Passei os próximos dias evitando Leandro, ou fingindo que evitava. O galpão era grande demais para permitir encontros inevitáveis e pequeno demais para impedir coincidências. Bastava atravessar o corredor que ligava o escritório ao depósito para ouvir sua risada misturada ao barulho das empilhadeiras. Bastava abrir uma janela para reconhecer sua voz dando instruções a algum motorista no pátio.
Descobri, naqueles dias, que a distância também pode ter som. Taís voltou ao galpão, naquela semana. Na próxima vez, entrou no escritório apenas para devolver um documento à Sandra. Passou por minha mesa, sorriu daquele jeito tranquilo de quem já conhecia tempestades suficientes para não temer mais uma, e disse apenas:
— Cuida dele... se ele deixar.
Depois foi embora. A frase ficou ecoando em mim muito depois que o barulho da motocicleta desapareceu rua afora. Não era um pedido, parecia um aviso.
Leandro sumiu, pelo menos de mim. Na hora do café, não aparecia. Quando aparecia, se sentava do outro lado da copa. Quando precisei levar uma documentação ao depósito, um dos rapazes avisou:
— O Leandro saiu pra fazer entrega.
Achei estranho, ele quase nunca fazia entregas. No fim da tarde, enquanto organizava algumas notas fiscais, ouvi Sandra comentando ao telefone:
— Não... deixa ele esfriar a cabeça hoje.
Esfriar, a palavra me atravessou. Havia fogo demais para alguém pensar em esfriar qualquer coisa.
Na quinta, já passava das cinco quando ouvi uma batida discreta na porta do escritório. Nem levantei os olhos.
— Pode entrar.
Silêncio, continuei assinando um documento.
— Eu disse que pode...
A frase morreu antes do fim. Era Leandro. A camiseta ainda carregava manchas escuras de graxa perto da cintura, o cabelo curto e preto estava bagunçado pelo capacete. Parecia mais cansado do que seus dezenove anos permitiam, e, pela primeira vez desde que o conheci, havia algo estranho em seu jeito de ocupar espaço. Ele permanecia perto da porta, como se não tivesse certeza de que podia entrar.
— Você tá ocupado?
Sorri sem humor.
— Depende.
— Do quê?
— Se você veio conversar ou fugir.
Ele baixou os olhos, aquilo respondeu antes dele. Entrou devagar, fechou a porta atrás de si e ficou alguns segundos olhando o ventilador girar no teto. As pás cortavam o ar num ritmo constante, pareciam medir o silêncio.
— A Taís falou alguma coisa pra você?
— Falou.
Ele respirou fundo.
— Ela fala demais.
— Não.
Respondi quase sem pensar.
— Acho que ela fala exatamente quando você decide não falar.
Ele soltou uma risada curta, daquelas que não nascem da alegria, mas do reconhecimento.
— Ela sempre foi boa nisso.
Aproximei a cadeira da mesa.
— Então fala você.
Leandro esfregou as mãos uma na outra. Restos de graxa escureciam as linhas da pele.
— Eu não sei fazer isso.
— Fazer o quê?
— Colocar essas coisas pra fora.
Olhou para mim e, dessa vez, sustentou o olhar.
— Lá em casa ninguém conversa. Meu pai resolve tudo no grito. Minha mãe resolve tudo ficando quieta. Eu aprendi dos dois.
Houve uma pausa, pequena, mas pesada.
— Eu grito por fora e fico quieto por dentro.
Senti vontade de atravessar a sala e abraçá-lo. Mas não fiz nenhum movimento. Algumas pessoas precisam terminar uma frase inteira antes de aceitar um abraço.
— E agora? — perguntei.
Ele passou a mão pela nuca e sorriu de lado.
— Agora eu tô com medo.
A sinceridade da resposta era quase cruel.
— Medo do bilhete?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Outra pausa.
— Medo de começar a depender de você.
O ventilador continuava girando. Lá fora alguém fechou a porta metálica do depósito, e o estrondo percorreu toda a empresa. Leandro nem piscou.
— Você aparece... — disse ele, escolhendo cada palavra como quem pisa num terreno desconhecido — ...e eu começo a pensar em te procurar quando acontece alguma coisa boa. Depois começo a pensar em te procurar quando acontece alguma coisa ruim. Daqui a pouco vou querer te contar qualquer besteira do meu dia.
Sorriu. Um sorriso triste.
— Isso não tava no combinado.
Meu peito apertou, porque ele tinha razão. O combinado nunca existira, apenas acontecera. Me levantei devagar e parei diante dele. Não o toquei, havia momentos em que um centímetro podia significar mais do que um abraço inteiro.
— E se não houver combinado nenhum?
Ele fechou os olhos, por um instante, pareceu mais novo, de novo. Mais vulnerável. Quando voltou a me encarar, o medo tinha vencido, deu um passo para trás. Depois outro.
— Não faz isso comigo, Mateus.
