Quando Dom completou seis meses, Júlia retornou ao trabalho. Foi mais difícil para ela do que nós imaginávamos que seria, mas fomos nos adaptando aos poucos.
Nosso neném ainda não havia iniciado a introdução alimentar por falta de sinais de prontidão física. Ele ainda não sentava sem apoio e, em consenso com a pediatra, decidimos esperar mais um pouquinho. Então, Juh aumentou o número de ordenhas para que Ninho continuasse tendo leite à vontade enquanto ela estivesse fora.
Também colocamos algumas atividades novas na rotina para que ele não ficasse somente em casa fazendo as mesmas coisas. Dom começou a fazer natação e musicalização e, nos dias em que não havia atividades, Dona Sônia o levava para passear na praça, onde ele adorava observar o movimento, as poucas árvores e, principalmente, as crianças brincando. O nosso desejo era apenas oferecer mais estímulos, sem deixar de respeitar o tempo e as necessidades dele.
Eu comecei a almoçar em casa para poder passar mais tempo com ele e, antes de sair, já o deixava fazendo a sonequinha da tarde. Era engraçado perceber a saudade que Ninho sentia. Quando todos chegávamos, era um denguinho muito gostoso.
Em um desses dias, estávamos espalhados pelo tapete da sala quando Milena me entregou um convite.
— Vai ter aniversário do nosso amigo. A gente pode ir? — Kaique me perguntou.
— Vocês não estão saindo demais, não? — Questionei, abrindo o envelope.
— Ir na sexta-feira e retornar no domingo? — Juh perguntou ao ler.
— Sei não, hein... — Comentei, olhando para eles.
— Por favor, mãe, vai ser divertido — Mih tentou.
— Todo mundo lá da sala vai — Kaká falou.
— A gente vai pensar — Juh respondeu.
— Com carinho? — Milena questionou, virando o rosto de um jeito fofo.
— Com muito carinho — Júlia confirmou e deu um beijinho nela.
Mih chegou mais para perto e começou a jogar deitada no meu colo, enquanto a gente seguia a nossa programação de não fazer nada. Nisso, Dom começou a chorar apontando para ela.
Ele se esticou todo para mim e literalmente pisou na cabeça de Milena quando o peguei no colo. Mih levantou rindo, tentando entender o que estava acontecendo.
— Oxe, você está com ciúme de mim, é? — Minha filha perguntou, dando um beijinho nele.
— Sua irmãzinha, amor — Falei e também dei um beijinho nele, que me agarrou.
— Não vale! — Kaká exclamou. Ele não tinha achado graça nenhuma.
— Dois ciumentos... — Brinquei, e Juh o puxou para o colo, enchendo-o de beijinhos.
— Amor, deixa eu te dar um beijo para testar uma coisa — Júlia disse.
— Teste, amor. Teste quantas vezes quiser. — Brinquei, e Kaique e Milena riram.
Assim que nossos lábios se tocaram, Dom abriu o maior berreiro. Dessa vez, não foi um choramingo manhoso. Ele desabou a chorar de verdade, com lágrimas escorrendo pelo rostinho, a boquinha tremendo e as mãozinhas grudadas em mim, como se estivesse vivendo a maior injustiça do mundo.
— Oxente, filho... É a mamãe... — Falei, enquanto o acalmava.
— Vem cá, neném — Júlia o chamou, mas ele permaneceu agarrado em mim.
— Eitaaaaa, isso é novo... — Falei, rindo e o sacudindo.
— Ah, é? Quando você só quiser o pepezinho, eu vou mandar você mamar em Lore. — Juh o zoou, e nós rimos.
— Que maldade com o bebezinho da mamãe. — Falei, fazendo-o rir com beijinhos.
Naquela noite, enquanto Juh o amamentava para dormir, fui até o quarto, como fazia quase todos os dias. Encostei na porta e fiquei alguns segundos observando aquela cena que nunca deixava de me fazer dar um sorrisinho. Ninho já estava sonolento, sugando bem devagarzinho, com uma das mãozinhas apoiada no seio dela.
É claro que eu não resisti e fui até lá dar um beijinho neles. Não demorou nem cinco segundos para meu filhote largar o peito e abrir um sorrisão, completamente desconcentrado da missão de dormir.
