— O que foi? — Pink perguntou.
Natasha não respondeu, continuou encarando a capa do documento.
— Natasha? — insisti.
— Por que você assinou isso? — Natasha levantou os olhos.
— Porque era uma oportunidade incrível? — Pink piscou repetidas vezes.
— Pink.
— O quê?
— Por que você assinou isso?
A segunda pergunta saiu mais pesada, Pink começou a parecer confusa.
— Porque era uma proposta boa.
— Explique.
— Esse cara entrou em contato comigo, a gente marcou uma reunião. Ele parecia super profissional, super educado. A gente conversou bastante e ele falou que estava interessado em trabalhar comigo.
— Trabalhar como?
— Alguns vídeos especiais, nada de mais.
Natasha continuava imóvel.
— Ele falou que a proposta só valia naquele momento — continuou Pink. — Disse que era uma oportunidade única. Que estava procurando pessoas específicas.
— E você acreditou?
— Sim? — Pink respondeu como se fosse óbvio.
Natasha fechou os olhos por alguns segundos.
— Tinha muito dinheiro envolvido.
— Quanto dinheiro? — perguntei.
— Dois milhões, o suficiente para resolver vários problemas nossos, não é?
Natasha esfregou a testa, eu fiquei de boca aberta com o valor e Morgana finalmente levantou os olhos. Ela abriu o contrato novamente, folheou algumas páginas, Natasha respirou fundo.
— Pink, você leu o contrato inteiro?
Pink desviou o olhar, silêncio. Morgana já estava fechando o notebook.
— Pink?
— Mais ou menos.
— Mais ou menos?
— Eu li as partes importantes.
— Quais partes?
— A do dinheiro.
Natasha permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Você assinou um contrato de exclusividade.
— Exclusividade?
— Exclusividade total.
— Tá, mas exclusividade para quê?
— Para aquela empresa, apenas aquela empresa.
Pink continuou encarando Natasha, então virou para mim, depois para Morgana, depois voltou para Natasha.
— Eu não estou entendendo.
— Você não pode produzir conteúdo para nenhuma outra plataforma.
— Ah... — o sorriso de Pink foi diminuindo.
— Nenhuma, nem para a nossa.
— O quê? — o sorriso dela desapareceu por completo.
— Você não pode gravar vídeos para a nossa empresa, você assinou exclusividade total da sua imagem e da sua produção, está escrito aqui — Natasha bateu levemente no contrato.
— Não, você entendeu errado — Pink começou a rir, uma risada nervosa.
— Eu adoraria ter entendido errado.
— Não faz sentido, eu sou sócia daqui, eu gravo vídeos daqui, eu moro aqui! — Pink olhou para mim, pela primeira vez procurando ajuda. — Gabriel?
Eu não tinha nenhuma, pela expressão de Natasha aquilo não era um mal-entendido.
— O que acontece se ela gravar mesmo assim? — perguntei.
— Multa.
— Quanto?
— Uma multa diária, praticamente duplica o valor a cada dia de descumprimento.
— Isso parece exagerado.
— Esse tipo de contrato é feito assim justamente para ser exagerado, e esse nem é o pior problema, exclusividade total da imagem, eles controlam o uso comercial da sua imagem, então qualquer foto, vídeos, divulgação, campanhas publicitárias, produtos, exclusividade de produção.
— O que isso significa? — perguntei.
— Significa que qualquer conteúdo novo e antigo produzido pela Pink pertence exclusivamente a eles.
— Qualquer conteúdo?
— Qualquer conteúdo, além da proibição de participação em plataformas concorrentes.
— Concorrentes?
— Nós.
— Nós somos concorrentes?
— Para eles, sim, então, tecnicamente, a Pink não pode aparecer em nenhum vídeo nosso.
Pink ficou imóvel.
— Direito de reutilização irrestrita de conteúdo, eles podem reutilizar qualquer material produzido que tenha a imagem dela.
— Reutilizar como?
— Repostar, reeditar, comercializar novamente, continuar lucrando com o conteúdo mesmo depois do contrato terminar.
— Espera... — o rosto de Pink começou a perder a cor.
— Ainda não terminei, em caso de disputa judicial, todos os custos legais são responsabilidade da contratada.
— Contratada? — perguntou Pink.
— Você.
— Eu pago os advogados deles?
— Dependendo da situação, sim.
O silêncio que tomou conta da sala foi mais pesado, sufocante. Aquilo não era um contrato, era um tobogã direto para o inferno.
— Quem fez esse contrato? — perguntou Morgana.
Natasha voltou algumas páginas.
— A empresa se chama Eclipse — Natasha passou os olhos por mais uma página. — O dono se chama Pavlov.
Morgana já estava digitando, em poucos segundos tinha mais de quinze abas abertas no notebook. Ela clicou em um resultado, uma plataforma de vídeos abriu na tela, nos aproximamos. Pink permaneceu de pé, imóvel. A primeira impressão da plataforma foi surpreendente, o site parecia extremamente profissional, design moderno, até tinha um aplicativo próprio, uma área para criadores independentes.
— Não parece tão ruim — comentei.
Ela abriu a página principal de conteúdo, meu comentário morreu imediatamente. Conforme Morgana descia a página, os títulos ficavam mais agressivos, mais extremos, humilhantes, mulheres colocadas em situações absurdas, produções construídas em torno de submissão, castigos, exposição.
Morgana continuou rolando, os números chamavam atenção. Milhões de visualizações, centenas de milhares de curtidas. Ela abriu um dos vídeos, depois outro, mais um, todos seguiam o mesmo padrão e o conteúdo cada vez mais agressivo. Natasha permaneceu em silêncio, eu continuava observando a tela, Pink também. Percebi na hora que ela estava desconfortável, mais do que todos ali, pois aquilo era justamente o destino dela. Os ombros estavam tensos, as mãos apertavam uma à outra e visivelmente ela estava tentando segurar o choro.
— Achei mais coisas — Morgana abriu outra página.
Diversas matérias, o nome da empresa aparecia repetidamente.
— Processos trabalhistas, ex-produtor processando por quebra de contrato, modelo alegando retenção indevida de pagamentos, atriz falando sobre cláusulas abusivas.
Ela abriu um fórum, rede social, vídeos, relatos, denúncias. Pessoas reclamando das multas, da dificuldade para sair dos contratos, dos custos judiciais, da pressão psicológica. A cada nova informação o rosto de Pink ficava mais pálido.
Foi então que percebi que ela estava tremendo, as mãos, ombros, percebia a respiração descompassada. Me aproximei devagar e a abracei. Ela não levantou o olhar, ficou encarando o chão. Uma lágrima caiu.
— Eu não acredito nisso — Natasha quebrou o silêncio.
— Natasha...
— Não — ela fixou os olhos em Pink
Pink levantou a cabeça devagar, Natasha apontou para o contrato.
— Todo contrato passa por mim, sempre.
— Eu sei...
— Não, você não sabe — a voz dela aumentou. — Porque se soubesse não teria assinado essa merda.
— Eu queria ajudar — Pink secou o rosto rapidamente.
— Ajudar? — Natasha soltou uma risada sem humor.
— Não faz isso — Pink voltou a abaixar a cabeça. — O dinheiro resolveria vários problemas.
— E agora criou um problema muito maior.
— Eu achei que...
— Você não achou merda nenhuma!
— Natasha... — Pink recuou um pouco.
— Você foi egoísta pra caralho — Natasha balançou a cabeça. — Todo contrato passa por mim justamente para evitar esse tipo de situação.
— Eu não sabia.
— Exatamente.
A voz dela finalmente explodiu.
— VOCÊ NÃO SABIA! QUANTAS NOITES A GENTE FICOU SEM DORMIR TRABALHANDO NESSA MERDA!?
— Eu sei — a voz de Pink saiu mais chorosa.
— Então por que assinou? Por que assinou um contrato de dois milhões sem mostrar para ninguém?
Silêncio.
— Por quê? Nós passamos por merda demais para chegar aqui e você simplesmente confia num desconhecido porque ele apareceu com dinheiro?
— Eu só queria ajudar... — Pink começou a chorar de verdade.
— Calma — minha voz saiu firme. — Isso não vai levar a lugar nenhum.
— Não — Natasha virou para mim. — Não pede para eu me acalmar.
Foi nesse momento que percebi, Natasha transparecia mais medo pela Pink do que raiva. Natasha ainda respirava pesado, Pink permanecia abraçada a mim, como se eu fosse seu porto seguro. Morgana observava a tela.
— E se eu conversar com ele? — finalmente falei.
— Com quem? — perguntou Natasha.
— Com esse cara... Pavlov, talvez ele aceite conversar, um acordo.
— Gabriel... — começou Morgana.
— Talvez a gente explique a situação.
— Não — Morgana balançou a cabeça.
— Talvez ele aceite cancelar.
— Ele não vai — ela aumentou um pouco o tom da voz
— Como você pode ter tanta certeza?
— Porque pessoas como ele não fazem contratos desse tipo por acidente, eles planejam cada detalhe, a alta quantia de dinheiro, promessas que vão resolver todos os problemas, enchem sua cabeça de sonhos, dão um prazo curto para você aceitar.
