A Galeria Alaska não era um lugar. Era uma iniciação.
Caíque demorou a entender isso.
Nas primeiras vezes, ainda entrava como quem atravessa uma fronteira sem passaporte. Olhava demais, falava pouco, media cada gesto. Tinha medo de parecer ingênuo, medo de parecer disponível demais, medo de parecer apavorado — e, por tentar esconder tudo ao mesmo tempo, acabava parecendo exatamente as três coisas.
Toninho se divertia.
— Você entra aqui com cara de quem veio devolver imposto de renda — dizia, apoiado no balcão do bar.
— E como eu deveria entrar?
— Como se já tivesse sido convidado pelo pecado em pessoa.
— Isso se aprende?
— Tudo se aprende. Até ser bicha com categoria.
Carmem, sentada em uma banqueta alta, atravessava os dois com um olhar de rainha cansada.
— Categoria não se ensina, Toninho. Categoria se revela. O menino ainda está embrulhado.
— Embrulhado?
— Inteiro. Só que com medo do laço.
Caíque fingia irritação, mas gostava. Gostava de ser observado sem ser condenado. Gostava de ser provocado sem ser diminuído. Na casa do pai, qualquer comentário sobre seu jeito vinha como acusação. Na Galeria, as pessoas também reparavam em tudo, talvez até mais, mas havia ali uma diferença essencial: elas não queriam consertá-lo. Queriam lapidá-lo.
E isso era novo.
A cada noite, a Galeria lhe entregava uma aula.
Aprendeu que havia homens que chegavam cedo e iam embora cedo, sempre olhando para os lados, como se a esposa pudesse surgir entre uma mesa e outra. Aprendeu que havia rapazes que usavam nomes falsos não por mistério, mas por necessidade. Aprendeu que alguns homens queriam carinho, outros queriam aventura, outros queriam apenas confirmar que ainda eram desejáveis antes de voltarem para suas vidas oficiais.
Aprendeu também que a vergonha tinha muitas roupas.
Havia a vergonha agressiva, que atacava antes de ser vista. Havia a vergonha elegante, escondida em sobrenomes importantes, relógios caros e frases como “não sou desse meio”. Havia a vergonha triste, que bebia demais e terminava a noite pedindo desculpa por ter tocado a mão de alguém. Havia a vergonha cruel, que procurava na madrugada aquilo que condenava de manhã.
Caíque observava tudo.
O balcão da loja lhe ensinara a ler clientes. A Galeria lhe ensinava a ler homens.
E homens, ele descobriu, eram mercadorias mais complexas que qualquer tecido. Alguns vinham com etiqueta trocada. Outros com defeito escondido. Outros pareciam caros, mas desbotavam no primeiro contato com a verdade.
Carmem dizia que ele tinha talento para enxergar.
— Só toma cuidado — avisava. — Quem enxerga demais sofre antes dos outros.
A Galeria funcionava por camadas.
Na superfície, era bar, música, conversa, flerte, fumaça, gente entrando e saindo. Mais abaixo, era abrigo. Mais abaixo ainda, mercado. Depois, teatro. Depois, trincheira. E, no fundo de tudo, um arquivo vivo de pessoas que a cidade fingia não conhecer.
Ali passavam artistas, bancários, marinheiros, vendedores, estudantes, homens de terno, homens sem dinheiro, funcionários públicos, estrangeiros, travestis, rapazes recém-chegados do interior, velhos que pareciam ter sobrevivido a muitas versões do Brasil e jovens que acreditavam estar inventando tudo pela primeira vez.
Caíque logo descobriu que ninguém inventava nada sozinho.
Havia uma genealogia da desobediência.
Toninho lhe falava de lugares que já tinham fechado, de bares que mudavam de nome, de apartamentos onde festas começavam com samba e terminavam com confissões. Renato explicava o mapa dos perigos: ruas que pareciam seguras, policiais que pediam dinheiro, homens que armavam ciladas, clientes de boa família que ficavam violentos depois de beber.
Carmem ensinava outras coisas.
— Nunca confunda segredo com intimidade — dizia. — Tem homem que te esconde não porque te ama em silêncio, mas porque tem vergonha de você em público.
— E como eu sei a diferença?
— Quando ele te esconder, veja se também se esconde junto. Quem ama no escuro fica no escuro com você. Quem só te usa, acende a luz para si mesmo e te deixa no breu.
Caíque anotava essas frases por dentro.
Não em caderno. No corpo.
Nos anos seguintes, enquanto terminava etapas dos estudos, trabalhava de dia e avançava na faculdade, a Galeria se tornou seu contraponto. Durante a semana, era disciplina: balcão, ônibus, sala de aula, caderno, biblioteca, provas, contas. Nas noites possíveis, especialmente às sextas e sábados, era respiração.
Não uma vida sem risco. Nunca isso.
Mas uma vida que não aceitava ser só risco.
Caíque já tinha dezoito anos quando a noite começou a deixar de ser apenas observação e passou a ser experiência. A maioridade não veio com bolo, nem festa, nem documento simbólico. Veio com um tipo de autorização íntima: ele percebeu que seu corpo não era uma prova contra ele. Era sua casa.
