André acordou antes do despertador.
A cidade ainda estava meio escura, meio azul, naquele intervalo em que São Paulo parece fingir descanso antes de voltar a ranger. Pela janela, entrava um ar úmido, pesado, prometendo chuva. Não chuva limpa. Chuva de sábado quente, que cai sobre asfalto sujo, levanta cheiro de pneu, fritura antiga, poeira e concreto.
A final seria às nove.
Às seis e quarenta e três, André já estava sentado na beira da cama, olhando para o celular.
Havia uma mensagem de Rafael.
RAFAEL:
Acordei.
André sorriu sem querer.
ANDRÉ:
Isso é bom. Final jogada dormindo costuma dar errado.
RAFAEL:
Dormir eu não dormi muito.
ANDRÉ:
Nervoso?
A resposta demorou.
RAFAEL:
Sim.
André ficou olhando para a palavra.
Sim.
Sem disfarce. Sem frase seca. Sem fingir que era só mais um jogo, só mais uma defesa, só mais um sábado de homens suados correndo atrás de uma bola para não lidar com o resto.
Sim.
Rafael estava nervoso.
E tinha dito.
ANDRÉ:
Bom.
RAFAEL:
Bom?
ANDRÉ:
Homem nervoso presta atenção.
RAFAEL:
Ou treme.
ANDRÉ:
Você disse que ia esperar.
RAFAEL:
Vou.
ANDRÉ:
Então espera até o chute. Não até o medo.
Rafael visualizou.
Não respondeu de imediato.
Depois:
RAFAEL:
Você fala como técnico motivacional perigoso.
ANDRÉ:
Aprendi com Marcelo.
RAFAEL:
Então estamos perdidos.
André riu baixo.
O celular vibrou de novo.
Caio.
CAIO:
Acordado, auditor?
ANDRÉ:
Infelizmente.
CAIO:
Final mexe com o intestino emocional.
ANDRÉ:
Você sempre precisa piorar a imagem?
CAIO:
É meu dom.
Depois, sem piada:
CAIO:
Ele te mandou alguma coisa?
ANDRÉ:
Rafael?
CAIO:
Leandro.
André sentiu o corpo ficar mais atento.
ANDRÉ:
Ontem. Depois nada.
Caio demorou.
CAIO:
Estranho.
ANDRÉ:
Você acha que vem mais?
CAIO:
Leandro não dorme antes de estragar alguma coisa.
Como se tivesse sido chamado pelo nome, o celular vibrou outra vez.
Número desconhecido.
SEM NOME:
Hoje ele vai olhar para o canto antes da bola sair. Sempre olha. Sempre entrega.
André ficou imóvel.
A mensagem era simples. Quase técnica. Mas tinha veneno suficiente para entrar pela pele. Não era só sobre futebol. Era sobre Rafael. Sobre medo. Sobre alguém que se orgulhava de ainda conhecer o reflexo de outro homem.
Outra mensagem chegou.
SEM NOME:
Você acha que ele mudou porque dormiu na sua cama?
André sentiu o estômago fechar.
A frase era baixa. Cruel. Exata no lugar onde queria atingir.
Leandro não falava de sexo diretamente. Não precisava. Ele tocava no depois. No que a intimidade prometia e talvez não sustentasse. Era mais elegante. E por isso mais sujo.
André respirou fundo.
Printou.
Mandou para Rafael.
Depois para Caio.
Rafael ligou imediatamente.
André atendeu.
— Não responde — Rafael disse, antes de qualquer coisa.
A voz dele vinha baixa, tensa.
— Bom dia para você também.
— André.
— Eu não ia responder.
Silêncio.
Rafael respirou.
— Desculpa.
— Pelo quê?
— Por ele falar de você. Da gente.
André levantou e foi até a cozinha, ainda com o celular no ouvido.
— Rafael, eu já falei. A culpa é dele.
— Eu sei.
— Sabe, mas ainda veste.
— Estou tentando tirar.
André encostou-se na pia.
— Ele quer que você chegue na final pensando no canto. Então não pensa no canto.
— É difícil.
— Eu sei.
— Ele conhece meu jogo.
— Conhecia.
Rafael ficou quieto.
André continuou:
— Ele conhece o cara que você era quando precisava pular antes para provar que estava no controle. Hoje você espera.
— E se eu não conseguir?
André fechou os olhos por um segundo.
A vontade era dizer uma frase linda, definitiva, invencível. Mas não havia frase que defendesse pênalti.
— Então você erra — André disse. — Mas erra tentando ser você, não tentando fugir dele.
Do outro lado, Rafael soltou o ar.
