Giulia acordou perto do meio-dia, ainda cansada da viagem.
Rafael havia saído para resolver assuntos de trabalho, deixando uma mensagem curta sobre o almoço. Ela tomou banho devagar, tentando reorganizar as lembranças da noite anterior. Algumas vinham nítidas. Outras apareciam em fragmentos: mãos, vozes, risadas, espelhos e a sensação de ter atravessado limites que jamais imaginara cruzar.
Quando saiu do banheiro, encontrou uma mensagem de Karina.
“Precisamos conversar. Sem o Rafael.”
O estômago de Giulia se contraiu.
Perguntou se havia acontecido alguma coisa. Karina respondeu apenas que passaria para buscá-la.
Quarenta minutos depois, as duas estavam sentadas numa mesa afastada da cafeteria da igreja. O prédio estava quase vazio. Karina havia escolhido um lugar onde ninguém conseguiria ouvir a conversa.
Giulia mexia no café sem beber.
– Você está me deixando nervosa.
Karina colocou o celular sobre a mesa.
– Não quero que descubra isso de outra forma.
Abriu a galeria e mostrou uma das fotografias feitas no motel.
Giulia reconheceu a suíte antes de reconhecer o próprio corpo.
Sentiu o rosto perder a cor.
– Você fotografou aquilo?
Karina sustentou seu olhar.
– Fotografei.
– Sem me perguntar?
– Sim.
Giulia afastou-se da mesa, sentindo uma mistura de raiva e humilhação.
– Apaga.
– Não vou apagar.
– Karina, você ficou maluca?
Algumas pessoas passaram pelo corredor. Karina esperou que se afastassem antes de continuar.
– Fala mais baixo.
– Você me levou até lá, disse que eu podia confiar em vocês e depois fez isso escondido?
– Uma coisa não anula a outra.
– Anula, sim.
Giulia pegou a bolsa, pronta para se levantar, mas Karina segurou seu pulso. Não com força. Apenas o bastante para pedir que ficasse.
– Escuta primeiro.
– O que existe para explicar?
Karina soltou sua mão.
– Você é nova. Não conhecemos você há anos como conhecemos umas às outras. Não sabemos como vai reagir quando a culpa chegar de verdade. Não sabemos se vai contar ao Rafael, procurar algum pastor ou decidir que precisa salvar a própria consciência sacrificando as três.
Giulia encarou-a.
– Então isso é chantagem.
– É uma garantia.
– É a mesma coisa.
Karina não tentou negar completamente.
– Talvez seja. Mas não é pessoal.
Giulia soltou um riso amargo.
– Você tem uma fotografia minha naquela situação e diz que não é pessoal?
– Eu faria o mesmo com qualquer pessoa que entrasse no nosso círculo.
– Fez com Bianca e Fernanda?
Karina permaneceu em silêncio por um instante.
– Nós três temos coisas umas das outras.
A resposta fez Giulia hesitar.
– Que coisas?
– O suficiente para que nenhuma possa destruir as outras sem se destruir também.
Giulia sentiu um frio na nuca.
– Isso não é amizade.
– Não é apenas amizade – Karina respondeu. – É sobrevivência.
Giulia olhou novamente para o celular sobre a mesa.
– Quem mais tem isso?
– Apenas eu.
– Bianca sabia?
– Sabia.
– E Fernanda?
Karina desviou os olhos por um segundo.
– Ela viu. Não gostou.
Giulia lembrou-se da expressão de Fernanda no motel. O desconforto que não compreendera naquele momento agora fazia sentido.
– Eu quero que apague.
– Não posso.
– Não pode ou não quer?
– Não quero correr o risco de você acordar amanhã tomada pela culpa e destruir tudo o que construímos.
Giulia sentiu a raiva crescer.
– Vocês me envolveram nisso.
– Nós abrimos uma porta. Você entrou porque quis.
A frase a atingiu.
Era verdade, mas não toda a verdade.
– Isso não te dá direito de me filmar.
– Não dá – Karina admitiu. – Mas me dá uma responsabilidade com Bianca e Fernanda. Elas têm maridos, cargos, famílias e uma vida inteira que pode ser destruída por uma única confissão sua.
Giulia ficou em silêncio.
Karina aproximou o celular, mas não abriu novamente a imagem.
– Essa gravação nunca sairá daqui enquanto você não ameaçar nenhuma de nós.
– E se eu decidir simplesmente ir embora?
– Pode ir.
– E você guarda tudo?
– Guardo.
– Para sempre?
– Enquanto for necessário.
Giulia olhou para Karina com desprezo, mas também com uma compreensão incômoda. A mulher diante dela não parecia sentir prazer em ameaçá-la. Parecia apenas estar executando uma regra antiga.