Pink abaixou a cabeça novamente, Morgana continuou.
— Pessoas assim não querem parceiros, só querem te escravizar e extrair o máximo de dinheiro que conseguirem com a sua imagem, querem controle.
— Então o que fazemos?
— Pagamos a multa — Natasha respondeu, finalmente calma. — Mas o valor da multa é cinco vezes maior que os dois milhões que ela ganhou assinando isso.
Silêncio absoluto. Pink levantou a cabeça, Morgana fechou os olhos, eu tentei processar algum jeito de ganhar tanto dinheiro, não consegui.
— Isso é... impossível — falei com a voz embargada.
— Eu sei — Natasha se sentou novamente. — Eles provavelmente sabem também.
Aposto que a mesma coisa se passou na cabeça de todos, aquilo não era uma multa, era uma execução financeira.
— Quanto temos na reserva de emergência? — virei para Morgana.
— Gabriel, essa seria uma péssima decisão financeira — ela balançou a cabeça em negativa.
— Quanto temos?
— Não vai importar.
Continuei a encarando.
— Não chega nem perto — ela então respondeu. — A gente tem menos de cinco por cento desse valor.
— Nem vendendo tudo? Câmeras, casas, equipamentos?
— Não.
A cada segundo a situação parecia piorar. Morgana abriu uma planilha, começou a fazer algumas contas. Em poucos segundos, tudo aparecendo na tela.
— Considerando o lucro líquido do último mês, considerando que publiquemos todo o conteúdo já gravado que está na reserva, considerando que suspendamos todos os investimentos... — ela digitou mais algumas teclas. — A gente consegue o valor em pouco mais de dois anos.
— Dois anos?
— Isso sendo otimista.
— Otimista?
— Isso sendo muito otimista.
Pink começou a chorar novamente, Natasha apoiou as mãos na mesa, eu apenas fiquei olhando para aquela planilha.
— A gente não tem dois anos... — olhei para Pink.
— A gente tem um tempo na verdade — Natasha voltou a abrir o contrato, folheou algumas páginas. — Existe uma cláusula de ativação, o contrato entra em vigor em trinta dias após a assinatura.
— Então ainda existe tempo, Pink, quando foi que você assinou? — perguntei numa mistura de ansiedade com alívio.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Há uma semana.
A sensação de alívio desapareceu quase instantaneamente.
— Vinte e três dias — Morgana murmurou, tomando novamente as planilhas e fazendo algumas contas. — Existe uma possibilidade, temos vídeos já prontos para publicar por meses, se publicarmos um vídeo no intervalo de uma hora, talvez...
Ela parou, apertando a boca.
— Isso vai gerar uma saturação na plataforma, o público vai consumir rápido demais, pode afetar o crescimento futuro, vídeos bem promissores podem não render tanto, mas... é a única forma que encontrei até agora. É, a gente destruiria praticamente todo o planejamento dos próximos meses.
— Maravilha — Natasha apertou os olhos com as mãos.
— É uma medida desesperada, ainda assim, as chances de conseguirmos o dinheiro são bem baixas, é financeiramente irresponsável e pode comprometer o crescimento da empresa pelos próximos anos.
Olhei para a tela, todos aqueles cálculos, olhei para Pink, ela ainda tentava esconder as lágrimas, tentava, mas não conseguia.
— Faça.
— Gabriel.. — Natasha virou a cabeça imediatamente. — Você ouviu tudo o que ela acabou de falar?
— Ouvi.
— Isso pode destruir meses de planejamento.
— Faça — disse novamente para Morgana.
Morgana ficou me encarando por alguns segundos, depois assentiu, sem questionamentos. Apenas voltou para o computador e começou a desmontar, linha por linha, tudo o que havíamos construído para o futuro.
— Onde ele fica?
— O quê? — Natasha levantou os olhos imediatamente.
— Esse desgraçado do Pavlov.
— Não, você não vai.
— Eu vou falar com ele, nem se for para ganhar algum tempo.
— Não, Gabriel, pelo amor de Deus, não.
— Natasha... eu preciso tentar.
Ela me encarou por alguns segundos, longos segundos, Natasha me conhecia bem demais mesmo nos conhecendo há poucos meses. Eu sabia que Natasha era teimosa, mas ela sabia que eu era pior do que ela.
— Você já decidiu, não é? — Natasha perguntou, baixo. — Seu teimoso de merda.
— Sim.
— Nada do que eu falar vai fazer você mudar de ideia, não é?
— É.
— Eu odeio quando você faz isso — Natasha passou a mão pelo rosto, pensou um pouco. — Eu vou junto com você.
— Natasha...
— Nem começa — ela apontou para mim. — Se você vai fazer alguma idiotice, eu prefiro estar presente.
Morgana encontrou o endereço alguns minutos depois.
— Essa é uma das empresas principais dele.
Observei o prédio na tela, parecia uma multinacional, nada mais.
— Tem certeza?
— Não.
— Como assim?
— Pode ser uma fachada, pode ser que ele nem apareça lá — ela anotou o endereço num papel e me entregou. — Só não criem expectativas.
Algumas horas depois, eu e Natasha estávamos diante do prédio, a primeira impressão era perturbadora, nada ali parecia errado. Entramos. A recepção era ainda mais impressionante, mármore, iluminação elegante, perfume caro no ar. Atrás do balcão estava uma mulher impecavelmente vestida, postura perfeita, sorriso profissional. Nos aproximamos.
— Boa tarde.
— Boa tarde, senhor.
— Preciso falar com o Pavlov.
Ela digitou alguma coisa.
— O senhor tem horário marcado?
— Não.
Mais alguns segundos digitando.
— Infelizmente o senhor Pavlov está em reunião neste momento.
— Posso esperar.
— Fiquem à vontade.
Se passaram trinta minutos, uma hora, duas horas, nada. Voltei até o balcão, a secretária sorriu exatamente da mesma forma.
— Alguma novidade?
— Infelizmente não.
— Ainda está em reunião?
— Sim.
— Há duas horas?
— Sim.
— E não existe previsão?
— Infelizmente não.
Aquele sorriso perfeito dela começava a me irritar, voltei para o sofá. Natasha observava a recepção.
— Estamos sendo ignorados.
— Finalmente percebeu? — respondeu Natasha.
Olhei para o relógio, duas horas perdidas. Vinte e três dias já pareciam pouco, todo tempo era precioso. Levantei, Natasha percebeu imediatamente.
— Gabriel.
— Eu só vou conversar.
Cheguei ao balcão.
— Preciso vê-lo.
— Como informei anteriormente, o senhor Pavlov—
— Agora.
Foi nesse momento que um segurança apareceu, alto, discreto, nem percebi que ele já estava ao meu lado.
— Senhor, vou precisar que retorne para a área de espera.
Olhei para ele, depois para o corredor atrás da recepção, depois para ele novamente.
— Gabriel — disse Natasha.
Tarde demais, o segurança deu um passo à frente, eu dei dois, só senti o impacto da minha mão no rosto dele e o baque seco dele desmoronando no chão. Ouvi Natasha xingando atrás de mim.
— FILHO DA PUTA! — Natasha gritou vindo logo atrás.
Corri pelo corredor.
— GABRIEL!
Portas começaram a se abrir, funcionários surgiram, alguém deixou uma pilha de documentos cair no chão, outra pessoa se levantou assustada. Mais portas abriram, mais pessoas apareceram, Natasha ainda atrás de mim tentando acompanhar meus passos acelerados.
— ISSO FOI UMA PÉSSIMA IDEIA!
— Eu sei!
— ENTÃO POR QUE FEZ?
— Estamos sem tempo!
O corredor inteiro já havia mergulhado no caos, e eu continuava avançando, sem fazer a menor ideia de onde Pavlov realmente estava.
A última porta do corredor estava entreaberta, foi para lá que eu fui, talvez por instinto, sorte? Empurrei a porta e encontrei uma sala enorme, tudo muito luxuoso. No centro da sala havia uma mesa gigantesca, atrás dela, sentado confortavelmente em uma cadeira de couro escuro, estava Pavlov, soube pela placa na beirada da mesa onde seu nome estava entralhado.
Um copo de whisky repousava ao lado de sua mão, na outra, um celular, ele observava a tela como se estivesse respondendo algumas mensagens, como se nada estivesse acontecendo. Mas o mais estranho era que ele não parecia surpreso, nem um pouco. No canto da sala, sentada em uma poltrona elegante, havia uma mulher, tablet nas mãos, as pernas cruzadas, observando tudo antes mesmo de eu chegar.
Alguns segundos depois os seguranças invadiram a sala, a secretária apareceu logo atrás, ofegante.
— Senhor...
— Está tudo bem — ele levantou uma das mãos, sem sequer olhar para eles.
Os seguranças hesitaram.
— Senhor...
— Eu disse que está tudo bem, podem se retirar, vou iniciar uma reunião agora.
A voz era calma, educada. Os seguranças se entreolharam, depois recuaram, a secretária também. Enfim, a porta se fechou. Pavlov finalmente guardou o celular e levantou os olhos, sorrindo.
