Dia Ruim

Um conto erótico de Lore <3
Categoria: Lésbicas
Contém 5020 palavras
Data: 07/06/2026 20:27:17
Assuntos: Lésbicas

Minha cabeça parecia prestes a explodir quando finalmente atravessei a porta depois daquele longo e brutal dia de trabalho. A noite já havia caído fazia tempo, e a única coisa que eu queria era desaparecer no sofá da sala. E fiz isso sem cerimônia, jogando meu corpo exausto sobre o estofado onde Júlia estava sentada e apoiando a cabeça no colo dela, deixando escapar um gemido baixo.

Loren e Lorenzo ocupavam poltronas próximas, enquanto Milena e Kaique corriam pelo quintal, brincando com os priminhos Alice e Tiago, que riam em algum canto distante da casa. Senti os dedos de Juh entrando em meu cabelo, fazendo carinho, mas o momento de paz durou pouco. Loren e Lorenzo trocaram olhares e começaram a me zoar, dizendo que eu estava fazendo corpo mole para ganhar atenção da minha gatinha.

— O que foi, amor? — Júlia se preocupou, inclinando-se sobre mim e me dando um beijinho.

— Dor de cabeça... — Falei, pondo as mãos nas têmporas em uma tentativa vã de segurar a pressão que pulsava por trás dos olhos.

— Coitadinha delaaaa... — Meu irmão debochou.

— Pare com isso e vá pegar um remedinho para ela ali. — Juh falou, rindo, e apontou para o balcão.

— Toooooma, irmãzinha. — Ele continuou brincando e colocou o comprimido na minha boca.

Eu estava ali, à mercê dos carinhos da minha mulher e com Dom visivelmente bem no colo da titia, mas foi só o menino notar a minha presença que começou a espernear desesperadamente e a se contorcer em um pedido indescritível de atenção. Eu o peguei e o coloquei de pé sobre o meu ventre, e logo ele começou a subir e descer agitadamente com as perninhas, "pulando" em mim, enquanto ria com a carinha de quem tinha conquistado o mundo.

— Aí o que ele gosta, olha. — Juh disse.

— Meu Deus, a mesma energia... — Loren comentou, rindo.

— Tá com saudade da mamãe??? — Perguntei.

— Estamos todos com saudade, tá?! — Júlia esclareceu.

Ninho estava com cinco meses e atravessando uma regressão de sono daquelas. Parecia incapaz de entrar em um sono realmente profundo; qualquer barulho, movimento ou mudança no ambiente era suficiente para acordá-lo. Como consequência, passava boa parte dos dias irritado, cansado e choroso. Momentos como aquele, em que estava disposto a brincar, rir e gastar energia de forma leve, tinham se tornado raros e geralmente duravam pouco.

Não foi diferente dessa vez. Depois de alguns minutos pulando sobre mim e distribuindo sorrisos para todo mundo, o rostinho começou a se fechar em uma careta de insatisfação e logo ele abriu o berreiro, esticando os braços para Juh, que o acolheu no peito quase imediatamente.

Eu já tinha voltado à rotina normal de trabalho havia algum tempo, mas ainda estávamos nos adaptando a essa nova fase. A saudade era o que mais pesava. Eu tinha ficado mal-acostumada e sentia falta deles durante o dia. Dom também sentia a minha ausência, porque assim que eu chegava vinha direto para os meus braços e, pelo visto, o restante da família também, porque só falavam disso. Era como se todos nós ainda estivéssemos aprendendo a lidar com as horas que voltaram a ser passadas separados, porém estávamos tentando fazer isso da melhor maneira.

— Vou tomar um banho para ver se relaxo um pouco e volto. — Falei e saí.

A verdade é que eu já estava no meu limite. A dor de cabeça não era daquelas incômodas que a gente consegue ignorar. Era forte, latejante, pulsando na lateral esquerda da cabeça e atrás dos olhos a cada batida do coração. Parecia que alguém tinha decidido apertar minha cabeça entre duas paredes e deixá-la ali. Eu mal conseguia acompanhar as conversas da sala sem sentir a pressão aumentar.

O banho não ajudou muito. Fiquei alguns minutos debaixo da água quente, deixando-a escorrer pelos ombros e pela nuca, tentando relaxar a musculatura que estava completamente tensa. Não fez milagre, mas pelo menos diminuiu a sensação de que meu cérebro estava tentando abandonar meu crânio.