– Fernanda estava certa em não gostar disso.
– Fernanda ainda acredita que confiança basta.
– E você não?
Karina respondeu sem hesitar:
– Confiança é boa. Prova é melhor.
Giulia se levantou.
– Não sei se consigo continuar perto de vocês depois disso.
Karina permaneceu sentada.
– Consegue.
A certeza em sua voz irritou Giulia ainda mais.
– Como pode saber?
– Porque está com raiva da fotografia, não do que viveu.
Giulia ficou imóvel.
Karina continuou:
– Se estivesse arrependida da noite, teria entrado aqui pedindo perdão a Deus. Em vez disso, está defendendo o direito de viver aquilo sem ser controlada.
A frase desmontou parte da raiva de Giulia porque tocava exatamente na contradição que ela tentava esconder.
Ela não se arrependia do motel.
Arrependia-se de não controlar o segredo.
– Você não me conhece – disse.
– Ainda não – Karina respondeu. – Mas conheço mulheres presas. E sei reconhecer quando uma delas experimenta liberdade pela primeira vez.
Giulia pegou a bolsa.
– Se essa imagem aparecer em qualquer lugar...
– Não vai aparecer.
– Como posso acreditar em você?
Karina pegou o celular e o guardou.
– Do mesmo jeito que nós precisamos acreditar que você não vai nos entregar.
Giulia saiu sem se despedir.
No corredor, encontrou Fernanda esperando perto da recepção. Parecia nervosa.
– Ela contou?
Giulia não respondeu de imediato.
– Você sabia.
Fernanda baixou os olhos.
– Eu tentei impedir.
– Mas não impediu.
– Não.
Giulia sentiu outra camada de confiança se romper.
Fernanda se aproximou.
– Karina faz isso porque tem medo.
– Medo não dá direito de fazer qualquer coisa.
– Eu sei.
– E Bianca?
– Bianca acha que é necessário.
Giulia respirou fundo.
– E você acha o quê?
Fernanda olhou para ela.
– Acho que, depois disso, você só deveria ficar se realmente quisesse. Não por causa da gravação.
Giulia soltou um riso sem humor.
– Agora ficou difícil saber a diferença.
Saiu da igreja sentindo-se traída.
Mas, naquela noite, quando recebeu uma mensagem de Bianca perguntando se estava bem, não bloqueou o número.
Também não pediu demissão.
E isso a incomodou mais do que a fotografia.
Durante os dias seguintes, Giulia limitou-se a cumprir suas tarefas.
Chegava à igreja no horário, organizava documentos, respondia mensagens e ajudava Fernanda com as despesas do Ministério de Mulheres. Tratava Bianca com educação e evitava permanecer sozinha com Karina.
Nenhuma das três forçou uma conversa.
Karina parecia compreender que Giulia precisava de espaço. Bianca tentou algumas brincadeiras, mas recuou diante das respostas frias. Fernanda, por sua vez, mantinha uma delicadeza quase culpada, como se procurasse uma maneira de pedir desculpas por algo que não tivera coragem de impedir.
Giulia não sabia se ainda confiava nelas.
Mas sabia que não queria ir embora.
Essa constatação era a parte mais difícil.
Pedir demissão significaria voltar para casa, para a rotina de Rafael, para os dias iguais e para a versão de si mesma que existia antes de conhecer aquelas mulheres. Significaria abrir mão do salário, da conta secreta, das viagens e de uma liberdade que, apesar de tudo, havia se tornado real.
Além disso, sair não faria a gravação desaparecer.
Karina continuaria com a vantagem.
Giulia precisava mudar isso.
Na sexta-feira à noite, Rafael chegou em casa mais animado do que de costume. Entrou falando ao telefone, rindo alto, e só encerrou a ligação quando já estava na cozinha.
– Você não sabe quem me convidou para viajar.
Giulia fechou a porta do armário.
– Quem?
– O pastor Vinícius. Ele, o Marcelo, o Eduardo e mais uns empresários vão passar o próximo fim de semana numa fazenda. Pesca, churrasco, essas coisas.
O orgulho era evidente em sua voz.
Não era apenas um passeio. Rafael via aquilo como uma promoção silenciosa. Um sinal de que finalmente estava sendo aceito pelo grupo de homens poderosos que admirava desde que chegara à cidade.
– E você vai? – perguntou Giulia.
– Claro.
A resposta veio tão rápida que ela quase sorriu.
Rafael abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e continuou:
– Esses caras não chamam qualquer um. Dá para fazer contatos, ouvir umas ideias, conversar sobre negócios. É bom estar perto de gente que pensa grande.