— Gabriel.
Meu sangue gelou. Ele virou o rosto.
— Natasha.
Natasha ficou imóvel, Pavlov abriu ainda mais o sorriso.
— Achei que não iriam dar as caras nunca, mas falta alguém — ele olhou ao redor da sala. — Achei que a Pink ou a Morgana estariam com vocês.
— Quero a anulação do contrato — falei direto, mesmo tremendo de medo pela certeza de que ele já sabia tudo sobre nós.
— Não — Pavlov pegou o copo de whisky, tomou um gole.
A resposta veio tão naturalmente que chegou a ser irritante.
— Mas pode tentar me convencer.
— O contrato foi obtido de maneira abusiva — Natasha tomou a frente.
— Eu sou obrigado a discordar.
— Houve omissão de informações e má fé, você enganou uma pessoa despreparada.
— Ah — ele sorriu, me dando uma súbita vontade de quebrar todos aqueles dentes perfeitos. — A senhorita Pink, ela foi muito agradável de conversar. Porém tão surpreendentemente fácil de convencer.
Fechei os punhos, ele percebeu, era exatamente o que queria.
— Mas não omiti nada, eu dei o contrato para ela ler antes, ela não leu porque acha que contratos são muito chatos e entediantes — ele tomou mais um gole do whisky. — Ela assinou mesmo assim.
— Você sabe tudo da gente — Natasha tomou a frente novamente. — Você falou com a Pink porque achou que ela era a mais fácil de convencer.
— Não gosto de fazer negócios sem estudar meus parceiros.
Parceiros, a palavra me causou náusea imediata.
— Você investigou todo mundo antes de fazer qualquer coisa, até a Morgana?
— Especialmente Morgana — ele sorriu de novo, abriu uma gaveta e pegou uma pasta, deixando-a na mesa. — Camille, pode entregar isso para a advogata, por favor?
A mulher do tablet sorriu discretamente no canto da sala, ela se levantou, pegou a pasta e veio em direção a Natasha, entregando a pasta nas mãos dela.
— O que é isso?
— Uma proposta irrecusável.
Natasha jogou a pasta no chão que deslizou o foi parar no canto da sala, o nojo foi imediato, visível, instantâneo. Natasha perdeu completamente a expressão profissional, ela parecia ofendida.
— Você é muito boa no que faz.
— Vá para o inferno.
— Considerarei isso um "talvez".
— Pode enfiar esse talvez no meio do seu cu.
— Você administra uma estrutura interessante — ele apoiou o queixo na mão, divertido. — Contratos sólidos, um crescimento consistente, sem falar da sua capacidade estratégica.
Natasha parecia cada vez mais próxima de cometer um homicídio.
— Trabalhe para mim, você ganharia mais dinheiro em um mês aqui do que ganharia em um ano se continuar com esse rapaz, é... — Pavlov pareceu confuso, então se virou para a mulher do tablet. — Camille, qual o nome do rapaz mesmo?
— É Gabriel, senhor.
— Isso — ele então voltou ao rumo da conversa. — Vai ganhar mais dinheiro comigo do que se continuar ao lado dele.
— Escuta bem — Natasha deu um passo a frente. — Eu prefiro arrancar meus próprios dentes com um alicate do que trabalhar para você.
O sorriso de Pavlov aumentou.
— Cancela o contrato — pedi novamente.
Pavlov continuava sentado exatamente da mesma forma.
— Que pena, se Natasha não aceitou, talvez a Morgana aceite — ele recostou na cadeira. — Aquela menina é brilhante.
Meu estômago revirou segurando tanta raiva e frustração.
— Cancela o contrato.
Pela primeira vez ele pareceu perder o interesse na conversa paralela, pegou o copo de whisky, girou o líquido lentamente, tomou um gole.
— Pink assinou porque quis e eu não forcei ninguém a isso.
Era perda de tempo continuar com aquilo, olhei para Natasha, nem eu e nem ela tínhamos argumento para uma discussão que já estava encerrada.
— Sinceramente, eu vou adorar ter a Pink na equipe, inclusive estava discutindo como seria o vídeo de estreia — ele levantou as duas mãos. — Vou colocar cerca de trinta homens para foder cada buraco dela até a exaustão, mesmo se ela desmaiar de dor, mesmo se ela pedir para parar, eles vão continuar fodendo ela. E vocês não vão poder fazer nada, isso vai ser maravilhoso.
— Verme, parasita — falei cerrando os dentes. — Como se eu fosse deixar um desgraçado como você encostar um dedo nela.
A mão de Natasha me segurou antes que eu pudesse partir para cima daquele lixo. Retomei a consciência brevemente após o olhar dela, aquilo não valia a pena.
— Você podem fazer o que quiserem, eu vou ganhar de qualquer jeito — o sorriso dele sumiu. — Se cumprirem o contrato, eu ganho, se pagarem a multa, eu ganho, se não cumprirem nada, eu ganho.
Ele se recostou na cadeira novamente.
— E se me processarem, eu ganho também.
Aquilo não iria nos levar a lugar algum, parece que sempre voltávamos para o mesmo lugar, para a mesma armadilha. E Pavlov estava adorando assistir aquilo.
— Se não tem mais nada a dizer — ele pegou o celular de volta. — Camille, acompanha esses dois até a saída.
Aquela mulher nos guiou até a entrada enquanto todos os funcionários nos observavam em silêncio.
— Tenham uma boa tarde — a mulher do tablet disse com um sorriso educado.
Quase dei risada. Boa tarde? Aquilo estava mais para um inferno. Aquela era provavelmente a pior tarde da minha vida.
A volta foi silenciosa, nem eu e nem Natasha abrimos a boca, ela olhava para a janela e eu tentava pensar em alguma coisa, mas nada vinha a cabeça. Desde o início de tudo sempre apareceram problemas, mas aquilo me dava a impressão de ser grande demais para nós conseguirmos resolver. Os dias seguintes foram um caos, vídeos eram publicados sem parar, todo material da reserva começou a ser utilizado. Morgana monitorava números praticamente vinte e quatro horas por dia.
Natasha revisava contratos, fazia ligações, procurava brechas jurídicas. Enquanto eu continuava gravando, editando, publicando, mesmo sem a menor vontade para fazer tudo aquilo, a esperança começava a se esvair, mas não pude deixar de tentar. Todos ali dormiam duas ou três horas por noite, depois voltavam a trabalhar. A Pink desapareceu, fisicamente ela continuava na casa, mas emocionalmente parecia ter sumido. As risadas dela sumiram, o cheiro da comida queimada, os objetos que deixava aleatoriamente espalhados pela casa foram diminuindo conforme eu os achava. Ela passava quase todo o tempo trancada no quarto.
Quase não falava, quase não comia, quase não saía. As poucas vezes em que eu entrava, encontrava ela sentada na cama ou abraçada a um travesseiro, sempre chorando.
Aquilo me destruía.
Numa das noites, encontrei Pink sentada no chão ao lado da cama, os olhos vermelhos, o rosto inchado, ela nem percebeu quando entrei. Me sentei ao lado dela, por alguns segundos ficamos em silêncio.
— Eu destruí tudo — a voz dela falhou. — Eu estraguei tudo.
— Não fala assim, ainda não acabou.
— Eu só queria ajudar — ela enxugou os olhos.
Aquilo doeu, eu sabia que ela falava a verdade. Pink nunca teve má intenção, ela apenas queria resolver problemas da própria maneira, como sempre fazia. Passei um braço ao redor dos ombros dela.
— Nós vamos resolver isso.
— Como?
Não respondi imediatamente, porque eu não sabia como exatamente, mas também não podia admitir derrota.
— Vamos dar um jeito.
— Você não sabe como.
— Não.
Ela baixou a cabeça.
— Então estamos ferrados.
— Talvez.
Pink soltou uma risada triste, a primeira reação que não era choro em semanas. Então olhou para mim.
— Você continua tentando me fazer sentir melhor mesmo quando sabe que estamos ferrados.
— Faz parte do meu charme.
Ela deu uma risadinha, pequena, mas me deu esperanças, não podia deixar aquele sorriso desaparecer.
— Se eu deixar aquele verme tocar em você... — suspirei, estava prestes a fazer uma promessa que nem sabia se poderia cumprir. — Você pode me odiar para o resto da sua vida.
Naquela noite, dormimos ali mesmo, sentados no chão, exaustos. O tempo continuou correndo, rápido demais, cada dia que passava parecia arrancar mais um pedaço da nossa esperança. Até que chegamos ao vigésimo segundo dia, estávamos todos na sala, exaustos, Morgana estava diante dos monitores, Natasha segurava uma caneca de café vazia, Pink permanecia sentada ao meu lado.
Ninguém falava, ninguém queria ouvir o resultado. Morgana terminou os cálculos, analisou os últimos números, conferiu tudo mais uma vez, depois tirou os óculos.
— Conseguimos menos de dois terços — ela respirou fundo.
Depois de semanas trabalhando até a exaustão, depois de usar reservas, depois de sacrificar o planejamento inteiro da empresa, depois de tudo, ainda faltava muito. Olhei para Morgana.
