Giulia ficou deitada por alguns minutos, imóvel, olhando para o teto do quarto enquanto ouvia, ao longe, o som abafado da televisão na sala. Rafael ria de alguma coisa qualquer, como se nada tivesse acontecido. Como se ela não estivesse ali, quente, frustrada, humilhada por ter pedido o mínimo e recebido uma frase atravessada em troca.
“Mas o papel da mulher é satisfazer o marido.”
Aquelas palavras não saíam da sua cabeça.
Ela virou de lado, puxando o lençol sobre o corpo, mas aquilo não a confortou. Pelo contrário. Sentiu-se pequena dentro da própria cama, dentro do próprio casamento, dentro daquela casa nova que ainda não parecia dela. Havia algo cruel na forma como Rafael conseguia tocá-la com desejo e, minutos depois, tratá-la como se o prazer dela fosse um detalhe sem importância.
Giulia apertou os olhos, tentando afastar a raiva.
Não conseguiu.
– Filha da puta... – sussurrou outra vez, agora mais baixo, com um riso amargo preso na garganta. – Depois que ganha um chifre, eu que saio por ruim.
A frase saiu antes que ela pudesse medir o peso. E, assim que saiu, assustou-a.
Giulia se sentou na cama, passando as mãos pelos cabelos bagunçados. Não era uma mulher infiel. Nunca tinha sido. Pelo menos era isso que repetia para si mesma. Tinha se casado acreditando em amor, compromisso e respeito. Tinha deixado sua antiga cidade, sua rotina, suas amigas e parte da própria vida para acompanhar Rafael naquele recomeço.
E, ainda assim, ali estava ela.
Sozinha no quarto.
Com raiva.
Com desejo.
Com o nome de outra pessoa rondando seus pensamentos.
Bianca.
Giulia tentou se convencer de que aquilo era absurdo. Ela mal conhecia aquela mulher. Tinham trocado poucas palavras, nada além de gentilezas de igreja, comentários educados, sorrisos rápidos. Mas havia algo no olhar de Bianca que continuava grudado nela como perfume na pele. Um olhar que não pedia permissão. Que não parecia julgá-la. Que parecia, de algum modo estranho, enxergá-la melhor do que o próprio marido.
Ela olhou para o robe jogado no chão, depois para a porta entreaberta. Rafael continuava na sala. Nem voltou para perguntar se ela estava bem. Nem percebeu o silêncio pesado que havia deixado para trás.
Giulia levantou devagar e foi até o banheiro. Acendeu a luz e encarou o próprio reflexo no espelho. Os cabelos caíam desalinhados sobre os ombros, os lábios ainda estavam levemente inchados, a pele carregava marcas sutis do calor da noite. Ela passou os dedos pelo pescoço, desceu a mão até a cintura e parou ali, observando-se com um misto de vergonha e desafio.
Por que se sentia culpada?
Por desejar?
Por querer mais?
Por imaginar, ainda que por poucos segundos, como seria ser tocada por alguém que não tratasse o prazer dela como obrigação secundária?
A imagem de Bianca surgiu de novo: o sorriso de canto, os olhos demorados, a voz baixa dizendo seu nome como se saboreasse cada sílaba.
Giulia fechou os olhos.
– Para com isso – murmurou para si mesma.
Mas sua voz não teve firmeza.
Quando voltou para o quarto, pegou o celular sobre a cômoda. Não esperava nenhuma mensagem. Mesmo assim, havia uma notificação nova no grupo da igreja, criado naquela mesma tarde para recepcionar os recém-chegados.
“Sejam bem-vindos, Rafael e Giulia! Que Deus abençoe essa nova fase.”
Abaixo, várias pessoas haviam respondido com emojis, versículos e palavras carinhosas. Giulia rolou a tela sem muito interesse, até ver uma mensagem privada surgir no topo.
Bianca.
Seu coração deu um salto pequeno, ridículo, mas real.
Ela demorou alguns segundos antes de abrir.