— E lá se foi o soninho... — Juh disse entre risos.
— Eu nem fiz nada... Ele que é gaiato. — Brinquei, falando baixinho.
Dom deu outra risadinha, balançando os bracinhos na minha direção.
Resolvi me aproximar da cama auxiliar, fiz um carinho no cabelinho dele e, antes de voltar para o meu lado do quarto, dei um beijinho demorado em Juh. Dessa vez, ele apenas acompanhou a cena com aqueles olhinhos curiosos, sem reclamar, sem chorar e sem tentar separar a gente.
— Ué... Agora pode? — Perguntei, rindo.
— Acho que ele concluiu que você é só dele mesmo — Júlia respondeu baixinho.
— Avise a ele que eu sou sua. — Brinquei.
Dei mais um beijo na testa dos dois e voltei para a cama. Poucos minutos depois, Juh também veio se deitar ao meu lado, encaixando-se em mim, como fazia todas as noites.
— Amor, é muito lindo o jeito como você é cativante. Dom já olha para você se acabando de rir. — Juh falou, sorrindo.
— Ele é todo gaiato. — Disse, também rindo.
— Sou muito feliz com vocês. — Ela falou e me encheu de beijinhos.
— E eu com vocês, meu amor! — Exclamei, abraçando-a.
— A gente vai deixar os meninos irem para esse aniversário? — Júlia perguntou.
— Não sei. Que amigo é esse? Você conhece? — Questionei.
— É da turma de Iury, se não me engano — Júlia me informou.
— Eles estão saindo demais, mas, se você me disser que é tranquilo, está tudo bem. — Falei e dei um beijinho na minha gatinha.
— Vamos deixar mais essa vez... Parece importante... — Ela comentou.
— É um aniversário, gatinha. — Falei, rindo, e dei outro beijo nela para ver se nós íamos dormir.
— Mas eles vão estar com os amigos... Você fala assim porque meus sogros deixavam você ir para tudo... É importante... — Juh falou e suspendeu o corpo.
— É, deixavam mesmo... Agora vamos dormir. — Disse e roubei um beijo dela, que estava bravinha.
— Você entende? — Juh questionou, presa em meus braços.
— Entendo. É muito importante mesmo. — Concordei.
— Você só está concordando para dormir. — Ela disse, cruzando os braços.
— Se a gente não for dormir agora, eu vou arranjar outro jeito de nós ficarmos acordadas. — Falei, tocando os lábios dela.
Juh ficou um tempinho me olhando e, aos poucos, a expressão fechada foi se desmontando e dando lugar a um sorriso contrariado.
— Aff, você não tem jeito! — Ela exclamou e deitou de costas para mim.
— Procurando agonia por besteira... Tome vergonha. — Brinquei em um tom divertido, e ela riu enquanto a gente foi se ajeitando novamente.
No outro dia, acordei decidida a perturbar Kaique e Milena com essa história do aniversário. Passei o café da manhã inteiro fazendo suspense sobre a nossa decisão, inventando respostas vagas e mudando de assunto sempre que eles perguntavam. Era muito engraçado ver os dois ansiosos, tentando descobrir qualquer pista.
Só que os dois foram mais espertos. Enquanto eu ainda sustentava meu teatrinho, eles mandaram uma mensagem para Juh no WhatsApp perguntando diretamente se poderiam ir. Sem fazer ideia da minha brincadeira, ela respondeu que estava confirmado. E aí... Pronto! Os dois explodiram de felicidade e passaram o caminho inteiro até o colégio comemorando a viagem, enquanto eu ficava indignada por minha muié ter acabado com a minha diversão tão rápido.
Era o meu dia de folga, então passei o dia inteiro com meu neném e, ao fim da tarde, fui com ele buscar o restante da nossa família. Cheguei um pouquinho mais cedo e fiquei com ele no colo, esperando a mamãe e os irmãozinhos. Assim que ele viu Juh, já ficou todo animado, dando risada, e logo depois os meninos também nos viram e vieram correndo em nossa direção.
