Junho deEu tinha tudo muito bem planejado: juntei uma grana, consegui o visto, só faltava fechar a passagem e o hotel com destino aos States. Ia ser Copa do Mundo full time, maluco! O american dream que todo guri, fã de futebol que nem eu, tem desde pequeno. Só que tinha um pesadelo de adulto no meio do caminho:
— Gustavo, a gente tá fazendo cinco anos de namoro e um de noivado. Então, vai tirando o cavalinho da chuva porque já fechei nosso pacote pra dez dias em Buenos Aires. É pra lá que a gente vai — Adriele, minha noiva, me disse no instante em que cogitei viajar aos Estados Unidos.
E, bom, antes de continuar, alguns pontos que você precisa saber:
1- Eu sou o Gustavo, tenho vinte e seis anos, sou gaúcho e dentista. Acho que posso dizer que sou gostoso: tenho um e setenta e cinco e setenta quilos, bem distribuídos e com tudo durinho, graças ao crossfit. Sou branco e tenho cabelos loiros e meio encaracolados. Ah, e, bom, se a história é de putaria, vale o dado: tenho um pau de dezoito centímetros. Nada descomunal. Pau de marido, para mais.
2- Namoro a Adriele, que tem vinte e quatro e, como eu, é dentista. Também é gostosa, a minha mina. Um e sessenta e poucos, loira, peitão durinho, siliconado, e um rabo bem cuidado. O tipinho mignon que rebola numa pica que nem uma profissional. Tudo de bom!
3- Como ela deixou bem claro, estamos juntos há cinco anos. Temos um namoro relativamente estável. Há um ano, porém, ela e meus pais forçaram a barra e me enfiaram um noivado goela abaixo.
4- Veja bem, digo goela abaixo não porque eu não goste dela. Até gosto, as coisas são boas entre a gente, do sexo ao companheirismo, só que namoramos desde os meus dezenove anos. Então, vira e mexe, sinto que não aproveitei nem aproveito bem a vida, se é que você me entende. Ela, porém, não pensa como eu e isso tem me adoecido um pouco ultimamente.
5- Inclusive, se ela topasse, a gente poderia falar sobre isso e até ter um relacionamento aberto, numa boa. Casaríamos no futuro, bem mais vividos. Depois de aproveitar bem – algo que eu tento fazer agora, meio na encolha. Em tempo: preciso confessar que, às vezes, dou umas puladas de cerca. Principalmente porque minha namorada não oferece tudo que eu curto.
6- Sim, sou e sempre fui mente aberta, apesar de discreto. Então, logo que entrei na faculdade, descobri minha bissexualidade e, mesmo que no off, encarei numa boa desde o início. Foi aquele negócio: calouros, todo mundo louco, festas, álcool, drogas, todo mundo louco, homem pegando mulher, mulher pegando mulher e homem pegando homem e, às vezes, até todo mundo pegando todo mundo ao mesmo tempo. Não é mito que rola putaria a rodo na área da saúde. Na faculdade de saúde, então? Sou a prova viva.
7- Foi nessa onda que, logo nos primeiros meses, eu comi um colega de faculdade numa social do curso. O maluco ficava em cima de mim. Tinha uma bundinha redondinha, daquelas boas de meter e deixou bem claro que estava a fim de pica. Levou. Porém, a vida é assim, um dia da caça e outro do caçador. Sabe, a história do “quem topa tudo não passa fome”? Pois é, não demorou para ser eu a levar ferro de um dos meus veteranos do curso. Fim do churrasco da atlética, eu e esse outro cara levamos uma mina para o meu apê. Na hora de dar, ela desistiu e meteu o pé. Foi quando o filho da puta soltou um “pra não ficar na mão, eu comeria até o teu rabo”. Ele jogou a isca, eu não deixei passar e terminei a noite com uma vara grossa no cu. Até achei que não ia gostar, mas me enganei. Também não parei mais.