“Oi, Giulia. Espero não estar incomodando. Só queria dizer que foi muito bom conhecer você hoje. A Karina e a Fernanda também gostaram muito de você. Qualquer coisa que precisar nessa cidade, pode contar comigo.”
Giulia leu uma vez.
Depois outra.
A mensagem era comum. Gentil. Inofensiva.
Mas, vindo de Bianca, parecia carregar algo por baixo das palavras.
Ela se sentou na beira da cama, segurando o celular com as duas mãos. Pensou em responder apenas no dia seguinte. Pensou em ser seca. Pensou em apagar a mensagem e fingir que não tinha visto.
Mas a frustração ainda queimava nela.
A frase de Rafael ainda latejava.
O sorriso de Bianca ainda brilhava em algum lugar perigoso da memória.
Giulia digitou:
“Obrigada, Bianca. Eu também gostei muito de conhecer vocês. Confesso que ainda estou me sentindo meio perdida por aqui.”
Antes de enviar, releu a mensagem. Parecia simples demais para ser errada. Não havia nada ali. Nada que pudesse ser chamado de traição. Nada que justificasse culpa.
Enviou.
A resposta veio rápido demais.
“Então deixa a gente cuidar de você um pouco. Toda mulher precisa de boas companhias quando chega num lugar novo.”
Giulia ficou olhando para a tela.
Toda mulher precisa de boas companhias.
Havia conforto naquela frase. Mas também havia uma promessa. Uma porta se abrindo sem barulho.
Ela respondeu apenas com um sorriso tímido:
“Vou gostar disso.”
Do outro lado da casa, Rafael aumentou o volume da televisão.
Giulia apagou a luz do quarto, deitou-se novamente e segurou o celular contra o peito por alguns segundos, como se escondesse algo. Não havia feito nada. Não havia cruzado nenhuma linha. Ainda era a mesma esposa. A mesma mulher. A mesma Giulia.
Mas, naquela noite, pela primeira vez, ela adormeceu sentindo que talvez existissem partes dela que Rafael nunca tinha se interessado em conhecer.
E que Bianca talvez tivesse percebido isso no primeiro olhar.
Na manhã seguinte, Giulia acordou antes de Rafael.
A luz entrava fraca pelas frestas da cortina, espalhando no quarto um tom pálido de domingo preguiçoso. Por alguns segundos, ela ficou imóvel, tentando entender por que sentia aquele peso estranho no peito. Então se lembrou da noite anterior. Da frustração. Da frase de Rafael. Do celular contra o peito. Da mensagem de Bianca.
Virou o rosto devagar.
Rafael dormia de costas, respirando fundo, alheio a tudo. Parecia tranquilo demais. Quase inocente. E isso a irritou um pouco mais.
Giulia pegou o celular em silêncio. Havia uma nova mensagem.
Bianca havia mandado cedo.
“Bom dia, linda. Karina vai fazer um café hoje à tarde só com algumas mulheres. Nada formal. A gente queria muito que você fosse.”
Giulia leu a mensagem sentindo um calor discreto subir pelo rosto.
Linda.
A palavra era simples. Muitas mulheres se chamavam assim. Era comum, talvez até automático. Mas naquela manhã, vinda de Bianca, parecia íntima demais. Como se tivesse sido dita perto do ouvido.
Ela olhou para Rafael outra vez. O marido continuava dormindo.
Digitou com cuidado:
“Bom dia. Acho que posso ir sim. Que horas?”
A resposta veio quase de imediato.
“Às quatro. Eu passo aí para te buscar, se você quiser.”
Giulia mordeu o lábio, pensativa. Havia algo diferente em aceitar carona. Algo mais próximo, mais pessoal. Podia dizer que iria com Rafael, ou que pegaria um aplicativo. Podia criar uma distância segura.
Mas escreveu:
“Pode ser.”
Bianca respondeu com um coração branco.
Giulia encarou aquele símbolo por tempo demais.
Depois bloqueou o celular e levantou da cama.
Durante o café, Rafael pareceu satisfeito ao saber do convite. Para ele, aquilo era um bom sinal. A esposa estava sendo recebida pelas mulheres certas da igreja, esposas de homens influentes, gente respeitada. Era conveniente. Era seguro.