— Você vai estar lá?
— Vou.
— Com raiva?
— Também.
— De mim?
André pensou.
— Menos do que ontem.
— Progresso?
— Não abusa.
Rafael quase riu.
Quase era uma vitória pequena.
— Até a quadra — Rafael disse.
— Até.
Quando desligou, havia resposta de Caio.
CAIO:
Ele mandou mensagem para mim também.
André abriu.
Caio encaminhou o print.
SEM NOME:
Você sabe que ele só virou homem decente depois que escolheu outro.
Abaixo, outra:
SEM NOME:
Não seja torcida de quem te deixou no banco.
André sentiu uma raiva limpa subir.
ANDRÉ:
Você respondeu?
CAIO:
Digitei oito crimes e apaguei.
ANDRÉ:
Ótimo.
CAIO:
Não me elogia. Estou instável.
ANDRÉ:
Hoje você não vira faca.
Caio visualizou.
Demorou.
CAIO:
Hoje eu viro jogador.
André ficou com a frase na tela por alguns segundos.
Depois levantou.
Tomou banho.
Escolheu a roupa sem pensar demais. Camiseta escura, bermuda, mochila com toalha, chuteira, troca limpa, desodorante. Ao colocar a chuteira na bolsa, percebeu como aquele objeto, que no começo parecia fantasia de homem tentando voltar à juventude, agora tinha virado símbolo de outra coisa. Ele não era mais o substituto do irmão. Não era mais só o homem que entrou na pelada e se perdeu no cheiro da quadra.
Ele estava dentro.
E isso tinha preço.
Chegou cedo.
A quadra já estava viva.
A final tinha transformado o lugar. O alambrado estava cheio de gente. Alguns jogadores de outros horários, amigos, curiosos, dois adolescentes com camisa de time europeu, um senhor com uma cadeira dobrável, namoradas, irmãos, homens segurando latas de cerveja antes das nove da manhã como se aquilo fosse tradição religiosa.
O céu estava baixo, cinza, carregado.
O ar cheirava a chuva antes da chuva.
Marcelo estava no centro da quadra usando a braçadeira, prancheta na mão e uma seriedade ridícula.
— Hoje ninguém me chama de capitão em tom irônico — ele anunciou assim que viu André.
— Bom dia, capitão — André respondeu, completamente irônico.
— Eu senti.
— Sentiu certo.
Marcelo olhou para a mochila dele.
— Preparado?
— Não.
— Bom. Quem acha que está preparado geralmente faz merda.
André olhou para ele.
— Isso foi surpreendentemente sensato.
— Eu estou em dia de final. Minha sabedoria aumenta.
— E sua humildade?
— Essa ficou fora da convocação.
Caio chegou logo depois.
Sem moto barulhenta, sem entrada teatral, sem piada inicial. Veio caminhando com a mochila no ombro, camiseta preta, bermuda de jogo, cabelo ainda seco, rosto fechado. Ao ver André, ergueu dois dedos em cumprimento.
— Auditor.
— Atacante.
Caio parou diante dele.
Os dois ficaram um instante sem brincar.
— Recebeu mais alguma coisa? — André perguntou.
— Não.
— Está bem?
Caio suspirou.
— Você insiste.
— Insisto.
— Estou com vontade de quebrar a cara dele.
— Isso não é estar bem.
— Mas é estar focado.
— Não exatamente.
Caio olhou para a quadra.
— Hoje eu não vou estragar.
André sentiu a frase como promessa e pedido.
— Eu sei.
Caio olhou para ele.
— Sabe?
— Sei.
O silêncio entre eles mudou de temperatura.
Caio sorriu de leve.
— Cuidado, André. Confiar em mim pode virar hábito.
— Não exagera.
— Tarde.
Rafael chegou por último entre os três.
Não atrasado. Mas depois.
Camisa preta de goleiro, luvas na mão, mochila nas costas. O cabelo estava úmido, o rosto sério, a barba mais aparada que o normal. Ele parecia grande, sim. Como sempre. Mas não inacessível. Havia algo nele mais exposto naquele dia. Talvez porque todos ali conhecessem um pedaço de sua ferida agora. Talvez porque Leandro estivesse rondando. Talvez porque André soubesse que, por trás daquela camisa, havia um homem que acordara nervoso e admitira.
Rafael olhou primeiro para André.
Depois para Caio.
Depois para a grade.
Leandro estava lá.
Claro que estava.
Do lado oposto da quadra, encostado ao alambrado, camisa polo branca, calça jeans escura, tênis limpo demais. Ao lado de Nivaldo. Não sorria muito. Não precisava. A presença dele já era um sorriso.