8- Foda-se, sexo é bom pra caralho e quem não experimenta tudo é doido! Pau foi feito para meter e os buracos foram feitos para serem preenchidos, seja com quem for e por quem for. O problema é que nem todo mundo entende isso. Ou seja, meu lado bissexual é também meu lado oculto, porque, se meu pai sonha, ele se mata e me mata. É aquela velha história da família de classe média alta que caga falsa moral por todos os lados e só apronta na encolha. Hipocrisia pura, eu sei. Nem tudo é perfeito.
Dito tudo isso, foi um banho de água fria quando a Adriele me lembrou do aniversário do nosso relacionamento e disse que iríamos para a Argentina, comemorar em Buenos Aires, onde eu tinha pedido ela em namoro anos atrás. Cheguei a cogitar dizer que não queria, bater pé e ir curtir o futebol com os parças, mas para isso seria necessário comprar briga com ela e uma guerra com meus pais, que estavam em cima e queriam transformar o noivado em casamento o quanto antes. Não era uma estratégia inteligente. Certamente eu sairia perdendo.
Então, não tive muita escolha: vim de arrasto parar aqui na capital argentina, em plena época de Copa do Mundo, tendo que fingir simpatia e fazendo malabarismo para poder ver um jogo ou outro. É que a queridona não me alivia nem quando a seleção brasileira vai jogar. O negócio dela é outro. Passeio, jantar, lojas, stories para o Instagram. Adriele não poderia estar mais se fodendo para futebol. Esse, aliás, é um bom argumento de defesa da bissexualidade masculina: homem tem mais chance de curtir futebol.
Consequentemente, mais chance de entregar o combo perfeito: foda, jogo, foda, jogo e mais um pouco de foda, sem neurose,
chateação e DR.
Para me ajudar, ainda tem o fato de que ser torcedor brasileiro em período de Copa do Mundo na Argentina é viver o inferno na terra. Você deve imaginar. Se nós somos meio fanáticos e competitivos, e eu sou assim pra caralho, os hermanos são completamente malucos e muito mais bairristas. Sobretudo com os gaúchos como eu. Não à toa, em dois dias pelas ruas de Buenos Aires, ouvi algumas brincadeirinhas, recebi uns olhares tortos e até um ou outro xingamento, porque, sim, os caras são bem preconceituosos. E, como eu sou branco, a forma de eles me atacarem é pela sexualidade. Não me incomoda muito, mas também não é super agradável de se viver assim.
Agora, o que me mexeu comigo desde o primeiro dia e virou minha cabeça mesmo foi o Juan Pablo, um gurizão, que devia ser uns anos mais novo do que eu, filho do dono do Airbnb que a Adriele locou. Sabe aquele estilo clássico dos argentinos? Era ele! Pele branca, cabelinho escuro, cortadinho que nem boyzinho, uma barba e carinha de Hermano bobão (não aquela cara de bobo inocente genérica, mas a clássica carinha de lesado e safado dos amigos do país vizinho, tão ligados?). Enfim, pesando prós e contras, um puta de um gostoso.
O cara exalava os feromônios da putifaria. E nem era um modelo, daqueles padrãozudos. Devia ter minha altura, mais ou menos, esguio mas encorpado, braço bem fortinho e pernas torneadas. Se eu vi tudo isso e estou conseguindo fazer essa descrição, não posso nem mentir: manjei o filho da mãe desde o momento em que botamos o pé naquele lugar. Inclusive, o aperto de mão dele fez apertar meu cu, naquela onda gostosa que percorre o corpo inteiro e faz a gente piscar. Quem gosta de dar entende a coceirinha no rabo da qual estou falando.
Juan Pablo, no entanto, tinha dois problemas: o primeiro é que o moleque já vinha, na largada, com uma faixa de encrenqueiro na testa. Senti isso também ao bater o olho nele, com uma camiseta do River Plate meio surrada e apertada no corpo, sobretudo nos braços (uma delícia!), e uma expressão de mal. Foi educado? Foi, porém nada amigável, principalmente comigo. O que nos leva ao problema de número dois. Se eu sequei ele na moralzinha, o guri foi muito menos discreto. Manjou minha namorada na cara de pau. Como se fosse o alfa do território e eu fosse um betinha de merda, que ele despreza e humilha sem nem pensar.