A voz saiu baixa, quase um pedido.
— Eu não consigo ser quem você merece.
As palavras doeram menos pelo conteúdo do que pela convicção. Não era uma desculpa, era a sentença que ele vinha repetindo para si mesmo havia anos. Abriu a porta. Antes de sair, ainda disse, sem me olhar:
— Amanhã... age como se nada disso tivesse acontecido.
Ficou alguns segundos esperando que eu respondesse, eu não respondi. Ele foi embora. Permaneci sozinho no escritório, ouvindo o ventilador insistir no mesmo movimento circular, como se desconhecesse que algumas vidas jamais voltam exatamente ao ponto de onde partiram.
Na tarde seguinte, quando atravessei o portão da empresa, percebi imediatamente que alguma coisa havia mudado. Não era entre mim e Leandro, era maior do que nós dois. E, desta vez, o galpão inteiro parecia saber.
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Os boatos desapareceram do mesmo jeito que surgiram, não porque tivessem sido esquecidos. Nas cidades pequenas, ninguém esquece nada, as pessoas apenas encontram um assunto novo para mastigar.
O galpão voltou a funcionar como sempre. Caminhões entrando e saindo, motores tossindo fumaça logo cedo, o cheiro de café forte brigando com o de óleo diesel, o rádio insistindo nas mesmas modas sertanejas que pareciam tocar desde a fundação do mundo. Só nós dois não voltamos. Era curioso perceber como duas pessoas conseguiam continuar exatamente as mesmas por fora e completamente diferentes por dentro.
Leandro ainda ria alto. Ainda chegava cinco minutos atrasado, ainda chamava todo mundo por apelido. Mas havia dias em que eu flagrava seu olhar perdido no meio do pátio, acompanhando algum caminhão que desaparecia pela estrada, como se estivesse aprendendo, aos poucos, a desejar distâncias.
Foi Sandra quem trouxe a notícia. Ela entrou no escritório equilibrando uma xícara de café e uma pasta cheia de currículos.
— Você sabe que o Leandro anda fazendo entrevista?
Levantei os olhos.
— Entrevista?
Ela assentiu.
— Uma transportadora abriu uma filial numa cidade maior aqui perto. Pagam melhor. Treinam o pessoal. Tem plano de carreira.
Sorriu de lado.
— Acho que ele tem chance.
Aquilo me pegou desprevenido. Por um instante, senti uma alegria sincera, no seguinte, uma tristeza infantil. Era estranho descobrir que ambas cabiam dentro do mesmo peito.
— Você ficou feliz ou bravo? — perguntou Sandra, percebendo meu silêncio.
Ri.
— Os dois.
Ela deu uma piscadela.
— Então você tá gostando dele mais do que devia.
Não respondi, Sandra também não insistiu. Algumas mulheres têm uma elegância rara: fazem perguntas apenas para que a gente escute a própria resposta.
No final daquela tarde, encontrei Leandro sentado na mureta dos fundos da empresa. O expediente havia acabado fazia quase uma hora, os últimos funcionários já tinham ido embora. O calor do dia começava a ceder lugar a um vento fresco que trazia cheiro de terra úmida dos pastos vizinhos. Ele girava uma chave inglesa entre os dedos como quem embaralha cartas. Me sentei ao seu lado.
— Sandra me contou.
Ele não perguntou o quê. Sabia.
— Ainda nem sei se passei.
— Vai passar.
— Tá confiante demais.
— Não.
Olhei para ele.
— Só te conheço.
Leandro sorriu, mas desviou o assunto.
— Cê reparou que esse banco sempre foi torto?
Olhei para a mureta.
— Nunca.
— Eu também não.
Ficamos alguns segundos em silêncio. Depois ele falou:
— Acho que a gente conversa melhor quando tá olhando pra frente.
Ri.
— Porque nenhum dos dois precisa encarar o outro.
— Exatamente.
Havia uma honestidade involuntária nele que me desmontava. Leandro não fazia grandes discursos, nunca faria, mas, quando finalmente dizia alguma coisa importante, parecia arrancá-la do fundo do próprio corpo.
— Tenho medo de ir.
— Eu sei.
— Tenho medo de ficar também.
Essa frase ficou suspensa entre nós, como roupa esquecida no varal antes da chuva.
— Você sabe o que é engraçado? — perguntou.
— O quê?
— Passei a vida inteira querendo sair daqui. Agora que apareceu uma chance... parece que eu tô abandonando alguma coisa.
Olhei para as mãos dele, as marcas de graxa continuavam ali. Só que agora eu enxergava outra coisa. Não eram marcas de trabalho, eram raízes.
Dias depois veio a confirmação, Leandro foi contratado. A cidade ficava pouco mais de cento e cinquenta quilômetros dali, longe o suficiente para impedir visitas espontâneas. Perto o bastante para alimentar saudades.