Caio murmurou:
— Praga bem vestida.
Rafael apertou as luvas.
André percebeu.
— Espera — disse baixo.
Rafael olhou para ele.
A palavra era sobre o jogo.
Mas também era sobre tudo.
Rafael assentiu.
— Vou esperar.
Caio viu os dois.
Por um segundo, algo atravessou o rosto dele. Dor, inveja, cansaço. Mas ele não transformou em veneno. Apenas pegou a mochila e caminhou para o vestiário.
— Vamos trocar de roupa antes que o capitão faça discurso motivacional com metáfora de guerra.
Marcelo gritou de longe:
— Eu ouvi!
— Era para ouvir! — Caio respondeu.
No vestiário, o ar era outro.
Havia corpos se trocando, mas pouca brincadeira. Camisetas saindo, chuteiras batendo no chão, caneleiras improvisadas, toalhas, desodorantes, respiração. O lugar tinha cheiro de concentração: suor ainda imaginado, sabonete de banho tomado em casa, roupa limpa prestes a ser destruída, medo masculino disfarçado de alongamento.
Rafael abriu o armário do canto.
André notou.
Caio também.
O armário que já tinha sido fantasma. O armário das luvas antigas. O lugar que Caio quis mostrar antes de tudo desandar.
Rafael ficou parado diante dele por um segundo.
Caio falou, do banco:
— Ainda tem assombração aí?
Rafael não virou.
— Menos do que antes.
Caio ficou quieto.
André percebeu o tamanho daquela resposta.
Rafael tirou de dentro da mochila um par antigo de luvas. Não as novas. Antigas. Gastas nas palmas, um pouco rasgadas no polegar. Colocou-as no banco.
André olhou.
— Vai usar essas?
Rafael balançou a cabeça.
— Não.
— Então por quê?
Rafael passou a mão sobre uma delas.
— Para lembrar que eu não preciso.
Caio abaixou os olhos.
A frase tinha destino duplo.
Leandro. Caio. O próprio Rafael antigo.
Marcelo entrou batendo palmas.
— Senhores! Hoje nós vamos entrar como homens e sair como lendas.
Rodrigo levantou a mão.
— E se perder?
— Sai calado.
— Justo.
Marcelo subiu no banco, ignorando o risco de cair.
— Eu quero dizer uma coisa. A gente começou essa pelada como um grupo de homens medianos tentando fingir que ainda tinha joelho. E olha onde chegamos.
Caio murmurou:
— Ainda sem joelho.
— Chegamos a uma final — Marcelo continuou. — Passamos por desorganização financeira, infiltração emocional, ex tóxico, planilha, auditoria, pênaltis e o Rodrigo.
Rodrigo apontou para si.
— Eu?
— Você é uma adversidade recorrente.
A risada veio. Necessária.
Marcelo ficou mais sério.
— Mas hoje é simples. A gente joga junto. Ninguém ganha sozinho. Ninguém perde sozinho. Se um cair, outro cobre. Se errar, volta. Se provocarem, respira. Se o Leandro falar, ignora.
Caio ergueu a mão.
— Posso ignorar com desprezo?
— Pode, mas sem cartão.
Rafael olhou para Marcelo com uma gratidão discreta.
André viu.
Marcelo talvez não fosse só um homem com prancheta.
Talvez fosse, de fato, capitão.
Saíram para a quadra.
A chuva começou no aquecimento.
Primeiro fina.
Depois mais firme.
A grama sintética escureceu. O cheiro de borracha molhada subiu como vapor. As linhas brancas ficaram mais vivas. O chão ficou traiçoeiro. Os homens começaram a brilhar de água antes mesmo do suor.
A final era contra o time da quadra de baixo.
Mais jovem. Mais rápido. Mais barulhento. Eles tinham uniforme azul, patrocinado por uma adega do bairro, e uma confiança irritante.
O atacante principal, um cara chamado Dudu, olhou para Rafael durante o aquecimento e gritou:
— Hoje eu vou escolher teu canto, goleirão!
Caio respondeu antes:
— Escolhe o banco também, porque daqui a pouco você senta.
Dudu riu.
— Quem é esse? O baixinho nervoso?
Caio sorriu.
— Teu arrependimento em formação.
Marcelo puxou Caio pela camisa.
— Sem cartão antes do jogo.
— Ele começou.
— Você nasceu continuando.
André riu.
O juiz improvisado, um homem de outro horário que usava apito de verdade e vaidade de árbitro profissional, chamou os times.
A bola rolou.