A primeira vez que beijou um homem sem sentir que o mundo acabaria logo depois, não houve música crescendo, nem chuva na janela, nem frase memorável. Foi atrás de um bar, depois de uma conversa sobre cinema que nenhum dos dois parecia realmente acompanhar. O rapaz se chamava Luís — ou dizia se chamar — e tinha mãos frias. O beijo foi desajeitado, rápido, nervoso. Caíque abriu os olhos no meio, como se esperasse encontrar o pai atrás deles.
Não encontrou.
Encontrou apenas a parede úmida, o barulho distante da rua e um homem rindo baixo.
— Você beija como quem está cometendo crime federal — disse Luís.
Caíque se afastou, ofendido e envergonhado.
— Desculpa.
— Não pedi desculpa. Pedi continuação.
E beijou de novo.
Dessa vez, Caíque fechou os olhos.
Não se tornou outra pessoa naquele momento. Ninguém se liberta tão rapidamente. Mas algo afrouxou. Um nó antigo, apertado desde antes que ele soubesse seu próprio nome, cedeu um pouco.
Depois, caminhando de volta para a pensão, sentiu medo, alegria, culpa, fome e uma vontade absurda de rir.
Quando contou para Toninho, tentando parecer casual, ouviu uma gargalhada.
— Meu Deus, nasceu!
— Para de gritar.
— Nasceu e ainda quer discrição. Que desperdício.
Carmem, mais generosa, apenas tocou seu rosto.
— E doeu?
Caíque pensou.
— Um pouco.
— Então foi importante.
— Importante dói?
— Quase sempre. O que não dói costuma ser distração.
Naquele período, a Galeria lhe deu muitas distrações e algumas importâncias.
Houve homens que viraram apenas lembrança de cheiro. Outros, de música. Um, de camisa azul. Outro, de promessa falsa. Havia encontros que acabavam antes de começar e outros que permaneciam no corpo por dias. Caíque descobriu o prazer com uma urgência que misturava juventude e sobrevivência.
Mais tarde, já velho, diria que transava todos os dias na Galeria Alaska.
Talvez fosse exagero.
Talvez não.
O importante era que aquela frase carregava menos estatística que triunfo. Não era sobre quantidade. Era sobre desmentir a sentença de origem. Seu pai quisera arrancar dele o desejo. Caíque transformou o desejo em idioma.
E falava fluentemente.
Mas a Galeria nunca deixava ninguém esquecer que liberdade clandestina também tinha preço.
Certa noite, a polícia entrou.
Não foi a primeira vez, mas foi a primeira que Caíque presenciou de perto.
A música pareceu baixar sozinha, embora ninguém tivesse tocado no rádio. Conversas morreram no meio. Corpos se afastaram com uma rapidez treinada. Dois homens que estavam próximos demais fingiram discutir futebol. Um rapaz guardou um papel no sapato. Toninho desapareceu pela lateral com a habilidade de quem já nascera sabendo fugir.
Caíque congelou.
Renato segurou seu braço.
— Não corre — sussurrou. — Quem corre vira alvo.
Os policiais entraram rindo, donos do espaço, como se a noite fosse uma propriedade deles. Olhavam os rostos, as roupas, os gestos. Pediam documentos de alguns, dinheiro de outros, respeito de todos. Um deles parou diante de Carmem.
— Documento.
Ela abriu a bolsa com calma.
— Boa noite para o senhor também.
— Documento.
— Claro. Educação não vem no seu regulamento, mas eu tenho mesmo assim.
Por um segundo, Caíque achou que ela seria agredida. O policial a encarou. Carmem sustentou o olhar. Não havia arrogância gratuita nela. Havia cálculo. Ela sabia exatamente até onde podia ir. Ou fingia saber, o que às vezes era a mesma coisa.
O policial pegou o documento, olhou, devolveu com desprezo.
— Circulando.
— Com prazer. Lugar mal iluminado me envelhece.
Ela saiu andando devagar, mas Caíque viu suas mãos tremerem quando passou por ele.
Foi a primeira vez que entendeu que coragem não era ausência de medo. Coragem era performance feita em cima do pavor.
Depois que a polícia foi embora, ninguém voltou imediatamente ao normal. A música subiu, mas com esforço. As risadas vieram altas demais, quase agressivas, como se precisassem expulsar a humilhação no grito. Um rapaz chorou no banheiro. Outro vomitou. Um homem casado, pálido, foi embora sem se despedir.
Caíque sentou-se ao lado de Carmem.
— Você está bem?
Ela acendeu um cigarro.
— Estou viva. Bem é luxo.
— Como você consegue responder daquele jeito?
— Meu filho, quando o mundo te trata como piada, você aprende a escrever a melhor fala.
Ele ficou em silêncio.
— Mas não romantiza, não — ela continuou. — Eu respondo porque, se eu ficar quieta, morro por dentro. Mas já apanhei calada também. Todo mundo aqui já perdeu alguma coisa.
Naquela noite, Caíque voltou para a pensão mais tarde do que devia. Não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto, lembrando o olhar dos policiais, o silêncio das mesas, o tremor nas mãos de Carmem.
A Galeria era abrigo, sim.
Mas abrigo com telhado de vidro.
Na semana seguinte, levou essa inquietação para a faculdade. Durante uma aula sobre instituições e desenvolvimento, o professor falava da importância do Estado, da legalidade, da ordem social. Caíque copiava, mas sua cabeça estava em outro lugar.
