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Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4852 palavras
Data: 25/06/2026 00:13:53
Assuntos: Gay

Rafael dormiu no apartamento de André.

Não profundamente.

Dormiu como quem não estava acostumado a abandonar a vigilância. Deitava de lado, virava de barriga para cima, acordava com qualquer barulho do prédio, respirava fundo, tocava André com a ponta dos dedos como se precisasse confirmar que ele ainda estava ali — e depois fingia que não tinha feito isso.

André percebeu tudo.

Percebeu e fingiu dormir.

Havia uma delicadeza estranha naquela encenação. Os dois adultos, os dois cansados, os dois marcados pela noite, e ainda assim presos a pequenos orgulhos. Rafael não queria parecer carente. André não queria parecer rendido. Então ficaram naquele silêncio morno, dividindo lençol, suor seco, respiração, pele sensível e uma intimidade recente demais para ter nome.

Lá fora, a cidade começava antes deles. Um ônibus freou na avenida. Um cachorro latiu. Em algum apartamento vizinho, alguém arrastou uma cadeira. A vida comum, grosseira e insistente, atravessava a janela como se nada demais tivesse acontecido ali.

Mas tinha acontecido.

André sabia no corpo.

Não como lembrança bonita. Como marca. Os músculos cansados, a boca sensível, a nuca ainda lembrando a mão de Rafael, a pele com pequenos sinais de uma noite em que nenhum dos dois conseguiu fingir controle até o fim.

Rafael, que sempre parecia grande demais na quadra, tinha ficado humano na cama. Não menor. Mais perigoso por isso. André tinha visto o homem por trás do goleiro: a respiração falhando, a cicatriz perto da costela, a hesitação antes de pedir algo, a força tentando virar cuidado, o cuidado às vezes escapando em pressa.

E agora havia a manhã.

A manhã sempre cobrava o que a noite prometia.

Quando André acordou de verdade, o lado de Rafael estava vazio.

Por um segundo, achou que ele tinha ido embora.

O peito apertou antes que a cabeça autorizasse.

Depois ouviu um barulho na cozinha.

Água.

Xícara.

Armário fechando devagar.

André ficou deitado mais alguns segundos, olhando para o teto. Sorriu sem querer. Rafael não tinha fugido. Não completamente. Para ele, aquilo talvez fosse quase heroico.

Levantou enrolado no lençol e foi até a cozinha.

Rafael estava de costas, sem camisa, usando apenas a bermuda da noite anterior. A luz da manhã entrava pela janela e desenhava os ombros largos, a linha das costas, a pele ainda marcada de sono. Ele segurava uma caneca com uma das mãos e olhava para a cafeteira como se esperasse dela uma orientação moral.

— Você está planejando fugir de modo doméstico? — André perguntou.

Rafael virou.

O olhar dele passou pelo lençol enrolado na cintura de André, pelo peito nu, pelo cabelo bagunçado. Demorou pouco, mas demorou.

— Fiz café.

— Grande gesto emocional.

— Para mim é.

André apoiou o ombro no batente da porta.

— Então devo me sentir honrado?

— Deve.

— Modesto.

— Realista.

Havia um resto de sorriso na boca de Rafael. Pequeno. Mas inteiro o suficiente para André sentir vontade de atravessar a cozinha e beijá-lo.

Não atravessou.

Ainda.

Rafael serviu café em duas canecas. Entregou uma a André. Os dedos se tocaram. Depois da noite anterior, aquele toque simples parecia quase indecente.

— Você dormiu? — André perguntou.

— Um pouco.

— Mentira.

— Dormi mal.

— Por quê?

Rafael olhou para a caneca.

— Não estou acostumado.

— Com cama dos outros?

— Com ficar.

A resposta veio tão baixa que André quase a perdeu.

Mas ouviu.

E, por ouvir, não brincou.

Tomou um gole de café. Estava forte demais. Claro que Rafael faria café forte demais. Tudo nele parecia dosado para aguentar impacto.

— Você ficou — André disse.

Rafael levantou os olhos.

— Fiquei.

A palavra era pequena.

Mas, em Rafael, tinha peso de confissão.

André colocou a caneca na pia e se aproximou. Rafael não recuou. Isso também era novo. O corpo dele endureceu um pouco, por hábito, mas permaneceu.

André tocou a cicatriz perto da costela.

— Isso ainda dói?

Rafael olhou para a mão dele.

— Às vezes.

