Hoje à noite, eu menti. Deitei ao lado do meu marido, deixei ele me tocar, deixei ele entrar em mim... e eu fingi. Fingi gemer, fingi que estava gostando, fingi que aquele corpo magro, mole e sem vida me dava algum prazer. Mas por dentro, eu estava morta. Nada se movia lá dentro. Nada esquentava.
Eu lembro de quando eu era inocente. Lembro de achar que aquilo era tudo o que uma mulher poderia ter. Eu me contentava com pouco, muito pouco. Achava que o amor era só aquele ritual rápido, sem força, sem calor, sem vontade. Eu achava que o prazer era algo pequeno, passageiro, que vinha e ia rápido. Eu não sabia... eu não sabia que estava vivendo pela metade. Eu não sabia que o pouco que ele me dava não era nem o começo do que eu realmente merecia.
Agora, depois que eu provei do fogo, como é que eu posso voltar para a sombra?
Quando ele estava em cima de mim, mexendo devagar, sem força, eu tive que fechar os olhos com força. E na minha cabeça, eu não estava vendo ele. Eu estava vendo Ezequiel. Aquele gigante de pele retinta, que me enche de uma vez só, que me faz sentir pequena e mulher ao mesmo tempo. Eu imaginava as mãos grandes do Sebastião, ásperas, quentes, me apertando, me marcando como ferro em brasa. Eu lembrava da voz rouca do Zacarias, me chamando de puta, me dizendo o quanto eu sou gostosa.
Foi pensando neles que eu consegui fingir que gozava. Foi imaginando a força bruta deles, o tamanho deles, a sede deles, que meu corpo reagiu. Porque com o meu marido, eu sou uma senhora respeitada. Mas com eles... ah, com eles eu sou apenas fêmea. Sou apenas carne quente esperando para ser comida.
E agora eu sei que estou perdida. Estou viciada. Viciada nesse veneno doce que é o prazer proibido.
Eu passo o dia todo naquela casa grande, sozinha, olhando para o nada, e a minha mente não pensa em mais nada. Não penso em comida, não penso em costura, não penso em visitas. Eu só penso neles. Eu só penso em ser levada, em ser dominada, em ser possuída por um daqueles corpos negros, fortes, cheios de vida.
Eu penso em sentar no colo deles, rosto no rosto, sentindo eles entrarem devagar, me abrindo, me dilatando, me enchendo até doer de tão gostoso. Penso em ficar de quatro, de cabeça baixa, oferecendo meu corpo para eles baterem com vontade, fazendo aquele barulho de pele batendo que ecoa no meu cérebro.
Eu só quero sentir. Sentir a pressão, sentir o calor, sentir quando eles estão chegando ao limite e então... então sentir aquele líquido quente, espesso, jorrando dentro de mim, me enchendo, me marcando por dentro, me possuindo de verdade. Eu amo essa sensação de estar cheia, de estar transbordando, de saber que um homem de verdade deixou sua marca no meu útero.
Eu quero ser amarrada. Quero ter minhas mãos presas, meus pés atados, e não poder fazer nada além de receber. Quero ser acorrentada ao prazer. Quero que eles me usem, que me abusem com vontade, que me tratem como objeto de desejo, porque é assim que eu me sinto viva. É assim que eu sei que sou mulher.
Os nossos maridos nos dão obrigação. Eles nos dão amor. Os meus negros me dão vida, me dão fogo, me dão o paraíso na terra.
Eu estou viciada. Viciada em pau preto, viciada em força, viciada em ser comida, viciada em ser toda deles. E eu não quero cura. Não quero mais essa vida mansa e sem graça. Eu quero o fogo. Eu quero eles. Todos eles. O dia inteiro. A noite inteira. Até eu não aguentar mais de tanto prazer.