Combinei com Lucas de irmos a uma lanchonete.
Eu estava com receio de ir à casa dele. Depois de tudo que tinha acontecido no fim de semana, eu não sabia como iria reagir quando visse o Lucas de novo. Também não queria dar a ele a chance de transformar uma conversa séria em outra coisa.
Pelo menos era isso que eu dizia para mim mesmo.
Como tinha falado para o Rodrigo que daria uma resposta até sexta-feira, fui postergando o encontro até o último dia. Inventei que estava ocupado, que precisava resolver umas coisas, que estava cansado. A verdade é que eu estava enrolando.
Não era só sobre chamar Lucas para ficar com Camila.
Era sobre olhar para ele e fingir que nada tinha acontecido entre nós.
Bom, sexta-feira chegou.
Marcamos de almoçar por volta de 13h. Eu cheguei 12h30. Sempre odiei atrasos, mas naquele dia acho que cheguei cedo demais só porque estava nervoso. Sentei em uma mesa mais afastada, pedi uma água e fiquei olhando para a entrada a cada dois minutos.
Pegava o celular.
Largava o celular.
Olhava o horário.
12h45.
12h50.
12h55.
Meu coração já estava acelerado antes mesmo de ele aparecer.
Quando deu 13h05 e nada de Lucas, comecei a ficar irritado. 13h10 e nada. Tentei ligar, mas ele não atendeu. Mandei mensagem, ele também não respondeu.
Com 13h15, eu já estava puto da vida e quase indo embora.
Foi aí que ele apareceu.
Só que não veio sozinho.
Júlia estava com ele.
Na hora, meu corpo travou.
Lucas vinha andando como se nada estivesse acontecendo. Estava com uma camiseta simples, cabelo arrumado e um perfume maravilhoso. Isso me irritou mais ainda, porque eu não queria reparar nele daquele jeito. Não queria notar o perfume, nem o sorriso, nem aquela calma dele.
Mas reparei.
Em Júlia, eu quase nem reparei de primeira. Estava nervoso demais com o atraso, com a presença dela e com a conversa que eu precisava ter. Mesmo assim, ela chegou sorrindo, como se fosse a coisa mais normal do mundo aparecer em um almoço que não tinha nada a ver com ela.
Cumprimentei os dois.
Tentei agir naturalmente, mas acho que minha cara me entregava.
— Demorou, hein.
Lucas puxou a cadeira.
— Desculpa, é que falei para a Júlia que ia almoçar com você e ela quis vir junto.
Olhei para ela.
Júlia apenas sorriu.
Aquilo me deixou mais nervoso ainda. Eu tinha chamado Lucas para conversar sobre uma situação que envolvia Camila, Rodrigo e vários segredos. E agora a irmã dele estava sentada ali, do nosso lado, como se fosse parte da conversa.
— Então vamos pedir logo, pois estou com fome — falei.
Pegamos os cardápios. Chamamos o garçom e fizemos o pedido.
Enquanto a comida não chegava, tentei puxar qualquer assunto comum. Faculdade, férias, jogo, comida, qualquer coisa que não fosse o real motivo daquele encontro.
Mas minha cabeça estava longe.
Eu olhava para Lucas tentando encontrar uma brecha para falar com ele a sós. Ele parecia saber disso e, talvez por isso mesmo, estava tranquilo demais.
Júlia, por outro lado, parecia se divertir com o meu nervosismo.
Depois de alguns minutos, ela se levantou.
— Vou ao toalete. Não falem mal de mim enquanto eu estiver fora.
Assim que ela saiu, me inclinei na mesa e falei mais baixo:
— Como você traz ela, mano? Como vamos falar da proposta do jogo?
Lucas nem pareceu incomodado.
— Não tive como não trazer. Ela perguntou onde eu ia, falei que ia almoçar com você, e ela quis vir.
— Mentira. Tô ligado que você trouxe ela só para arrumar motivo para ficar me encontrando mais vezes.
Ele riu.
— Não fui eu que propus esse encontro. Foi você. E ela quis vir. Se não acredita, pergunta a ela.
— Não viaja com essa de "pergunta a ela". Você sabe que eu não tenho intimidade para essas coisas.
— Então acredite em mim.
Respirei fundo, tentando não parecer mais nervoso do que eu já estava.