— Quanto tempo falta?
Ela encarou a tela por alguns segundos, depois respondeu:
— Um dia.
Pink continuava sentada ao meu lado, destruída, ela nem conseguia mais chorar. Natasha encarava o vazio. Morgana já voltava aos cálculos, mesmo sabendo que não existia milagre capaz de surgir em poucas horas.
Eu saí sem dizer nada, precisava espairecer a cabeça, liguei o carro e fui dirigindo pela cidade, deixei a música ligada, baixo. Vez ou outra pensava em jogar o carro na frente de um caminhão. Mas seria covardia sair daquela situação desse jeito.
Quando percebi, estava passando em frente a antiga faculdade, alguns alunos saindo, outros entrando. Aquilo me trouxe certas lembranças. Quando me dei conta novamente, estacionei na frente do bar da Magnolia. Um lugar que fazia muito tempo que não ia, mas quando tudo dava errado, eu acabava indo para lá.
Obs: para entender sobre Magnolia, volte uns contos e leia “Caindo em desgraça”.
Ela percebeu meu estado antes mesmo de eu me sentar.
— Caralho, garoto, quem morreu?
Não respondi imediatamente, Magnolia colocou uma garrafa de cerveja sobre o balcão. Tomei um gole, depois outro, mais outro, contei detalhadamente sobre a catástrofe que estava acontecendo, do início ao fim sem esconder nada. Magnolia ouviu sem interromper, quando terminei, ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Espera aí — ela franziu a testa. — Você faz vídeo pornô?
— Sim.
— E eu descubro isso só agora?
— Pouca gente sabe.
— Que absurdo.
— Magnolia.
— Nossa, mas ao mesmo tempo, é bem legal.
Olhei para ela, com certeza ela ignorou a parte das multas, do desgraçado que nem consigo mais citar e nome e de todo dinheiro envolvido. Ela ficou em silêncio enquanto eu enchia a cara. Ela balançou a cabeça e caminhou até um armário atrás do balcão, abriu uma agenda antiga, começou a folhear páginas amareladas.
— O que está fazendo?
Ela não respondeu, apenas continuou folheando. Alguns nomes riscados em vermelho, a maioria na verdade. Então parou, vi um nome rapidamente grifado em verde, Lady Vera.
— Quem é essa?
Magnolia ergueu os olhos.
— Eu acho que posso te ajudar.
— Me ajudar? Porque faria isso? — dei mais um gole.
— Pelos velhos tempos de quando você matava aula da faculdade e vinha aqui me foder.
— Isso faz tempo.
— Sim, faz tempo que não me visita, não é, Gabriel?
Esquivei o olhar.
— Mas sendo realista, estou com pena de você, se meteu numa enrascada, se debateu o quanto pode e mesmo assim, não conseguiu sair.
— É, não precisa me lembrar.
— Mas enfim — ela colocou as mãos sob o balcão. — Que eu fui uma prostituta há anos atrás, você sabe, certo?
— Uhum.
— Faz muitos anos, eu conheci muita gente naquela época.
— Isso eu imagino.
— Algumas conseguiram escapar daquela vida.
— E ela foi uma delas?
Magnolia assentiu.
— Lady Vera começou do nada. Hoje ela movimenta mais dinheiro do que muita empresa grande.
— E vocês ainda se falam?
— De vez em quando.
— Ela pode ajudar?
— Não faço ideia, mas em nome dos velhos tempos, eu posso pedir para ela te dar uma atenção especial — ela pegou o telefone. — Não estou prometendo nada.
— Eu sei.
— Talvez ela recuse, talvez ela nem me atenda.
Magnolia começou a discar o número do celular, mas então parou, apagou e largou o celular no balcão.
— Só tem uma coisa.
— O quê?
— Você me deve um favor gigantesco depois disso.
— Claro que devia ter uma condição — revirei os olhos.
— Nada é de graça nesse mundo, você deveria saber disso — o sorriso dela aumentou.
Olhei para ela novamente, tomei mais um gole.
— O que eu preciso fazer?
— Só me dar uma atençãozinha, igual nos vlehos tempos, faz tempo que não me visita, não é?
Eu não estava a fim, sinceramente, mas se essa tal Lady Vera pudesse ajudar de alguma forma, então faria qualquer coisa para salvar a Pink. Assenti para a Magnolia, ela sorriu e foi correndo fechar o bar. Enquanto ela terminava de fechar o bar, fui para cima dela ali mesmo. Eu desci do banco, minhas pernas bambearam um pouco, acho que bebi muito em pouco tempo, o álcool começou o efeito.
Dei alguns passos e agarrei-a por trás, minhas mãos encontraram seus peitos, apertando com força através do vestido, ela soltou um gemido abafado, inclinando a cabeça para expor o pescoço.
— Quanta impaciência — ela gemeu, sussurrando.
Deslizei a outra mão para baixo, erguendo o vestido. Sem calcinha, foi fácil para os meus dedos encontraram a buceta molhada. Ela se arrepiou quando eu a toquei, o corpo tremendo contra o meu. Magnolia se virou rapidamente em meus braços, seus olhos reluzindo de fome. Antes que eu pudesse reagir, ela se ajoelhou, os dedos desesperados tentando tirar meu cinto e a calça. Em segundos, minha calça estava nos tornozelos e meu pau duro saltou para fora.
Ela não perdeu tempo. Magnolia pegou meu pau com uma mão, a outra segurando minha base, e levou a cabeça à boca, o calor da boca dela era sempre avassalador. Ela começou a mamar, a cabeça movendo-se para frente e para trás.
Eu coloquei minhas mãos no cabelo dela, guiando-a. Magnolia não hesitou, apenas engoliu, a garganta se contraindo ao redor da minha cabeça. Quando ela finalmente se afastou, meu pau estava coberto de saliva, brilhando. A agarrei pelo braço e a puxei, fiz ela se dobrar sobre o balcão. Magnolia arrebitou o rabo, ergueu o vestido e se esparramou sobre o mármore frio.
— Fode meu cu — ela falou já pressentindo o que iria acontecer. — Sem pena
Alinhei meu pau molhado com o cu dela e empurrei. Ela estava apertada, muito apertada, eu senti ela se contrair enquanto eu entrava. Magnolia gemeu alto, os dedos agarrando a borda do balcão.
Comecei a mover rápido, cada metida era profunda, forte, descontava tudo, a raiva, a frustração, toda a exaustão do trabalho. Magnolia respondia, empurrando de volta contra mim, o corpo suando.
— Mais — ela gritava. — Mais forte, filho da puta.
Eu obedeci, batendo com força, o som da pele batendo na pele enchendo o bar. Magnolia começou a tremer, as pernas balançando.
— Caralho, gozando — ela gemeu. — Tô gozando.
Os clássicos esguichos começaram a escorrer no chão, enquanto isso, eu não parei. Continuei fodendo, cada vez mais forte. Ela gritou, o corpo se arqueando, e senti o cu dela se contrair violentamente. Magnolia gozou de novo, e depois outra vez, os orgasmos vindo em ondas, um após o outro.
— Deita no chão — ela pediu, a voz rouca.
Eu me deitei, meu pau ainda duro e pulsando. Magnolia se virou, me encarando por um momento antes de se posicionar acima de mim. Ela segurou meu pau, alinhando com o cu dela novamente, e começou a descer.
Ela quicava com força, cada movimento fazendo meu pau desaparecer completamente no cu dela. Magnolia se inclinou para frente, as mãos no meu peito, e continuou a se mover, mais rápido, mais selvagem. O bar estava cheio dos sons dela gozando, dos gritos, do barulho do meu pau entrando e saindo.
De repente, ela gritou alto, o corpo tremendo incontrolavelmente. Eu senti um jato de líquido quente em minhas pernas. Magnolia estava esguichando, os sucos correndo pelas coxas dela, pingando no chão. Ela não parou, continuando a se mover, gozando e esguichando repetidamente.
Finalmente, Magnolia desabou para o lado, exausta. Ela rolou para ficar de quatro, o corpo tremendo, o cabelo grudado no rosto pelo suor. O chão ao nosso redor estava completamente molhado, brilhando sob a luz.
Mas eu não tinha acabado. Meu pau ainda estava duro, pulsando, eu me ajoelhei atrás dela e entrei novamente, uma última vez. Magnolia gemeu, o corpo fraco demais para resistir. Eu fodi com tudo que tinha, cada movimento mais forte que o anterior. Magnolia apenas gemia, o corpo balançando enquanto a fodia. Finalmente, senti que ia gozar.
Com uma última estocada profundo, eu gozei dentro dela, o jato forte e longo. Magnolia gemeu, sentindo o calor se espalhando dentro dela. Eu continuei movendo por alguns segundos, esvaziando tudo, antes de finalmente parar, o corpo pesado sobre o dela. Magnolia estava deitada no chão, imóvel, respirando pesadamente. O chão estava encharcado ao nosso redor, o cheiro de sexo e suor impregnando o ar. Eu me deitei ao lado dela, o peito doendo, o corpo exausto. Por um longo tempo, apenas ficamos lá, ouvindo um ao outro respirar.