— Quando?

— Quando muda o tempo.

— E quando alguém toca?

Rafael respirou fundo.

— Depende de quem.

André passou o polegar ao lado da marca, sem pressionar.

— E agora?

Rafael demorou.

— Agora não dói.

Era mentira parcial. André sabia. Mas não insistiu.

Aproximou-se mais, beijou o ombro dele, depois o canto do maxilar. Rafael fechou os olhos. O corpo inteiro dele parecia tentar decidir se relaxava ou se se defendia. André sentiu essa luta sob a pele.

— Você vai ficar estranho hoje? — André perguntou, ainda perto.

Rafael soltou um ar curto.

— Provavelmente.

André riu contra ele.

— Pelo menos sincero.

— Estou tentando.

— Está indo mal, mas aprecio o esforço.

Rafael segurou a cintura de André.

Dessa vez, sem a urgência da noite. Sem aquele desespero de quem finalmente atravessou a linha e não sabe mais parar. Era um toque mais quieto. Mais perigoso por isso. Como se Rafael estivesse aprendendo que podia tocar sem transformar tudo em fuga ou incêndio.

André sentiu o corpo responder, mas havia outra camada por cima do desejo: uma ternura desconfortável.

Ele não tinha planejado ternura.

Desejo, sim. Confusão, sim. Tesão, ciúme, provocação, culpa, talvez. Mas ternura era outra coisa. Ternura cobrava futuro.

O celular vibrou no quarto.

Os dois ficaram imóveis.

A realidade voltou com som de notificação.

André soube antes de olhar.

Rafael também.

— Vai ver — Rafael disse.

— Não preciso.

— Precisa.

André afastou-se, irritado por ele ter razão. Foi até o quarto, pegou o celular no criado-mudo e viu sete mensagens de Caio.

A primeira, enviada de madrugada:

CAIO:

Ele está aí?

Depois:

CAIO:

Claro que está.

CAIO:

Você não precisa responder.

CAIO:

Mas responde.

CAIO:

Eu odeio vocês.

CAIO:

Mentira. Odeio mais ele.

A última, enviada às 6h12:

CAIO:

E talvez um pouco você por ter conseguido.

André ficou parado com o aparelho na mão.

A frase não veio com a malícia habitual. Não tinha piada. Não tinha armadura suficiente. Era pequena, feia, honesta. O tipo de frase que alguém manda quando já passou da fase de tentar parecer bonito.

Rafael apareceu na porta do quarto.

— Ele mandou?

André entregou o celular sem responder.

Rafael leu.

O rosto dele não mudou muito. Mas André viu a culpa passar. Não como expressão. Como peso.

Rafael devolveu o aparelho.

— Eu preciso falar com ele.

— Precisa.

— Hoje.

— Precisa.

Rafael sentou na beira da cama, ainda sem camisa, os cotovelos apoiados nos joelhos.

— Eu não sei como.

André ficou de pé diante dele.

— Começa não fugindo.

Rafael soltou uma risada seca.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é simples. Mas é básico.

Rafael olhou para ele.

— Você vai comigo?

André demorou um segundo.

— Não.

Rafael pareceu esperar a recusa, mas ainda assim ela o atingiu.

— Por quê?

— Porque essa conversa é de vocês. Eu estou na história, mas não sou desculpa para você finalmente dizer o que devia ter dito antes.

Rafael abaixou os olhos.

André continuou:

— E mais uma coisa.

— O quê?

— Não vai lá pedir desculpa por querer alguém. Vai pedir desculpa pelo que você fez com o que ele sentia.

A frase ficou no quarto.

Rafael absorveu devagar.

— Você acha que eu usei ele.

— Acho que você quis sem assumir. E isso faz um estrago parecido.

Rafael fechou os olhos.

— Eu gostava dele.

— Eu sei.

— Talvez ainda goste de alguma forma.

André sentiu a frase como um toque frio.

Não deveria doer. Mas doeu.

Rafael abriu os olhos rápido, como se tivesse percebido.

— Não do jeito que...

— Não termina com frase confortável — André cortou. — Não precisa embrulhar.

Rafael respirou fundo.

— Eu não quero voltar para ele.

— Isso é diferente de não sentir nada.

— É.

André assentiu.

Gostou da honestidade. Odiou a honestidade. As duas coisas cabiam.

Sentou ao lado de Rafael.

Os dois ficaram em silêncio, ombro quase encostando.