Nos primeiros minutos, André mal respirou.
O jogo era rápido demais. O time adversário tocava com precisão, abria nas pontas, pressionava a saída. Marcelo gritava instruções contraditórias, mas desta vez havia organização por baixo do caos. Rafael orientava de trás com frases curtas. Caio voltava para marcar mais do que de costume. André fechava o meio, corria, trombava, errava, recuperava.
A chuva aumentou.
A bola ficou mais viva.
Aos sete minutos, Dudu recebeu livre.
Rafael saiu.
Dudu chutou cruzado.
Rafael esperou.
Não caiu antes.
Esticou a perna no último instante e desviou.
A bola foi para escanteio.
André gritou:
— Boa!
Caio também:
— É isso!
Do lado de fora, Leandro bateu palmas uma vez.
— Boa. Agora tenta de novo quando valer.
Rafael não olhou.
André viu.
Ele não olhou.
Aquilo era uma defesa invisível.
O primeiro gol deles veio aos doze.
Caio roubou uma bola no meio e disparou. André acompanhou pelo lado. Caio poderia chutar. O Caio de antes talvez chutasse. Talvez quisesse ser o nome do lance, o homem da final, o atacante da redenção.
Mas ele tocou.
Para André.
A bola veio redonda, molhada, perfeita.
André bateu de primeira.
O goleiro defendeu parcialmente.
Marcelo, sabe-se lá como, apareceu no rebote.
Chutou de canela.
Gol.
Por um segundo, ninguém acreditou.
Nem Marcelo.
Depois ele abriu os braços como se sempre tivesse planejado aquilo.
— Eu falei! Eu falei! Presença de área!
Caio caiu de joelhos, rindo.
— De canela, seu desgraçado!
Marcelo correu para o alambrado.
— Gol é gol! Instituição!
André ria sem conseguir parar.
Rafael saiu do gol o suficiente para bater palmas. Molhado, sério, quase sorrindo. O olhar dele encontrou o de André.
Não era só comemoração.
Era: estamos juntos.
O empate veio pouco antes do intervalo.
Uma falha boba.
Rodrigo escorregou. Juninho tentou cobrir e caiu também. Dudu recebeu sozinho. Rafael esperou, mas o chute saiu desviado no pé de Marcelo, que ainda tentava voltar da própria glória. A bola entrou no canto oposto.
1 a 1.
Dudu correu para comemorar perto da grade.
— Esse canto aí ele não achou!
Leandro sorriu.
— Quando desvia, ele sempre trava.
Rafael pegou a bola dentro do gol.
Por um segundo, André viu o velho impulso: o corpo querendo responder, olhar, justificar. Mas Rafael respirou.
Só respirou.
Jogou a bola para o centro.
— Vamos.
No intervalo, todos estavam ensopados.
Marcelo tentava falar enquanto bebia água e quase se afogava.
— Estamos bem. Estamos vivos. Estamos empatados. O gol deles foi cagado.
Rodrigo levantou a mão.
— O nosso também.
— O nosso foi estratégia espiritual — Marcelo respondeu.
Caio se inclinou, mãos nos joelhos, pingando água pelo cabelo.
— Eles vão forçar o Dudu em cima do Rafael.
André assentiu.
— E o Leandro vai tentar comandar de fora.
Rafael bebeu água em silêncio.
Caio olhou para ele.
— Você está ouvindo?
Rafael abaixou a garrafa.
— Estou.
— Então escuta sem transformar em ofensa. Ele vai falar teu canto. Vai falar teu medo. Vai falar teu passado. Não cai.
Rafael sustentou o olhar de Caio.
— Não vou cair.
Caio respondeu baixo:
— Eu sei que você sabe cair bonito. Hoje defende feio se precisar.
André ficou quieto.
Havia algo ali que ele não precisava atravessar. Uma intimidade de ferida e conhecimento, mas agora sem disputa. Caio entregando a Rafael uma informação emocional, não uma faca.
Rafael assentiu.
— Obrigado.
Caio desviou o olhar.
— Não acostuma.
O segundo tempo começou mais pesado.
A chuva já não era promessa. Era presença. A quadra escorregava, a bola acelerava, os corpos batiam com mais força. O cheiro de suor e água, borracha e barro dos tênis, desodorante vencido e respiração quente misturava-se no ar como uma névoa.
André levou uma pancada no ombro.
Caiu.
Rafael deu um passo para sair do gol, mas parou quando viu André levantar sozinho.
Caio apareceu ao lado.
— Está bem?
André limpou a água do rosto.
— Estou.
— Mentira.
— Funcionando.
Caio sorriu.
