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Leonardo e o fim do seu mundo

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Um conto erótico de Thiago P.
Categoria: Gay
Contém 2594 palavras
Data: 24/06/2026 07:43:46

Leandro chegou ao CTA do SUS cedo demais.

Nem precisava. O atendimento era só às dez, mas desde as seis da manhã ele desistira de tentar dormir. Ficou rolando na cama, olhando o teto escurecer e clarear outra vez, sentindo o celular vibrar com mensagens que não abriu.

Quando saiu de casa, a mãe perguntou da cozinha:

— Você volta pro almoço?

— Acho que sim.

A voz saiu normal até demais.

Ele odiou isso.

Porque parecia que o corpo dele ainda não tinha entendido que alguma coisa horrível podia acontecer.

No ônibus até o centro, tentou se convencer de que estava exagerando.

“Você tá paranoico.” “Hoje em dia qualquer gripe parece sintoma na internet.” “Vai dar negativo e você vai se sentir idiota depois.”

Mas então lembrava da febre.

Da fraqueza estranha. Dos gânglios inchados. Do medo que tinha começado pequeno semanas antes e agora parecia ocupar espaço dentro do peito.

Na recepção do CTA, a atendente pediu o cartão do SUS sem olhar muito para ele.

Tudo ali parecia acostumado à dor dos outros.

Gente entrando. Gente saindo. Telefone tocando. Impressora funcionando. Um homem reclamando da demora perto da porta.

Leandro sentou numa cadeira azul de plástico e ficou olhando um cartaz colado na parede:

“TRATAMENTO SALVA VIDAS.”

Desviou os olhos imediatamente.

A perna balançava sem parar.

Quando chamaram seu nome, o estômago afundou.

— Leandro Matsushita?

Quem apareceu foi uma psicóloga.

Ela devia ter uns quarenta e poucos anos, coque preso de qualquer jeito, óculos escorregando um pouco no nariz. O crachá dizia “Helena”.

— Pode vir comigo.

A sala era pequena e simples. Mais humana do que clínica. Uma mesa, duas poltronas, uma garrafa térmica de café no canto e uma planta meio torta perto da janela.

Helena fechou a porta.

— Primeira vez fazendo testagem?

Leandro assentiu.

— Tá nervoso?

Ele soltou uma risada curta pelo nariz.

— Um pouco.

Ela sorriu de leve, como quem já ouvira aquilo mil vezes.

— Normal.

Leandro sentou na ponta da cadeira, segurando as próprias mãos para esconder o tremor.

Helena abriu a pasta devagar.

Conferiu os papéis. Respirou fundo.

E foi naquela respiração que o corpo dele entendeu antes da cabeça.

O sangue pareceu desaparecer do rosto.

Porque ninguém respira assim para dar notícia boa.

Ela ergueu os olhos.

A voz veio calma, cuidadosa:

— Leandro… o seu teste veio reagente para HIV.

O ventilador continuou girando no teto.

Um carro buzinou lá fora.

Em algum lugar do corredor alguém riu.

O mundo seguiu normalmente.

Só ele parou.

Leandro ficou olhando para ela sem conseguir piscar direito.

Como se tivesse ouvido numa língua errada.

— O quê?

Helena manteve o tom estável.

— O resultado indica infecção pelo HIV. Nós vamos seguir com os exames e começar o acompanhamento, tá?

Ele balançou a cabeça imediatamente.

Não em entendimento.

Em negação.

— Não… não. Acho que… não.

A garganta travou.

Uma pressão horrível começou atrás dos olhos.

Helena não apressou o silêncio.

Isso tornou tudo pior.

Porque o silêncio confirmava que aquilo era real.

Leandro olhou para os papéis na mesa tentando encontrar algum erro. Outro nome. Outra ficha. Qualquer coisa.

Mas lá estava.

O nome dele.

O corpo dele.

A vida dele.

Uma sensação quente subiu pelo peito até o rosto. As mãos começaram a formigar.

Ele respirou fundo uma vez.

Não adiantou.

O ar parecia curto demais.

— Tem certeza? — perguntou baixo.

A psicóloga assentiu devagar.

— Sim.

Aquilo abriu um buraco dentro dele.

As memórias começaram a surgir sem ordem.

A camisinha rasgando. O cara da festa cujo rosto ele mal lembrava. O ex-namorado dizendo “relaxa”. A febre recente. O medo.

Tudo virou culpa ao mesmo tempo.

Mas uma culpa confusa. Bagunçada.

Porque parte dele pensava: “Você sabia dos riscos.”

E outra gritava: “Mas por que comigo?”

Leandro passou a mão no rosto.

Estava tremendo.

— Eu… eu não entendo.

A voz falhou no meio.

