O dia seguinte amanheceu cinza, mas o sol abriu antes do meio-dia. A festa de aniversário de Beraldo estava marcada para as três da tarde no quintal dos fundos. Natália acordou com os olhos inchados. Passou gelo, passou base, passou o sorriso de sempre por cima de tudo.
Beraldo estava contente. Ganhara uma camisa nova de Daniel, um livro de capa dura da irmã mais velha, um presunto da vizinha da frente. Aos poucos, o quintal foi se enchendo.
Chegaram o irmão de Beraldo, Zé, com a esposa e os dois filhos pequenos. Chegou a irmã mais nova, Marta, que morava na cidade vizinha. Chegaram o diácono Osmar e a esposa, a irmã Lurdes do grupo de oração, o casal de vizinhos da direita, o segurança da igreja, a filha do segurança.
Crianças corriam entre as cadeiras de plástico. Uma mesa comprida estava coberta de salgados, doces, refrigerantes e um bolo branco com "Parabéns, Pastor" escrito em glacê azul.
Natália circulava entre os convidados. Servia. Sorria. Perguntava se alguém queria mais suco, mais café, mais salgadinho. Ninguém notou nada de diferente nela.
Sara chegou com Daniel. Vestia um vestido azul claro, abaixo do joelho, mangas curtas. O cabelo estava preso em uma trança solta. Ajudou a colocar os pratos de sobremesa. Conversou com a esposa do diácono. Riu de alguma coisa que a filha do segurança disse.
Natália não conseguia desviar os olhos.
Começou sem querer. Estava servindo bolo para a irmã Marta quando seu olhar escorreu para o lado esquerdo do quintal e encontrou Sara.
Sara estava de perfil, conversando com Daniel. Não olhou de volta.
Natália desviou. Serviu o bolo. Colocou o prato na mão da cunhada. Voltou para a cozinha.
Mas quando retornou ao quintal, já estava procurando Sara novamente.
Dessa vez, Sara olhou de volta.
Foi rápido. Um segundo, talvez menos. Os olhos se encontraram, e Sara desviou primeiro. Levantou o copo de refrigerante e bebeu, como se nada tivesse acontecido.
Natália sentiu o coração apertar.
A festa continuou. Beraldo abriu os presentes. As crianças brigaram por um pirulito. O vizinho da direita contou uma piada que ninguém entendeu. Marta ajudou a cortar o bolo.
E Natália olhava.
Quando Sara ria, Natália olhava. Quando Sara gesticulava ao falar com a cunhada de Beraldo, Natália olhava. Quando Sara se inclinava para pegar mais salgadinhos, os longos cabelos caindo sobre o ombro, Natália olhava.
E Sara começou a olhar de volta.
Não sempre. Mas cada vez mais. Um olhar rápido enquanto colocava doces no prato. Outro enquanto enxugava as mãos no guardanapo. Outro, mais longo, quando Natália atravessou o quintal perto dela.
Nesse último, os olhos das duas se prenderam. O barulho da festa pareceu diminuir. Natália sentiu o mesmo calor do sonho subir pelo pescoço.
Sara não desviou primeiro dessa vez. Foi Natália quem olhou para o chão.
Ela entrou na cozinha. Apoiou-se na pia. Ficou ali por um minuto, dois, três.
Quando voltou para o quintal, a festa ainda estava animada. O sol já começava a baixar. Alguém ligara um rádio baixo.
Natália sentou-se numa cadeira no canto do quintal, perto da edícula. De lá, podia ver todos.
Sara estava perto da mesa, de costas para ela, conversando com a irmã de Beraldo.
Então Sara se virou.
Seus olhos percorreram o quintal até encontrar os de Natália.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno. Discreto. Que ninguém mais notou.
Natália não sorriu de volta.
Mas também não desviou o olhar.
Ficaram assim por alguns segundos, até que Daniel chamou Sara para tirar uma foto com o grupo de jovens.