— Roubei tua frase.
— Devolve depois.
Aos quinze minutos, o adversário virou.
Dudu recebeu na ponta, cortou para dentro e bateu forte. Rafael tocou na bola, mas não o suficiente. Ela entrou.
2 a 1.
A quadra de baixo explodiu.
Leandro finalmente sorriu inteiro.
— Esse era o canto.
Rafael ficou parado, olhando para a rede.
André sentiu o ar sair do próprio corpo.
Caio chutou a trave de leve, irritado.
Marcelo reuniu todos no meio antes que o jogo recomeçasse.
— Olha para mim! Olha para mim! Ninguém morreu. Só estamos perdendo.
Rodrigo disse:
— Isso não ajuda.
— Cala a boca.
Marcelo apontou para Rafael.
— Você vai defender a próxima.
Depois para Caio.
— Você vai fazer a próxima.
Depois para André.
— Você vai parar de pensar tanto e jogar.
André piscou.
— Eu?
— Você acha que eu não vejo? Está com a cabeça parecendo reunião de condomínio. Joga.
Caio riu apesar da tensão.
— Capitão acordou inspirado.
Marcelo apontou para ele.
— E você para de ser bonito e resolve.
— Finalmente uma instrução objetiva.
O jogo recomeçou.
André mudou.
Não porque decidiu. Porque cansou.
Cansou de ser o homem no meio de tudo tentando medir cada consequência antes de tocar na bola. Cansou de Leandro, de mensagem, de passado, de ciúme, de recibo, de canto, de medo. A bola veio e ele simplesmente foi.
Roubou uma no meio.
Passou por um.
Quase perdeu.
Recuperou no tranco.
Ouviu Rafael gritar:
— Abre!
Ouviu Caio:
— Aqui!
André poderia tocar para Caio.
Poderia abrir para Marcelo.
Poderia chutar errado.
Por um instante, viu o campo como planilha e caos ao mesmo tempo.
Então tocou para Caio.
Caio recebeu marcado por dois.
Não dominou.
Deixou passar.
A bola atravessou entre os marcadores e sobrou para Marcelo, que vinha livre, completamente surpreso com a própria oportunidade.
— Chuta! — André gritou.
Marcelo chutou.
O goleiro espalmou.
A bola voltou para Caio.
Caio bateu.
Gol.
2 a 2.
A quadra veio abaixo.
Caio correu, mas não para o alambrado. Correu para André e o empurrou com as duas mãos no peito, rindo molhado.
— Viu? Quando para de pensar, presta!
André agarrou os ombros dele por um segundo, rindo também.
Rafael viu.
E não fechou a cara.
Apenas bateu as luvas, gritando:
— Volta! Ainda não acabou!
André olhou para ele.
Rafael tinha escolhido confiar.
Essa talvez fosse a maior defesa do dia.
Faltavam três minutos quando Leandro tentou a última entrada.
Não em campo.
No ouvido.
A bola saiu pela lateral perto de onde ele estava. André foi buscar. Leandro se aproximou da grade.
— Ele está tentando muito hoje — Leandro disse, baixo o bastante para só André ouvir. — Mas você sabe que tentativa não é caráter.
André pegou a bola.
Não respondeu.
Leandro continuou:
— Quando ele errar, vai dizer que estava aprendendo. Sempre funciona com homem bonito e culpado.
André olhou para ele.
— Você fala muito de erro para alguém que vive de repetir golpe.
Leandro sorriu.
— Cuidado. Raiva atrapalha leitura.
— Não a minha.
André virou e cobrou a lateral.
A bola foi para Caio.
Caio devolveu de primeira.
André cruzou rasteiro.
Marcelo se jogou.
Não alcançou.
Rodrigo, por milagre ou acidente, completou na segunda trave.
Gol.
3 a 2.
Rodrigo saiu correndo como herói improvável.
— Eu falei que eu era decisivo!
Marcelo gritava:
— Nunca critiquei!
Caio gritou:
— Criticou sim!
A confusão virou comemoração.
Mas ainda havia tempo.
E tempo, em final, é uma espécie de ameaça.
No último lance, Dudu recebeu livre.
Livre demais.
Rafael saiu um passo.
Dudu parou diante dele.
A chuva parecia cair mais devagar.
Leandro gritou da grade:
— Direita, Rafa! Ele vai abrir na direita!
Rafael ouviu.
Todos ouviram.
Dudu sorriu.
André, do meio da quadra, sentiu o coração bater na garganta.
Caio parou.
Marcelo parou.
O mundo parou.
Rafael ficou no centro.
Esperou.