— Eu sei que é muita coisa agora — Helena disse. — E talvez você nem consiga processar direito hoje.

Ele riu uma vez, sem humor nenhum.

Uma risada pequena de puro desespero.

— Minha vida acabou.

— Eu sei que parece isso agora.

Ela falou baixo. Sem frases prontas. Sem exagerar otimismo.

Só honesta.

— Mas não acabou.

Leandro abaixou a cabeça.

Os olhos começaram a arder violentamente.

A pior parte não era nem o medo da doença.

Era a vergonha.

Uma vergonha física.

Como se tivesse se tornado visivelmente errado. Como se qualquer pessoa no corredor pudesse olhar pra ele e perceber.

“HIV.”

A palavra queimava dentro da cabeça.

— Minha mãe…

Ele parou.

Nem sabia terminar a frase.

Helena esperou.

— Ela não precisa saber hoje. Você não precisa decidir nada hoje.

Leandro apertou os olhos.

A respiração começou a falhar de verdade agora.

Rápida. Curta.

Ele tentou segurar.

Tentou porque chorar ali parecia humilhante.

Mas não conseguiu.

As lágrimas vieram abruptas, silenciosas primeiro. Depois o peito começou a tremer junto com o resto do corpo.

Helena puxou a caixa de lenços discretamente para perto dele.

Sem tocar. Sem invadir.

Só deixando ali.

E aquele cuidado quase destruiu o pouco controle que restava.

Leandro cobriu o rosto com as mãos.

— Ninguém mais vai me querer.

A frase saiu abafada entre os dedos.

Crua. Infantil. Sincera.

Helena demorou alguns segundos antes de responder.

— Muita gente pensa isso quando recebe o diagnóstico.

Ele ficou quieto, respirando mal.

Então ela continuou:

— Hoje o HIV tem tratamento. Você pode ficar indetectável. E uma pessoa indetectável não transmite o vírus sexualmente.

Ele ouviu.

Mas parecia distante.

Porque naquele instante o cérebro dele ainda estava preso na mesma frase repetindo sem parar:

“Você tem HIV.” “Você tem HIV.” “Você tem HIV.”

Helena explicou como funcionaria o acompanhamento, os exames, os remédios gratuitos.

Leandro tentou prestar atenção.

Tentou.

Mas só conseguia pensar que tinha dezenove anos.

Dezenove.

E parecia que alguém tinha arrancado o futuro dele da tomada.

Quando finalmente levantou da cadeira, as pernas estavam fracas.

Helena perguntou com cuidado:

— Você consegue ir pra casa sozinho?

Ele demorou para responder.

Porque a verdade era que não sabia.

O garoto que entrou naquela sala ainda acreditava que coisas ruins aconteciam com outras pessoas.

O que saiu dali já não acreditava em quase nada.

Os meses passaram.

O remédio virou rotina: um comprimido por dia.

Os exames começaram a melhorar.

Na terceira consulta médica, o infectologista sorriu:

— Sua carga viral já caiu bastante. Você está respondendo muito bem.

Leandro tentou sorrir de volta.

Mas a vergonha continuava.

Ele evitava flertar. Não respondia mensagens. Se alguém demonstrava interesse, ele se afastava antes.

Parecia mais seguro assim.

Conheceu Marcel numa terça-feira chuvosa, do jeito mais idiota possível.

Leandro estava numa cafeteria perto da faculdade tentando terminar um projeto atrasado no notebook. O lugar cheirava a café queimado e roupa molhada. Quase todas as mesas estavam ocupadas por universitários fingindo estudar.

Ele estava desenhando a mesma planta havia vinte minutos sem conseguir se concentrar.

— Você vai usar essa tomada?

Leandro ergueu os olhos.

O garoto parado ao lado da mesa segurava um carregador enrolado no braço e duas moedas na mão. Cabelo cacheado preso num coque curto meio bagunçado, moletom azul escuro, olheiras leves de quem dorme tarde demais.

Bonito.

Irritantemente bonito.

— Hã… não. Pode usar.

— Valeu.

A voz dele era fácil. Natural.

Como se falasse com conhecidos há anos.

Leandro voltou para o notebook tentando ignorar a presença ao lado.

Não conseguiu.

O garoto cantarolava baixo enquanto esperava o café. Batucava os dedos na mesa. Parecia confortável demais no mundo.

Cinco minutos depois:

— Arquitetura?

Leandro piscou.

— O quê?

O garoto apontou para um adesivo no notebook.

— FAU. Ou você comprou isso só porque gosta de prédio.

— Ah. Arquitetura.

— Sabia.

Ele puxou a cadeira da frente sem pedir permissão direito.

— Vocês têm cara de quem vira a noite sofrendo no AutoCAD.

