Capítulo 2 — Mudanças silenciosas

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 1022 palavras
Data: 01/06/2026 21:53:37

O leitor talvez já tenha percebido que certas mudanças importantes da vida não chegam fazendo barulho. A desgraça, por exemplo, costuma entrar sem pedir licença. O amor também.

Gerson chegou na manhã daquela quarta-feira. Luís estava no curral pregando uma tábua da cerca quando ouviu o motor da caminhonete se aproximando pela estrada de terra. Erguer os olhos foi um gesto simples; o problema veio depois. Porque há homens que possuem presença, não beleza apenas — isso seria pouco. Presença. Um tipo de força tranquila, mas avassaladora, que ocupa espaço mesmo em silêncio. Gerson era assim.

Desceu da caminhonete devagar, batendo a poeira da calça com as mãos grandes. Usava camisa xadrez vermelha justa e com três botões abertos mostrando seu peito forte com pelos finos, calça jeans também justa que delineava suas coxas grossas e fortes, botas marrons já bastante gastas e um chapéu preto que lhe fazia sombra sobre os olhos castanhos. Trazia barba cheia, cabelo escuro encaracolado e aquele jeito relaxado de homem acostumado à vida dura sem perder o sorriso. Ele sorriu para João Carlos antes mesmo de falar.

— Então esse é o rapaz?

João Carlos confirmou com a cabeça.

— Meu filho.

Gerson olhou diretamente para Luís. Não foi um olhar vulgar. Não houve safadeza evidente, dessas que se veem em boteco depois da terceira cerveja. Foi pior: uma curiosidade. Luís sentiu o estômago apertar. Aproximou-se tentando parecer normal, mas já consciente demais do próprio corpo, das mãos sujas de terra, do suor escorrendo pelas costas, da respiração meio curta. Gerson estendeu a mão.

— Prazer, garoto.

A mão dele era enorme, quente, pesada, áspera de trabalho. Apertou a de Luís com firmeza, mas sem brutalidade. E o rapaz odiou perceber imediatamente um detalhe ridículo: o cheiro de terra, suor, desodorante barato... O tipo de cheiro masculino que fazia sua imaginação aflorar à noite.

— Prazer — respondeu baixo.

Gerson sorriu outra vez. Tinha um sorriso fácil, desses homens que fazem amizade em fila de padaria. João Carlos, ao contrário, parecia ainda mais fechado na presença dele. E isso era curioso. Luís conhecia o pai suficientemente bem para notar pequenas mudanças de humor. O coroa estava estranho desde que acordou. Quieto demais até para os padrões habituais.

— A gente arrumou seu quarto aqui — disse João mostrando o “puxadinho” ao lado da casa principal. — fica a vontade, Gerso!

— Ô trem chique — brincou Gerson. — Já posso me mudar de vez então.

Luís soltou um riso curto antes de conseguir impedir. João apenas tragou o cigarro. Foi talvez a primeira vez em muitos meses que aquela casa ouviu alguém brincar sem parecer ofensa.

Durante o resto da manhã, Luís tentou continuar o serviço normalmente. Tentou mesmo. Mas a presença de Gerson parecia puxar seus olhos feito ímã. O homem apenas tomou um café rápido e já trabalhava sem pressa e sem moleza. Carregava saco de ração nos ombros como quem levava travesseiro. O corpo se movia firme, agora sob uma regata branca suada, revelando braços fortes e costas largas. Às vezes tirava o chapéu para limpar o suor e os cachos pretos caíam úmidos sobre a testa.

Luís observava escondido. Depois desviava rápido o olhar, tomado por vergonha. Uma vez flagrou Gerson olhando de volta com um sorriso. O rapaz quase derrubou um balde que carregava.

No almoço, os três se sentaram à mesa da cozinha. O ventilador empoeirado da Arno fazia mais barulho do que vento. João Carlos comia em silêncio, como sempre. Gerson, ao contrário, falava bastante. Contou histórias de outras fazendas, de peões bêbados, de um boi que atravessara uma venda inteira depois de escapar do caminhão. Até João Carlos pareceu lutar contra um sorriso em certo momento. E aquilo também chamou atenção de Luís.

O pai raramente relaxava perto de alguém. Mas, naquela tarde, havia momentos estranhos em que João Carlos parecia menos pesado. Não mais feliz exatamente; apenas mais humano. Como se a presença de Gerson trouxesse de volta alguma coisa que o tempo enterrara debaixo do trabalho e da viuvez. Luís percebeu sem pensar muito no assunto. Talvez porque ainda estivesse ocupado demais observando o outro homem de canto de olho.

À noite, depois do banho e do jantar, Luís ficou deitado apenas de samba-canção, sem nada por baixo, por causa do calor. Pela janela aberta entrava o som dos grilos e, ao longe, o murmúrio baixo de vozes vindo da varanda. João Carlos e Gerson bebiam cerveja lá fora enquanto colocavam o papo em dia. Luís fechou os olhos tentando dormir, mas não conseguiu. Levantou-se e foi para a janela. Os dois homens estavam sentados nos bancos de madeira; seu pai de costas para ele e Gerson de lado, ambos sem camisa. Observou as mãos grandes de Gerson segurando a garrafa enquanto enchia o copo de cerveja; viu seu peito largo à mostra, seu sorriso enquanto contava alguma história.

E então, sua imaginação começou a trabalhar: imaginou a barba do peão roçando sua pele, o peso daquele corpo sobre o seu. Sentiu a excitação crescer rápida e deliciosamente. Discretamente, levou a mão para dentro do short, respirando baixo. Tentou resistir alguns segundos, mas era inútil. Imagens de Gerson sorrindo no curral, das suas mãos grandes e ásperas e de seu peito largo voltavam inteiras e vívidas. Tirou o pênis ereto pela perna do samba-canção e o segurou com firmeza, masturbando-se devagar. Sua mão movimentava para frente e para trás no tronco. Seu corpo arrepiava, seus glúteos se contraíam, e então ele acelerou os momentos até que seu corpo todo tremeu e suas pernas bambearam enquanto os jatos fortes de gozo atingiam a parede e escorriam devagar.

Passado o calor do tesão, ele foi tomado de vergonha e culpa. Então pegou uma camiseta suja que estava no canto do quarto e limpou o membro e a parede; o pênis ainda completamente ereto balançava com seu andar pelo quarto e dele escorria uma última gota de esperma. Enquanto fazia aquilo, escutando as vozes masculinas e risos do lado de fora da casa, Luís não podia imaginar que certas histórias começam muito antes da gente entrar nelas.

Relaxado, ele foi para a cama e dormiu rapidamente.

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