— Desculpa. Não quis ser grosso. É que eu fiquei nervoso com o atraso, com a situação e ainda não tenho cara para olhar para ela depois daquela foto que você montou dela e me enviou.
Lucas me encarou.
— Eu não montei foto nenhuma.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
— Ah, tá. Sei, te conheço bem!
— Só enviei, se não acredita, pergunta a ela.
— De novo isso?
Ele abriu aquele sorriso de canto.
— Ué.
— Eu não vou perguntar nada. Não vejo a Júlia com malícia. Conheço ela faz anos.
Lucas continuou me olhando, como se soubesse que aquilo não era mais tão verdade assim.
— Sei.
— Fim de papo. Ela está voltando.
Júlia se aproximou da mesa como se tivesse ouvido o final da conversa, mas não comentou nada. Sentou-se novamente e olhou para nós dois.
— Voltei, meninos. Sentiram minha falta?
Lucas respondeu na hora:
— Não. Podia ter morrido lá que eu nem ia perceber.
Ela fez uma careta para ele e depois olhou para mim.
— E você, Caio? Sentiu minha falta?
Eu quase engasguei com a água.
— Oi? Hein? Quê? Claro que não, Júlia. Podia ter ficado lá também.
Ela deu risada.
— Sei, sei. Vocês dois não vivem sem mim.
A comida chegou pouco depois.
Fomos comendo e jogando conversa fora. Eu já estava bem mais calmo quando, em determinado momento, ela perguntou:
— E aí, Caio, vai fazer o quê depois do almoço?
— Ainda não sei.
— Não quer ir lá em casa jogar videogame? Compramos um jogo novo, é viciante, você precisa ir lá testar.
Olhei para Lucas na hora e quase engasguei.
— Videogame?
Lucas fez um gesto com as mãos, como se não tivesse culpa de nada.
Júlia percebeu.
— Que foi? Falei alguma coisa errada?
— Não — respondi rápido. — Só achei que... sei lá. Não estava nos meus planos.
— Nossa, que agenda cheia. Vai fazer o quê? Dormir?
Lucas segurou o riso.
Eu voltei a ficar cada vez mais nervoso com aquele almoço.
Júlia apoiou o cotovelo na mesa e ficou me olhando.
— Não precisa ficar nervoso não, Caio. Você tá com a mesma cara de pânico daquela vez que eu peguei vocês escovando os dentes.
Nessa hora eu quase tive um infarto.
Lucas abaixou a cabeça para rir.
Eu tentei responder, mas saiu todo enrolado:
— Nada a ver. Você que é trouxa mesmo e fica falando bosta.
Ela riu mais ainda.
— Então não tem problema irmos jogar videogame, tem?
Tentei ser o mais natural possível.
— Ok. Vamos.
Antes de irmos embora, Júlia disse que iria ao toalete de novo. Assim que ela se afastou, olhei sério para Lucas.
— Você armou isso, não foi?
— Eu não. Vamos só jogar videogame dessa vez! Se der, falamos sobre os jogadores.
— "Se der"? Eu preciso dar uma resposta hoje.
— Então dá.
— Com a Júlia lá?
— Ué, você disse que era só uma conversa, não disse?
Ele sabia exatamente como me irritar.
Fomos para a casa deles naquele clima estranho.
Durante o caminho, Júlia ia falando como se nada estivesse acontecendo. Lucas respondia de vez em quando. Eu quase não falava. Ficava olhando pela janela, tentando organizar as coisas na cabeça.
Eu tinha ido encontrar Lucas para resolver um problema.
Agora parecia que tinha arrumado mais um.
Quando chegamos, Júlia foi se trocar. Ficamos eu e Lucas na sala. Eu nem esperei muito. Já falei logo, porque não sabia quanto tempo teríamos sozinhos.
— Rodrigo quer que nós três fiquemos com a Camila.
Lucas me olhou com interesse.
— Nós três?
— Sim! Eu, você e ele!
— Com a Camila?
— É.
Ele sorriu.
— Opa. Sim.
— Mas tem uma coisa.
— Lá vem.
— Ninguém sabe do que aconteceu entre nós. E vai continuar assim.
Lucas encostou-se no sofá, me olhando com calma demais.
— Você fala como se mandasse em alguma coisa.