— Você se arrependeu? — Rafael perguntou.

André olhou para as próprias mãos.

— Não.

Rafael virou o rosto.

— Nem por causa dele?

— Eu posso me preocupar com o Caio sem me arrepender de você.

A frase pareceu aliviar e ferir Rafael ao mesmo tempo.

— E você? — André perguntou.

Rafael demorou.

— Não me arrependo.

— Mas está com medo.

— Muito.

— De quê agora?

Rafael olhou para o quarto. Para a cama desarrumada. Para a roupa no chão. Para André.

— De ter ficado tarde demais para ser decente.

André tocou a mão dele.

— Talvez não dê para ser decente desde o começo. Talvez dê para ser honesto daqui para frente.

Rafael segurou os dedos dele.

Não disse nada.

Mas ficou.

Mais um pouco.

Foram juntos até a cozinha. Tomaram café de verdade, ou algo parecido. Rafael comeu uma fatia de pão em silêncio. André tentou fazer piada sobre o fato de ele parecer um operário em intervalo de obra existencial. Rafael quase riu. Quase era progresso.

Quando Rafael foi embora, parou na porta.

— Eu vou falar com ele antes do jogo.

— Hoje tem jogo?

— Treino. Marcelo inventou treino.

— Claro que inventou.

— Aparece?

André olhou para ele.

— Você quer que eu apareça?

Rafael não fugiu.

— Quero.

— Mesmo com Caio lá?

— Principalmente por isso. Se você não for, vai parecer que eu escondi você de novo.

André sustentou o olhar.

— Não sou troféu de coragem.

— Eu sei.

— Sabe?

— Estou tentando saber.

André suspirou.

— Vou.

Rafael assentiu.

Dessa vez, antes de sair, beijou André na porta.

Não foi beijo de despedida discreta. Também não foi espetáculo. Foi um beijo breve, firme, escolhido. Como se Rafael precisasse provar para si mesmo que podia fazer algo simples sem fugir depois.

Quando a porta fechou, André encostou-se nela.

O apartamento ficou quieto.

A cama estava desarrumada.

As canecas na pia.

O corpo cansado.

A cabeça pior.

Ele olhou para o celular.

Caio não tinha mandado mais nada.

Isso incomodou mais do que as sete mensagens.

O treino era às quatro da tarde.

André chegou sozinho.

A quadra parecia diferente fora do horário habitual. Menos cheia, menos barulhenta, mas talvez por isso mais exposta. O cheiro ainda estava ali: borracha quente, grama úmida, suor antigo preso no vestiário, cerveja seca nas mesas do bar ao lado. Só que sem a multidão, tudo parecia aguardar.

Marcelo estava no centro da quadra, segurando uma prancheta.

Uma prancheta.

— Você está de prancheta? — André perguntou ao entrar.

Marcelo virou, orgulhoso.

— Profissionalização.

— Você desenhou bolinhas?

— Estratégia.

— Isso é um círculo torto com o nome do Caio.

— Exatamente. Ele corre torto.

Caio estava sentado no banco, amarrando a chuteira.

Ao ouvir o nome, ergueu os olhos.

André sentiu o impacto.

Caio parecia cansado. Não fisicamente. O corpo estava ali, bonito como sempre, camiseta regata, pernas à mostra, cabelo levemente úmido. Mas os olhos não tinham o brilho da provocação fácil. Ou tinham, mas apagado nas bordas.

— Bom dia — André disse, mesmo sendo tarde.

Caio olhou para ele.

— Dormiu bem?

A pergunta veio baixa.

Sem sorriso.

André respondeu com a verdade possível:

— Pouco.

Caio assentiu como se já soubesse.

— Imagino.

Rafael estava perto do gol, colocando as luvas.

Não veio imediatamente.

Talvez estivesse dando espaço. Talvez estivesse com medo. Talvez as duas coisas.

Marcelo, alheio por escolha ou incapacidade, bateu palmas.

— Hoje a gente vai treinar saída de bola e pênalti. Sem putaria.

Caio riu pelo nariz.

— Então cancela.

Marcelo apontou a prancheta para ele.

— Você, principalmente, boca fechada.

— Nasci para decepcionar liderança.

Rafael finalmente se aproximou.

O silêncio entre os três apareceu antes das palavras.

André ficou no meio sem querer. Rafael à direita. Caio no banco. A quadra inteira em volta.