— Minhas pernas — ela quebrou o silêncio. — Não consigo mexer.
Eu me levantei e ajeitei as roupas.
— Cumpri minha parte do combinado.
— Uhum — ela ainda estava ofegante, deitada no chão. — Pode ir para casa.
Saí do bar da Magnolia, nem lembro como tinha chegado até o carro. Maldito o momento em que havia convencido a mim mesmo de que beber até não conseguir pensar era uma boa ideia. O álcool não apagava os problemas, só colocava eles numa sala escura por algumas horas e depois os devolvia maiores do que estavam.
Apoiei a cabeça contra o banco, o mundo girava devagar, meu celular estava em algum lugar no banco do passageiro, as chaves continuavam na ignição. Eu deveria ir para casa, deveria voltar para elas, deveria pensar em alguma solução. Fechei os olhos por apenas um instante.
Aquele pesadelo sempre começava assim, Pink estava chorando, eu conseguia ouvir sua voz antes mesmo de vê-la. Tentava alcançá-la, mas algo sempre me empurrava. A voz dela voltava, mais desesperada, mais distante, pedindo ajuda.
Abri os olhos com um sobressalto tão forte que bati a cabeça no encosto, demorei alguns segundos para entender onde estava. Minha boca estava seca, minhas costas pareciam ter sido atropeladas, soltei um gemido baixo enquanto me endireitava no banco. Passei a mão pelo rosto, o álcool já tinha ido embora, a dor de cabeça não.
Procurei o celular, três e cinquenta e dois da manhã. Respirei fundo, liguei o carro e fui para casa. A sala ainda estava iluminada quando entrei, a televisão continuava ligada em algum programa qualquer que ninguém estava assistindo, Natasha dormia no sofá, Morgana estava sentada no chão, próxima à mesa de centro, notebook aberto e olheiras profundas, ela ergueu os olhos quando ouviu a porta.
— Você está fedendo a bebida.
— Eu sei.
Fechei a porta atrás de mim e me sentei na poltrona, o silêncio durou alguns segundos.
— Como elas estão? — perguntei.
— Natasha deu calmantes para a Pink, ela teve uma crise das grandes, não parava de perguntar sobre você — Morgana fechou o notebook. — Ela achou que você tinha ido embora e entrou em pânico.
Inútil. Quando ela mais precisava de você, onde você estava?
— Natasha também não está bem, ela tomou dois calmantes.
Olhei para o sofá, Natasha continuava apagada, imóvel, respirando profundamente. Passei a mão pelo rosto, todos estavam quebrando, Pink, Natasha, Morgana e eu.
— Não fecha.
— O quê?
— As contas — ela virou o notebook para mim, eu nem precisei olhar. — Não tem dinheiro suficiente, mesmo com a gente vendendo equipamentos, mesmo esvaziando tudo, o prazo acaba amanhã.
Ficamos ali por muito tempo, conversando sem realmente conversar, procurando soluções que não existiam, refazendo contas que não mudavam, tentando encontrar dinheiro onde não havia dinheiro, estava quase amanhecendo quando meu celular vibrou no bolso. Peguei e olhei a tela, Magnolia.
Franzi a testa, por alguns segundos pensei em ignorar, mas já era quase seis da manhã, pessoas normais não ligavam naquele horário, mas Magnolia também nunca foi exatamente uma pessoa normal. Atendi.
— Alô — falei, quase sem forças.
— Não estou prometendo nada, quero deixar isso claro antes de qualquer coisa — ela fez uma pausa antes de continuar. — A Lady Vera concordou em ter uma reunião com vocês.
A mulher que Magnolia havia mencionado no bar, Lady Vera.
Lady Vera.
Como eu tinha conseguido esquecer completamente dela?
— Gabriel?
— Estou ouvindo.
— Ótimo, porque eu não vou repetir tudo de novo.
— A reunião, quando?
— Sete horas.
— Sete horas?!
— Eu avisei que não estava prometendo nada.
— Magnolia, isso é daqui a menos de uma hora.
— Exatamente.
Meu celular vibrou, uma nova mensagem apareceu na tela, localização enviada.
— Ela concordou em nos receber?
— Concordou em ouvir vocês.
— Isso é diferente — silêncio, respirei fundo. — E se ela não gostar do que ouvir?
— Eu disse que não prometia nada, é bom você dar um jeito.
Apesar da situação, ouvi Magnolia rir do outro lado da linha.
— Boa sorte, Gabriel.
— Magnolia, obrigado.
A linha ficou silenciosa por um instante.
— Ainda não, me agradeça depois.
Então ela desligou, fiquei encarando a tela do celular.
— Gabriel? — a voz de Morgana me trouxe de volta, ela já estava de pé. — O que aconteceu? Quem era?
Levantei tão rápido que Morgana se assustou, peguei as chaves sobre a mesa, carteira, celular, tudo ao mesmo tempo.
— Talvez exista uma chance.
— Chance de quê? — Morgana ficou imóvel.
— De conseguir o dinheiro.
Corri até a porta, já tentando organizar os pensamentos. Morgana vinha atrás de mim com o notebook debaixo do braço.
— Vou com você — ela me encarou.
Óbvio que não iria recusar, toda ajuda seria bem vinda. O caminho inteiro até o local foi silencioso. Eu dirigia tentando não pensar no que aconteceria se aquela reunião desse errado. O sol começava a surgir no horizonte, demorou quase quarenta minutos até chegarmos.
A primeira coisa que vi foi o portão, reduzi a velocidade do carro, antes mesmo que eu pudesse procurar algum interfone, o portão começou a se mover, avancei com o carro e então a mansão apareceu. Mesmo preparado para encontrar riqueza, eu não estava preparado para aquilo, o jardim parecia ter saído de uma revista, árvores perfeitamente alinhadas, arbustos podados com precisão quase absurda, fontes, esculturas.
Um caminho de pedras que levava até uma construção que parecia mais um hotel de luxo do que uma residência, estacionei próximo à entrada principal. Saímos do carro e antes mesmo de alcançarmos a escadaria principal, a porta da mansão se abriu. O homem que surgiu parecia ter saído de um filme, terno impecável, postura perfeita, cabelos grisalhos penteados para trás.
— Senhor Gabriel.
— Sim.
O homem fez uma pequena inclinação de cabeça e então olhou para Morgana.
— Lady Vera aguarda vocês.
O mordomo abriu espaço para passarmos, seguimos em silêncio, o interior da mansão era ainda mais deslumbrante, as paredes exibiam quadros enormes, alguns pareciam antigos demais, esculturas ocupavam corredores inteiros, lustres pendiam do teto, tudo parecia muito caro. Eu tentava fingir naturalidade, Morgana nem tentava disfarçar. O mordomo abriu uma porta dupla.
— Lady Vera estará com vocês em alguns minutos.
Entramos, era uma sala de reuniões, uma mesa ocupava o centro, poltronas confortáveis cercavam o ambiente, o mordomo fez outra pequena inclinação de cabeça.
— Fiquem à vontade.
Então saiu, a porta se fechou e o silêncio voltou, Morgana girou lentamente na cadeira, ainda deslumbrada como se estivesse num parque de diversões. Após alguns minutos, a porta finalmente se abriu. Instintivamente ergui a cabeça, Lady Vera entrou sem pressa, toda a atenção da sala parecia ser sugada para ela. Aparentava ter idade próxima da Magnolia.
Ela atravessou a sala em silêncio e, quando seus olhos encontraram os meus, aqueles olhos castanhos asiáticos pareciam atravessar toda a minha alma. Ao meu lado, percebi Morgana ficar rígida. Lady Vera chegou até a poltrona principal, sentou-se com elegância, cruzou as pernas e ficou nos observando. Apenas observando, sem sorrir, sem dizer nada.
Os olhos dela passavam por mim, depois por Morgana, depois voltavam para mim novamente, como alguém examinando um investimento ruim antes de decidir se valia a pena perder tempo com ele. Finalmente ela falou.
— Só aceitei essa reunião por consideração à Mag — a voz era calma, controlada e educada. De alguma forma isso tornava tudo mais intimidador. — Ela insistiu bastante.
Ninguém respondeu, Lady Vera apoiou um dos braços no apoio da cadeira enquanto continuava nos analisando. O olhar percorreu minhas roupas amassadas, minhas olheiras e provavelmente sentiu o cheiro de álcool que eu ainda não tinha conseguido esconder completamente. Depois fez o mesmo com Morgana, notebook apertado contra o peito, cabelos bagunçados, cara de quem não dormia há dias.
— Espero que tenham algo muito convincente para dizer, a aparência de vocês não ajuda muito.
Morgana baixou os olhos imediatamente. O problema era que ela claramente esperava uma apresentação ou qualquer demonstração de profissionalismo. E nós não tínhamos preparado absolutamente nada, troquei um olhar com Morgana procurando qualquer sinal de iniciativa. Ela me encarou de volta com a mesma expressão de pânico silencioso que provavelmente estava estampada no meu rosto.