Ordem para quem?
Legalidade contra quem?
Instituição protegendo qual corpo?
Na margem do caderno, escreveu:
“O Estado também entra nos bares.”
Depois riscou. Depois escreveu de novo.
A vida começava a costurar nele uma consciência que não vinha apenas dos livros. A teoria explicava o mundo. A Galeria mostrava onde a explicação sangrava.
E Caíque, aos poucos, se tornava perigoso de um jeito que seu pai jamais teria imaginado: não porque desejava homens, mas porque começava a entender sistemas.
No trabalho, continuava impecável.
O dono da loja gostava de sua pontualidade. Os clientes gostavam de sua atenção. As colegas gostavam de seu humor. Ninguém ali conhecia a extensão de suas noites. Para eles, Caíque era o rapaz educado, estudioso, um pouco irônico, que dobrava camisas com cuidado e fazia contas rápidas.
Ele aprendeu a viver com essas divisões.
Mas, ao contrário de muitos, não as confundia com mentira. Havia ambientes onde revelar tudo seria suicídio. O silêncio, às vezes, não era covardia; era estratégia. O problema era quando a estratégia virava prisão.
Renato falava disso com frequência.
— Tem gente que constrói armário tão confortável que depois não quer mais sair.
— E você? — Caíque perguntou uma vez. — Saiu?
Renato riu sem alegria.
— Eu moro com a porta entreaberta.
Era uma resposta honesta.
Quase todos ali moravam com alguma porta entreaberta.
Carmem talvez fosse a exceção mais visível, mas mesmo ela tinha seus esconderijos. Havia nomes que não dizia, dores que não contava, documentos que guardava em lugares diferentes. A visibilidade, Caíque percebeu, também podia ser uma armadura imposta. Algumas pessoas eram obrigadas a parecer corajosas porque não tinham o privilégio de se camuflar.
Isso o fazia admirá-la ainda mais.
Com o tempo, Caíque passou a ajudá-la em pequenas coisas. Lia cartas complicadas, acompanhava-a em repartições quando necessário, explicava termos de documentos. Carmem fingia que não precisava, mas aceitava.
— Você vai longe — disse ela uma tarde, fora da Galeria, enquanto tomavam café em uma padaria discreta.
— Espero que sim.
— Só não vai longe demais a ponto de esquecer onde aprendeu a andar.
— Você acha que eu esqueceria?
— Todo mundo acha que não. Aí compra sapato novo e começa a pisar diferente.
Caíque olhou para os próprios sapatos gastos.
— Ainda falta muito para o sapato novo.
— Melhor. Dá tempo de criar caráter.
Ela mexeu o café, pensativa.
— Quando você tiver dinheiro, diploma, cargo, essas coisas que homem respeitável usa como fantasia, vai aparecer gente querendo limpar sua história. Vão dizer: “não precisa falar disso”, “isso foi fase”, “isso atrapalha”, “isso não combina com sua posição”. Não deixa.
— Não deixar como?
— Lembrando. Memória é sujeira que a alma se recusa a varrer.
Caíque sorriu.
— Essa frase é boa.
— Eu sei. Sou uma intelectual sem bolsa de pesquisa.
Ele gargalhou.
A relação com Carmem se tornou uma das colunas de sua juventude. Não era exatamente amizade no sentido comum. Era parentesco de guerra. Ela não lhe dava colo com frequência, mas lhe dava ferramentas. Ensinava a se vestir, a responder, a desconfiar, a entrar e sair. Ensinava que beleza podia ser defesa e que humor podia ser faca.
Toninho, por outro lado, ensinava o prazer de não levar tudo tão a sério.
— Você pensa demais — dizia.
— Alguém precisa pensar.
— Precisa nada. O Brasil não pensa e continua funcionando pessimamente.
Toninho vivia de bicos, favores, pequenos trabalhos e grandes histórias. Havia quem dissesse que ele vinha de família rica e fora expulso. Havia quem jurasse que era filho de militar. Outros diziam que era órfão. Toninho nunca confirmava nada. Preferia circular como lenda barata.
— Passado é igual dívida — dizia. — Só reconheço se me processarem.
Caíque ria, mas entendia a fuga.
Cada um sobrevivia como podia.
Em uma noite de sábado, Toninho o levou a uma festa em um apartamento de Copacabana. Caíque relutou. Tinha prova na segunda, precisava estudar, estava cansado. Toninho ignorou tudo.
— Você está confundindo futuro com castigo. Vem.
O apartamento ficava em um prédio antigo, com elevador barulhento e porteiro que fingia não notar o movimento. Lá dentro, havia música, bebida, gente demais e uma vista parcial do mar entre cortinas esvoaçantes. Homens dançavam na sala. Uma mulher cantava junto ao rádio. Carmem estava no sofá, cercada de admiradores. Alguém discutia política na cozinha. Alguém chorava no quarto. Alguém ria no banheiro.
Caíque ficou maravilhado.
Era diferente da Galeria. Menos exposição, mais intimidade. Ali, por algumas horas, as pessoas pareciam suspender ainda mais a vigilância. Havia toques mais longos, beijos menos escondidos, corpos encostados sem tanto cálculo. A ditadura, a polícia, as famílias, os patrões, os padres, os vizinhos — todos pareciam ter ficado do lado de fora, esperando no térreo.