O resto da festa foi assim. Olhares que se cruzavam. Que duravam um pouco mais do que deviam. Que diziam coisas que nenhuma das duas ousaria falar.
Quando os últimos convidados foram embora, o céu já estava escuro. Beraldo agradeceu a Natália pelo capricho. Daniel ajudou a guardar as cadeiras. Sara lavou a louça na cozinha.
Natália ficou na sala, arrumando os presentes em cima da mesa.
Sara apareceu na porta da sala. As mãos molhadas, secando no avental.
— Dona Natália — chamou.
Natália se virou.
— Sim?
— A festa ficou linda. O senhor Beraldo ficou muito feliz.
— Foi bom — Natália respondeu, seca demais.
Sara hesitou. Parecia que ia dizer mais alguma coisa. Mas Daniel apareceu atrás dela, perguntando se ela estava pronta para ir para a edícula.
— Já vou — disse Sara, sem tirar os olhos de Natália.
Ela foi.
Natália ficou parada na sala, cercada de presentes e restos de festa.
O coração batia num ritmo que ela já conhecia.
Nos dias seguintes à festa, algo mudou na maneira como Sara se vestia.
Natália notou imediatamente.
Na segunda-feira, Sara apareceu na cozinha com uma blusa que ela nunca tinha usado antes. O decote era mais aberto do que os decotes que ela usava. Não era obsceno — nada que saltasse aos olhos de qualquer pessoa. Mas Natália notou. Viu a pele clara do colo, o início da curva dos seios.
Desviou o olhar.
Na terça-feira, Sara usou uma saia mais curta. Ainda abaixo do joelho — o padrão da igreja. Mas mais curta do que as saias que ela vestia antes. Quando se abaixou para pegar uma panela no armário baixo, a saia subiu um pouco, mostrando a parte de trás do joelho e um palmo de coxa.
Natália estava atrás dela. Viu. Prendeu a respiração.
Levantou os olhos para o teto.
Na quarta-feira, o cabelo. Sara passou a usar solto com mais frequência. Caía sobre os ombros, sobre o decote da blusa. Às vezes ela jogava a cabeça para trás, afastando os fios do rosto, expondo o pescoço inteiro.
Natália estava passando café quando Sara fez isso. A garrafa térmica quase escapou da sua mão.
Na quinta-feira, aconteceu na hora do almoço.
Sara cortava tomates na tábua, inclinada sobre a pia. Usava uma blusa de alças finas — coisa que ela jamais vestira desde que chegara. As alças finas mostravam os ombros nus. O decote deixava à mostra o início dos seios, pressionados um contra o outro pelo movimento dos braços.
Natália entrou na cozinha. Parou na porta.
— Dona Natália? — Sara se virou. A faca ainda na mão. Um sorriso pequeno no canto da boca. — Precisa de alguma coisa?
Natália demorou um segundo para responder.
— O sal — disse. — Acabou o sal.
Sara abriu o armário. Alongou o braço para alcançar o pote de sal. A blusa subiu um pouco, mostrando um pedaço da cintura.
Ela entregou o pote. Seus dedos tocaram os de Natália.
— Pronto — disse.
Natália pegou o sal. Saiu da cozinha sem dizer obrigada.
No corredor, encostou-se na parede. Fechou os olhos.
Ela está provocando, pensou. Está fazendo de propósito.
Mas não tinha certeza. Talvez estivesse imaginando coisas. Talvez o sonho e o que vira na edícula tivessem deixado sua mente doente, enxergando malícia onde não havia.
Na sexta-feira, a dúvida acabou.
Natália estava varrendo a sala. Sara entrou com um cesto de roupas limpas para guardar no armário do corredor. Quando passou por Natália, seus quadris roçaram os de Natália.
Não foi um encosto acidental. Natália sentiu a pressão. A demora.
Sara continuou andando como se nada tivesse acontecido.
— Desculpa — disse, sem olhar para trás. — O corredor é estreito.