Quando saí do banheiro e vesti uma roupa confortável, acabei secando os cabelos com a toalha mesmo. Encontrei Tiago vindo pelo corredor em meio a um choro sentido, com o rostinho todo vermelho, os olhinhos cheios de lágrimas e os bracinhos erguidos, pedindo que eu o carregasse.

Me abaixei e o coloquei no colo, apoiando-o contra o meu peito enquanto fazia carinho em suas costas. Foi então que Loren apareceu logo atrás dele.

— Titia. — Meu sobrinho repetia enquanto me agarrava cada vez mais forte.

— Oi, meu amor, titia está aqui. — Respondi, sem entender, tentando acalmá-lo.

— Ele não quer ir embora, mas mamãe tem que ir. Outro dia você volta. Vem, Ti! — Minha irmã tentou, depositando vários beijinhos nele.

— Deixa eles aqui brincando. Depois os meninos levam. — Falei.

— Você está morrendo de dor de cabeça e Dom está precisando de Juh. Não é uma boa ideia. — Ela disse, chamando-o.

— Dá tchau para a mamãe, titio. — Falei, secando o rostinho dele enquanto meu sobrinho acenava.

— Titia está dodói, vem, Tiago. — Loren tentou tirá-lo do meu colo e ele virou as costas, me abraçando.

— Deixa ele brincar com os priminhos dele, deixa... Tá tudo sob controle... — Reforcei o pedido.

— Engraçado que ele sabe muito bem para quem correr. — Minha irmã disse.

— Sabe direitinho que titia salva ele. — Comentei, enchendo o pescoço dele de beijo, e o danado começou a rir.

Assim que o coloquei no chão, ele correu para o corredor e Milena o carregou para descer e continuar brincando.

Me joguei na cama e fechei os olhos. Aquela dor de cabeça realmente estava diferente.

— Por que não vai ao médico? — Minha irmã questionou.

— Se continuar assim, prometo que vou. — Falei logo, para ela não insistir tanto.

Alguns minutos após Loren sair, Júlia entrou no quarto com Dom e colocou uma compressa fria na minha cabeça.

— Fiz um chá que estava no livrinho da minha sogra. — Ela disse em um tom de voz doce e deitou ao meu lado.

— Obrigada, amorzinho. — Agradeci, tocando na mão dela.

— Espera esfriar, bebe e dorme um pouquinho. As crianças estão brincando e depois Mih e Kaká levam eles para casa, tá? — Juh sussurrou, tocando em meu rosto e me dando um beijinho de leve.

— Sem você, eu não seria nada. — Falei, fazendo carinho nela, já ouvindo Dom resmungar.

Júlia apagou a luz do abajur que eu havia deixado acesa. Eu coloquei o celular para despertar no horário em que revezava com ela para dar colo ao neném e fui dormir.

Acordei somente com o despertador...

Mas no dia seguinte.

Juh havia desativado o da madrugada para eu poder descansar e já estava de pé com nosso gurizinho, que estava até com os olhinhos vermelhos e, mesmo assim, lutava contra o sono.

— Você está melhor, amor? Eu trouxe cafezinho, olha. — Minha gatinha falou toda carinhosa.

— Melhorei um pouquinho, amor. — Respondi, cheirando o pescoço dela.

— Estava com saudade de cuidar de você, mas não queria que você ficasse dodói. — Ela disse, fazendo um suave cafuné.

A minha cabeça não tinha parado de doer. Amenizou com o descanso, até porque a privação de sono estava nos enlouquecendo, porém, mesmo depois de dormir por bastante tempo, ela seguia ali, sinalizando que não havia ido embora.

— Você não deveria ir trabalhar. — Juh disse quando saí do banho.

— Preciso ir, tenho muita coisa para fazer. — Respondi e dei um selinho nela.

— Vai ver que é por isso que sua cabeça está explodindo assim. — Ela me falou, nada satisfeita.

— Amor, eu acabei de voltar... Pera lá também, não é?! — Disse-lhe, sem muita paciência.

— Eu sei que você desacelerou por nossa família e valorizo isso, mas você não acha que se doa demais, além dos limites normais? É bonito o seu amor pela profissão e tudo o que você faz, as vidas que toca e os resultados positivos, só que... Tem te desgastado muito... — Júlia rebateu.