Quem começava? Quem falava? Quem salvava aquela reunião? Aparentemente nenhum dos dois sabia.
O silêncio voltou a crescer dentro da sala. Cada segundo parecia pior que o anterior. Lady Vera continuou nos encarando por mais alguns instantes antes de soltar um bocejo genuíno, sem nem tentar esconder.
— Não vão apresentar o negócio?
Silêncio, eu conseguia sentir nossa única oportunidade escapando pelos dedos em tempo real. Lady Vera arqueou uma sobrancelha e recostou-se na cadeira.
— Magnolia mentiu para mim?
Olhei para Morgana, Morgana olhou para mim. E naquele exato momento ficou dolorosamente óbvio que nós dois havíamos atravessado a cidade para pedir dinheiro a uma das mulheres mais poderosas que já conhecemos sem sequer combinar quem abriria a conversa. Foi então que Morgana respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e deu um passo à frente.
Se existia alguém capaz de explicar tudo, era ela, não porque fosse boa com pessoas. Na verdade, era provavelmente a pior pessoa que eu conhecia para lidar com desconhecidos. Ela apertou o notebook contra o peito por alguns segundos, como se estivesse reunindo coragem, então se sentou no sofá ao lado, abriu a máquina sobre as pernas e respirou fundo mais uma vez.
— Certo... — a voz dela saiu baixa, nervosa, mas saiu. — Nossa empresa começou de forma muito menor do que é hoje.
Lady Vera permaneceu em silêncio. Nos primeiros minutos Morgana ainda parecia insegura, explicou como o projeto havia surgido, como os primeiros vídeos tinham sido publicados, como o público começou a aparecer e de que forma a plataforma havia crescido ao longo do tempo. Conforme falava, o nervosismo começava a desaparecer. A postura mudou, a voz ganhou firmeza e o olhar deixava de procurar qualquer tipo de aprovação.
— O crescimento médio dos últimos meses foi esse — ela virou o computador. — Aqui estão os acessos.
Morgana abria uma série de gráficos.
— Aqui a retenção — mais gráficos, mais números. — Aqui o crescimento de assinantes.
Lady Vera inclinou levemente a cabeça, pela primeira vez parecia genuinamente interessada, ela apoiou o queixo na mão, Morgana falava sem nenhum tipo de nervosismo ou hesitação, abriu mais gráficos, explicou o que cada um demonstrava. Foi aí que começou um interrogatório, as perguntas passaram a vir sem qualquer aviso ou ordem específica. Era menos uma conversa e mais uma auditoria, Lady Vera interrompia respostas pela metade, voltava assuntos, questionava premissas, desmontava raciocínios inteiros apenas para obrigar Morgana a reconstruí-los.
Eu já teria sido destruído nos primeiros cinco minutos, não foi o caso de Morgana. Ela respondia tudo, sem consultar anotações, sem precisar pensar muito. Em determinado momento até esqueci que eu estava ali. Foi só depois de quase meia hora de perguntas que Lady Vera finalmente desviou os olhos da tela e me encarou.
— E você? — ela recostou na poltrona. — Não tem nada a acrescentar?
— Honestamente, ela sabe mais disso do que eu.
Por um segundo achei que aquilo pudesse soar ruim, mas Lady Vera apenas me observou. Então assentiu uma única vez.
— Pelo menos sabe reconhecer competência.
E imediatamente voltou sua atenção para Morgana, eu tinha acabado de ser oficialmente rebaixado a figurante da minha própria reunião.
— Certo, os números são interessantes — aquilo pareceu um elogio vindo dela. — Agora quero ver o produto.
Morgana imediatamente girou o notebook, abriu a plataforma e entregou o acesso completo para a Lady Vera. Ela começou a navegar sozinha, percorrendo páginas e menus.
— Essa área está escondida demais.
Clique.
— Isso aqui deveria aparecer na página inicial.
Outro clique.
— Vocês estão desperdiçando tráfego nessa seção.
Mais alguns segundos.
— Isso poderia ser transformado em um serviço separado.
Morgana imediatamente começou a anotar. Em determinado momento Lady Vera parou o cursor sobre uma página específica da plataforma e apontou para uma fotografia.
— Isso aqui é você?
Morgana levou alguns segundos para perceber do que ela estava falando, quando percebeu, ficou imediatamente vermelha. Por mais que usasse uma máscara para esconder o rosto, não era difícil adivinhar que era ela. Lady Vera observou a tela por mais alguns instantes antes de olhar para ela, foi a primeira vez que vi algo próximo de um sorriso surgir em seu rosto. Depois disso ela pediu acesso ao conteúdo mais antigo da plataforma.
— Quero ver o começo.
Morgana abriu os arquivos mais antigos enquanto eu permanecia quieto no sofá. Lady Vera começou a assistir aos primeiros vídeos publicados, observando tudo com atenção. Pink aparecia em tudo, nos primeiros vídeos, nos especiais, nos vídeos seguintes e principalmente nos mais populares. Era impossível navegar pelo histórico da empresa sem perceber a importância dela. Lady Vera assistiu mais alguns minutos antes de fechar uma das janelas e apoiar o queixo sobre a mão.
— Quantas pessoas existem nessa operação?
— Quatro — respondeu Morgana.
— E onde estão os outros dois?
Pela primeira vez desde o início da apresentação, Morgana hesitou.
— Eles estão... ocupados.
— Ocupados?
— Com algumas questões pessoais.
— Questões pessoais não deveriam limitá-los, eles não se importam com a empresa de vocês?
Morgana abriu a boca, fechou, tentou encontrar uma resposta melhor. Lady Vera continuou esperando, sem pressionar, sem repetir a pergunta. Olhei para Morgana e percebi imediatamente o que estava acontecendo. Ela estava tentando proteger Pink, tentando evitar aquela conversa, tentando impedir que nossa crise inteira fosse exposta para mais uma pessoa.
Mas também percebi que não existia saída, aquela mulher era inteligente e observadora demais para aceitar respostas vagas e claro que já havia percebido que algo estava errado. Respirei fundo, aquela era a parte da conversa que eu vinha evitando desde o momento em que entramos naquela mansão.
— Então? — perguntou. — Onde estão os outros dois?
— Eu explico.
Lady Vera voltou os olhos para mim, tinha a atenção completa dela, respirei fundo e comecei a contar tudo, desde o início, desde quando Pink assinou o contrato até a situação atual.
— Isso foi extremamente estúpido — Lady Vera falou, direta. — Muito estúpido.
Ela balançou a cabeça lentamente.
— A empresa é promissora — ela apontou para o notebook e para Morgana. — O produto é bom, a execução é excelente.
Então apontou para mim.
— Os donos, nem tanto.
Não havia muito o que responder. Lady Vera recostou-se na cadeira e cruzou os braços.
— Vocês construíram algo valioso, mas a inexperiência falou mais alto.
Ninguém respondeu, então os olhos dela voltaram para mim, dessa vez de forma diferente, mais fria, analítica.
— Você é o elo mais fraco.
— Perdão? — pisquei algumas vezes.
— Vejo a Pink, Natasha, até a Morgana — ela apontou para o notebook. — Mas não vejo você aqui.
— Eu apareço nos vídeos.
— Não, você participa, são coisas diferentes — o silêncio voltou a dominar a sala, Lady Vera apoiou um braço na poltrona e continuou. — Você é um dos fundadores, você é uma das peças centrais da empresa, você toma decisões, influencia os rumos do negócio e aparece nos vídeos, mas esconde o rosto.
— E daí?
— Daí que investidores odeiam fantasmas, eu consigo ver quem é Pink, consigo ver quem é Natasha, consigo ver quem é Morgana, mas você? — ela abriu as mãos. — Você existe apenas nos bastidores, isso é um risco para credibilidade, crescimento e investimento.
O silêncio ficou pesado novamente, eu sabia exatamente onde aquela conversa estava indo e não gostei nem um pouco quando percebi, mesmo sabendo que o momento iria chegar, inevitavelmente. Lady Vera sustentou meu olhar por alguns segundos antes de concluir:
— Enquanto eu não vir seu rosto nessa plataforma, não colocarei um único centavo nisso.
Desviei o olhar, durante todo esse tempo fiquei escondido atrás das figuras que eram a Pink, Natasha e Morgana, era confortável, seguro, bem mais fácil. O que soa como egoísmo, se for parar para pensar, Pink nunca teve opção, era mostrar o rosto ou cair no esquecimento. Todas elas se expunham de alguma forma para manter aquela empresa funcionando, menos eu.
Fechei os olhos por um instante e me lembrei dos primeiros vídeos, do apartamento pequeno, equipamentos improvisados, da época em que não existiam investidores, contratos ou pessoas como Pavlov para transformar tudo em um pesadelo. Naquela época existiam apenas duas pessoas tentando construir alguma coisa juntas.
Eu e Pink.
Abri os olhos e olhei para Morgana.
— Você ainda tem os vídeos brutos?
— Tenho — ela piscou algumas vezes, claramente surpresa pela pergunta.