O corredor não era estreito.
Natália parou de varrer. Ficou imóvel, a vassoura parada no chão.
O jogo tinha começado. E Natália sabia, no fundo do peito, que já era perigoso demais.
Ela tentou evitar. No sábado, passou a manhã inteira fora de casa. Foi ao mercado, à padaria, à casa de uma irmã da igreja que estava doente. Voltou só na hora do almoço.
Sara já estava na cozinha. Usava um vestido simples, sem decote. Natália sentiu um misto de alívio e decepção. A decepção assustou mais do que o alívio.
No domingo, no culto, Sara sentou-se no banco à frente de Natália. Durante o louvor, levantou os braços para cantar. O movimento fez a blusa subir um pouco na parte de trás, mostrando um pedaço da pele da lombar.
Natália viu. Não conseguiu não ver.
Fechou os olhos. Tentou cantar. A voz saiu embargada.
Ao lado dela, Beraldo cantava firme, de olhos fechados, as mãos erguidas.
Natália pensou: Ele não vê nada. Ninguém vê nada. Só eu.
E essa consciência a aterrorizava.
No fim do culto, Sara esperou Natália na porta da igreja.
— A senhora está com dor de cabeça? — perguntou, com uma voz doce, preocupada. — Vi que a senhora estava com os olhos fechados durante o louvor.
Natália olhou para Sara. Os olhos escuros. A boca levemente pintada de rosa. A blusa de botões — dois botões abertos a mais do que seria necessário.
— Estou bem — respondeu. — Cansaço.
— A senhora precisa descansar mais — Sara disse. E tocou o braço de Natália. Demorou mais do que o necessário para soltar.
Natália sentiu a pele queimar onde os dedos de Sara haviam tocado.
No carro, a caminho de casa, Beraldo dirigia. Daniel ia no banco de trás, mexendo no celular.
Natália olhou pelo vidro. As ruas passavam. As árvores. As pessoas.
Ela pensou: Isso vai terminar mal.
Mas ela não sabia como parar
Naquela noite, depois que todos dormiram, Natália sentou-se na varanda dos fundos. A casa estava silenciosa. Beraldo roncava no quarto. Daniel também. Lá na edícula, a luz estava apagada.
Ela olhou para o céu estrelado. O vento estava frio. Ela nem sentiu.
As perguntas que ela vinha empurrando para debaixo do tapete agora estavam todas na sua frente, alinhadas como pratos na mesa de jantar.
Por que Sara mexe tanto comigo?
Ela tentou responder com honestidade. Não com os versículos. Não com o que a igreja diria. Não com o que Beraldo pensaria. Com a verdade que doía.
Começou por ela mesma.
Ela tinha 44 anos. Casada há 21. Mãe há 22 — Daniel nascera no primeiro ano de casamento. Antes disso, tivera namorados? Tivera. Dois. Ambos rapazes da igreja. Ambos com beijos castos e mãos que não desciam abaixo da cintura.
Ela nunca tinha estado com uma mulher. Nunca tinha pensado nisso. Nunca.
Até Sara.
E então veio outra pergunta, mais funda: O que Sara tem que Beraldo não tem?
Beraldo era um bom homem. Nunca levantou a mão para ela. Nunca faltou com respeito. Provia o sustento. Liderava a casa. Amava a Deus.
Mas quando foi a última vez que ele a olhou como Sara olhava? Quando foi a última vez que ele a tocou com aquela demora? Quando foi a última vez que ele a fez sentir o que ela sentia nos últimos dias — esse aperto no peito, esse calor descendo pela barriga, essa umidade que aparecia do nada?
Ela não lembrava.
Havia anos, o sexo com Beraldo era irregular, as vezes depois do culto de oração, quando acordava no domingo... Roupa tirada depressa. Havia mais que uma posição, era até satisfatótio. Durava alguns minutos. Um gemido rouco. Algumas respirações mais fortes. Ele virava de lado e dormia. Pouco conversavam depois disso. Isso tudo em 20 anos de casório. Não havia novidade.