— Posso falar com você? — Rafael perguntou a Caio.

Caio terminou de amarrar a chuteira. Deu um nó forte demais.

— Aqui?

— Onde você quiser.

Caio levantou.

— Nossa. Evolução.

Rafael aceitou a pancada.

— Nos fundos.

Caio olhou para André.

— Você autorizou?

André sentiu a provocação, mas também a dor por trás.

— Não sou dono dele.

— Ainda bem.

Caio passou por Rafael e caminhou para o corredor lateral.

Rafael olhou para André por um segundo.

André fez um gesto pequeno com a cabeça.

Vai.

Rafael foi.

André ficou perto da grade, tentando não ouvir.

Não conseguiu.

As vozes vinham abafadas do corredor dos fundos, mas algumas frases escapavam entre o barulho da quadra e Marcelo discutindo consigo mesmo sobre marcação.

Caio:

— Agora você quer conversa.

Rafael:

— Quero.

Caio:

— Depois de quê?

Pausa.

Rafael:

— Depois de errar.

Caio riu.

— Você sempre fica poético quando já fez merda.

André fechou os olhos.

Não queria estar ali. Queria estar. O corpo inteiro dele parecia uma contradição.

Marcelo apareceu ao lado.

— Está tudo bem?

André olhou para ele.

— Você pergunta isso como irmão ou como técnico?

— Como pessoa confusa.

André quase riu.

— Não sei.

Marcelo olhou para o corredor.

— Tem coisa acontecendo entre vocês?

André demorou.

— Tem.

Marcelo respirou fundo, coçou a cabeça com a prancheta.

— Entre você e Rafael?

André olhou para o irmão.

— Sim.

Marcelo piscou algumas vezes.

Não pareceu chocado. Pareceu reorganizar informações atrasadas, como alguém lembrando de uma conta que não fechava porque usava os números errados.

— E o Caio?

André soltou um ar.

— Também tem coisa. Mas diferente.

— Meu Deus.

— Pois é.

Marcelo olhou para a quadra.

— Eu pedi um reserva, não uma minissérie.

Dessa vez André riu.

Marcelo também, mas logo ficou sério.

— Você está bem?

André pensou.

— Não muito.

— Mas quer estar nisso?

— Quero.

Marcelo assentiu devagar.

— Então tá. Só... não deixa esses caras te moerem, tá?

A frase veio simples, sem piada.

André sentiu carinho pelo irmão.

— Vou tentar.

— E se precisar, eu bato nos dois.

— Você não bate em ninguém.

— Eu tenho prancheta agora.

O corredor dos fundos ficou silencioso.

Caio voltou primeiro.

O rosto dele estava fechado. Não dramático. Pior: controlado. Passou por André sem parar.

Rafael veio logo depois.

Parecia abatido.

André foi até ele.

— Falou?

Rafael assentiu.

— Falei.

— E?

— Ele disse que eu confundi desejo com covardia e chamei de cuidado.

André ficou quieto.

— Ele está errado?

Rafael olhou para ele.

— Não totalmente.

Caio entrou na quadra antes de todos, chutando a bola contra a parede com força.

O treino começou.

Foi horrível.

Não tecnicamente. Tecnicamente talvez até tenha sido útil, embora Marcelo não fosse exatamente Guardiola. Mas emocionalmente parecia um campo minado.

Caio jogava calado. Isso era mais perturbador que qualquer provocação. Quando recebia a bola, resolvia rápido. Passava certo. Chutava forte. Não fazia piada. Não olhava para Rafael. Não olhava para André. Era como se tivesse decidido provar que podia existir no jogo sem transformar cada lance em teatro.

Rafael, por outro lado, parecia sofrer mais com o silêncio de Caio do que com qualquer provocação. Gritava instruções, mas menos. Defendia bem, mas com uma irritação contida, como se cada bola viesse com recado.

André tentou apenas jogar.

Falhou.

A cada movimento, sentia os dois. Rafael no gol, ainda trazendo a noite anterior no corpo de André. Caio na linha, trazendo a sexta, a calçada, o sofá, a frase: mas eu fico.

Em um exercício de ataque contra defesa, Caio recebeu a bola pela esquerda. André fechou a marcação. Pela primeira vez naquele dia, eles ficaram frente a frente.

— Vai me marcar? — Caio perguntou.

A voz veio sem deboche.

— Vou tentar.

— Cuidado. Você às vezes gosta da dividida.