Quando ele entrou no escritório segurando a carta de contratação, seu sorriso parecia o de um menino que finalmente aprendera a andar de bicicleta. Queria mostrar para alguém, queria comemorar, queria pedir desculpas ao mesmo tempo.
— Passei.
Me levantei imediatamente da cadeira.
— Eu sabia.
Ele estendeu a folha para mim, nem li. O abracei, foi um abraço rápido, instintivo. Quando nos soltamos, percebemos que Sandra estava parada na porta, ela fingiu pigarrear.
— Se vocês terminarem a cena de cinema, eu preciso da assinatura do futuro executivo aqui.
Leandro ficou vermelho.
— Ô, Sandra...
Ela riu.
— Relaxa. Eu só tô feliz por você, seu cabeção.
Depois saiu da sala, ainda ouvimos sua voz pelo corredor:
— E vê se aprende a usar computador nessa empresa nova!
Leandro balançou a cabeça.
— Ela nunca perde a oportunidade.
— Ainda bem.
O sorriso dele foi diminuindo aos poucos, até desaparecer.
— Eu vou sentir falta daqui.
Olhei em volta, as paredes cinzas, o ventilador de metal, o armário de aço que nunca fechava direito, a mesa marcada por xícaras de café. Achei curioso, eu nunca havia gostado daquele escritório. Passei a gostar no instante em que descobri que ele acabaria, talvez os lugares só revelem sua beleza quando ganham prazo de validade.
Na última sexta-feira de Leandro, o expediente terminou mais cedo, os funcionários improvisaram uma despedida. Houve refrigerante morno, bolo comprado na padaria da esquina e discursos desajeitados. Um motorista lhe deu um boné novo, outro entregou uma caneca com o logotipo da empresa, Sandra o abraçou como quem abraça um filho teimoso.
Quando todos começaram a ir embora, restamos apenas nós dois. Fomos até o portão, a rua já estava quase escura, os postes acendiam um a um. Leandro colocou as mãos nos bolsos.
— Você tá bravo comigo?
Demorei para responder.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Respirei fundo.
— Acho que eu só demorei pra entender uma coisa.
Ele esperou.
— Gostar de alguém também é torcer para que essa pessoa vá quando precisa ir.
Ele abaixou a cabeça, um riso pequeno escapou pelo nariz.
— Cê fala uns negócios bonitos...
— E você?
— Eu?
— O que vai levar daqui?
Ele ficou pensando, muito. Depois respondeu com a simplicidade que sempre foi sua maior qualidade.
— Coragem.
Olhou para mim.
— Porque, se eu consegui contar a verdade pra você... talvez eu consiga contar a verdade pra mim também.
Nenhum de nós disse mais nada, algumas despedidas não terminam com um beijo, nem com promessas. Terminam apenas com duas pessoas olhando a mesma estrada, sabendo que, pela primeira vez, caminhar na mesma direção significa seguir caminhos diferentes.
E, enquanto o ônibus de Leandro desaparecia na curva da rodovia na manhã seguinte, eu compreendi que certas histórias de amor não acabam quando alguém vai embora, elas apenas mudam de cidade.
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Há uma curiosidade sobre esse conto que talvez poucos saibam. Quando comecei a escrever a história de Mateus e Leandro, minha intenção era muito mais simples. Seria um conto curto, quase um one night stand literário: uma fantasia, uma atração intensa, um encontro marcado muito mais pelo desejo do que por qualquer profundidade emocional.
Só que, em algum momento, percebi que a história já não me pertencia completamente. Os personagens começaram a pedir tempo. Pediram silêncio, conversas, conflitos, medos, pequenas delicadezas. Leandro deixou de ser apenas um corpo desejado e passou a ocupar um espaço muito mais complexo dentro da narrativa. E Mateus (no fundo, eu mesmo), sem que eu planejasse, acabou usando essa história para explorar perguntas que talvez nem soubesse que carregava.
Acho curioso como algumas histórias têm vida própria. Às vezes sentamos para escrever um conto, e terminamos descobrindo um romance. Os personagens nos conduzem para lugares que não estavam no mapa inicial, e a melhor decisão acaba sendo apenas acompanhá-los.
Por isso, durante um tempo, resolvi parar de controlar tanto a direção da narrativa e deixei que ela respirasse sozinha. Pretendo continuar visitando esse imaginário de Mateus, do galpão, dos caminhões, das ferrugens, dos homens, dos silêncios e de tudo aquilo que aquele universo ainda guarda. Mas também senti que este era um bom momento para encerrar o arco de Leandro, exatamente onde ele faz mais sentido: incompleto, imperfeito e, talvez por isso mesmo, profundamente humano.
Meu muito obrigado a todos que leram, comentaram, criticaram, teorizaram e caminharam comigo até aqui. Escrever deixa de ser um exercício solitário quando encontramos leitores capazes de enxergar muito além das palavras. Nos vemos no próximo capítulo.