Giulia o observou beber.
– Quando vocês vão?
– Sexta depois do almoço. Voltamos domingo à noite.
Ela sentiu algo se movimentar por dentro.
Um fim de semana inteiro.
Os homens longe.
As quatro mulheres sem precisar inventar reuniões curtas ou voltar antes do amanhecer.
– E você fica bem sozinha? – Rafael perguntou.
Não havia verdadeira preocupação na pergunta. Ele apenas queria ouvir que podia viajar sem culpa.
– Fico.
– Pode chamar uma das meninas para dormir aqui, se tiver medo.
Giulia sustentou o olhar dele.
– Talvez eu faça isso.
Rafael sorriu, satisfeito, sem imaginar o que aquela resposta poderia significar.
Na segunda-feira, a notícia já havia chegado às três.
Bianca entrou na sala administrativa segurando o celular e fechou a porta atrás de si.
– Confirmado. Os quatro vão para a fazenda na sexta e só voltam domingo.
Fernanda levantou os olhos do computador.
– Rafael também?
– Agora ele faz parte do clube dos homens importantes – Bianca respondeu, com ironia.
Karina, sentada à cabeceira da mesa, não pareceu surpresa.
– Era uma questão de tempo.
Giulia permaneceu em silêncio.
Karina abriu a agenda no tablet.
– A chácara de retiros está livre.
Fernanda reconheceu imediatamente o tom.
– Não.
– Eu ainda não propus nada.
– Quando você começa assim, já decidiu tudo.
Bianca se aproximou da mesa.
– Qual chácara?
– A propriedade que usamos nos retiros de liderança. Fica a quarenta minutos daqui, tem piscina, área de festas e seis quartos. Nenhum vizinho perto.
Bianca sorriu.
– Está ficando interessante.
Fernanda fechou a planilha.
– Depois do que aconteceu, vocês acham mesmo uma boa ideia?
O silêncio caiu sobre a sala.
Giulia entendeu que a pergunta era dirigida a ela.
Karina também.
– Ninguém vai obrigar a Giulia a ir – disse Karina.
Giulia olhou para ela.
A frase parecia respeitosa, mas carregava a mesma segurança irritante da conversa na cafeteria. Karina esperava que ela aceitasse. Talvez acreditasse que a gravação tornava qualquer outra escolha improvável.
– Qual seria a desculpa? – Giulia perguntou.
Fernanda franziu a testa.
Bianca abriu um sorriso.
Karina respondeu:
– Planejamento do próximo congresso feminino. Podemos registrar a chácara como hospedagem de equipe e lançar as despesas no projeto.
– E quem vai estar lá? – Giulia continuou.
– Apenas nós, se preferirem – Fernanda disse rapidamente.
Bianca apoiou as mãos na mesa.
– Ou podemos tornar o fim de semana mais interessante.
Karina observava Giulia, tentando interpretar seu rosto.
– Você não precisa decidir agora.
Giulia recostou-se na cadeira.
– Eu vou.
Fernanda pareceu surpresa.
Bianca, satisfeita.
Karina apenas assentiu.
– Ótimo.
A reunião terminou pouco depois, mas Giulia permaneceu na sala sob o pretexto de concluir algumas reservas. Esperou até ouvir os passos das três desaparecerem no corredor.
Então abriu uma nova aba no computador.
Criou um endereço de e-mail sem usar seu nome, data de nascimento ou qualquer informação pessoal. Escolheu uma senha longa, decorou-a e fechou a conta sem salvar os dados no navegador.
Naquela noite, em casa, procurou um celular antigo no fundo de uma caixa da mudança. A tela estava rachada num dos cantos, mas a câmera e a bateria ainda funcionavam.
Sentada no chão do escritório, Giulia segurou o aparelho entre as mãos.
Sabia que estava prestes a cometer a mesma violação que tanto condenara em Karina.
A diferença era que não queria controlar ninguém.
Queria apenas deixar de ser a única pessoa desprotegida.
“Uma garantia.”
A voz de Karina voltou à sua memória.
Giulia ligou o aparelho, apagou os arquivos antigos e testou a câmera. Depois enviou um pequeno vídeo para o endereço recém-criado. Minutos mais tarde, acessou a conta pelo próprio celular e confirmou que o arquivo estava lá.
Funcionava.
Ela guardou o aparelho no fundo da mala, entre duas peças de roupa.
Quando entrou no quarto, Rafael estava escolhendo equipamentos de pesca pela internet.
– O que estava fazendo? – perguntou, sem olhar para ela.
– Preparando algumas coisas para o fim de semana.