— Juh, eu preciso trabalhar e não vou ficar em casa porque estou com uma dor de cabeça... Principalmente porque retornei recentemente! — Exclamei.

O clima entre a gente não ficou bom depois disso. Ela saiu do quarto e eu segui me arrumando, e a cada segundo que passava a dor mostrava que não estava para brincadeira.

Antes de sair, fui dar um beijo em Dom e pedi desculpas pela maneira como falei. Eu conheço minha gatinha e sabia que ela ainda estava chateada, então fiquei roubando selinhos até ela não resistir e dar uma risadinha.

— Teimosa! — Juh exclamou.

— Eu também te amo. — Falei e dei um beijo mais demorado.

Me despedi de Erica e Marcela, que já tinham chegado, e saí para levar Milena e Kaique para o colégio.

— Mãe, o pai do meu colega tem uma construtora e o meu amigo disse que é muito legal ficar vendo as máquinas trabalhando. Ele me chamou para ir lá depois da aula. Eu posso? — Kaká pediu.

— Que amigo é esse? Falou com a mamãe antes? — Questionei.

— A mamãe conhece e disse que eu só precisava falar com a senhora. — Meu filho respondeu, animado.

— Só não vá subir nessas máquinas, viu?! — Aconselhei, e ele acenou positivamente, sorrindo.

— Não gosto desse colega. — Mih comentou.

— Por quê? — Perguntei.

— Ele nunca me fez nada... Mas não sei, meu santo não bate com o dele... — Minha filha concluiu.

Apesar de Milena sentir ciúme apenas de Juh, naquele momento imaginei que fosse algo do tipo, já que ambos estavam se aventurando em coisas diferentes. Kaique em brincadeiras e jogos com os amigos e Mih com Lalá e as amigas.

Os deixei no colégio e fui para a Filial. Porém, não demorei muito tempo por lá. Mais ou menos uns quinze minutos depois precisei me dirigir ao prédio ao lado, onde fui atendida e me passaram uma medicação intravenosa mais forte. Só assim me senti bem de verdade e pude retornar ao trabalho.

Recebi uma ligação da minha secretária informando que minha viagem para o Rio de Janeiro havia sido marcada para a semana seguinte e somente nesse momento lembrei que voltaria com as formações presenciais em outro estado.

— Puta que pariu... — Deixei escapar.

— Quer que eu tente adiar? — Ela me questionou.

— Não... Já adiamos demais, pode confirmar... — Respondi, bem desanimada.

— Ok! Agora a semana está cheia, fechamos. — Ela falou, alegre.

E eu só conseguia pensar em como Júlia iria reagir a essa novidade, em como eu lidaria com o fator distância da família, mesmo que por pouco tempo e, principalmente... Se já estava sendo puxado para nós duas, imagina para minha gatinha sozinha?!

O dia transcorreu normalmente e, quando fui buscar Mih na escola, encontrei Iury e ficamos conversando. Ele disse que no final de semana iria lá para casa e combinamos de fazer um churrasquinho para conversar, porque ele tinha uma fofoca espetacular para contar. Eu achei muita sacanagem ele soltar esse spoiler e me deixar curiosa até o final de semana. Logo o transporte dele chegou e a gente se despediu.

O sinal do segmento dos meus filhotes tocou e Kaká veio correndo me dar um beijo antes de partir com os amigos. Eu não sei se é comum observar maquinário e achei um hobby estranhíssimo, porém não queria julgar. Adolescentes fazem coisas estranhas o tempo todo mesmo. Faz parte da fase e serve para zoar a estética anos depois, então não liguei muito.

Milena veio mais caladinha e, até entrarmos no carro, achei que era por conta da saída do irmão com os colegas. Contudo, não era bem isso.

— Mãe... Lalá e eu... Não tem mais, acabou tudo... — Ela disse, desabando em choro.

— Oh, amor... Como assim? O que aconteceu? — Perguntei, sem nem conseguir tirar o carro do lugar.

— A mãe dela descobriu e quer transferir ela de escola para a gente não se ver nunca mais. — Milena respondeu em prantos.