— Você também.

Caio olhou para ele.

Por meio segundo, o antigo Caio apareceu.

— Gosto.

Ele tentou passar. André acompanhou. Houve contato de ombro, coxa, respiração. Nada demais. O suficiente para o corpo lembrar. Caio também sentiu. André viu nos olhos dele.

Rafael gritou do gol:

— Fecha o meio, André!

Caio sorriu sem olhar para Rafael.

— Ele manda, você obedece?

André roubou a bola.

— Hoje não.

Marcelo gritou:

— Boa!

Caio ficou parado por um instante, depois sorriu de verdade.

— Aí sim.

O treino terminou com pênaltis.

Marcelo adorava pênaltis porque achava que revelavam caráter. Caio dizia que revelavam apenas quem tinha joelho ruim e autoestima alta.

Rafael foi para o gol.

André bateu primeiro. Chutou mal. Rafael defendeu fácil.

— Previsível — Rafael disse.

— Você me conhece demais agora?

Rafael olhou para ele.

— Um pouco.

A resposta causou um silêncio pequeno demais para os outros perceberem.

Caio bateu depois.

A quadra inteira pareceu prender a respiração.

Caio colocou a bola na marca. Rafael ficou no centro do gol. Os dois se olharam. Não era mais só futebol. Nunca tinha sido.

— Vai no teu canto de sempre? — Caio perguntou.

Rafael respondeu:

— Chuta.

— Sempre mandando.

— Sempre falando.

Caio correu.

Chutou forte.

Rafael defendeu com a perna.

A bola voltou para Caio, que não comemorou nem reclamou. Apenas ficou olhando para o goleiro.

— Continua segurando bem — Caio disse.

Rafael tirou as luvas devagar.

— Não aqui.

Caio riu sem alegria.

— Relaxa. Hoje eu estou comportado.

Mas não estava.

Ninguém estava.

No vestiário, o silêncio pesou mais que o barulho habitual.

Os outros homens falavam, riam, tiravam camisa, reclamavam do treino, do calor, da mensalidade. Mas ao redor de André, Rafael e Caio havia uma bolha. Não de desejo apenas. De consequência.

André tirou a camiseta e guardou na mochila. Sentia o corpo cansado, mas não do jogo. A noite mal dormida, a conversa, a tensão na quadra, tudo pesava.

Rafael estava no armário ao lado, como sempre. Caio, do outro lado do banco, amarrando uma toalha na cintura.

Marcelo entrou com a prancheta debaixo do braço.

— Eu gostei do treino. Senti evolução.

Caio respondeu automático:

— Em quem?

Marcelo apontou:

— Em mim. Como liderança.

A risada geral aliviou o ambiente por cinco segundos.

Depois Caio falou, sem olhar para Rafael:

— Eu vou pedir para sair do campeonato.

O vestiário parou.

Rafael virou.

— O quê?

Caio pegou a camiseta limpa.

— Você ouviu.

Marcelo abriu os braços.

— Como assim sair? Você é nosso melhor atacante.

— Compra outro na Shopee junto com a braçadeira.

— Caio, sem drama.

Caio virou para Marcelo.

— Não é drama. É sanidade.

Rafael deu um passo.

— Você não precisa sair.

Caio riu.

— Olha que curioso. Agora você sabe do que eu preciso?

— O time precisa de você.

— O time ou você?

Rafael travou.

Caio sorriu triste.

— Foi o que eu pensei.

André se aproximou.

— Caio.

— Não faz essa voz.

— Que voz?

— De quem quer impedir alguém de ir embora porque se sente culpado.

André ficou quieto.

Caio olhou para ele, e a dureza diminuiu um pouco.

— Você não fez nada errado.

A frase era generosa demais para o momento. Por isso doeu.

Rafael falou:

— Eu fiz.

Caio virou.

— Fez.

Rafael respirou fundo.

O vestiário estava atento. Alguns fingiam arrumar mochila. Outros nem fingiam.

— Eu devia ter sido honesto com você — Rafael disse.

Caio ficou imóvel.

— Devia — respondeu.

— Eu gostava de você.

— Não faz discurso de enterro.

— Caio.

— Não.

A voz dele quebrou um pouco, mas ele segurou.

— Você gostava quando ninguém via. Gostava quando dava para chamar de brincadeira, de carona, de cerveja depois do jogo, de banho demorado, de mensagem de madrugada. Gostava desde que eu não pedisse nome. Quando eu pedi, você virou goleiro até fora da quadra.