– Vocês decidiram se encontrar?
– Vamos passar uns dias na chácara da igreja. Planejar o congresso.
Rafael finalmente ergueu os olhos.
– Só mulheres?
Giulia quase riu.
– Só as meninas.
Ele relaxou imediatamente.
– Então está tranquilo.
Giulia se sentou diante do espelho e começou a pentear os cabelos.
– Está, sim.
Rafael voltou sua atenção para a tela, completamente seguro de que compreendia a vida da esposa.
Giulia observou o reflexo dele.
Depois olhou para a própria imagem.
Karina possuía fotografias capazes de destruir seu casamento.
No fim de semana seguinte, Giulia pretendia conseguir algo capaz de destruir muito mais.
Não por vingança.
Não ainda.
Apenas para garantir que, naquele grupo, nenhuma mulher tivesse poder absoluto sobre outra.
Na sexta-feira, pouco depois do almoço, Rafael saiu com os outros homens.
Estava arrumado demais para uma simples pescaria. Camisa polo nova, relógio no pulso, óculos escuros e uma bolsa de viagem que Giulia havia ajudado a organizar na noite anterior. Enquanto colocava as coisas no carro, falava sem parar sobre os empresários que estariam presentes, as possibilidades de negócio e a importância de construir boas relações.
Giulia permanecia na porta, observando.
– Não esquece de responder minhas mensagens – ele disse.
– Você também.
– Lá talvez não tenha muito sinal.
Ela quase sorriu.
– Claro.
Rafael se aproximou e beijou sua testa.
– Se comporta.
A frase veio em tom de brincadeira, mas carregava a velha certeza de que ele tinha direito de dizê-la.
Giulia sustentou seu olhar.
– Você também.
Rafael riu, como se a resposta fosse apenas uma graça, e entrou no carro.
Ela esperou o veículo desaparecer no fim da rua antes de fechar a porta.
Por alguns minutos, a casa permaneceu em silêncio.
Então Giulia foi até o quarto, abriu a mala e conferiu pela última vez o celular antigo escondido entre as roupas. A bateria estava cheia. A câmera funcionava. O endereço de e-mail secreto continuava acessível.
Guardou o aparelho novamente.
Não sentia orgulho do que pretendia fazer.
Mas também não se sentia disposta a passar mais uma noite sabendo que Karina tinha poder sobre ela e ela não tinha nada em troca.
Duas horas depois, Bianca estacionou diante da casa.
Fernanda estava no banco traseiro. Karina ocupava o banco da frente, usando óculos escuros e uma expressão serena demais.
Giulia colocou a mala no porta-malas e entrou.
– Preparada para o retiro espiritual? – Bianca perguntou.
– Depende do tipo de espírito.
Fernanda riu.
Karina virou o rosto e olhou para Giulia por cima dos óculos.
– Está mais animada.
– Resolvi aproveitar o fim de semana.
– Fez bem.
O tom de Karina era normal. Quase afetuoso.
Giulia também agiu normalmente.
Conversou durante o caminho, riu das provocações de Bianca e ouviu Fernanda falar sobre as compras que haviam feito para a casa. Ninguém mencionou a conversa da cafeteria. Ninguém falou sobre fotografias ou garantias.
Era como se o conflito tivesse sido cuidadosamente guardado numa gaveta.
A chácara ficava no fim de uma estrada estreita, cercada por árvores e propriedades afastadas. Um portão alto escondia a maior parte do terreno. Quando Bianca digitou o código e entrou, Giulia viu uma casa ampla, com varanda, piscina, churrasqueira e um jardim bem cuidado.
Não parecia uma simples casa de retiros.
Parecia uma propriedade particular de luxo.
– Isso pertence à igreja? – Giulia perguntou.
– Oficialmente, pertence a uma fundação parceira – Fernanda respondeu.
– Que pertence a quem?
Bianca sorriu pelo retrovisor.
– Você continua fazendo perguntas interessantes.
Karina respondeu com mais objetividade:
– A fundação é administrada por pessoas ligadas à igreja. O imóvel fica disponível para encontros de liderança, retiros e reuniões privadas.
– Privadas como esta?
– Principalmente como esta – Bianca disse.
Elas descarregaram o carro e escolheram os quartos.
Giulia ficou com um quarto no corredor lateral, com vista para a piscina. Assim que fechou a porta, retirou o celular antigo da mala.
Caminhou pelo ambiente, observando os móveis e procurando um lugar onde pudesse deixar o aparelho sem chamar atenção. Escolheu uma estante na sala principal, cheia de livros decorativos, vasos e pequenas esculturas. Havia espaço suficiente para esconder o celular entre dois objetos, com a câmera voltada para o sofá e parte da área de convivência.