Abri os braços sem ter o que dizer e ela veio. Puxei minha neném para o meu colo e a abracei bem forte, deixando que colocasse para fora toda aquela tristeza. Milena chorava silenciosamente, o que me destruía por dentro. Não era birra, não era raiva... Era coração partido mesmo, por não poder viver a tranquilidade do amor que sentia.

Ela se agarrou à minha blusa e escondeu o rosto em meu pescoço, enquanto as lágrimas escorriam sem parar.

Fechei os olhos por um instante porque a notícia realmente me pegou desprevenida e senti um aperto enorme no peito. Minha filha estava vivendo a primeira grande decepção amorosa da vida dela e não existia remédio para aquilo. Não havia conversa capaz de apagar a dor imediatamente, nem solução simples que eu pudesse oferecer.

Eu podia resolver muita coisa, encontrar respostas para problemas complicados, ajudar pessoas e me deparar com diferentes situações todos os dias, mas aquilo... Aquilo era uma daquelas situações em que tudo o que restava era estar presente.

Fiquei fazendo carinho nos cabelos dela enquanto o choro diminuía aos poucos.

— Ela disse que não quer terminar... — Milena soluçou. — A gente não quer...

Eu acreditava nela porque conheci Lalá, conheci o carinho que existia entre as duas e sabia que aquilo não tinha acontecido porque elas deixaram de gostar uma da outra. E, claro, conheço minha filha. Ela estava toda apaixonadinha.

— Eu sei, meu amor... Eu sei... — Respondi baixinho.

Ela voltou a chorar e eu apenas a apertei contra mim.

Às vezes os filhos não precisam que a gente diga alguma coisa brilhante. Precisam apenas ter um lugar seguro para desabar e, naquele momento, tudo o que eu podia fazer era ser esse lugar para minha menina.

No caminho, comprei uma água de coco para ela ir se acalmando e Mih foi tomando até chegarmos em casa.

Perguntei por Juh e Marcela me disse que ela havia dado uma saidinha com Dom porque ele estava muito inquieto. Subi com Milena e ela foi direto para o banho. Fiz o mesmo rapidamente e voltei ao quarto dela para esperá-la.

— Você quer conversar comigo? — Perguntei, e ela negou com a cabeça.

Sentou no meu colo e apoiou a cabeça sobre o meu peito.

— Com a mamãe? Ela já deve estar chegando. — Falei.

— Depois eu converso com a mamãe e com Kaká. — Milena respondeu.

— Kaká não sabe? — Me surpreendi.

Geralmente ele é o primeiro a saber dos acontecimentos que se referem à Mih.

— Ele estava animado para sair, não quis estragar... Ele ia querer desmarcar para ficar comigo. — Milena respondeu.

— Entendi... O que quer fazer? — Quis saber.

— Dormir para ver se passa... Eu sei que não vai passar, mas quero tentar mesmo assim... — Mih falou e se jogou na cama.

Deitei junto com ela e comecei a fazer carinho em seu cabelinho, cheirando sua pele e enchendo-a de beijos.

— Eu te amo, tá? Isso que você está sentindo é horrível. Nós vamos conversar direitinho e, com o tempo, tudo vai voltar ao seu lugar... — Disse-lhe e novamente, Milena se agarrou a mim.

Desse mesmo jeito ela pegou no sono. Permaneci ali por alguns minutos, observando seu rostinho agora tranquilo. O choro havia deixado os olhos inchados e algumas marcas avermelhadas nas bochechas, mas pelo menos ela estava descansando. Com cuidado, afastei uma mecha de cabelo que havia grudado em seu rosto e continuei fazendo carinho devagar.

Aquilo me fez pensar que Milena ainda era minha menininha. Ainda vinha procurar colo quando o mundo desabava sobre sua cabeça, ainda queria abraço, cafuné e companhia quando algo doía. Mas estava crescendo mesmo... Os problemas dela já não eram mais aqueles de quando era pequena. Eu não estava consolando um joelho ralado ou uma briga por brinquedos; ela estava descobrindo que, às vezes, amar alguém não era suficiente para impedir que as coisas dessem errado.

Do nada, ouvi meu celular tocar, rompendo o silêncio do quarto. Tomei cuidado para não acordá-la enquanto alcançava o aparelho sobre a mesinha de cabeceira. Era Kaique. Estranhei pelo pouco tempo que ele estava lá, então atendi quase imediatamente.