Assenti devagar, Morgana virou o notebook na nossa direção e começou a navegar pelas pastas, centenas de arquivos surgiram na tela, meses de gravações organizados com a obsessão habitual dela. Testes, vídeos descartados, bastidores, erros de gravação, versões que nunca chegaram ao público. Fiquei observando as miniaturas passarem diante dos meus olhos até encontrar exatamente o que procurava.
O cursor parou, por um instante fiquei apenas encarando a tela, era um dos primeiros vídeos que gravamos juntos. Eu e Pink aparecíamos sentados lado a lado, rindo de alguma coisa que eu nem lembrava mais. Mas me recordava que era o aniversário dela, ela queria fazer um vídeo especial, a versão final saiu com um borrão no meu rosto. Sem perceber, acabei sorrindo.
— Posta esse — apontei para a tela.
— Tem certeza? — Morgana me olhou.
— Sem edições.
Durante anos eu havia evitado mostrar meu rosto para o público, sempre encontrando alguma desculpa conveniente para permanecer atrás das câmeras. Mas não existia mais espaço para conforto, não com uma forma de salvar a Pink enquanto ela estava sofrendo tanto. O upload começou. Ninguém falou nada enquanto a barra de progresso avançava lentamente pela tela, Lady Vera observava tudo em silêncio.
Então o vídeo entrou no ar, e a reação foi imediata, primeiro algumas notificações, dezenas, centenas. Os comentários começaram a surgir numa velocidade absurda, a página atualizava sem parar.
— Meu Deus... — Morgana murmurou.
A audiência tinha percebido instantaneamente, depois de tantos meses, depois de toda aquela curiosidade, teorias, eu finalmente havia mostrado o rosto. Sabia que aquilo teria consequências, mas, quem liga?
Lady Vera observou a tela por alguns segundos, depois voltou os olhos para mim, eu fechei o notebook, então sustentei o olhar dela.
— Se isso é suficiente para você nos ajudar... então, cumpri minha parte.
Lady Vera me encarou por alguns segundos em completo silêncio, então começou a rir, era uma gargalhada genuína, daquelas que fazem a pessoa inclinar levemente o corpo para frente, eu e Morgana apenas observamos enquanto ela tentava recuperar o fôlego.
— Por um momento achei que você fosse amarelar — ela pegou um lenço que o mordomo havia dado a ela e enxugou os olhos delicadamente, os olhos dela voltaram para mim, desta vez de forma diferente. — Certo, de quanto vocês precisam?
Morgana informou o valor exato sem sequer consultar o notebook.
— Providencie — ela virou para o mordomo, logo virando para nós novamente. — Mas vamos deixar uma coisa clara, isso não é caridade, é um investimento, eu quero participação nos lucros, acesso aos relatórios financeiros, vamos marcar uma segunda reunião para definir algumas mudanças estruturais, isso claro, depois que essa crise interna terminar.
Morgana já parecia mentalmente anotando cada item, eu só estava feliz por ainda existir uma empresa para expandir.
— Concordo com essa segunda reunião — Morgana falou, firme. — Natasha precisa analisar tudo antes.
Por um segundo achei que Lady Vera fosse se irritar, mas aconteceu exatamente o contrário, um sorriso apareceu no rosto dela.
— Se ela for alguém responsável nessa empresa, então não me oponho. — Lady Vera levantou-se da cadeira. — Estou ansiosa para conhecer o restante da equipe.
O mordomo abriu a porta, Lady Vera caminhou até ela e então parou por um instante, virou apenas o suficiente para nos olhar por cima do ombro.
— Não me façam me arrepender disso.
E desapareceu corredor afora, a porta se fechou. Afundei no sofá, Morgana esfregou os olhos, ficamos em silêncio durante vários segundos, então suspiramos ao mesmo tempo. O mordomo retornou carregando uma mala pesada, e colocou sobre a mesa com cuidado. Ele nos reverenciou e recuou, o dinheiro estava ali, era real.
Morgana já estava em pé, já tinha colocado o notebook embaixo do braço e fechou a mala imediatamente.
— Precisamos ir, agora, quanto mais tempo demorarmos, maior a chance de alguma coisa dar errado.
Voltei para a realidade, ela tinha razão, ainda faltava a finalização com o desgraçado do Pavlov. O mordomo nos acompanhou até a saída.
A viagem inteira aconteceu em silêncio. Morgana manteve a mala abraçada contra o peito durante todo o percurso, como se alguém pudesse surgir do nada e roubá-la no próximo semáforo. Eu apenas dirigia, ainda era difícil acreditar que o dinheiro realmente estava ali. Ainda era difícil acreditar que Lady Vera tinha aceitado.
Então chegamos, estacionei, ela pegou a mala e entramos. A recepção continuava exatamente igual à última vez que estive ali, aquele vazio branco, artificial demais. A secretária permanecia atrás do balcão com o mesmo sorriso treinado. Mas meus olhos encontraram outra pessoa primeiro.
O segurança, o mesmo sujeito que eu havia apagado semanas antes, assim que me viu, o reconhecimento foi imediato. Os olhos dele estreitaram, os meus também, ficamos nos encarando por alguns segundos, então continuei andando até chegar na recepcionista.
— Bom dia.
— Quero falar com Pavlov.
— O senhor possui horário agendado?
— Não.
— Infelizmente o senhor Pavlov—
— Eu não estou perguntando.
As portas principais se abriram naquele instante, Pavlov acabava de entrar, dois seguranças atrás dele. Um café na mão, terno impecável. Os olhos dele encontraram os meus imediatamente, depois Morgana, depois a mala, e então o sorriso apareceu.
— Ora ora — ele veio caminhando na nossa direção. — Você novamente, vejo que a senhorita Morgana resolveu me visitar desta vez.
— Precisamos conversar.
— Imagino — os olhos dele voltaram para a mala. — Ainda socando meus funcionários?
Atrás de nós, o segurança pareceu particularmente interessado na resposta.
— Hoje não.
— Que pena — Pavlov tomou um gole do café. — Tenho alguns minutos, venham.
Poucos minutos depois estávamos novamente naquele escritório. Os mesmos vidros, a mesma mesa absurda, a mesma vontade de arremessar alguma coisa pela janela. A diferença era que aquela Camille não estava presente daquela vez. Apenas nós três.
Pavlov sentou-se, eu continuei de pé, Morgana também.
— Senhorita Morgana.
Ela ficou imóvel.
— Eu acredito que você está desperdiçando seu talento com essa gente — Pavlov abriu uma gaveta e retirou uma pasta, empurrou-a pela mesa. — Gostaria que considerasse uma proposta irrecusável.
Morgana não respondeu, na verdade, deu um pequeno passo para trás, diretamente para trás de mim, escondendo metade do corpo.
Pavlov observou aquilo.
— Salário ilimitado, infraestrutura que você nem imagina e recursos praticamente infinitos.
Morgana sequer olhou para a pasta, continuou escondida atrás de mim. Pavlov suspirou.
— Que desperdício.
Foi então que coloquei a mala sobre a mesa, finalmente consegui sua atenção, os olhos dele desceram para a mala. Depois voltaram para mim.
— Quero a quebra do contrato.
Ele puxou a mala para si, abriu os fechos, olhou o conteúdo, ele levantou os olhos, olhou para mim.
— Interessante — ele fechou a mala lentamente. — Eu realmente não esperava isso.
— Nem eu — respondi continuando a encarar.
— Honestamente? — ele apoiou os braços na mesa. — Achei que vocês fracassariam, igual a maioria.
Ele se levantou
— Então... quem foi? — ele perguntou, sério demais.
— O quê?
— Quem foi que vocês mataram para conseguir tanto dinheiro? — ele explodiu numa gargalhada.
Morgana desviou os olhos, eu não respondi, o sorriso dele aumentou.
— Relaxem, é brincadeira, vocês estão muito tensos.
Não, você é só um psicopata. Mas achei melhor guardar isso para mim.
Pavlov puxou alguns documentos da gaveta e começou a assinar, sem discussão ou negociações. Ele assinava como alguém que já tinha conseguido exatamente o que queria, mesmo aparentemente perdendo, após a última assinatura, empurrou os papéis pela mesa.
— Pronto.
Peguei os documentos imediatamente, Morgana praticamente arrancou uma cópia das minhas mãos, nós dois começamos a conferir cláusula por cláusula, linha por linha, palavra por palavra. Confiar em Pavlov parecia uma ótima maneira de acabar enterrado em algum lugar. Quando terminamos, tudo parecia correto, eu já estava me virando para sair quando ouvi sua voz novamente.
— Gabriel.
Parei, fechei os olhos por um segundo, respirei fundo e então me virei.
— O quê?
Pavlov girava lentamente a cadeira, aquele sorriso havia voltado.
— Você sabe o que mais me chamou atenção nessa história toda?
Não respondi, ele continuou mesmo assim.
— O fato de vocês terem trabalhado tanto para salvar alguém que já estava condenado, eu não teria feito isso, jamais me sacrificaria tanto por alguém.
Continuei olhando para ele, sem responder.
— Então cuide bem dessa empresa, cuide da Pink.
Meu estômago revirou.