Não era ruim. Não era bom. Era só o que tinha.
Natália nunca reclamou. Achava que era assim mesmo. Que com o tempo o fogo diminuía, apagava, virava brasa — e estava tudo bem. Deus fez o casamento para procriação, não para prazer. Ou era o que ela repetia para si mesma quando sentia falta de algo que não sabia nomear.
Mas Sara...
Sara era jovem. Sara tinha a pele lisa, os cabelos macios, o cheiro de sabonete de ervas. Sara ria alto quando alguma coisa a divertia. Sara inclinava a cabeça quando ouvia, como se realmente estivesse interessada no que o outro dizia.
Sara a chamava de "dona Natália" com uma doçura que parecia gozação, mas não era. Ou era? Natália já não sabia mais.
E tinha o que ela viu pela fresta da porta. Sara se tocando. Gemendo o nome dela.
Natália.
Não "dona Natália". Natália.
Isso a assombrava mais do que tudo. Porque significava que Sara também sentia. Que o jogo não era apenas da cabeça de Natália. Que a provocação era real.
— Por que eu? — sussurrou para o vento. — Por que não uma moça da idade dela? Por que eu, que sou casada, que sou mais velha, que sou a sogra dela?
O vento não respondeu.
Ela pensou em Sara com a advogada. Verônica. Como tinha sido? Sara disse que no começo foi bonito. Que Verônica a fazia se sentir especial. Que o problema veio depois, com o controle, com os ciúmes, com a posse.
Natália não queria isso. Não queria controlar ninguém. Não queria ser controlada. O que ela queria, ela nem ousava pensar.
Queria tocar.
Queria ser tocada.
Queria saber como era a boca de Sara. Como era a pele de Sara debaixo da blusa. Como era o som que Sara faria se fosse Natália a tocá-la, e não a própria mão.
O pensamento veio tão forte que Natália teve que segurar no braço da cadeira.
— Senhor — gemeu baixo. — Tira isso de mim. Pelo amor de Deus, tira.
Mas mesmo enquanto pedia para Deus tirar, ela sabia que não queria que tirasse. E essa dualidade a rasgava por dentro.
Ela começou a pensar na própria vida. Como chegara até ali? Aos 44 anos, uma mulher que nunca tinha transgredido uma regra sequer. Virgem no casamento. Fiel no casamento. Submissa no casamento.
E agora?
Agora estava sentada na varanda, de madrugada, desejando a nora.
Nora.
A palavra caiu como um tijolo. Sara namorava Daniel. Seu filho. A Sara poderia um dia ser oficialmente sua nora. Carregar o sobrenome da família. Sentar à mesa nos natais. Dar netos.
E Natália desejava a mulher que seu filho amava.
— Isso é doentio — disse em voz alta. A própria voz soou estranha, de outra pessoa.
Mas o desejo não ligava para o que era doentio ou não. O desejo existia. Simples assim. Estava ali, alojado no peito dela, na carne dela, nos sonhos dela.
Ela tentou se convencer de que não passava de curiosidade. Que era apenas a novidade. Que Sara era bonita, qualquer um notaria, não significava nada.
Mas sabia que não era verdade.
Não era curiosidade. Não era novidade. Era Sara. Especificamente Sara. Com seu jeito de falar manso e seus olhos que viam demais. Com suas mãos que demoravam onde tocavam. Com sua boca que dizia o nome de Natália como se fosse uma oração.
Natália se levantou da cadeira. As pernas estavam dormentes. Foi para o quarto.
Deitou ao lado de Beraldo. Ele resmungou no sono e virou de lado.
Ela ficou olhando para o teto.
— Eu não sei mais quem eu sou — confessou no escuro.
O teto continuou branco. Beraldo continuou roncando. Lá fora, o vento continuou frio.
Dentro de Natália, o fogo continuou aceso.