Mas Caíque já sabia que nenhum lado de fora era definitivo.
Mesmo assim, dançou.
Primeiro mal, duro, olhando para os outros. Depois melhor. Depois sem se importar. Toninho rodopiava como se tivesse inventado a música. Carmem ria no sofá. Renato apareceu mais tarde e, por surpresa de Caíque, dançou com ele uma música inteira.
Não foi sedução. Foi celebração.
Pelo menos Caíque preferiu pensar assim.
Em determinado momento, já perto da madrugada, foi até a varanda. O mar aparecia escuro, cortado por luzes distantes. A cidade parecia infinita. Renato se aproximou com dois copos.
— Cansou?
— Um pouco.
— Estudante não aguenta nada.
— Trabalhador, estudante e balconista.
— Pior ainda.
Ficaram lado a lado.
Renato perguntou:
— Você pensa em voltar?
Caíque não precisou perguntar para onde.
— Não.
— Nunca?
— Nunca é palavra grande.
— Mas?
— Mas não.
Renato assentiu.
— Eu voltei uma vez.
Caíque olhou para ele.
— Para casa?
— Para ver minha mãe. Achei que ia chegar elegante, independente, com dinheiro no bolso, e que ela ia entender tudo só de olhar.
— E entendeu?
Renato riu baixo.
— Disse que eu estava magro e perguntou se eu tinha arrumado namorada.
— Sinto muito.
— Não sinta. Ela me deu bolo de fubá para levar. Cada família pede desculpa com o vocabulário que tem.
Caíque pensou na própria mãe, na fotografia guardada, no verso onde escrevera “eu estou vivo”.
— A minha não escreveu.
— Talvez não possa.
— Poder, pode.
— Talvez não saiba.
— Não saber também é escolha.
Renato não contestou.
A música mudou dentro do apartamento. Alguém aumentou o volume. Um grupo gritou de alegria.
— Você é duro quando fala dela — Renato disse.
— Eu precisei ficar duro para sair.
— Só não fica pedra.
Caíque ficou em silêncio.
A frase pareceu simples, mas encontrou um lugar fundo.
Não fica pedra.
Naquela madrugada, voltou para a pensão com a cabeça cheia. Dormiu pouco. Na segunda, fez a prova com sono e, mesmo assim, foi bem. Descobriu que sua vida comportava contradições: podia dançar sábado, estudar domingo, trabalhar segunda. Podia desejar e pensar. Podia ser corpo e cérebro. Podia ser noite e futuro.
Essa descoberta o salvou de uma armadilha comum.
Muitos tentavam lhe vender a ideia de que ascender exigia amputação. Para ser respeitável, deveria esconder a Galeria. Para ser inteligente, deveria abandonar o deboche. Para ser profissional, deveria neutralizar o desejo. Para ser adulto, deveria trair o jovem que fugira.
Caíque começou a desconfiar de toda respeitabilidade que exigia enterro.
Os anos passaram em ritmo desigual.
Houve períodos de euforia e períodos de medo. O país parecia sempre à beira de alguma coisa. Nas ruas, falava-se baixo sobre política. Nas universidades, discutia-se muito e confiava-se pouco. Nos jornais, algumas palavras apareciam e outras desapareciam. Nos bares, a polícia podia surgir como ameaça, extorsão ou espetáculo.
Na Galeria, porém, a vida insistia.
Havia aniversários improvisados, brigas passionais, reconciliações ridículas, discussões sobre música, campanhas de solidariedade para quem estava sem trabalho, vaquinhas para pagar aluguel, visitas a amigos presos, cuidados com quem adoecia, fofocas que atravessavam bairros em velocidade maior que ônibus.
Caíque era bom de fofoca.
Não a fofoca cruel, pelo menos não sempre. Ele gostava da fofoca como narrativa social. Como mapa de desejos. Como arquivo do que a versão oficial escondia. Uma fofoca bem contada, dizia, revelava mais sobre o Brasil do que muito editorial sério.
Carmem concordava.
— História é fofoca com diploma.
Essa frase também ficou.
Foi na Galeria que Caíque aprendeu a contar histórias.
Antes, falava para se defender. Depois, passou a falar para existir. Descobriu o tempo da pausa, o prazer de preparar uma frase, o poder de terminar uma lembrança com ironia em vez de lágrima. Aprendeu que quem controla a narrativa recupera um pouco do poder perdido.
Quando contava sua fuga, por exemplo, não começava pela palavra lobotomia. Começava pelo cachorro que não latiu.
— Meu primeiro cúmplice foi um vira-lata — dizia. — Mais útil que muito parente.
As pessoas riam.
Só depois, se o ambiente merecesse, contava o resto.
Merecer uma história era importante.
Nem todo ouvido era casa.
Na faculdade, sua reputação também mudava. De aluno cansado, passou a aluno brilhante. Não brilhante no sentido exibido, mas constante. Entregava trabalhos bons, fazia perguntas incômodas, conectava teoria a situações práticas. Alguns professores começaram a notá-lo. Colegas o procuravam para estudar. Ele gostava disso, embora fingisse que não.
Uma noite, após uma apresentação, o professor Álvaro pediu que ficasse alguns minutos.
— Você pensa bem — disse.
Caíque ficou desconfortável.