– Vai ser bom pra você – ele disse, passando manteiga no pão. – Você precisa fazer amizade com mulheres de lá. A Karina é esposa do pastor Vinícius, né? Mulher de respeito.
Giulia ergueu os olhos.
– Mulher de respeito?
– Sim. Você sabe. Essas mulheres ajudam muito na igreja. São exemplo.
Ela quase riu. Não sabia por quê.
Talvez porque, na cabeça dela, a palavra exemplo tivesse começado a soar menos limpa desde que Bianca lhe mandara mensagem.
– É – respondeu apenas. – Parecem muito simpáticas.
Rafael assentiu, sem perceber o tom vago da esposa.
– Só toma cuidado para não ficar andando com qualquer uma. Cidade pequena é cheia de conversa. Mas com elas você pode ir tranquila.
Giulia abaixou a cabeça, escondendo um sorriso curto.
Podia ir tranquila.
À tarde, ela demorou mais do que o normal para se arrumar. Abriu o guarda-roupa ainda pouco organizado e passou os dedos pelas peças penduradas. Não queria parecer exagerada. Também não queria parecer desleixada. Escolheu um vestido leve, de tecido macio, num tom claro que valorizava sua pele. Era comportado o suficiente para um café entre mulheres da igreja, mas se ajustava ao corpo de um modo que a fazia lembrar do espelho na noite anterior.
Prendeu o cabelo, soltou de novo, depois deixou os fios caírem naturalmente sobre os ombros. Passou um perfume suave no pescoço e nos pulsos. Ao se olhar no espelho, tentou interpretar a própria imagem.
Estava bonita.
Bonita demais para alguém que dizia a si mesma que não estava esperando nada.
Quando a campainha tocou, sentiu um pequeno aperto no estômago.
Rafael foi atender antes dela.
– Oi, Bianca! – ouviu a voz dele da sala. – Entra.
Giulia respirou fundo e saiu do quarto.
Bianca estava na entrada, usando uma calça de cintura alta e uma blusa elegante que deixava os ombros à mostra na medida exata entre sofisticação e provocação. Tinha o cabelo solto, maquiagem leve e um perfume que chegou até Giulia antes mesmo do abraço.
– Nossa – Bianca disse, sorrindo ao vê-la. – Você está linda.
Giulia sentiu o elogio bater mais fundo do que deveria.
– Obrigada. Você também.
Bianca se aproximou e a abraçou. Não foi um abraço longo o bastante para ser estranho, mas foi firme o bastante para deixar o corpo de Giulia consciente do contato. A mão de Bianca repousou por um segundo nas suas costas, descendo um pouco antes de se afastar.
– Pronta? – perguntou.
– Estou.
Rafael apareceu atrás delas, satisfeito.
– Cuida dela, hein?
Bianca olhou para ele com um sorriso perfeito.
– Pode deixar. Hoje ela é nossa.
A frase foi dita em tom de brincadeira.
Rafael riu.
Giulia, não.
Ou melhor, sorriu também, mas por dentro sentiu a frase se abrir como uma porta.
No carro, Bianca dirigia com tranquilidade. A cidade passava pela janela em ruas arborizadas, casas baixas e comércios fechados por causa do domingo. Por alguns minutos, conversaram sobre coisas simples: a mudança, a igreja, o trabalho de Rafael, a dificuldade de se adaptar a um lugar novo. Bianca sabia ouvir. Não interrompia demais. Fazia perguntas certeiras. Olhava para Giulia com atenção quando paravam no sinal.
– Você parece meio triste – disse, de repente.
Giulia se surpreendeu.
– Triste?
– Talvez não triste. Só... guardada.
Giulia desviou os olhos para a janela.
– Acho que ainda estou me acostumando.
– Com a cidade?
A pergunta veio suave, mas havia algo por trás.
Giulia demorou um pouco.
– Com tudo.
Bianca não insistiu. Apenas assentiu, como se entendesse mais do que Giulia havia dito.