— Lucas, estou falando sério.
— Eu também.
— Você topa ou não?
— Topo. Mas vou poder tocar em você? E você em mim?
— Não.
Ele riu baixo.
— Não?
— Não. A ideia é ficar com a Camila. Não é fazer bagunça com tudo.
— Caio, a essa altura você ainda acha que dá para separar as coisas?
A pergunta ficou no ar.
Eu não respondi na hora, porque no fundo sabia que ele tinha razão. Nada mais estava separado. Camila, Rodrigo, Lucas, eu. E agora Júlia aparecia na história também? Tudo estava começando a se misturar de um jeito que eu já não conseguia controlar.
Mesmo assim, insisti:
— Ninguém sabe da gente. E vai continuar assim, ok?
Lucas ficou me encarando por alguns segundos.
— Tá bom. Só precisamos ver o dia certinho.
— Rodrigo quer resposta hoje. Então bem provável que seja nesse final de semana.
— Por mim, tudo bem.
Ele se aproximou um pouco.
— Mas se você der mole, eu não prometo me comportar.
Senti meu rosto esquentar.
— Sai fora, Lucas. Eu gosto de mulher.
Ele sorriu.
— Claro que gosta.
Antes que eu pudesse responder, Júlia voltou para a sala.
Ela tinha trocado de roupa. Estava com um shorts e uma camiseta mais confortáveis, mas bem mais curtos do que eu estava acostumado a ver nela. Não era nada absurdo, mas para mim pareceu diferente.
Aquela não era a Júlia quietinha que ficava perto dos pais falando baixo.
E eu reparei.
Reparei mais do que deveria.
Ela percebeu na hora.
— Que foi? Nunca viu? Tô feia? Gorda?
— Não, não. Você está ótima. Só nunca tinha te visto com esses trajes assim. Achei estranho.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Trajes? Nossa, que formal.
Lucas riu.
Eu tentei disfarçar, mas a foto de biquíni voltou com força na minha cabeça. Aquela imagem que Lucas tinha mandado. Eu ainda acreditava que era montagem, mas, vendo Júlia ali, comecei a achar que talvez não fosse tão impossível assim.
Isso me deixou desconfortável e curioso.
Fomos jogar videogame.
Júlia sentou de um lado e Lucas do outro. Eu fiquei no meio por alguns minutos, depois inventei uma desculpa para trocar de lugar com Lucas. Ele foi para o meio. Aquela proximidade com Júlia estava me deixando ainda mais nervoso.
Eu não conseguia ganhar nenhuma partida.
Errava golpe simples, apertava botão errado, perdia por besteira. Lucas ria. Júlia zoava. Eu fingia que não ligava, mas minha cabeça estava em outro lugar.
Na foto.
No perfume de Lucas.
Na proposta para o fim de semana.
Na possibilidade de Júlia saber de alguma coisa.
Depois de um tempo, Júlia se levantou.
— Vou fazer umas coisas de mulher. Não destruam a casa.
Ela saiu andando pelo corredor.
Acompanhei com os olhos e fiquei excitado imaginando algo a mais com ela.
Quando percebi, já era tarde.
Lucas percebeu também.
— Ficou olhando, hein.
— Nada a ver.
— Aham.
— Para, Lucas.
— Ficou excitado com ela, foi?
— Não viaja.
— Então foi comigo?
Olhei para ele, irritado.
— Também não.
Ele se aproximou de mim no sofá, tirou a almofada que estava no meu colo e percebeu na hora o que eu estava tentando esconder. Depois colocou a mão na minha coxa.
— Você mente muito mal!
— Para com essas graças Lucas!
— Você não gosta?
— Não gosto!
— Então por que ainda está deixando eu passar a mão em você?
A resposta morreu na minha garganta.
A sala estava quieta. Do corredor vinha um barulho baixo, talvez Júlia mexendo em alguma coisa no quarto. Eu sabia que a qualquer momento ela poderia voltar.
Lucas foi me tocando por cima da roupa. Não foi um toque exagerado. Foi pior. Foi calmo. Demorado. Como se ele estivesse testando até onde eu iria fingir que não queria aquilo.
Meu corpo ficou rígido.
— Lucas...
— Fala para eu parar.
Eu olhei para ele.
— Para.
Mas falei baixo demais.