— Obrigado.
— Não estou elogiando por gentileza. Você pensa com experiência. Isso é raro.
— Experiência de balconista?
— Também. Não despreze balcões. O Brasil se revela mais no balcão do que no gabinete.
Caíque sorriu.
— Isso parece coisa que eu diria.
— Então estamos de acordo.
O professor abriu uma pasta e tirou alguns papéis.
— Você já pensou em concurso público?
— Pensei.
— Pense com seriedade. Você tem disciplina. E raiva suficiente.
Caíque ergueu as sobrancelhas.
— Raiva?
— Raiva pode destruir ou organizar. Em você, parece estar organizando.
Caíque levou aquela frase para casa como se fosse diagnóstico e profecia.
Raiva organizada.
Era isso que seus estudos tinham se tornado. Não uma raiva barulhenta, explosiva, que se perde no primeiro alvo. Uma raiva paciente. A raiva de quem prepara prova, junta dinheiro, aprende idioma, entende edital, comparece no horário, lê até a cabeça doer. Uma raiva que não gritava contra o mundo; entrava nele pelas frestas.
O BNDES, antes sigla distante, começou a ganhar forma.
Caíque passou a ler mais sobre desenvolvimento econômico, financiamento, políticas públicas. Não entendia tudo, mas insistia. Gostava da ideia de um banco que pensava o país, mesmo desconfiando de qualquer instituição que prometesse pensar por todos. Havia nele uma ambição difícil de confessar: queria estar em uma sala onde decisões eram tomadas. Queria saber como era não apenas sofrer o Brasil, mas participar de sua engrenagem.
Na Galeria, quando falava disso, Toninho dramatizava:
— Vamos perder nosso menino para a tecnocracia.
— Vou continuar vindo.
— Todo mundo diz isso antes de comprar pasta de couro.
Carmem observava com mais seriedade.
— Vai mesmo. E tem que ir. A gente precisa de gente nossa nos lugares onde fingem que a gente não existe.
— Gente nossa?
— Não se faça de burro. Não combina com você.
— Você acha que eu deveria falar disso? Lá?
— Não necessariamente com a boca. Às vezes, sobreviver em certos lugares já é um discurso. Mas nunca esqueça por quem você atravessou a porta.
Essa frase o acompanharia por décadas.
Nunca esqueça por quem você atravessou a porta.
A Galeria Alaska era uma dessas portas.
Não a única, mas talvez a mais simbólica. Antes dela, Caíque sabia que não queria morrer. Depois dela, começou a entender como queria viver.
O tempo, porém, não era generoso com todos.
Alguns amigos desapareceram da noite. Um foi preso e voltou diferente. Outro casou com uma mulher de família conhecida e nunca mais cumprimentou ninguém. Um rapaz que Caíque beijara certa vez apareceu espancado. Uma travesti amiga de Carmem foi encontrada morta em circunstâncias que ninguém investigou direito. O luto fazia parte da paisagem, mas era quase sempre tratado como acidente individual, nunca como estrutura.
Caíque começou a guardar nomes.
Não escrevia todos, por medo. Mas repetia mentalmente. Não queria que desaparecessem por completo.
Ademar, que cantava mal, mas cantava feliz.
Paulinho, que dizia ser ator e talvez fosse.
Sérgio, dos olhos tristes que aplicava golpe repetido.
Lúcia, que ria como se quebrasse copos.
Marlene, que emprestava maquiagem e cobrava em cigarro.
Roberto, que sumiu depois de uma batida.
Gente que não entraria em livro de história. Gente que mal deixaria fotografia. Gente que, sem memória, viraria estatística invisível.
Talvez tenha sido ali que nasceu o professor que ele seria décadas depois. Antes de ensinar inglês, Caíque aprendeu a ensinar lembrando. A dar nome. A explicar códigos. A repetir para os mais novos: cuidado, mas não covardia; desejo, mas não ingenuidade; futuro, mas não esquecimento.
No último ano da faculdade, sua rotina beirou o impossível.
Trabalhava menos na loja, mas ainda precisava de dinheiro. Fazia estágios pequenos, revisava textos para colegas, ajudava em contas, aceitava serviços administrativos. Estudava para terminar o curso e já começava a se preparar para concursos. Dormia mal, comia rápido, andava com livros debaixo do braço como se fossem parte do corpo.
Na Galeria, aparecia cada vez menos.
Quando aparecia, era recebido com protestos.
— O doutor resolveu visitar os pobres — dizia Toninho.
— O doutor está sem dinheiro até para cerveja — respondia Caíque.
Carmem olhava com orgulho disfarçado.
— Está mais magro.
— Estou estudando.
— Estudo não pode comer sua bunda.
Toninho engasgava de rir.
— Carmem!
— Ué. Estou falando de saúde.
Caíque ria, mas sentia a verdade por trás da vulgaridade. O corpo estava cansado. O desejo, às vezes, virava luxo. Havia semanas em que a ambição ocupava todos os espaços. Ele começava a entender que vencer também podia roubar vida, se não tomasse cuidado.
Por isso, em algumas noites, mesmo exausto, ia à Galeria apenas para lembrar que era mais do que projeto.
Sentava-se no bar, ouvia música, conversava com Carmem, ria das histórias de Toninho, observava os recém-chegados. Reconhecia neles a própria expressão antiga: olhos grandes, ombros tensos, medo de errar até o modo de segurar um copo.
