instante, parecia que tudo ali tinha sido tocado: as almofadas tortas, o copo na pia, a porta, o ar.
O celular vibrou de novo.
Rafael.
RAFAEL:
André?
Ele sentou no sofá.
O mesmo sofá onde Rafael parara.
O mesmo sofá onde Caio ficara.
Digitou:
ANDRÉ:
Amanhã a gente se vê na quadra.
Rafael visualizou.
Demorou.
RAFAEL:
Está tudo bem?
André olhou para a pergunta.
Honesta, talvez.
Tarde, talvez.
Respondeu:
ANDRÉ:
Não sei.
E desligou a tela.
Na manhã seguinte, André chegou sozinho à quadra.
Não de carona com Rafael.
Não cedo para Caio.
Sozinho.
Essa foi sua pequena tentativa de recuperar o próprio lugar.
Mas Rafael viu assim que ele entrou.
Caio também.
Rafael estava perto do gol, ajeitando as luvas. Parou o movimento por meio segundo. O olhar dele foi ao rosto de André, depois à sua boca, depois voltou. Não precisava perguntar. O corpo de André devia trazer alguma resposta.
Caio estava sentado no banco, amarrando a chuteira. Quando André passou, ele não fez piada. Apenas ergueu os olhos.
— Bom dia, André.
Sem substituto.
Sem veneno.
Rafael ouviu o nome.
Marcelo chegou logo depois, gritando:
— Hoje eu quero todo mundo focado! Nada de novela, nada de corpo mole, nada de palhaçada!
Caio olhou para André.
Rafael também.
André respirou fundo.
A quadra tinha o mesmo cheiro de sempre: borracha, suor antigo, grama úmida, calor preso.
Mas naquele sábado havia outra coisa.
Um cheiro de coisa prestes a explodir.
Marcelo bateu palma.
— Bora jogar!
Caio se levantou.
Rafael colocou as luvas.
André entrou em campo.
E, antes mesmo da bola rolar, os três já sabiam:
o jogo daquele sábado não seria sobre futebol.