— Oi, filho. Aconteceu alguma coisa? — Perguntei.

Do outro lado, a voz dele saiu mais baixa e desanimada do que o normal.

— Mãe... A senhora pode vir me buscar?

Fui saindo do quarto de Mih na mesma hora.

— Posso, claro. O que houve? — Questionei.

— Nada demais... Só queria ir para casa... — Ele respondeu.

Aquilo não me convenceu nem um pouco. Kaique é transparente demais para eu não perceber quando alguma coisa está errada.

— Estou indo, tá bom? — Garanti.

— Tá... Obrigado, mãe... — Ele agradeceu.

A ligação terminou e fiquei alguns segundos encarando a tela apagada do celular. Primeiro Milena chegando aos pedaços por causa de Lalá e agora Kaique querendo voltar para casa antes da hora. Alguma coisa me dizia que aquele dia ainda não tinha terminado de me testar.

Saí de casa avoada para buscar meu menino e não demorei para chegar ao endereço que Kaique havia me passado. Assim que estacionei, bati o olho nele sentado sobre um muro baixo próximo à entrada da obra. Meu filho estava cabisbaixo, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido em algum ponto do chão. Ao seu lado estava o pai do colega, conversando com ele de tempos em tempos. Eu o conhecia. Já havíamos nos encontrado algumas vezes em eventos da escola.

Assim que me aproximei, ele se levantou e me cumprimentou educadamente. Retribuí o cumprimento, mas mal tive tempo de dizer qualquer coisa. Kaique me viu e veio direto em minha direção, me abraçando com força. Passei um braço por seus ombros e o mantive perto de mim enquanto conversava brevemente com o homem. Ele comentou que acreditava ser apenas saudade, porque Kaká estava se divertindo e, de repente, ficou mais quieto. Depois de algum tempo, avisou que havia me ligado.

Assenti, mas não estava convencida. Saudade podia até fazer parte da história, mas não era só isso. Havia algo a mais por trás daquele semblante abatido, daquele abraço apertado e daquele pedido inesperado para ir embora tão cedo.

Depois de mais alguns minutos de conversa, nos despedimos. Kaique permaneceu ao meu lado o tempo inteiro, quieto, e seguiu comigo até o carro sem dizer uma única palavra.

— Que foi, nego? — Perguntei quando saímos.

— Estava chato... — Ele respondeu em tom baixo, encarando o chão.

— Te machucaram? Fizeram alguma coisa com você? Eu fico preocupada... — Tentei.

Meu filho deu um longo suspiro.

Eu não queria demorar muito para não correr o risco de Milena acordar enquanto eu e Juh estivéssemos fora. Ainda assim, quando chegamos ao nosso bairro, estacionei o carro e descemos por uma pequena rampa que levava à praia. Caminhei até a areia e me sentei de frente para o mar. Kaique fez o mesmo ao meu lado, sem questionar.

Por alguns segundos, ele permaneceu olhando para o horizonte, acompanhando o movimento das ondas. Então virou o rosto na minha direção e os olhos já estavam marejados, brilhando sob a luz fraca do fim de tarde. Meu coração apertou imediatamente. Eu estava prestes a puxá-lo para um abraço quando ele tomou a iniciativa e se aproximou, sentando no meu colo de frente para mim. Enterrou o rosto na minha blusa, agarrando-se ao tecido como se estivesse tentando encontrar ali um lugar seguro para desabafar.

Parecia um déjà vu. O dia não estava sendo gentil com meus filhos e a impotência de não poder fazer nada para mudar o resultado da equação acabava comigo...

— Eles começaram dizendo que não acreditavam que eu tinha ido e o colega que me convidou falou que não parecia, mas eu era homem... Ficaram o tempo todo rindo de mim e me chamando no feminino... No começo eu até respondi, rebatendo que o significado de homem para eles e para mim era diferente e que eu não fazia um pingo de questão de parecer com o deles, mas... Mãe, eles estavam em maior quantidade e não paravam de repetir as mesmas coisas... — Kaká contou, enquanto eu fazia carinho nele.

Senti meu maxilar travar na mesma hora.

Não por surpresa. Infelizmente, a gente ouve histórias assim demais ao longo da vida.