Leandro soltou uma risada curta antes de perceber.

Fazia tempo que não ria espontaneamente.

— E você faz o quê?

— Design.

— Então sofre também.

— Sofro esteticamente.

Aquilo foi idiota o suficiente para fazer Leandro rir de novo.

O garoto sorriu imediatamente, como se tivesse vencido alguma coisa.

— Aí. Muito melhor. Você tava com cara de quem queria cometer um crime contra essa planta baixa.

Leandro balançou a cabeça.

— Talvez eu queira.

— Marcel, aliás.

Ele estendeu a mão.

Leandro hesitou um segundo antes de apertar.

O toque foi rápido. Normal.

Mesmo assim, uma parte dele travou.

Porque ainda não tinha se acostumado completamente à ideia de ser tocado sem que existisse perigo escondido atrás.

— Leandro.

— Prazer oficialmente, então.

Marcel continuou falando como se já fossem amigos. Reclamou do preço do café, contou que um professor tinha destruído o projeto dele em cinco minutos e perguntou opiniões extremamente sérias sobre salgados de padaria.

Leandro respondeu mais do que pretendia.

E percebeu tarde demais.

Porque fazia muito tempo que não se sentia leve daquele jeito.

Muito tempo desde que alguém olhara para ele sem pena, sem medo, sem saber.

Foi assim.

Marcel tinha vinte e um anos e uma facilidade absurda de conversar com qualquer pessoa. Conhecia filmes antigos, reclamava do preço do café, mandava memes horríveis às duas da manhã e falava rápido quando ficava animado.

Leandro tentou manter distância.

Mas Marcel insistia.

— Você foge de mim por hobby ou por talento natural?

— Nenhum dos dois.

— Então por que sempre inventa desculpa?

Leandro desviou o olhar.

Porque gostar de alguém parecia perigoso.

Numa sexta-feira à noite, Marcel apareceu na saída da faculdade segurando dois salgados e um refrigerante.

— Você vai jantar isso comigo porque eu comprei errado e agora tenho comida demais.

— Isso parece manipulação.

— É exatamente o que é.

Sentaram numa praça quase vazia.

O vento estava frio.

Marcel falava sobre um professor insuportável quando percebeu que Leandro estava quieto demais.

— Ei.

— Oi.

— O que tá acontecendo?

— Nada.

— Você sempre fala “nada” quando claramente é alguma coisa.

Leandro apertou a latinha entre os dedos.

— Marcel… você devia parar de insistir comigo.

— Por quê?

— Porque sim.

— Ótimo argumento.

— Sério.

Marcel ficou observando ele por alguns segundos.

— Você acha que eu vou embora se descobrir alguma coisa sobre você?

Aquilo acertou em cheio.

Leandro levantou rápido.

— Eu tenho que ir.

Marcel segurou de leve o braço dele.

— Leandro.

A voz dele perdeu o tom brincalhão.

— Você não precisa me contar nada que não queira. Mas para de agir como se fosse impossível alguém gostar de você.

Leandro passou dois dias sem responder mensagens.

No terceiro, Marcel apareceu na porta do mercado onde ele trabalhava.

— Você vai continuar fugindo ou vai conversar comigo?

Leandro sentiu o peito apertar.

— Marcel…

— Não. Agora você fala.

O estacionamento estava quase vazio. O céu ameaçava chuva outra vez.

Leandro respirou fundo.

As palavras saíram baixas.

— Eu tenho HIV.

Silêncio.

O pior silêncio da vida dele.

Ele encarou o chão porque não queria ver a reação.

— Tá — disse Marcel, depois de alguns segundos.

Leandro ergueu a cabeça, confuso.

— …Tá?

— É isso?

— Como assim “é isso”?

— Você achou que eu ia sair correndo?

Leandro sentiu os olhos arderem.

— As pessoas têm medo.

Marcel suspirou devagar.

— Algumas têm desinformação.

Ele se aproximou um pouco.

— Você faz tratamento?

— Faço.

— Tá indetectável?

Leandro hesitou.

— Faz três meses.

Marcel assentiu.

— Então você sabe que indetectável é igual intransmissível.

— Eu sei.

— Então.

Leandro passou a mão no rosto.

— Você não entende. Depois que eu descobri… parece que virei um problema. Como se tivesse alguma coisa errada comigo.

Marcel olhou para ele com uma firmeza tranquila.

— Tem uma coisa errada, sim.

Leandro ficou imóvel.

— Você acha que merece menos amor por causa disso.

Os olhos de Leandro encheram d’água de vez.

Marcel continuou:

— Você continua sendo você. O cara que odeia tomate, dorme vendo vídeo de prédio japonês e faz piada ruim quando tá nervoso.