Rafael baixou os olhos.

A frase atravessou André também. Porque, em menor escala, ele já tinha visto o mesmo mecanismo. O desejo de Rafael vinha inteiro, mas a coragem chegava atrasada.

Caio continuou:

— E agora eu vejo você tentando ser melhor com ele. Que ótimo. De verdade. Mas eu não tenho que ficar na arquibancada aplaudindo tua evolução.

Silêncio.

Marcelo, surpreendentemente, não fez piada.

Rafael falou baixo:

— Você tem razão.

Caio pareceu odiar ouvir aquilo.

— Eu sei.

André deu um passo.

— Sair do campeonato vai te fazer bem?

Caio olhou para ele.

— Não sei.

— Então não decide hoje.

— Você está pedindo por você ou pelo time?

André foi honesto:

— Pelos dois.

Caio sustentou o olhar.

— E por ele?

André olhou para Rafael.

Depois voltou para Caio.

— Por você também.

Caio fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, a decisão tinha mudado de forma. Não sumido. Apenas recuado.

— Eu jogo a semifinal — ele disse. — Depois eu vejo.

Marcelo soltou o ar como se tivesse segurado por dez minutos.

— Ótimo. Eu ia ter que botar o Rodrigo no ataque e ninguém merece isso.

Do fundo, Rodrigo gritou:

— Eu ouvi!

— Era para ouvir! — Marcelo respondeu.

A risada voltou, fraca, mas voltou.

Rafael sentou no banco, parecendo esgotado.

Caio foi para o chuveiro.

André ficou parado entre os dois, percebendo que a ressaca da noite não estava no corpo.

Estava no grupo inteiro.

Depois do banho, foram para o bar.

A mesa parecia menor do que de costume. Ou talvez as coisas não ditas ocupassem cadeiras. Marcelo falava sobre a semifinal para preencher o ar. Rodrigo discutia a cobrança de pênaltis. Seu Nivaldo passou duas vezes cobrando pagamento. A questão da mensalidade, que parecia piada, começava a virar problema real.

— Se não fechar até sábado, eu passo o horário para outro grupo — Nivaldo disse.

Marcelo quase engasgou com a cerveja.

— Você não faria isso.

— Faria.

— Mas a gente joga aqui há anos!

— E há anos vocês atrasam.

Caio murmurou:

— Relacionamento abusivo com CNPJ.

Nivaldo apontou para ele.

— Você é o pior.

— Sou querido.

— É inadimplente.

Marcelo abriu a planilha no celular, desesperado.

— Não está batendo porque alguém está pagando errado.

— Ou alguém está recebendo errado — André disse.

Todos olharam para ele.

— Como assim? — Marcelo perguntou.

André deu de ombros.

— Você disse que tinha Pix em chave diferente. Juninho pagou duas vezes. Rodrigo paga em dinheiro. Nivaldo anota no caderno. É bagunça demais para ser só erro.

Rafael olhou para Nivaldo.

Nivaldo desviou rápido demais.

Caio percebeu.

— Ih.

Marcelo estreitou os olhos.

— Nivaldo?

— Que foi?

— Tem alguma coisa que você queira me contar antes de eu virar contador forense?

— Você mal sabe dividir a cerveja.

— Mas sei ficar bravo.

Antes que a discussão avançasse, uma voz veio da entrada do bar.

— Ainda brigando por dinheiro pequeno?

Rafael ficou imóvel.

Caio perdeu o sorriso.

André virou.

Um homem estava parado na porta.

Alto, elegante demais para aquele lugar, camisa polo clara, calça escura, cabelo bem cortado, barba desenhada. Não parecia ter vindo jogar. Parecia ter vindo avaliar os destroços. Tinha um sorriso calmo, quase educado, mas os olhos eram atentos demais.

Marcelo foi o primeiro a falar:

— Leandro?

O homem abriu os braços.

— Capitão.

Caio murmurou:

— Puta que pariu.

Rafael não disse nada.

Mas o corpo dele mudou inteiro.

André viu.

A mão de Rafael fechou ao redor do copo. Os ombros ficaram duros. O olhar, que antes carregava culpa e cansaço, virou outra coisa. Raiva antiga. Defesa imediata.

Leandro entrou no bar como se ainda pertencesse ao lugar.

— Soube que vocês estão quase perdendo o horário.