Dudu abriu o corpo para a direita.
O velho Rafael teria pulado.
O Rafael de Leandro teria tentado provar que sabia.
O Rafael de Caio talvez tivesse defendido e depois fugido do que aquilo significava.
Mas aquele Rafael esperou meio segundo a mais.
Só meio.
Dudu tentou cavar no meio.
Rafael ficou de pé.
A bola bateu no peito dele.
Caiu no chão.
Ele agarrou.
O apito veio logo depois.
Fim de jogo.
Campeões.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Depois Marcelo gritou como se tivesse sido ferido.
Caio caiu sentado na quadra, rindo e chorando sem admitir nenhuma das duas coisas. Rodrigo tirou a camisa e escorregou. Juninho abraçou o juiz. André correu para Rafael.
Rafael ainda estava com a bola nas mãos.
Ajoelhado.
Molhado.
Ofegante.
Como se tivesse defendido mais do que um chute.
André parou diante dele.
— Você esperou.
Rafael olhou para cima.
A chuva escorria pelo rosto dele.
— Esperei.
Caio chegou ao lado, respirando forte.
Olhou para Rafael.
Depois para a bola.
Depois para André.
— Finalmente, porra.
Rafael soltou uma risada baixa, quase quebrada.
Marcelo pulou sobre os três e quase derrubou todo mundo.
— Campeões! Instituição campeã!
— Sai de cima, capitão! — Caio gritou.
— Respeita o presidente!
O alambrado fazia barulho. Gente gritava, batia palma, vaiava, ria. O time adversário reclamava do juiz. Dudu chutou a bola para longe e levou bronca de Nivaldo. Leandro não estava mais sorrindo.
Rafael levantou.
André estava diante dele.
Por um instante, parecia que os dois se beijariam ali, no meio da quadra, na chuva, diante de todos.
Mas Rafael olhou para Caio.
Não como pedido de permissão.
Como reconhecimento.
Caio percebeu.
O rosto dele mudou. Dor e generosidade brigaram ali, sem vencedor claro.
Então Caio fez um gesto pequeno com a cabeça.
Vai.
Rafael olhou para André.
André se aproximou.
O beijo veio curto, firme, público o bastante para não ser segredo, íntimo o bastante para não virar espetáculo.
A quadra fez barulho.
Marcelo ficou parado por um segundo, depois gritou:
— Se machucar meu irmão, eu te boto de reserva!
Caio respondeu:
— Ele nem sabe escalar direito!
O grupo riu.
Rafael encostou a testa na de André por um segundo.
— Eu fiquei — disse baixo.
André respondeu:
— Hoje você defendeu.
— Sou goleiro.
André sorriu.
— Hoje foi elogio.
Leandro apareceu na entrada da quadra quando todos ainda comemoravam.
Não entrou.
Talvez porque não tivesse mais entrada.
Chamou Rafael com um gesto.
Rafael viu.
O corpo dele endureceu, mas não como antes.
André percebeu.
Caio também.
— Vai? — André perguntou.
Rafael respirou fundo.
— Vou.
Caio se aproximou.
— Sozinho?
Rafael olhou para ele.
— Não.
André entendeu.
Os três foram.
Não colados. Não como trio resolvido. Mas juntos.
Leandro esperava perto do corredor que dava para o vestiário. A chuva não chegava ali, mas o ar úmido deixava tudo pegajoso. Nivaldo estava mais atrás, fingindo mexer em cadeado.
— Parabéns — Leandro disse.
Rafael parou a alguns passos.
— Obrigado.
Leandro olhou para André.
— Bela influência.
André respondeu:
— Bons recibos também ajudam.
O sorriso de Leandro falhou.
Caio viu e quase sorriu.
Leandro voltou-se para Rafael.
— Você acha que ganhou alguma coisa hoje?
Rafael olhou para ele.
— Acho.
— Um jogo?
— Também.
— Um namorado?
André sentiu a palavra, mas não reagiu.
Rafael também não.
Caio reagiu por dentro, mas segurou.
Leandro continuou:
— Você acha que um beijo na chuva apaga o que você é?
Rafael respirou.
André quase falou, mas Rafael levantou a mão.
Dessa vez, ele mesmo.
— Não apaga.
Leandro pareceu satisfeito.
Mas Rafael continuou:
— Também não preciso apagar tudo para mudar.
O sorriso de Leandro sumiu um pouco.
Rafael deu um passo.
— Eu errei com você. Errei com Caio. Errei comigo. Mas você pegou meus erros e fez casa dentro deles. Acabou.
Leandro olhou para Caio.