Um deles, certa noite, ficou parado perto da entrada, exatamente como Caíque ficara anos antes. Devia ter dezoito, dezenove anos. Usava uma camisa simples, sapatos gastos e a cara de quem tinha ensaiado a coragem no caminho inteiro.
Toninho ia fazer piada, mas Caíque o impediu com um olhar.
Aproximou-se do rapaz.
— Primeira vez?
O jovem ficou vermelho.
— Não.
Caíque sorriu.
— Claro que não. Você está com uma cara de veterano que chega a emocionar.
Toninho, ao longe, abriu um sorriso enorme.
Caíque percebeu que tinha herdado uma fala.
E, ao herdá-la, entendeu que agora também fazia parte da corrente.
Chamou o rapaz para dentro, pediu uma água com gás e disse, com uma naturalidade que o comoveu por dentro:
— Ficar parado no corredor é pedir para virar decoração ou suspeito.
A vida, às vezes, devolvia cenas em espelho.
Naquela noite, ao voltar para a pensão — já não a primeira, mas outra, um pouco melhor, com quarto só seu — Caíque caminhou devagar pela calçada de Copacabana. O mar fazia barulho no escuro. A cidade, mesmo perigosa, parecia menos inimiga.
Pensou no menino que fugira de madrugada. Pensou na palavra proibida. Pensou no pai, na mãe, na casa, no cachorro que não latiu. Pensou no primeiro dia no Rio, no pão com mortadela, no nome escolhido. Pensou na Galeria Alaska e em tudo que ela lhe dera: amigos, amantes, lições, sustos, linguagem, postura, desejo.
Não havia pureza ali.
Ainda bem.
Pureza sempre fora uma arma contra ele.
A Galeria era impura, contraditória, barulhenta, perigosa, engraçada, erótica, triste, generosa, cruel, brilhante e humana. Exatamente por isso, era verdadeira.
Meses depois, Caíque concluiu a Faculdade de Economia.
Não houve grande cerimônia familiar. Não havia pai na plateia, nem mãe chorando, nem irmãos tirando fotografia. Havia alguns colegas, um professor, Renato, Toninho e Carmem — que apareceu vestida como se fosse receber um prêmio internacional.
Quando Caíque recebeu o diploma, procurou os olhos dela.
Carmem bateu palmas de pé.
Toninho assobiou.
Renato chorou escondido, mal.
Depois, em um bar simples, fizeram uma comemoração pequena. Carmem ergueu o copo.
— Ao doutor.
— Ainda não sou doutor.
— Cala a boca. Título a gente usa antes de vir no papel. Foi assim que eu sobrevivi.
Todos riram.
Ela continuou:
— Ao Caíque. Que fugiu de uma casa onde queriam abrir a cabeça dele e agora usa essa mesma cabeça para abrir caminho. Que nunca fique respeitável demais para lembrar da gente. Que nunca fique triste demais para desejar. Que nunca fique importante demais para rir alto.
Caíque tentou responder, mas a voz falhou.
Então apenas bebeu.
Mais tarde, já perto do fim da noite, Carmem lhe entregou um pacote pequeno. Dentro havia uma gravata. Azul escura, discreta, bonita.
— Para o concurso — disse.
— Eu nem passei ainda.
— Mas vai passar. E quando for fazer prova, entrevista, posse, sei lá como funciona esse teatro de homem sério, usa. Não para ficar discreto. Para lembrar que eu estou te enforcando de longe se você esquecer quem é.
Caíque riu com os olhos cheios.
— Obrigado.
— Não me agradeça. Me honre.
Guardou a gravata como relíquia.
O concurso para o BNDES veio depois de meses de estudo ainda mais intenso. Caíque mergulhou em apostilas, jornais, legislação, economia brasileira, matemática, redação. Enquanto outros candidatos tinham quartos silenciosos, famílias apoiando, tempo integral, ele tinha a vida como obstáculo e combustível.
Houve dias em que duvidou.
Houve noites em que chegou à Galeria apenas para dizer que não aguentava mais.
— Aguenta — dizia Carmem.
— Que conselho horrível.
— Conselho bom é para quem tem opção.
Toninho fazia graça:
— Quando você passar, quero cargo de amante oficial do banco.
— Isso não existe.
— Tudo que existe foi inventado por alguém sem imaginação suficiente para me consultar.
Renato ajudava como podia. Levava jornais, indicava leituras, revisava textos. Entre eles, havia uma ternura nunca totalmente nomeada. Talvez desejo, talvez amizade, talvez os dois. Caíque nunca soube. Alguns afetos permanecem justamente porque não são resolvidos.
No dia da prova, usou a gravata azul de Carmem.
Sentiu-se ridículo e poderoso.
Ao entrar na sala, olhou ao redor. Havia candidatos confiantes, nervosos, bem vestidos, mal vestidos, jovens, adultos, homens que pareciam já pertencer àquele futuro e outros que, como ele, tentavam conquistá-lo à força.
Caíque sentou-se.
Colocou a caneta sobre a mesa.
Respirou.
Pensou no pai. Não por saudade. Por contraste.
Aquela cabeça, que um dia quiseram invadir para apagar desejo, agora enfrentava uma prova que poderia mudar sua vida.