Uma risada escapou no meio do choro.

— Minhas piadas não são ruins.

— São péssimas.

Leandro abaixou a cabeça, tentando respirar direito.

— Eu tive muito medo.

— Eu imagino.

— Ainda tenho.

Marcel ficou ao lado dele em silêncio por alguns instantes.

Depois falou:

— Você não precisa decidir tudo hoje. Nem confiar em mim de uma vez. Mas eu queria tentar ficar do seu lado… se você deixar.

Leandro olhou para ele como quem encara uma porta entreaberta depois de muito tempo preso no escuro.

Devagar, quase sem acreditar, respondeu:

— Eu quero tentar também.

E pela primeira vez desde aquele papel branco no consultório, o futuro não pareceu condenado.

Pareceu apenas… desconhecido.

E talvez isso não fosse a pior coisa do mundo.

Marcel segurou o rosto de Leandro com as duas mãos, os polegares passando devagar pelas bochechas molhadas. O estacionamento estava escuro e silencioso, só o som distante de carros na avenida.

— Vem pra casa comigo hoje, Leo — murmurou ele, testando o apelido pela primeira vez. Soou natural, carinhoso. — Não precisa ser nada. Só ficar junto. Mas se você quiser… eu quero você inteiro.

Leandro — Leo — sentiu o peito apertar de um jeito diferente agora. Medo ainda existia, mas era menor que o desejo que vinha crescendo nas últimas semanas. Ele assentiu.

No apartamento pequeno de Marcel, as luzes eram baixas. Um abajur amarelo jogava sombras suaves nas paredes. Eles se beijaram devagar no sofá, como se tivessem todo o tempo do mundo. Marcel era paciente: tirava peça por peça, beijando cada pedaço de pele que aparecia — o pescoço, o ombro, a curva da clavícula.

Quando Leo ficou só de cueca, Marcel parou e olhou nos olhos dele.

— Ainda dá tempo de parar. Me fala se quiser.

— Não para — sussurrou Leo, voz rouca. — Eu quero.

Marcel sorriu, aquele sorriso tranquilo que desarmava tudo. Ele desceu beijando o peito, a barriga, até chegar na cueca já esticada. Puxou o tecido devagar e tomou o pau de Leo na boca, quente, molhado, sem pressa. Leo gemeu baixo, os dedos se enroscando nos cachos soltos do cabelo de Marcel.

— Porra… Marcel…

Marcel subiu de novo, tirando a própria roupa. Os corpos se encaixaram, peles quentes se esfregando. Ele pegou lubrificante na gaveta ao lado do sofá-cama e preparou Leo com calma — um dedo, depois dois, curvando devagar até encontrar o ponto que fez Leo arquear as costas e soltar um gemido mais alto.

— Isso… relaxa pra mim, Leo.

Quando Marcel finalmente entrou, devagar, centímetro por centímetro, Leo agarrou os ombros dele, unhas cravando na pele. A sensação era intensa, cheia, mas boa. Marcel parou quando estava todo dentro, respirando contra o pescoço dele.

— Tá bom? — perguntou, voz baixa e rouca.

— Tá… perfeito. Mexe.

Marcel começou a se mover. Primeiro devagar, depois mais fundo, mais ritmado. O som de pele contra pele enchia o quarto pequeno, misturado com gemidos e respirações ofegantes. Ele segurava a coxa de Leo aberta, inclinando o quadril para acertar exatamente onde precisava.

— Olha pra mim — pediu Marcel.

Leo obedeceu. Os olhos castanhos de Marcel estavam escuros de tesão, mas cheios da mesma firmeza de antes. Cada estocada parecia dizer: você é desejado. Você é inteiro. Você é meu agora.

Leo gozou primeiro, tremendo, jorrando entre os corpos colados. Marcel veio logo depois, gemendo o nome “Leo” contra a boca dele enquanto gozava fundo.

Ficaram abraçados, suados, ofegantes. Marcel não saiu de dentro dele imediatamente. Ficou ali, acariciando o cabelo úmido de suor de Leo.

— Tudo bem? — perguntou baixinho.

Leo riu fraco, ainda recuperando o fôlego.

— Melhor do que tudo bem. Eu… achei que nunca mais ia sentir isso.

Marcel beijou a testa dele.

— Pode sentir quantas vezes quiser. Eu tô aqui. Indetectável, né? E eu confio em você.

Leo fechou os olhos, o corpo relaxado pela primeira vez em meses. O futuro ainda era desconhecido, mas agora tinha Marcel dentro dele — literal e figurativamente e isso mudava tudo.

— Me chama de Leo de novo — pediu, quase tímido.

Marcel sorriu contra a pele dele.

— Leo… meu Leo.

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