Ele sorriu, como se tivesse entendido exatamente o que aquilo significava.
— Assim não vale.
A mão dele subiu um pouco pela minha perna, depois voltou, mais devagar. Meu coração começou a bater mais forte. Eu olhei para o corredor, com medo de Júlia aparecer.
— Ela pode voltar.
— Pode.
— Você é maluco.
— E você continua deixando.
Aquilo me atingiu de um jeito absurdo.
Eu devia parar. Devia empurrar a mão dele. Devia lembrar que tinha ido ali apenas para conversar sobre o encontro com Camila e Rodrigo.
Mas não fiz nada disso.
Lucas chegou mais perto.
O perfume dele me pegou de novo. Ele não me beijou de imediato. Ficou perto, perto demais, como se quisesse me fazer tomar a decisão. Eu odiava isso. Odiava porque funcionava.
— Você está fazendo de propósito — falei.
— Estou.
— Por quê?
— Porque você fica bonito quando perde o controle.
Aquela frase me desmontou.
Eu não queria admitir, mas era exatamente isso. Com Lucas, eu não precisava fingir que estava conduzindo. Ele chegava perto, falava baixo, mandava sem mandar, e meu corpo parecia entender antes da minha cabeça.
Quando percebi, já estava olhando para a boca dele.
Lucas viu.
— Ainda é caso isolado?
Fiquei sem resposta.
Ele segurou minha nuca de leve. Não puxou com força. Só colocou a mão ali, como se dissesse que podia. Como se me lembrasse do que tinha acontecido no fim de semana.
Eu devia ter resistido.
Não resisti.
O beijo começou rápido, quase como um erro. Mas logo ficou mais demorado. Mais calmo. Mais perigoso.
Lucas me beijava como se estivesse me cobrando uma resposta que eu não conseguia dar com palavras. Eu correspondi antes de pensar. Senti a mão dele na minha nuca, depois na minha cintura, e por alguns segundos esqueci onde estava.
Foi pouco.
Mas foi suficiente.
— Ah.
A voz veio do corredor.
Eu me afastei na hora, como se tivesse levado um choque.
Júlia estava parada ali, encostada na parede, olhando para nós dois.
Não parecia assustada.
Parecia mais curiosa do que surpresa.
Como se finalmente tivesse encontrado a peça que faltava no quebra-cabeça.
Lucas ficou quieto.
Eu fiquei pior ainda.
— Júlia... — comecei, sem saber o que dizer.
Ela levantou as mãos.
— Calma. Não vou gritar, não vou chamar meus pais, não vou fazer escândalo.
Meu rosto queimava.
— Não é o que você está pensando.
Ela olhou para Lucas, depois para mim.
— Caio, eu vi vocês se beijando no sofá. Acho que dessa vez é exatamente o que eu estou pensando.
Lucas soltou uma risada baixa.
Eu olhei feio para ele.
— Não ri, idiota.
Júlia cruzou os braços.
— Então era isso que vocês estavam chamando de escovar os dentes?
Eu quis sumir.
— Júlia, por favor...
— Relaxa. Eu já desconfiava. Só não tinha certeza.
— Você não vai contar para ninguém, né?
Ela fez uma expressão ofendida.
— Nossa, que consideração. Você acha que eu sou fofoqueira?
Lucas respondeu:
— É.
— Cala a boca, Lucas.
Ela voltou a olhar para mim.
— Não vou contar. Mas vou admitir que agora tudo faz mais sentido. O banheiro, a cara de pânico, o jeito estranho de vocês...
— Não tem "jeito estranho" nenhum — falei.
Ela riu.
— Tem sim. Você só não percebe porque está ocupado demais entrando em pânico.
Lucas parecia se divertir com a situação.
Eu, não.
Quer dizer, uma parte de mim estava desesperada. Outra parte, a pior, sentia uma espécie de alívio. Pelo menos Júlia já sabia. Pelo menos aquela tensão de ser descoberto tinha acabado.
Ou talvez só tivesse começado de outro jeito.
— Isso vai ficar entre nós, ok? — falei.
Júlia se aproximou e pegou o controle do videogame.
— Relaxa. O bom de você vir aqui é que o Lucas fica mais calmo. Pode vir escovar os dentes todo dia, se quiser. O segredo de vocês está muito bem guardado.