Continuei fazendo carinho em suas costas, respirando fundo antes de responder qualquer coisa. A última coisa que Kaique precisava era carregar a minha revolta junto com a dor dele.

— Ei... Olha para mim um pouquinho — Pedi e esperei até que ele erguesse o rosto.

— Primeiro, eu quero que você entenda uma coisa muito importante. Nada do que aconteceu hoje diz alguma coisa sobre você. Diz sobre eles! — Falei, passando o polegar sob seus olhos para secar algumas lágrimas.

— Pessoas seguras de si não precisam passar horas tentando convencer alguém de que ela está errada por existir. Pessoas seguras não precisam humilhar, ridicularizar ou atacar os outros para se sentirem fortes... Eu trabalho com gente de todos os tipos, todos os dias, filho... E existe uma coisa que aprendi há muito tempo: quando um grupo escolhe uma pessoa para perseguir, raramente é porque aquela pessoa fez algo errado... Geralmente é porque ela representa alguma coisa que eles não entendem, não aceitam ou não têm coragem de ser — Continuei falando.

— Mas eu não estava fazendo nada... — Kaká disse.

— Eu sei que não estava e é exatamente por isso que estou tão orgulhosa de você... Porque você tentou dialogar, tentou responder sem agressividade, tentou explicar seu ponto de vista. Você não partiu para a violência, não ofendeu ninguém e nem se transformou em algo que não é para ser aceito por aquele grupo... Só que existe uma coisa que às vezes demora para a gente aprender... Nem toda conversa é uma conversa de verdade! Quando alguém decide zombar de você, não está buscando compreensão, está buscando plateia... — Segui minha linha de raciocínio.

— E sabe por que eles repetiam as mesmas coisas o tempo todo? — Perguntei.

Kaique negou com a cabeça.

— Porque o objetivo nunca foi discutir, e sim desgastar você emocionalmente. Em situações de bullying, existe algo que a gente observa com frequência, que é essa repetição chata... A repetição cansa, isola, faz a pessoa começar a duvidar de si mesma e dá ao grupo uma falsa sensação de poder... Eles não estavam tentando descobrir quem você é, estavam tentando decidir quem você deveria ser. E isso NINGUÉM tem o direito de fazer! — Disse-lhe, passando a mão em seus cabelos.

— Mãe... Eu fiquei me sentindo estranho... — Kaique falou.

— Claro que ficou, meu filho... Você foi colocado numa situação hostil. Seu cérebro interpretou aquilo como uma ameaça... Tristeza, vergonha, vontade de ir embora, vontade de chorar... Tudo isso é uma resposta humana e de forma alguma significa fraqueza — Respondi.

Aproximei minha testa da dele.

— Escuta bem o que eu vou te dizer agora porque isso é importante... Coragem não é não se machucar, não é não sentir medo. Pelo contrário, é continuar sendo quem você é mesmo depois de se machucar... E você foi muito corajoso, tomou todas as situações de maneira sensata, de um jeito que eu, na sua idade, talvez nem soubesse lidar direito — Complementei.

Ele fechou os olhos por alguns segundos e eu dei um beijo em sua testa.

— Você não precisa permanecer em lugares que te diminuem para provar absolutamente nada para ninguém — Falei.

— Eles não são meus amigos — Kaique falou, como se somente naquele momento a ficha tivesse caído.

— Não são, amor... — Confirmei.

— É tão difícil fazer amigos de verdade... — Ele refletiu, tristonho.

— Filho, existem pessoas que vão gostar de você exatamente do jeito que você é. Existem pessoas que vão respeitar você, que vão rir com você, não de você. E eu prefiro mil vezes que você continue sendo esse menino gentil, sensível e inteligente do que se transforme em alguém cruel só para ser aceito por um grupo, porque o mundo já tem gente demais tentando parecer forte... Pessoas como você, que têm coragem de ser quem são, são muito mais raras! — Finalizei, e ele esboçou um sorrisinho.

Dei um beijão na bochecha dele, depois mais um e mais outro, até que engatei uma sequência de vários beijinhos no pescoço, fazendo-o gargalhar enquanto eu fazia cócegas.

— Homão da porra toda, rapaz — Brinquei, voltando a beijá-lo.

— Eu sou o quê? — Kaká perguntou, rindo.

— HOMÃO DA PORRA TODA!!!! — Repeti em voz alta.