Marcelo franziu a testa.

— Quem te disse?

Leandro olhou para Nivaldo.

— Bairro fala.

Caio riu seco.

— Bairro nada. Cobra reconhece assobio.

Leandro virou para ele.

— Caio. Continua delicado.

— E você continua voltando onde ninguém chamou.

— Senti saudade.

Rafael finalmente falou.

— Do quê?

Leandro olhou para ele.

O sorriso mudou.

— Do gol.

A palavra caiu na mesa como provocação direta.

André olhou para Rafael.

Rafael não piscou.

Leandro continuou:

— Ouvi dizer que vai ter semifinal. Vocês vão precisar de elenco.

Caio soltou uma risada curta.

— Não.

Marcelo olhou de um para o outro, perdido e interessado.

— Calma aí. Leandro jogava bem.

— Leandro jogava sujo — Caio disse.

Leandro sorriu.

— Quem perde costuma chamar inteligência de sujeira.

Rafael se levantou.

— Você não volta para esse time.

A mesa inteira parou.

Leandro ergueu as mãos.

— Ainda mandando em tudo, Rafa?

André sentiu o apelido como uma invasão.

Caio também pareceu sentir.

Rafael deu um passo.

— Vai embora.

Leandro olhou para André pela primeira vez.

Foi um olhar rápido, mas preciso. Avaliativo. Como se André fosse uma peça nova numa máquina velha.

— Esse é o substituto?

Caio respondeu antes:

— Não chama ele assim.

André virou para Caio, surpreso.

Rafael também.

Leandro percebeu tudo.

O sorriso dele cresceu um milímetro.

— Ah.

Só isso.

Mas aquele “ah” pareceu abrir gavetas.

Marcelo, no meio da tensão, tentou retomar algum controle:

— Gente, pelo amor de Deus, eu só queria jogar bola e não perder o horário.

Leandro tirou o celular do bolso.

— Posso resolver o horário.

Rafael endureceu.

— Não.

— Eu pago o que falta. Depois vocês me devolvem.

Caio bateu palmas uma vez.

— Generoso. Quase bíblico. Onde está a armadilha?

Leandro olhou para Nivaldo de novo.

Rápido.

Rápido demais.

André viu.

E guardou.

— Não tem armadilha — Leandro disse. — Só estou oferecendo ajuda.

Rafael respondeu:

— A gente não quer.

Marcelo olhou para Rafael.

— A gente?

Rafael não tirou os olhos de Leandro.

— A gente.

Caio se recostou na cadeira.

— Pela primeira vez hoje, concordo com o paredão.

Leandro sorriu.

— Vocês continuam emocionais.

André falou então, calmo:

— E você continua interessado demais em dinheiro que não é seu.

Leandro virou para ele.

O sorriso educado ficou mais frio.

— Você é observador.

— Estou aprendendo com goleiro.

Rafael olhou para André.

Caio também.

Leandro guardou o celular.

— Boa sorte na semifinal.

Virou-se para sair, mas antes parou ao lado de Rafael.

— Você ainda pula para o mesmo canto quando está nervoso?

Rafael deu um passo mínimo.

Caio levantou da cadeira.

André também.

Por um segundo, pareceu que a briga viria ali, entre mesa de plástico, garrafa suada e cheiro de pastel.

Leandro sorriu.

— Relaxa. Só saudade.

E saiu.

O bar ficou em silêncio.

Depois Marcelo falou:

— Eu perdi uns três episódios, né?

Caio bebeu um gole de cerveja.

— Temporadas inteiras, capitão.

André olhou para Rafael.

— Quem é ele?

Rafael ainda olhava para a porta.

— Problema.

Caio completou:

— E ex.

André sentiu a palavra chegar.

Ex.

De Rafael.

De Caio?

Do grupo?

Talvez de todos.

Rafael virou para Caio.

— Não começa.

Caio levantou as mãos.

— Eu? Hoje estou um monge.

André pegou o copo, bebeu um gole, mas a cerveja parecia quente.

A ressaca tinha ganhado outro nome.

Leandro.

Naquela noite, Rafael levou André para casa.

Dessa vez, André aceitou a carona.

No carro, nenhum dos dois falou por alguns minutos.

A cidade passava do lado de fora, molhada por uma garoa fina que finalmente resolveu cair. O para-brisa rangia a cada movimento do limpador.

— Você ia me contar dele? — André perguntou.