Eu não soube onde enfiar a cara.
Lucas olhou para ela.
— Você está se divertindo demais com isso.
— Estou mesmo.
Peguei minha mochila.
— Eu preciso ir embora.
— Já? — Lucas perguntou.
— Já. Tenho que falar com Rodrigo.
Júlia olhou de um para o outro.
— Vão se despedir com aperto de mão de novo?
Eu parei na porta.
— Poxa, Júlia. Sacanagem isso, né. Uma coisa é você ter visto sem querer. Agora ficar pedindo plateia não rola.
Ela deu risada.
— Tá bom, tá bom. Não vou atrapalhar o romance dos dois.
— Não tem romance nenhum — falei rápido.
Lucas me olhou.
— Claro que não.
A forma como ele disse aquilo me incomodou.
Era provocação, mas também tinha alguma coisa ali. Talvez mágoa. Talvez só jogo. Com Lucas, eu nunca sabia exatamente.
Me despedi dele com um aperto de mão mesmo, só para contrariar Júlia. Ela fez uma cara de decepção teatral.
— Nossa, que sem graça.
— Tchau, Júlia.
— Tchau, Caio. E vê se não some. Meu irmão fica insuportável quando você não aparece.
Fui embora desconcertado.
No caminho para casa, fiquei pensando em tudo.
Lucas tinha aceitado participar.
Júlia tinha visto nosso beijo.
Rodrigo ainda estava esperando uma resposta.
E eu, mais uma vez, tinha prometido para mim mesmo que não deixaria as coisas saírem do controle.
Mais uma promessa inútil.
Quando cheguei em casa, Rodrigo já me chamou para o quarto.
Ele parecia ansioso, andando de um lado para o outro.
— E aí? Ele vai? Nós vamos?
Joguei a mochila no canto e sentei na cama.
— Ele topa.
Rodrigo abriu um sorriso na hora.
— Sério?
— Sério!
— E quando?
— Ele disse que, se puder ser nesse final de semana, por ele tudo bem.
Rodrigo ficou empolgado, mas eu não consegui acompanhar a empolgação dele. Minha cabeça ainda estava na sala de Lucas. No beijo. Na cara de Júlia. Na mão dele na minha nuca.
Rodrigo percebeu.
— Que foi? Você está estranho.
Respirei fundo.
Eu não sabia como falar daquilo. Não podia contar sobre Lucas. Não podia contar sobre Júlia. Não podia contar que o maior problema daquele encontro não era mais Camila.
Então falei só uma parte da verdade.
— Mano, seguinte... eu estou com receio.
— Receio do quê?
— Do que rolou entre nós dois naquela noite. E se a situação pegar fogo de novo? E se a gente quiser se tocar? E se o Lucas também quiser entrar nessa parte?
Rodrigo ficou me olhando por alguns segundos.
Eu esperava que ele estranhasse. Que ficasse bravo. Que colocasse algum limite.
Mas ele não fez nada disso.
Sentou na cama de cima e passou a mão no rosto.
— Ah, Caio, vou falar a real, mano. Eu nem sei mais o que eu quero.
Aquilo me surpreendeu.
Ele parecia cansado.
— Como assim?
— Com a Camila. Com tudo. Eu acho que meu relacionamento com ela está perto de terminar. E, se for para terminar, eu não quero ficar com aquela sensação de que faltou coragem.
Fiquei em silêncio.
Rodrigo continuou:
— Se estiver excitante para todo mundo, eu acho que vou deixar rolar.
Não era a resposta que eu queria.
Eu preferia que ele colocasse uma barreira. Que dissesse que não. Que proibisse qualquer coisa com Lucas. Talvez assim eu pudesse culpar Rodrigo e fugir daquela mistura toda.
Mas ele não fez isso.
Ele abriu ainda mais a porta.
— Tá — falei. — Então você chama a Camila.
Rodrigo pegou o celular.
— Vou chamar. Vou falar que, se for para terminarmos, que seja em grande estilo.
A frase ficou ecoando na minha cabeça.
Em grande estilo.
Eu não sabia se aquilo era empolgação, despedida ou desespero.
Só sabia que agora não tinha mais como adiar.
O jogo estava marcado.
E, dessa vez, todos os jogadores sabiam que alguma coisa ia mudar.