Aqui, um parêntese: tudo bem que na cama, sendo passivo com outro cara, até gosto dessa fantasia. Quando a gente coloca o cara nessa posição de dominador durante o sexo, tudo fica mais intenso e gostoso. Sei disso porque eu também gosto de estar nesse papel.
Mas entre quatro paredes, porque na vida real, em on, não é assim. Não é bagunça, para ele achar que vai me fazer de corno assim na cara dura.
Voltando. Mesmo com o gurizão me tirando para cria dele, ainda assim, fiquei na minha. Adriele não deu muita bola, fingiu que não era com ela e ficou por isso mesmo. Por que eu iria me estressar, então? Não iria mesmo. Agora, se eu tirei da cabeça esse episódio com bastante facilidade, não consegui fazer o mesmo com a imagem do argentino nas minhas fantasias. Simplesmente porque o desgraçado foi presença constante na viagem inteira. Explico.
Esse Airbnb que alugamos era uma espécie de flat em um prédio de vários andares. Todos os apês tinham um mesmo dono, um velhote que nunca vimos a fuça. No caso, o pai do Juan Pablo. Pelo que entendi, eles moravam no último andar, na cobertura, e eram uma família boa vida. Ainda, como se não bastasse, tinha também um bar no térreo, na parte comercial. Um lugar até bem legal e convidativo, que era basicamente administrado pelo argentino gostosão.
Então, na primeira metade da viagem, a gente cruzou com o guri todos os dias, várias e várias vezes. Continuei manjando ele? Sim, afinal, por mais otário que ele fosse, era um gostoso. E quem perdoa é Deus, não eu. Além disso, ele estava sempre no mesmo mood: cara feia para mim, olho espichado para a minha mulher. Que mal havia em eu curtir? Tinha certeza de que não iria rolar nada entre a gente mesmo. Ao menos, até o jogo do Brasil na última quarta-feira. Última partida da fase de grupos, contra a Escócia (aliás, terra de homem tesudo, de jogadores de rugby).
O fato, porém, era que a quarta-feira vinha a ser o dia exato do aniversário do meu namoro-noivado. Já viu o tamanho da confusão com a minha mina, né? Eu, óbvio, queria olhar o jogo no início da noite e ela começou a fazer ceninha porque queria sair para jantar. Tinha tudo para dar ruim e deu. Brigamos cedo, logo depois do almoço. Ela me disse uns desaforos, eu não dei muita bola, deixei ela falar sozinha. No final das contas, a Adriele pegou a bolsa e me deixou em paz no apartamento. “Vou fazer compras e descansar da tua cara, Gustavo”. Tenho certeza de que foi uma tentativa de me fazer abrir mão e seguir ela como um cachorrinho. Não rolou. Eu já tinha ficado meio de cabeça quente, por isso não fiz questão nenhuma de ir junto ou dizer para ela não ir. Quer meter o pé, fazer compras? Ofereço até o meu cartão de crédito para ela usar nas lojas, se quiser.
Foi o primeiro dia, de toda a viagem, que eu tive uma tarde de rei. Dormi, vi os jogos do dia antes do nosso, mas, quando a gurizada do Brasil estava entrando em campo, ela voltou. Claro. Zero compras nas mãos, tentou dar uma de simpática, ensaiou uma trégua, mas bastou eu confirmar que ainda preferiria ver o jogo para vir mais um pequeno surto. Entretanto, dessa vez, ela não saiu do flat. Deu todo um show, chorou e mandou eu sair, porque queria ficar sozinha. Dava até para dizer que eu tinha magoado ela ou que era drama, mas que nada! Conheço a peça, era vingança mesmo. A filha de uma puta sabia que seria uma bosta ver o jogo do Brasil em qualquer lugar público com um bando de argentino na minha volta. Então, me expulsou de propósito. Não nasci ontem.