— Porque agora eu estou curioso, quero descobrir se ela vale tudo isso mesmo.
Não respondi, não porque não tivesse algo a dizer. Mas porque queria sair dali antes de descobrir quantos dentes um ser humano consegue perder com um único soco. Então virei as costas, Morgana já estava na porta, os documentos estavam nas minhas mãos, nós saímos daquele escritório o mais rápido possível, sem olhar para trás, sem dizer mais uma palavra.
O caminho de volta foi tão silencioso quanto a ida. Eu liguei o carro, engatei a marcha e fiquei alguns segundos olhando para o volante sem dizer nada. Ao meu lado, Morgana continuava abraçada à mala. Então ouvi um som estranho, um soluço, olhei de lado e a encontrei chorando, não de medo, era alívio.
Tudo aquilo que ela havia segurado durante semanas simplesmente desabou de uma vez, os ombros tremiam, as lágrimas escorriam sem parar. Ela tentava limpar o rosto e falhava miseravelmente.
Morgana continuou chorando durante boa parte do caminho, eu apenas dirigi. Quando finalmente chegamos em casa, a sala estava estranhamente silenciosa. Pink deitada no sofá, encolhida em posição fetal sob uma manta, o olhar fixo num canto da parede. Natasha apareceu praticamente do nada no instante em que atravessamos a porta.
— Onde vocês estavam?
Nenhuma resposta.
— Seu filho da puta!
Continuei andando.
— Sabe o quanto a Pink perguntou sobre você?
Ela apontou um dedo na minha direção.
— Eu estou te ligando faz horas!
Sorri, foi inevitável, a dinâmica da casa estava prestes a mudar e ela nem sabia ainda.
— Bando de desgraçados, resolveram me ignorar?
Morgana passou por ela ainda fungando, Natasha estreitou os olhos.
— Você está chorando?
Sem responder, retirei os documentos da pasta e os deixei sobre a mesa, Natasha olhou para os papéis, depois para mim.
— Ah, não — ela fechou os olhos. — Eu estou cansada de ler contratos.
— Leia.
— Não.
— Em voz alta.
Deu para perceber que Natasha queria pular no meu pescoço e me enforcar até eu ir dessa para melhor. Sem vontade nenhuma, ela pegou os documentos. Morgana afundou no sofá ainda enxugando os olhos, eu me sentei ao lado de Pink. Alguns segundos depois ela abriu os olhos lentamente, estava sonolenta, confusa, ainda claramente sob efeito dos calmantes.
Ela fechou os olhos de novo, enquanto isso, Natasha começava a leitura, sem vontade nem paciência. Até que ela parou, voltou algumas linhas, leu novamente, depois uma terceira vez, uma quarta. Pink ergueu a cabeça, Morgana interrompeu o choro, eu apenas observei. Natasha continuava encarando o documento, imóvel.
— Filho da puta...
Silêncio.
— Filho da puta.
Mais silêncio.
— FILHO DA PUTA!
Pink arregalou os olhos.
— O quê?
Natasha ergueu os documentos, as mãos tremiam.
— Ele conseguiu.
Silêncio absoluto. Pink piscou algumas vezes, como se não tivesse entendido.
— O quê?
Natasha praticamente gritou.
— Você está livre, sua desgraçada!
Demorou alguns segundos, talvez porque Pink não acreditasse, talvez porque o cérebro dela tivesse passado tanto tempo esperando o pior que simplesmente não soubesse processar uma notícia boa. Os olhos dela encheram de lágrimas, a respiração falhou e ela começou a chorar. Era um choro desesperado, violento, ela praticamente se jogou em cima de mim, me abraçando com tanta força que por um instante achei que fosse quebrar alguma costela.
Ela tentou falar alguma coisa, os soluços não deixaram, tudo que saiu foi mais choro. Então apenas a abracei de volta, Natasha virou o rosto discretamente e esfregou os olhos, Morgana voltou a chorar também, só que agora sorrindo.
E pela primeira vez em muito tempo, ninguém naquela casa estava chorando por medo. Ainda existia uma empresa para reconstruir, ainda existiam dívidas, ainda existiam problemas, mas o pior tinha acabado.
Alguns minutos depois, Pink acabou adormecendo novamente no sofá, exausta de tanto chorar. Natasha continuava sentada à mesa cercada por documentos, já pensando nos próximos meses, na quantidade absurda de vídeos que precisaríamos gravar, na reserva de conteúdo que tinha sido destruída. Nos planejamentos que precisariam ser refeitos do zero, ela parecia incapaz de comemorar sem simultaneamente criar uma lista de novos problemas.
Morgana não era muito diferente, pouco depois já estava novamente diante do notebook, com aquelas planilhas abertas, cálculos surgindo na tela. Quanto precisávamos arrecadar para a reserva de emergência, quanto conseguiríamos guardar por mês, quanto tempo levaria para recuperar tudo o que havia sido perdido. Os dedos dela corriam pelo teclado como se descanso fosse um conceito abstrato inventado por outras pessoas.
Fiquei observando as três por alguns instantes. Pink dormindo, Natasha planejando, Morgana calculando, tudo absurdamente familiar, tudo absurdamente normal. Depois de semanas vivendo uma crise atrás da outra, aquela normalidade parecia quase surreal.
Eu estava cansado demais para participar, conversar ou pensar. Sem dizer nada, me levantei do sofá, peguei Pink no colo e subi as escadas. Entrei no quarto, deixei Pink em seu lugar na cama e a cobri, após isso, simplesmente caí na cama, adormeci antes mesmo de conseguir fechar os olhos completamente.
Algumas semanas se passaram depois daquilo,sinceramente não sei dizer quanto tempo. E os dias voltaram a ser apenas dias. Pink foi quem mais mudou, não aconteceu de uma vez, não existiu um momento mágico onde ela simplesmente acordou melhor, foi um processo. Primeiro ela voltou a sair do quarto, depois voltou a ficar mais tempo na sala, depois voltou a rir das próprias piadas idiotas, depois voltou a implicar comigo por absolutamente nada. E eventualmente voltou a espalhar objetos aleatórios pela casa inteira em qualquer lugar que seus olhos alcançassem. Normalmente aquilo me irritaria, mas naquele momento era reconfortante, significava que a Pink estava viva de novo.
Morgana também parecia diferente, ainda passava horas diante dos monitores, ainda tinha dias em que desaparecia dentro de planilhas durante oito horas seguidas. Mas agora ela sorria, pequenos e discretos sorrisos, e isso já era uma mudança gigantesca.
Natasha, por sua vez, continuava sendo Natasha, o que era bom e aterrorizante, ela estava menos irritada, menos próxima matar alguém, mas ainda era Natasha. Ela também desenvolveu uma nova missão de vida, garantir que Pink jamais assinasse qualquer coisa novamente sem supervisão, todos os dias, sem exceção, ela fazia Pink repetir um mantra como uma criança aprendendo regras básicas de sobrevivência.
— Todo contrato tem que passar pela Natasha — Natasha falava.
— Todo contrato tem que passar pela Natasha — Pink repetia.
— Mais alto!
— Todo contrato tem que passar pela Natasha.
— E?
— Não assinar nada forçado — os olhos da Pink brilhavam de novo.
— De novo.
— Todo contrato tem que passar pela Natasha. Não assinar nada forçado.
— De novo!
Pink tentava recompensar a gente por todo o estresse que passamos. Vez ou outra eu a via fazendo massagem nos pés da Natasha ou da Morgana enquanto as duas relaxavam.
— Agora fala de novo — Natasha exigia.
— Todo contrato tem que passar pela Natasha — Pink repetia.
— Muito bem.
— Não assinar nada forçado.
— Excelente.
— Eu espero que um caminhão te atropele um dia, Natasha — Pink apertou o pé de Natasha o mais forte que pode.
— Estamos progredindo — Natasha relaxou demais e deixou escapar um gemido.
As coisas com a Lady Vera foram incrivelmente mais fáceis do que eu pensava, fizemos renegociação do contrato e partes dos lucros foram destinados a ela durante a segunda reunião, como combinado. Natasha ficou louca quando soube que eu havia incluído outra pessoa na sociedade, mas não ficou tão irritada quanto eu achava que ficaria. As ideias também fluíram bem, Lady Vera ficou fascinada com a Pink e com a direção criativa dela nas gravações, assim como os olhos afiados de Natasha e a capacidade da Morgana de executar as ideias, ela subia uma novidade na plataforma a cada sete dias. Parecia que elas se complementavam.
Aos poucos o casarão ficou pequeno demais, tivemos que nos mudar para ficar mais próximos de Lady Vera, o faturamento cresceu mais do que esperávamos, a reserva de emergência ficou incrivelmente cheia, além de novos investimentos que criamos, cafés, apartamentos, lojas de roupas, sex shop e afins. Tivemos que estabelecer uma sede comercial, a plataforma ficou grande demais, tanto que batíamos de frente com as mais consolidadas. Tivemos que construir mais dois estúdios também, contratamos mais gente para gravar, editar, atuar.
E pensar que tudo isso começou com dois loucos transando na frente de uma câmera.