Mih o carregou e, em seguida, Lalá desceu a rampa junto com a mãe. Ela conseguiu dar um pequeno aceno para mim e eu sorri disfarçadamente para ela.
— Mãe, não quero mais ir ao aniversário. — Milena disse.
— Oxe, por quê? Você estava tão feliz. — Questionei.
— Se eu for, Lalá não vai poder ir e ela já não sai tanto. — Minha filha explicou.
— E agora Mih quer me obrigar a ir sozinho. Eu não vou! — Kaká exclamou, cruzando os braços igualzinho a Juh na noite passada.
— Você não pode obrigar seu irmão a nada. E você, mocinho, pode ir, se quiser. — Comentei.
— Mas eu não quero ir sem Mih, não. — Meu filho se explicou.
— Não é justo você não ir se divertir só porque eu decidi não ir. — Ela falou.
— Eu não vou me divertir se você não estiver lá comigo. — Kaká disse.
E Juh chegou com um sorrisão onde nós estávamos, me deu um beijo e Ninho se jogou no colo dela, já procurando o pepê.
— Você está com saudade? Está? Eu estou morrendo de saudade. — Júlia falou, enchendo-o de beijos, e entramos no carro.
Kaká e Mih seguiam discutindo sobre a ida ao aniversário do amigo.
— Já soube da novidade, não é, amor? — Minha gatinha me perguntou.
— Acabaram de me contar... Que triste... — Respondi.
— Olha aqui o que estão falando no grupo. Não vai ter um pula-pula nessa festa. É só coisa de balada e música. Isso nem combina com hotel-fazenda. Eu não quero ir! — Ouvi meu filho reclamar.
Não consegui conter minha risada diante da revolta dele.
— Se for por isso, tudo bem. — Milena respondeu.
— É festa para namorar. Você deveria ir escondido. — Kaique brincou.
— E complicar mais ainda a vida de Lalá quando a mãe dela descobrir? — Mih rebateu.
— Fico triste com essa situação, porém, mais uma vez, orgulhosa pela sua decisão de não querer prejudicá-la de alguma forma. — Disse para Milena, que deixou escapar um sorrisinho.
— A gente faz algo divertido no dia, prometo. — Juh disse, e os dois se animaram.
Estava tudo indo tranquilo. Apesar daquele acontecimento chato, seguimos para casa e, quando cheguei, fui direto para o banho. Ouvi meu celular tocar, mas não me importei. Sabia que Juh ia atender ou, qualquer coisa, depois eu retornava.
Estava tentando não me pressionar em relação ao trabalho. Já que era o meu dia de folga, nada mais justo do que eu realmente me dar uma folga.
Saí do banho leve, com a mente relaxada, pensando em sugerir uma saidinha para a gente curtir um pouco aquela noite. Ainda enrolava a toalha na cintura quando virei para o quarto e vi Júlia parada no centro, segurando o celular com as duas mãos, um sorrisinho estampado no rosto e os olhos brilhando, cheios de emoção.
— O que foi, amor? — Perguntei, inclinando a cabeça, sem entender o que estava acontecendo.
Em vez de responder, Juh me puxou pelo braço e me envolveu em um abraço apertado. Ficamos alguns segundos em silêncio, sentindo a respiração uma da outra, até que ela finalmente falou com a voz trêmula:
— O juiz emitiu a ordem, amor. A advogada ligou para avisar. Qualquer cartório agora é obrigado a registrar Ninho no seu nome também.
Tudo isso foi necessário porque a inseminação havia sido caseira e exigia esse detalhe burocrático chato. Como ela não havia sido realizada em uma clínica, com acompanhamento formal, o cartório só reconhecia a maternidade da mulher que gestou.
Assim que confirmamos a gravidez, já juntamos toda a documentação possível: as provas do planejamento familiar, a certidão do nosso casamento e o termo assinado pelo doador, declarando que estava apenas cedendo o material genético e abrindo mão de qualquer vínculo ou responsabilidade. Mas a vida, como sempre, gostava de nos surpreender. Dom nasceu prematuro, antes mesmo de conseguirmos finalizar o processo judicial e, por isso, precisou ser registrado provisoriamente apenas no nome de Júlia. Agora, com a ordem judicial em mãos, aquele peso que carregávamos havia meses finalmente começava a se desfazer.