Não tinha muita escapatória. Estava no país deles, ia ter que me virar por ali mesmo para ver a seleção jogar. Motivo pelo qual também não adiantava perder tempo escolhendo um lugar. O mais fácil era descer e ficar no bar que tinha por ali mesmo. O do Juan Pablo, no caso. “Foda-se, não tenho medo da cara feia desse fedelho nem desse monte de argentino cuzão”. “Pelo menos, vou poder curtir o jogo e o quanto esse puto é gostoso”, foi meu segundo pensamento, quando notei que ele estava simplesmente vestindo uma camisa da seleção argentina, que parecia ter sido costurada no corpo dele, e um jeans surrado, meio largo. Uma coisa bem “não me ligo no que estou vestindo, mas, mesmo assim sei que sou um tesudo”.
Só que a minha namorada já tinha de me deixado de ovo virado, então, eu estava pela doideira! Resolvi que iria aloprar mesmo. Com vontade. Cada vez que o Brasil ia metendo os escoceses, eu, o único brasileiro no recinto, bebia mais e comemorava como se estivesse em casa. Para esfregar na cara deles de verdade. Logicamente que isso não me rendeu grandes amizades. Pelo contrário, a argentinada foi ficando cada vez mais puta da vida. Um monte de marmanjo me olhando de cara feia. Principalmente quem? O dono do bar, é claro.
Era para ele que os outros caras reclamavam sobre o meu comportamento. Então, imagina só o quanto ele devia estar me amando naquele momento. O garotão me fuzilava a cada olhar, em que eu via crescer o ódio por mim. Não que antes ele me amasse, como já contei, mas a diferença é que, naqueles noventa minutos, ele estava querendo me esganar com algum motivo.
Até que, no final do jogo, três a zero para o Brasa, com o bar já vazio, só nós dois, e ele começando a recolher tudo, fui dar meu tiro de misericórdia no gurizão:
— Espero que tu e teus hermanos tenham anotado pra aprender como se joga — provoquei, enquanto ele recolhia uma garrafa da minha mesa.
Só que o tiro saiu pela culatra. Juan Pablo não se abalou nenhum pouquinho sequer. Levantou uma sobrancelha, me deu um sorriso de deboche, voltou a fechar a cara e mandou com a maior naturalidade do mundo:
— Aprender a jogar com aquele timinho de maricones?
— Como é que é? — a reação pulou da minha boca, enquanto ficava em pé.
Só que eu me levantar não intimidou o desgraçado. Muito pelo contrário, pareceu ter incentivado ele a meter mais banca. O argentino chegou mais perto, como um predador. E foi esse o primeiro ato da minha queda. É que o desgraçado estava usando um puta de um perfume gostoso. Perfume de homem, daqueles bem comum, de cafajeste. De macho.
— Time de maricones, que nem tu es um grande maricón, gaúcho de mierda...
E me silenciou com autoridade quando fui tomar fôlego para interromper:
— Shiiiii, tua seleção não joga nada. Não entende de bola que nem tu não entende de mulher.
Ah, babaca! Eu estava brincando e ele queria me provocar valendo, para me colocar numa merda de uma briga? Parece que queria. E ia conseguir, porque, azar, já tinha torrado minha paciência. Não pensei duas vezes antes de ir para cima dele. Só que, cá entre nós, eu já tinha bebido e, apesar de treinar muito, nunca aprendi a brigar. Filhinho de mamãe. Gurizinho criado em apartamento, fazer o quê? Já o hermanito sabia bem como fazer. Devia ter alguns anos de experiência de brigas em torcidas organizadas.
Em um piscar e dois safanões, me imobilizou de costas e enfiou minha cara na parede gelada do bar.
— Tá achando que eu não percebi desde que tu chegou aqui? Que tu es um putito sem vergonha?
— Tá maluco, seu argenti-
— Cállate, cornudo — ele me deu outro encontrão, me deixando mais prensado e me fazendo começar a sentir de novo o cheiro gostoso dele e todos os músculos. Todos mesmo! — Já tratei tu novia e, agora, vou cuidar de ti.
— QUÊ? — berrei.
— É isso mismo — grudou a boca no meu ouvido e meteu a mãozona na minha cintura. — Onde tu acha que ela passou a tarde? Mas no te preocupes, hay verga pra ela e pra ti. Não foi por isso que tu veio, maricón? — deu uma estancada na minha bunda e, confesso, quando eu senti a pica do argentino, a coisa degringolou de vez.
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