Quando recebeu o caderno, sorriu.
Não era felicidade. Era desafio.
Meses depois, o resultado saiu.
Caíque viu o próprio nome na lista e, por alguns segundos, não entendeu. Leu uma vez. Leu outra. Conferiu o número. Conferiu o nome completo, aquele que ainda carregava nos documentos como cicatriz civil: Carlos Eduardo.
Mas quem tinha passado era Caíque.
Aprovado.
BNDES.
Não gritou. Não chorou de imediato. Ficou imóvel, como se qualquer movimento pudesse desmanchar a realidade. Depois saiu andando sem direção. Foi parar perto do mar.
Sentou-se em um banco.
Só então chorou.
Chorou por fome, por medo, por cansaço, por orgulho, por todos os “não” que não tinham conseguido detê-lo. Chorou pelo menino no corredor ouvindo a palavra lobotomia. Chorou pela mãe que não abriu a porta. Chorou pelo cachorro que não latiu. Chorou por Toninho, Carmem, Renato, Dona Zulmira, Dario, Nélson do fusca azul, pela bibliotecária que dissera que não era burrice, era cansaço. Chorou por si.
Depois enxugou o rosto.
— Pronto — disse para o mar. — Agora vamos ver o que vocês fazem comigo.
Naquela noite, a Galeria Alaska virou festa.
Alguém levou bolo. Alguém levou bebida. Toninho contou para pessoas que Caíque nem conhecia. Carmem apareceu com batom vermelho e o abraçou por tempo demais.
— Eu falei.
— Falou.
— Eu sempre falo.
— Sempre.
— Não fica insuportável.
— Já sou.
— Mais, digo.
Renato chegou mais tarde. Entregou-lhe uma caneta bonita, usada, mas elegante.
— Para assinar coisas importantes.
— De onde você tirou isso?
— Não faça perguntas que estragam presentes.
Caíque aceitou.
Naquela noite, dançou. Bebeu. Riu. Beijou alguém cujo nome esqueceria. Abraçou Toninho. Ouviu Carmem cantar desafinada. Sentiu-se, pela primeira vez, não apenas salvo, mas em ascensão.
A Galeria, iluminada por néon, fumaça e pecado, parecia um palácio improvisado.
Em algum momento da madrugada, subiu em uma cadeira, incentivado por Toninho, e tentou fazer um discurso.
— Eu queria dizer…
— Fala alto, doutor! — alguém gritou.
— Eu queria dizer que…
Olhou em volta.
Viu rostos conhecidos e desconhecidos. Viu gente que o protegera, gente que o desejara, gente que o irritara, gente que o ensinara. Viu os recém-chegados, os veteranos, as divas, os bêbados, os solitários, os perigosos, os generosos, os quebrados, os inteiros.
Viu uma comunidade que talvez jamais aparecesse em fotografia oficial, mas sem a qual ele não teria chegado a lugar nenhum.
— Eu queria dizer que, se um dia eu fingir que não vim daqui, vocês têm autorização para me derrubar da primeira escada.
A Galeria explodiu em risos e aplausos.
Carmem levantou o copo.
— Autorização concedida!
Caíque desceu da cadeira rindo.
Mais tarde, quando a festa já se desfazia, ficou sozinho por alguns instantes perto da entrada. O letreiro da Galeria brilhava sobre ele. A rua ainda tinha movimento. O Rio respirava sua madrugada suja e maravilhosa.
Renato apareceu ao seu lado.
— Vai sentir falta?
— De quê?
— Daqui. Quando começar a trabalhar sério.
Caíque olhou para dentro.
— Eu não vou embora.
Renato sorriu com tristeza.
— Todo mundo vai um pouco.
Caíque quis negar, mas não conseguiu.
Talvez fosse verdade. Crescer era também ir embora em pedaços.
— Mesmo se eu for — disse — isso aqui vai comigo.
Renato assentiu.
— Então leva direito.
O trabalho no BNDES começou como novo mundo. Prédios, mesas, documentos, hierarquias, colegas, crachás, linguagem institucional. Caíque vestia camisas melhores, usava a gravata de Carmem em dias importantes e aprendia a circular entre homens que pareciam ter nascido sentados em cadeiras de reunião.
No início, sentia-se impostor.
Depois percebeu que muitos ali também fingiam saber mais do que sabiam. A diferença era que alguns fingiam desde o berço, com sobrenome e segurança. Caíque fingia com fome e método. Aprendeu rápido.
O balcão o ajudava a lidar com gente. A faculdade o ajudava a pensar. A Galeria o ajudava a sobreviver às máscaras.
Em ambientes formais, via os mesmos tipos que conhecera à noite: o vaidoso inseguro, o poderoso carente, o covarde elegante, o engraçado ferido, o discreto perigoso. A diferença era a iluminação.
Caíque se saiu bem.
Não sem esforço. Não sem preconceito. Não sem silêncios necessários. Mas bem.
E, mesmo com menos frequência, continuou voltando à Galeria.
Não como antes. A juventude intensa começava a abrir espaço para outra fase. Mas voltar era confirmar pacto. Era lembrar que o homem de crachá ainda pertencia ao menino que entrara ali tremendo.