Ele esticou o pescoço e eu voltei à sequência de beijinhos até notar que ele estava gravando.

— E meu neném também — Completei, rindo, e ele percebeu que eu já tinha visto.

— Só seu e da mamãe — Kaique disse e ergueu o celular, me dando um beijo também.

Comecei a ficar preocupada com Milena. Eu não queria correr o risco de ela acordar enquanto eu e Juh estivéssemos fora de casa. Liguei para Erica e perguntei se estava tudo bem. Ela foi até o quarto conferir e voltou dizendo que Mih continuava dormindo profundamente, exatamente como eu a havia deixado. Também aproveitei para perguntar se Júlia já tinha chegado com Dom, e Erica respondeu que não.

Estranhei um pouco. Não era nada absurdo. Juh às vezes prolongava os passeios quando Ninho estava muito agitado, mas ela nunca havia se estendido tanto.

— Vamos? — Propus ao meu gatinho.

— Eu posso dar um mergulho antes? — Ele quis saber.

— Um mergulho bem rápido, não demore — Pedi.

Ele foi correndo em direção ao mar.

Quando já estava próximo, parou, pegou algo no chão e retornou com um sorrisão no rosto.

— MÃE, OLHA QUE CONCHA LINDA! — Kaique exclamou, animado.

E era muito bonita mesmo. Tinha um tom rosinha, uns quinze centímetros e estava com as valvas unidas.

— Linda mesmo e muito bem preservada — Apreciei junto com ele.

— Vou levar para Mih! — Ele vibrou.

— Ela vai adorar — Comentei, achando a reação dele mais bonita do que a concha.

— Adorar? Ela vai pirar!!!! — Kaká rebateu, já se dirigindo ao carro.

— Ué, e o mergulho? — Perguntei, seguindo-o.

— Nem quero mais, vamos para casa!!! — Ele falou, todo entusiasmado.

— Ainda bem. Eu concordei, porém não queria que você molhasse o carro todo — Comemorei, e Kaká riu.

~ Eu sou entusiasta da filosofia de que, graças a Deus, as coisas são laváveis. Contudo, a gente tinha acabado de trocar de carro. Sofri só de imaginar 😭

Assim que cheguei em casa, outro carro parou ao meu lado e Júlia desceu dele. Estava com uma expressão brava e Dom acordadíssimo, com uma carinha de quem tinha acabado de parar de chorar.

— Posso saber onde você levou minha esposa, senhor? — Brinquei com Ninho.

— Ai, amor... Uma velha me irritou tanto falando que ele está pequeno para cinco meses e que ele não está tão desenvolvido, que eu fui andando, andando, andando e me perdi. Tive que pedir um Uber para voltar — Ela explicou.

Claro que essas comparações que ficam fazendo são extremamente desnecessárias e não há nada de engraçado nisso. Porém, Júlia com raiva é exageradamente cômica e saber que ela se perdeu de tanto andar me fez soltar uma risadinha junto com Kaique.

— Não dê ideia para esse povo, amor — Respondi.

— Elas chegam tão inofensivas e depois vão destilando veneno em forma de preocupação para eu ficar maluca. Não vou mais dizer a idade cronológica, somente a corrigida — Juh complementou.

E assim que pisamos na sala de estar, Ninho começou a choramingar.

— De novo... Não sei mais o que inventar para acalmá-lo... — Júlia lamentou, embalando-o.

— Eu vou tomar um banho. Deixa eu levar esse chorão também — Falei e o peguei.

— Cadê Mih? — Minha mulher quis saber.

— Dormindo... — Respondi, e ela já estranhou.

— E você... Não ia ver umas máquinas trabalhando? — Ela perguntou para Kaká.

— Máquinas, mãe... — Meu filho a corrigiu. — Não deu muito certo...

O choro de Dom estava cada vez mais forte e tomando o ambiente. Eu queria estar presente também na conversa deles para dar apoio, mas, se continuasse por ali, diálogo algum seria possível.

— Vou para o banho e vocês conversam... Mih também teve um dia péssimo — Informei.

Subimos juntos, com eles me questionando sobre o que tinha acontecido.

Os dois seguiram para o quarto de Milena e eu fui com Dom em direção ao chuveiro.

— Poxa, filho... Você tem que colaborar também... — Falei para ele.