– Você não precisa fingir estar bem o tempo todo, sabia?
A frase atingiu um lugar sensível.
Giulia olhou para ela.
– Eu não estou fingindo.
Bianca sorriu, sem ironia.
– Está sim. Mas tudo bem. Eu também fingia muito quando tinha a sua idade.
Giulia quis perguntar o que ela fingia. Quis saber mais. Mas o carro entrou numa rua calma, ladeada por casas grandes, e parou diante de um portão preto, alto e moderno. A casa de Karina era imponente. Vidros amplos, jardim impecável, fachada escura. Parecia uma extensão da própria igreja: bonita, cara e um pouco intimidadora.
Karina as recebeu na porta com um vestido longo e um sorriso de anfitriã experiente.
– Giulia, que bom que você veio.
Ela beijou o rosto da jovem com delicadeza, segurando suas mãos por um instante.
– Fiquei feliz quando a Bianca disse que você aceitou.
– Obrigada pelo convite – Giulia respondeu.
– Imagina. Mulher nova na cidade precisa ser acolhida.
Ao entrar, Giulia viu Fernanda sentada na sala, com uma xícara de café nas mãos. Ela se levantou sorrindo.
– Olha ela. A novata mais bonita da igreja.
Giulia riu, envergonhada.
– Vocês vão me deixar sem graça.
– Essa é a intenção – Bianca respondeu atrás dela.
Karina lançou um olhar rápido para Bianca, mas havia diversão em seus olhos.
A sala era ampla, elegante, com luz baixa e móveis escuros. Sobre a mesa, havia café, frutas, bolos pequenos, taças de água com gás e uma garrafa de vinho ainda fechada, deslocada demais para uma reunião de mulheres da igreja. Giulia percebeu a garrafa, mas não comentou.
– Senta aqui com a gente – Fernanda disse, indicando o sofá ao lado dela.
Giulia obedeceu. Bianca sentou-se do outro lado, perto demais para ser casual. Karina ficou na poltrona em frente, como se presidisse uma pequena reunião.
No começo, a conversa foi leve. Falaram da igreja, dos cultos, das famílias da cidade, de como os fiéis eram calorosos, mas curiosos demais. Giulia ouviu mais do que falou. Sentia-se observada, mas não de um jeito hostil. Era pior. Sentia-se desejada pela atenção delas, envolvida por um interesse que a deixava ao mesmo tempo segura e inquieta.
– E o casamento? – Karina perguntou depois de algum tempo. – Como está sendo essa fase nova?
Giulia mexeu na xícara, sem saber quanto podia dizer.
– Bem. É uma adaptação, né?
Fernanda sorriu com suavidade.
– Casamento é sempre adaptação.
Bianca inclinou o rosto.
– Principalmente para a mulher.
Giulia olhou para ela.
– Por que diz isso?
Bianca deu de ombros, como se falasse de algo simples.
– Porque a gente aprende desde cedo a ceder. A esperar. A sorrir quando quer reclamar. A fazer o outro se sentir homem, mesmo quando a gente se sente invisível.
O silêncio que veio depois foi curto, mas pesado.
Giulia sentiu a garganta apertar.
Karina percebeu.
– Bianca às vezes fala demais – disse, embora não parecesse incomodada. – Mas não está errada.
Fernanda se aproximou um pouco, apoiando a mão sobre o joelho de Giulia com naturalidade.
– Aqui entre nós, você pode falar. Sem julgamento.
O toque foi leve. Quase fraterno.
Mas Giulia sentiu.
Sentiu porque estava sensível demais. Porque na noite anterior havia se sentido ignorada demais. Porque aquelas mulheres pareciam saber exatamente onde tocar, mesmo quando só usavam palavras.
– Eu não sei – disse, baixinho. – Às vezes sinto que... que meu papel no casamento já vem pronto. Como se eu tivesse que caber nele.
Karina a observou com atenção.
– E você cabe?
Giulia abriu a boca, mas não respondeu.
Bianca sorriu de canto.
– Algumas mulheres não foram feitas para caber em papéis pequenos.