A cada retorno, a Galeria parecia igual e diferente. Alguns rostos sumiam. Outros chegavam. O néon falhava, era consertado, falhava de novo. A música mudava. As gírias mudavam. O risco permanecia.
Certa noite, Carmem o chamou de lado.
— Você está ficando bonito de outro jeito.
— Isso é elogio?
— É observação científica.
— Bonito como?
— Bonito de quem sabe que escapou.
Caíque ficou quieto.
— Só que escapar não basta — ela continuou. — Você ainda vai amar. De verdade. Aí quero ver se essa sua inteligência toda serve para alguma coisa.
— Deus me livre.
— Deus não se mete nisso. E, quando se mete, atrapalha.
Caíque riu.
Mas sentiu um frio.
Até então, amor para ele era possibilidade controlada. Tinha tido paixões, casos, noites, ternuras, ciúmes breves, promessas pequenas. Mas amor de verdade — desses que mudam a arquitetura interna de uma pessoa — ainda não tinha chegado.
Carmem parecia saber.
— Vai acontecer quando você achar que já entendeu tudo — disse.
— Com base em quê?
— Com base no meu talento para desgraça alheia.
Ela estava certa.
Mas não seria no Rio.
Em 1981, veio a notícia da remoção para Brasília.
Caíque recebeu o comunicado em uma sala de trabalho, no meio de uma manhã comum. Leu uma vez, depois outra. Brasília. A palavra parecia seca. Administrativa. Geométrica. Quase uma punição estética.
Contou primeiro a Renato.
Ele ficou em silêncio tempo demais.
— Quando?
— Daqui a alguns meses.
— Você vai?
— É remoção. Não convite para chá.
— Sempre existe jeito de tentar ficar.
— Talvez.
— Você quer tentar?
Caíque não respondeu.
O Rio era sua cidade de renascimento. A Galeria, sua primeira pátria. Mas havia dentro dele uma ambição que não suportava recuar diante de mudança. Talvez Brasília fosse oportunidade. Talvez castigo. Talvez os dois.
Quando contou a Toninho, ouviu um escândalo.
— Brasília? Aquela maquete sem esquina? Vão te matar de tédio!
— Dramático.
— Dramático nada. Aquilo foi desenhado por régua. Bicha precisa de curva.
Carmem reagiu diferente.
Ficou séria.
— Vai.
— Só isso?
— Vai. Mas não vai limpo.
— Como assim?
— Vai levando a sujeira boa. A memória. A malícia. O deboche. O endereço de quem você é. Brasília é cheia de homem que acha que concreto esconde desejo. Você vai se divertir.
— Eu não quero ir.
— Mentira. Uma parte sua quer.
Caíque odiou que fosse verdade.
Na última noite antes da mudança, foi à Galeria Alaska.
Não quis festa. Toninho fez mesmo assim, mas menor. Carmem levou a gravata azul, que pediu para ver de novo. Renato estava calado. Havia uma melancolia estranha no ar, como se todos já soubessem que certas despedidas não parecem definitivas, mas são.
Caíque circulou pelo espaço devagar.
Tocou o balcão. Olhou o letreiro. Observou os homens novos que chegavam com medo, os veteranos que fingiam tédio, as risadas, os códigos, o risco, a beleza imperfeita de tudo aquilo.
Perto da saída, Carmem o abraçou.
— Não vira santo.
— Nunca tive vocação.
— Nem vítima profissional.
— Também não.
— Nem homem respeitável demais.
— Vou tentar.
Ela segurou seu rosto.
— Não tenta. Decide.
Caíque assentiu.
Toninho o beijou no rosto.
— Se Brasília for ruim, volta.
— E se for boa?
— Volta para contar vantagem.
Renato foi o último.
Os dois ficaram diante da entrada, como naquela madrugada antiga. O néon banhava a calçada de vermelho. O mar, invisível dali, parecia presente no ar.
— Você vai sentir falta — Renato disse.
— Vou.
— De mim?
Caíque olhou para ele.
Havia respostas que chegavam tarde demais. Ou cedo demais. Ou inúteis demais.
— Vou.
Renato sorriu sem alegria.
— Então está bom.
Abraçaram-se.
Não houve beijo. Talvez devesse ter havido. Talvez já tivessem passado do ponto em que um beijo resolveria alguma coisa. Alguns amores possíveis são justamente os que nos ensinam a partir.
Caíque entrou em um táxi pouco depois.
Do banco de trás, viu a Galeria Alaska se afastar. O letreiro foi ficando menor, depois borrado, depois apenas vermelho na memória.
Sentiu vontade de chorar, mas não chorou.
Pensou no que dissera anos antes ao mar: se eu sobreviver, nunca mais vou pedir desculpas por existir.
Agora acrescentou, em silêncio:
Nem por ir embora.
O táxi atravessou a madrugada carioca. Caíque levava malas, livros, diplomas, roupas, a gravata de Carmem, a caneta de Renato, algumas fotografias, muitos segredos e uma educação sentimental que nenhuma universidade reconheceria.
Brasília o esperava com seus eixos, seus gabinetes, seus apartamentos discretos, seus homens oficiais e seus desejos subterrâneos.
Caíque ainda não sabia, mas a Galeria Alaska havia sido apenas o primeiro grande palco.
A próxima cidade teria menos néon.
Mas muito mais segredo.
Fim do Capítulo 4.