Rafael manteve os olhos na rua.

— Não hoje.

— Nunca é hoje com você.

A frase saiu mais cansada que agressiva.

Rafael sentiu.

— Ele foi goleiro antes de mim.

— E?

— E muita coisa.

— Rafael.

Ele respirou fundo.

— Eu tive uma coisa com ele. Antes do Caio. Antes de eu entender que ficar calado também machuca os outros.

André olhou para a janela.

— Você tem um histórico consistente.

— Eu sei.

— Isso deveria me assustar?

Rafael parou no semáforo.

— Sim.

A honestidade, de novo.

André virou para ele.

— E por que eu fico?

Rafael olhou para André.

— Porque talvez você também goste de perigo.

André soltou uma risada baixa.

— Péssima resposta.

— Mas verdadeira.

O sinal abriu.

Rafael continuou:

— Com Leandro era diferente. Ele sabia onde apertar. Eu achava que estava no controle, mas ele sempre chegava antes. Quando acabou, ele levou metade do grupo junto. Depois Caio entrou. Depois eu fiz com Caio o que Leandro fez comigo, só que mais covarde.

— E agora ele voltou.

— Agora ele voltou.

— Por quê?

Rafael apertou o volante.

— Porque me viu mudando.

André sentiu um arrepio que não era desejo.

— Mudando comigo?

Rafael assentiu.

— Talvez.

— E isso incomoda ele?

— Leandro não gosta de coisa que deixa de pertencer a ele.

A picape parou na frente do prédio de André.

A garoa deixava o vidro embaçado.

Nenhum dos dois desceu.

— Você pertence a ele? — André perguntou.

Rafael virou o rosto.

— Não.

— Ao Caio?

— Não.

— A mim?

Rafael ficou em silêncio.

André quase se arrependeu da pergunta.

Então Rafael respondeu:

— Eu estou tentando pertencer a mim primeiro.

André fechou os olhos por um segundo.

Era a melhor resposta.

E a mais difícil.

— Bom — André disse.

Rafael olhou para ele.

— Bom?

— Se você pertencer a você, talvez um dia consiga ficar com alguém sem transformar isso numa guerra de posse.

Rafael sorriu sem alegria.

— Você fala bonito quando está bravo.

— Estou exausto.

— Também.

André abriu a porta, mas Rafael segurou sua mão.

— Eu queria subir.

A frase veio baixa.

O corpo de André respondeu antes da cabeça, como sempre.

Mas ele não se moveu.

— Hoje não.

Rafael assentiu, aceitando.

Dessa vez, sem fugir. Sem usar o não como desculpa para desaparecer.

— Amanhã? — Rafael perguntou.

André olhou para ele.

— Talvez.

Rafael quase sorriu.

— Talvez é sim com medo?

André reconheceu a frase de Caio.

Sentiu o nome dele entre os dois, como sempre.

— Não rouba as falas dele — André disse.

— Desculpa.

— Você já roubou coisa demais do Caio.

Rafael absorveu.

— É.

André apertou a mão dele uma vez e soltou.

— Boa noite, Rafael.

— Boa noite, André.

André saiu do carro.

Na portaria, antes de entrar, olhou para trás. Rafael ainda estava parado. Não fugiu de imediato. Esperou André entrar no prédio.

No apartamento, André tirou a roupa molhada da garoa, tomou banho e deitou sem luz.

O celular vibrou.

Caio.

CAIO:

Leandro voltou porque sentiu cheiro de sangue.

André respondeu:

ANDRÉ:

E você? Ficou por quê?

A resposta demorou.

CAIO:

Porque ainda não aprendi a ir embora antes de me machucar.

André leu a frase três vezes.

Antes que pudesse responder, Rafael mandou mensagem.

RAFAEL:

Eu vou te contar tudo. Sem esconder.

André ficou com as duas conversas abertas.

Caio sangrando alto.

Rafael tentando não fugir.

Leandro voltando como ameaça.

A quadra, que começou como cheiro, suor e desejo, agora tinha virado campo de batalha.

André deitou o celular sobre o peito e fechou os olhos.

No dia seguinte, talvez tudo parecesse mais claro.

Mas ele já sabia que era mentira.

Algumas ressacas não passavam com água, café ou silêncio.

Algumas ressacas tinham nome, corpo, passado.

E voltavam para jogar.

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Comentários

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esse conto está tão maravilhoso como a novela vertical usurpadollra.

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