Giulia olhou para ela, e por um instante o ar pareceu mais quente.
Karina então se levantou e pegou a garrafa de vinho sobre a mesa.
– Acho que essa conversa merece algo melhor que café.
Giulia ficou tensa.
– Vinho?
– Só uma taça – Karina respondeu, tranquila. – Não estamos no culto, querida.
Bianca riu baixo.
– E Deus não fica ofendido com uma mulher relaxando um pouco.
Fernanda apertou de leve o joelho de Giulia antes de retirar a mão.
– Você não precisa beber se não quiser.
Era exatamente esse o perigo: ninguém a obrigava a nada. Não havia pressão explícita, não havia ordem, não havia pecado declarado. Só convites pequenos, sucessivos, todos fáceis demais de aceitar.
Giulia olhou para a garrafa, depois para Bianca.
A lembrança de Rafael surgiu: “O papel da mulher é satisfazer o marido.”
Então ela pegou a taça.
– Só um pouco.
Karina sorriu.
Bianca também.
Fernanda apenas abaixou os olhos, como se já soubesse que aquela pequena escolha era maior do que parecia.
O vinho desceu quente pela garganta de Giulia. Ela não bebia com frequência, então o efeito pareceu rápido, espalhando-se pelo peito, relaxando seus ombros, soltando algo dentro dela. A conversa continuou, agora mais íntima. Falavam de casamento com uma liberdade que Giulia nunca tinha ouvido entre mulheres da igreja.
Falavam de solidão.
De desejo.
De homens que cobravam submissão, mas não sabiam oferecer cuidado.
De esposas que sorriam nos cultos e choravam no banheiro.
Cada frase parecia cuidadosamente escolhida para encontrar nela uma ferida.
E encontrava.
Quando percebeu, Giulia já havia contado mais do que pretendia. Não tudo. Não os detalhes da noite anterior. Mas o suficiente para que as três entendessem.
– Rafael é bom comigo – ela disse, como se precisasse defendê-lo. – Ele só é meio... fechado para certas coisas.
Bianca girou o vinho na taça.
– Fechado ou egoísta?
Giulia a encarou.
– Não sei.
– Você sabe – Bianca respondeu, suave. – Só ainda acha feio admitir.
Karina interrompeu antes que o peso fosse demais.
– Ninguém aqui quer colocar ideias na sua cabeça, Giulia.
Aquilo soou tão falso que, por um segundo, Giulia quase sorriu.
– A gente só quer que você entenda uma coisa – Karina continuou. – Mulher nenhuma deveria se sentir culpada por querer ser desejada direito.
Giulia sentiu o rosto esquentar.
Fernanda completou, com voz baixa:
– Nem por querer sentir prazer.
A palavra ficou suspensa entre elas.
Prazer.
Na boca de Fernanda, dita naquela sala elegante, no meio da tarde, parecia quase indecente.
Giulia abaixou os olhos para a própria taça.
Bianca se inclinou um pouco em sua direção.
– Desculpa. A gente está te assustando?
Giulia deveria dizer que sim.
Mas não disse.
– Não – respondeu, quase num sussurro. – Só não estou acostumada a conversar assim.
– A gente se acostuma – Bianca disse.
E havia, naquele sorriso, uma promessa.
Quando Giulia voltou para casa no fim da tarde, Rafael continuava no sofá. A televisão ligada, o celular na mão, a mesma tranquilidade de quem não imaginava nada.
– Foi bom? – perguntou, sem tirar muito os olhos da tela.
Giulia parou na entrada da sala.
Pensou em contar sobre o vinho. Sobre as conversas. Sobre o modo como Bianca a olhava. Sobre a mão de Fernanda em seu joelho. Sobre a pergunta de Karina: “E você cabe?”
Mas apenas respondeu:
– Foi.
Rafael assentiu.
– Que bom.
Giulia foi para o quarto e fechou a porta devagar.
Dessa vez, ao se olhar no espelho, não sentiu apenas vergonha.
Sentiu curiosidade.
E talvez esse fosse o primeiro verdadeiro perigo.