— E você concorda com essa historinha bonita?
Caio sustentou.
— Concordo que você acabou.
Foi simples.
E por isso feriu.
Leandro respirou pelo nariz, irritado.
— Vocês três são patéticos.
André deu um passo agora.
— Talvez. Mas temos print.
Leandro olhou para ele.
— Você não sabe onde está mexendo.
— Sei sim.
André pegou o celular.
— Mensagens de número antigo, comprovantes, pagamento recente, Nivaldo reconhecendo divergência por escrito. O valor é pequeno, Leandro. O padrão não.
Nivaldo, ao fundo, empalideceu.
— André... — ele começou.
— Depois — André disse, sem olhar para ele.
Leandro ficou quieto pela primeira vez.
Caio sorriu.
— Olha só. O auditor morde.
Leandro olhou para Caio.
— Você sempre foi carente de plateia.
Caio deu um passo, mas Rafael tocou seu braço.
Caio parou.
Respirou.
— Hoje não — Caio disse para si mesmo.
Depois olhou para Leandro:
— Hoje eu sou jogador.
A frase pareceu irritar Leandro mais do que um xingamento.
Talvez porque fosse verdade.
Marcelo apareceu correndo, molhado, segurando uma garrafa de cerveja como se fosse troféu.
— O que está acontecendo aqui? Eu não autorizei reunião dramática pós-título.
André respondeu:
— Estamos encerrando pendência.
Marcelo viu Leandro.
O rosto dele fechou.
— Você está fora.
Leandro riu.
— Você manda agora?
Marcelo ergueu a garrafa.
— Eu sou presidente campeão.
Caio murmurou:
— Infelizmente, isso tem força simbólica.
Marcelo apontou para Nivaldo.
— E a quadra agora fala comigo. Se tiver mais cobrança torta, a gente troca de horário, de quadra e de dono. Entendeu?
Nivaldo abriu a boca.
Fechou.
Assentiu.
Leandro olhou ao redor.
Pela primeira vez, parecia cercado.
Não fisicamente.
Narrativamente.
A história que ele tentara controlar tinha mudado de narrador.
— Boa sorte — ele disse, ajeitando a camisa. — Vocês vão precisar quando começarem a olhar uns para os outros sem me usar como desculpa.
A frase era venenosa.
E tinha um pedaço de verdade.
Por isso ninguém respondeu rápido.
Leandro sorriu ao perceber o impacto.
Então foi embora.
Mas dessa vez, ao sair, não parecia deixar uma ameaça.
Parecia levar uma derrota.
O vestiário depois da final foi uma confusão de corpos molhados, gritos, toalhas, cerveja escondida, chuteiras encharcadas e euforia cansada. O cheiro era brutal e perfeito: chuva, suor, sabonete, borracha, roupa molhada, vitória.
Marcelo tentou cantar alguma coisa e ninguém acompanhou porque a música não existia.
Rodrigo repetia:
— Gol do título, hein.
Caio corrigia:
— Gol da sorte.
— Gol histórico.
— Histórico para análise psiquiátrica.
André sentou no banco, exausto. A camiseta grudada no corpo, a coxa latejando, o ombro dolorido, o rosto molhado. Rafael sentou ao lado dele. Caio ficou em pé diante dos dois, secando o cabelo com a toalha.
Por alguns segundos, os três ficaram sem falar.
Era estranho estar ali depois de tudo.
O mesmo vestiário que tinha sido lugar de quase, de flagrante, de dor, de gelo, de ciúme, agora parecia outro. Ou talvez fossem eles.
Caio foi o primeiro.
— Vocês vão fazer aquela cena de casal campeão agora?
André respondeu:
— Você quer assistir?
Caio sorriu.
— Não provoca quem está tentando ser evoluído.
Rafael olhou para ele.
— Obrigado hoje.
Caio travou.
— Pelo gol?
— Pelo jogo. Pelo intervalo. Pelo “não cai”.
Caio desviou o olhar.
— Eu falei para o time.
— Falou para mim.
Silêncio.
Caio engoliu seco.
— De nada.
André viu a dor ali. Menos sangrando, mas ainda viva.
— Caio...
Ele levantou a mão.
— Não. Hoje não. Hoje vocês ganharam, eu ganhei, o capitão virou instituição, Leandro saiu com cara de boleto vencido. Vamos não estragar.
Rafael assentiu.
— Tá.
Caio olhou para os dois.
— Mas uma coisa.
André esperou.
— Eu não vou sumir.
Rafael ficou imóvel.