— Sério??? — Perguntei em um tom de voz alto, arregalando os olhos e apertando-a com força.
— Sim!!! Acabou a espera. Agora todo mundo vai reconhecer o que a gente sempre soube. — Ela disse, depositando muitos beijinhos em mim.
— Sou sua mãe no papel também, neném. Vou te colocar no meu nome. — Brinquei com ele, que estava deitado no meio da cama.
Dom deu um gritinho e se esticou todo.
— É, meu amorzinho. Vem cá. — Falei, pegando-o no colo.
— A gente precisa ter cuidado para contar para Mih. — Juh lembrou.
— É verdade... — Comentei, pensativa, enchendo meu neneco de beijinhos.
Saímos para jantar e escolhemos uma churrascaria de que gostávamos. Fomos os cinco aproveitar a noite. Assim que chegamos, Juh percebeu que Dom precisava trocar a fralda e foi com ele até o banheiro, enquanto eu, Kaique e Milena aguardávamos a mesa.
Foi nesse meio-tempo que Kaká se inclinou discretamente na minha direção.
— Mãe, a senhora conhece aquela moça? Ela chegou agora e está olhando para a senhora. — Ele questionou, apontando com o queixo.
Olhei de relance na direção indicada e realmente havia uma mulher olhando para onde eu estava.
— Não conheço, não. — Respondi.
— Talvez ela conheça a senhora. — Mih comentou.
— Eu vou dar tchau para ela ver que a gente percebeu. — Kaique anunciou, levantando a mão.
— Menino, não... — Tentei impedir, mas abaixei a cabeça na mesma hora, porque já era tarde demais.
Meu filho já estava acenando todo sorridente, e Milena caiu na gargalhada. Eu também acabei rindo, tentando disfarçar o constrangimento.
— Ela sorriu de volta! — Ele respondeu, todo satisfeito.
Poucos instantes depois, Juh apareceu carregando Dom, que já vinha todo cheiroso e com outra roupinha. Assim que ela chegou perto da mesa e o colocou na cadeirinha, puxei minha gatinha pela cintura e dei um beijão, pegando-a completamente de surpresa.
— Amoooor... — Júlia reclamou entre risos, segurando meu rosto para interromper o beijo. — O que foi isso?
— Ela parou de olhar agora? — Perguntei, fitando Kaique e Milena.
Os dois confirmaram imediatamente, comemorando.
— Parou! — Kaká exclamou.
— Funcionou! — Mih falou, batendo palmas.
— O que foi? — Juh perguntou, franzindo a testa, completamente perdida.
— Tinha uma mulher olhando para minha mãe fazia um tempão. Aí ela resolveu beijar a senhora... — Kaique explicou, achando o máximo.
— Foi tipo assim: "Eu tenho donaaaaaa!" — Disse Milena, rindo.
Júlia me olhou por alguns segundos e depois começou a rir também.
— Você é impossível, amor. — Minha gatinha disse.
— Funcionou ou não funcionou? — Perguntei.
— Funcionou!!! — Milena respondeu antes dela.
— Era olhar de flerte? — Júlia questionou.
— Não sei. Contudo, o que importa é que ela parou de olhar. — Falei e roubei um beijinho de Juh.
— Parecia flerte. — Mih comentou, com o copo de refrigerante na boca.
— Se foi, ela só não sabia que a mamãe de vocês é dona do meu coração. Aí eu mostrei. E, se não foi... Acho que demos um susto nela com um beijo gostoso desse bem aqui. — Brinquei, e eles riram.
— Para mim, foi uma aula gratuita de como não brigar por ciúme. — Milena falou, rindo e também nos fazendo rir.
— Está vendo? Economia de estresse. Um beijo resolve muito mais do que uma discussão. — Brinquei, piscando para Juh.
Minha gatinha apenas balançou a cabeça, sorrindo de um jeitinho apaixonante, e eu roubei mais um beijinho enquanto sentia a mão dela se entrelaçar à minha.