Assim que a água começou a cair, ele se calou e ficou quietinho no meu peito.

— Será que eu vou ter que passar a noite inteira com você aqui? — Perguntei, como se Ninho fosse responder.

Quando saímos, vesti-o primeiro e depois fui fazer o mesmo comigo, enquanto ele já murmurava na cama.

— Você está limpinho, a cama está ok, alimentado, tem colinho o tempo todo... Só tem que dormir para passar esse estresse todo, vei — Disse-lhe, pegando-o no colo.

Os olhinhos dele já estavam quebradinhos de tanto sono e o moleque não se rendia.

Fui até o restante da família chamá-los para jantar e os três estavam deitados. Júlia no meio, com Kaique e Milena dentro dos braços dela. Fazia carinho nos cabelos dos dois e tinha lágrimas nos olhos.

— Foi um dia ruim para todo mundo hoje, mas vamos superar... Pelo menos temos uns aos outros para nos apoiar, desabar e superar tudo isso... Tudo no seu tempo... — Falei.

— Odeio não poder livrar vocês dessas dores — Juh disse, apertando o abraço.

Nesse momento, Ninho enfiou quase a mão inteira na boca e começou a rir muito, o que chamou nossa atenção. Sem perceber e por não entender de primeira, começamos a rir também.

E ele não parava. Olhava para a mão, colocava-a na boca novamente e depois se acabava na gargalhada.

— Habilidade nova desbloqueada — Falei, dando um beijão na testa dele.

— Agora ele dorme — Milena disse.

— Espero que sim — Juh falou, quase em uma prece.

Não satisfeito em se lambuzar, Dom enfiou a mão toda babada no meu rosto, o que foi suficiente para garantir a risada da plateia.

— Eu deveria dar um beijo em cada um agora — Brinquei, observando as caretas.

Jantamos. Milena ainda estava abatida, mas tanto ela quanto Kaique se divertiram brincando com o irmãozinho, que estava todo gaiato, mostrando que havia descoberto uma nova utilidade para sua ligeira mãozinha.

— Que dia puxado... — Juh sussurrou enquanto estávamos no sofá.

— Tem mais uma coisa... Semana que vem eu viajo por dois dias para o Rio — Falei logo.

— Eu vi... Chegou notificação na agenda... — Ela respondeu, triste.

— Vou tentar voltar antes e ligo para Dona Sônia ficar aqui também — Disse-lhe.

— Semana que vem a gente pensa nisso — Juh falou e roubou um beijinho.

Ficamos ali observando nossos filhotes interagindo entre si e quase dormimos. Ninho também estava caidinho e, assim que o colocamos no berço, o guri finalmente abaixou a guarda e mimiu.

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Foto de perfil de Lore Lore Contos: 182Seguidores: 52Seguindo: 5Mensagem Bem-vindos(as) ao meu cantinho especial, onde compartilho minha história de amor real e intensa! ❤️‍🔥

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Tem dias que parece que todos os babacas do mundo aparecem para tirar nossa paz.

Foi tanta coisa ruim junta que eu nem sei o que me deixou mais irritada: a mãe da Lala ou os "amigos" do Kaique. É muita ignorância acumulada.

O que aconteceu com a Juh é algo que já passei algumas vezes (por motivos diferentes); é muito chato e com certeza deixa a gente triste. Acho que, talvez por eu ser um pouco mais mal-educada e direta do que a Juh, mesmo triste com alguns comentários maldosos sobre meus filhos, sempre respondi à altura. Sim, sou bem ignorante quando mexem com os meus, ignorante e mal educada. rsrs

Foi realmente um dia muito ruim, mas o mais importante é que todos tinham alguém para se apoiar. Isso faz muita diferença, e na família de vocês, isso se destaca bastante. Vocês se unem e se apoiam o tempo todo, especialmente nos momentos mais difíceis.

Lore, você é uma rocha, que mulher incrível você é!

Muito bom, como sempre, Lore.

Parabéns, minha amiga querida!

🤗❤️😘

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Foto de perfil de Jubs Oliver

O título encaixou muito bem porque foi um dia PÉSSIMO, misericórdia 😂

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Foto de perfil de Lore

Para todos nós, especialmente para vocês 😂😂😂🤦🏽‍♀️

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