Caio continuou:
— Também não vou ficar orbitando vocês como viúva de história mal resolvida. Mas eu jogo. Eu venho. Eu encho o saco. Eu existo. Vocês que aprendam a não transformar minha existência em ameaça.
André sorriu de leve.
— Justo.
Rafael respondeu:
— Justo.
Caio apontou para Rafael.
— E você, especificamente: se ficar estranho, eu vou te chamar de covarde em público.
Rafael quase sorriu.
— Merecido.
— Quase sempre.
Marcelo apareceu entre eles.
— Foto! Foto do time! Todo mundo para fora! Camisa, sem camisa, de toalha, tanto faz, mas vai ter foto!
Caio olhou para André e Rafael.
— Salvos pelo presidente.
Saíram para a quadra de novo.
A chuva tinha diminuído. O céu ainda estava cinza, mas mais claro. O chão brilhava. O alambrado pingava. A bola estava largada perto do gol. O grupo se juntou desordenado para a foto.
Marcelo no centro, claro.
Rafael atrás, mais alto, uma mão no ombro de André.
Caio do outro lado, braço jogado sobre Rodrigo, mas perto o suficiente para aparecer no mesmo quadro.
O temporizador do celular de Juninho falhou duas vezes.
Na terceira, a foto saiu.
Borrada.
Torta.
Perfeita.
Naquela noite, André foi para casa sozinho.
Não por distância.
Por escolha.
Rafael perguntou se podia levar. André disse que queria andar até o ponto, sentir o corpo voltar ao normal. Caio ofereceu carona de moto só para provocar; André recusou também. Marcelo tentou obrigá-lo a ir ao bar comemorar mais; ele prometeu aparecer depois e não apareceu.
Precisava de silêncio.
No ônibus, com a mochila úmida aos pés e o cheiro da quadra ainda preso na roupa, André olhou a foto do time.
Marcelo sorrindo como herói.
Rodrigo comemorando o próprio gol.
Juninho com os olhos fechados.
Caio sorrindo de lado.
Rafael com a mão no ombro de André.
E ele mesmo ali, no meio, molhado, cansado, vivo.
O celular vibrou.
Rafael.
RAFAEL:
Chegou?
ANDRÉ:
No ônibus.
RAFAEL:
Queria ter te levado.
ANDRÉ:
Eu sei.
RAFAEL:
Mas você quis ir sozinho.
ANDRÉ:
Quis.
Rafael demorou.
RAFAEL:
Estou aprendendo a não confundir espaço com abandono.
André sentiu a frase como um abraço discreto.
ANDRÉ:
Boa.
RAFAEL:
Doloroso.
ANDRÉ:
Geralmente é.
Outra mensagem.
Caio.
CAIO:
A foto ficou horrível.
ANDRÉ:
Ficou ótima.
CAIO:
Você tem gosto afetivo, não visual.
ANDRÉ:
Você está bem?
CAIO:
Funcionando.
ANDRÉ:
Caio.
CAIO:
Melhor do que ontem. Pior do que talvez daqui a um mês. Serve?
ANDRÉ:
Serve.
CAIO:
Não deixa ele esquecer que esperar deu certo.
ANDRÉ:
Não vou.
CAIO:
E não esquece que eu fiz gol.
ANDRÉ:
Impossível. Você vai lembrar todo sábado.
CAIO:
Exatamente.
André sorriu.
Quando chegou em casa, tomou banho demorado. A água levou a chuva, o suor, a borracha, o sal da pele. Não levou tudo. Ainda bem.
Saiu do banho, vestiu uma roupa limpa e sentou na cama.
Havia uma última mensagem de número desconhecido.
SEM NOME:
Você ganhou um jogo. Não uma história.
André olhou para a tela.
Dessa vez, respondeu.
ANDRÉ:
História ninguém ganha sozinho.
Enviou.
Bloqueou.
Depois mandou o print para Rafael e Caio.
Rafael respondeu:
RAFAEL:
Boa.
Caio respondeu:
CAIO:
Olha o auditor virando poeta. Perigoso.
André largou o celular.
Deitou.
O corpo doía inteiro.
Mas não era uma dor ruim.
Era dor de quem correu, caiu, levantou, escolheu, errou menos do que poderia.
Antes de dormir, pensou em Rafael esperando o chute.
Em Caio dizendo que hoje era jogador.
Em Marcelo erguendo uma garrafa como troféu.
Em Leandro indo embora sem conseguir controlar a última cena.
A final tinha terminado.
Mas André sabia que finais não resolvem tudo.
Só revelam quem continua depois do apito.
E, pela primeira vez desde que entrara naquela quadra, ele não tinha medo do próximo sábado.