O restante da noite foi leve, exatamente do jeito que a gente precisava. Kaique e Milena pareciam ter decidido compensar todas as calorias gastas durante a semana e, se nós deixássemos, cada um teria comido um boi inteiro. Dom estava bem mais quietinho porque o horário de dormir já estava chegando. Meu neném alternava entre uma mamadinha e um bocejo, até que acabou vencido pelo sono e adormeceu tranquilamente no colo de Juh.
Na saída, resolvemos sentar um pouco na orla para aproveitar o ventinho antes de voltar para casa. Milena ficou encaixada entre as pernas de Juh, Kaique entre as minhas e Dom dormia profundamente entre os dois.
— Tenho uma novidade para contar. — Comecei, quebrando o silêncio.
Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo.
— Que novidade? — Kaique perguntou.
— O juiz autorizou, agora o cartório vai poder colocar a dupla maternidade. Oficialmente, Ninho vai ter o nome das duas mães na certidão. — Contei.
Juh nem esperou a reação deles. Abraçou Milena com força, como se já soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer, enquanto eu passeava os dedos pelos cabelos de Kaique, fazendo um cafuné.
Milena abriu um sorrisinho tão convincente que, por um instante, achei que ela fosse reagir somente daquela maneira. Porém, logo em seguida, os olhinhos dela começaram a marejar.
— Um dia vai ser minha vez de ter o nome da mamãe, não é? — Ela perguntou baixinho, enxugando as lágrimas que já caíam.
Meu coração apertou tanto naquele momento...
— Não tenho dúvidas. Um dia vai. — Juh respondeu com toda a certeza do mundo, apertando-a ainda mais contra o peito.
— Eu estou chorando porque também queria... Mas eu estou feliz, tá? Muito feliz mesmo. — Mih falou.
— A gente sabe, meu amor, e também entende exatamente por que isso mexe tanto com você. — Disse, esticando-me toda para fazer carinho nela.
— Quando acontecer, eu é que vou chorar. — Kaká disse, apertando a mão dela, e Milena deu uma risadinha entre as lágrimas.
Naquela hora, enquanto fazia carinho em Milena e via as lágrimas escorrendo silenciosamente pelo rostinho dela, senti de novo aquela impotência que me acompanhava havia anos. Talvez uma das piores partes da maternidade seja justamente quando existe uma dor que você sabe exatamente como resolver, mas a solução não depende de você. Dependia de outra pessoa, da boa vontade, da sensibilidade e da capacidade de enxergar o que, para mim, era tão óbvio. Era difícil assistir à minha filha carregando um vazio que nunca deveria ter existido e perceber que, do outro lado, em vez de colaboração, muitas vezes havia resistência.
Ainda assim, em meio a toda aquela frustração, eu encontrava um enorme motivo para me orgulhar. Milena crescia sem permitir que as mágoas da sua caminhada endurecessem o coração dela. Continuava sendo uma menina doce, justa e, acima de tudo, empática.
Naquela noite, mesmo desejando ter o sobrenome de Juh tanto quanto desejava qualquer outra coisa, ela conseguiu colocar a felicidade pelo irmão acima da própria tristeza. E aquele nem tinha sido o primeiro gesto de amor dela naquele dia. Horas antes, também havia aberto mão de ir ao aniversário que tanto queria para que Lalá pudesse aproveitar a viagem com os amigos, sem correr o risco de ser prejudicada depois. Aquilo dizia muito sobre quem minha filha estava se tornando. Milena estava crescendo diante dos meus olhos e me fazendo perceber que era o tipo de pessoa que colocava o bem de quem amava acima das próprias vontades, mesmo quando isso doía. E, sinceramente, eu não poderia me orgulhar mais dela.
Quando chegamos em casa, ninguém estava com a menor vontade de encerrar um dia que tinha sido tão especial. Espalhamos colchões pela sala, esticamos lençóis, formando um acampadentro improvisado, e transformamos tudo em uma grande bagunça organizada. Dom mamou mais uma vez e voltou a dormir rapidinho, enquanto Kaique e Milena ficaram conversando e rindo deitados ao nosso lado. No fim das contas, acabamos adormecendo todos ali mesmo, amontoados, quentinhos e do jeitinho que a gente mais gostava: Juntinhos!