Ainda não o colocou ali.
Esperaria até a noite.
Ao voltar para a cozinha, encontrou Bianca abrindo garrafas de vinho. Fernanda organizava frutas e petiscos. Karina conversava ao telefone perto da varanda.
Giulia percebeu que havia mais comida e bebida do que quatro mulheres poderiam consumir.
Também viu seis taças sobre a bancada.
– Vamos receber alguém? – perguntou.
Bianca olhou para Fernanda.
Fernanda olhou para Karina.
Karina encerrou a ligação e entrou.
– Vamos.
– Quem?
Karina colocou o celular sobre a mesa.
– Uma pessoa importante.
– Importante para a igreja?
– Também.
A resposta não tranquilizou Giulia.
– É homem?
Bianca abriu um sorriso.
– É.
Giulia cruzou os braços.
– E vocês pretendiam me contar quando?
– Agora – Karina respondeu.
– Quem é ele?
Por um instante, as três pareceram escolher as palavras.
Foi Fernanda quem falou primeiro:
– O nome dele é Augusto Valença.
Giulia conhecia o nome.
Não pessoalmente, mas havia visto fotografias dele em eventos da igreja, jantares beneficentes e reuniões com políticos. Augusto era dono de empresas de construção, hotéis e uma rede de centros comerciais. Seu nome aparecia em placas de patrocínio e projetos sociais.
– O empresário?
– Ele mesmo – Bianca respondeu.
– O que ele tem a ver com vocês?
Karina puxou uma cadeira e se sentou.
– Augusto faz negócios com nossos maridos há muitos anos.
– Que tipo de negócios?
– Vários.
– E com vocês?
Bianca apoiou o quadril na bancada.
– Outros.
Giulia sentiu um aperto discreto no estômago.
– Que outros?
Karina manteve os olhos nela.
– Eu trabalhei para Augusto antes de me casar. Foi ele quem me ensinou como certas coisas funcionavam.
– Que coisas?
– Dinheiro. Influência. Aparência. A diferença entre o que as pessoas mostram e o que realmente fazem.
Giulia percebeu algo diferente na voz de Karina.
Não era medo.
Era respeito.
Talvez até uma forma antiga de admiração.
– E Bianca e Fernanda?
– Eu apresentei as duas a ele alguns anos depois – Karina respondeu.
Bianca levantou a taça vazia, como se brindasse à memória.
– Nosso querido chefinho.
Giulia franziu a testa.
– Chefinho?
Fernanda desviou os olhos, sorrindo discretamente.
– É um apelido antigo.
– Ele era chefe da Karina – Bianca explicou. – Depois acabou virando uma espécie de chefe informal de todas nós.
– Informal como?
Karina respondeu antes que Bianca transformasse tudo em brincadeira:
– Augusto participa de parte dos negócios ligados à igreja. Ele conhece os caminhos do dinheiro, as empresas usadas, os políticos envolvidos e as pessoas que precisam ser mantidas satisfeitas.
– Então ele sabe que vocês pegam dinheiro?
– Sabe.
– E permite?
Karina inclinou levemente a cabeça.
– Ele não precisa permitir. Mas ajuda.
Giulia olhou para as três.
– Em troca de quê?
O silêncio respondeu primeiro.
Bianca tomou um gole de vinho.
Fernanda começou a reorganizar pratos que já estavam organizados.
Karina permaneceu imóvel.
– Em troca da nossa colaboração quando é necessário – disse, por fim.
– Colaboração financeira?
– Às vezes.
– E nas outras vezes?
Karina sustentou seu olhar.
– Nas outras vezes, a relação é pessoal.
Giulia sentiu a resposta atravessá-la.
– Vocês se relacionam com ele?
– Sim – Bianca respondeu, sem qualquer vergonha.
– As três?
– Às vezes juntas. Às vezes não.
Giulia voltou os olhos para Karina.
– E ele vem hoje para isso?
– Ele vem porque é amigo antigo – Karina respondeu. – O restante depende de como a noite acontece.
– Depende de quem?
– De todos os envolvidos.
Giulia soltou um riso curto.
– Vocês sempre respondem sem responder.
Fernanda se aproximou.
– Augusto não vai obrigar você a nada.
– Karina também disse que eu podia confiar em vocês.
A frase atingiu o ambiente.
Bianca parou de sorrir.
Fernanda abaixou os olhos.
Karina, porém, não recuou.
– E você podia. Ainda pode.
– A fotografia diz outra coisa.
– A fotografia diz que eu protejo o que é meu.
Giulia sentiu a irritação voltar.
– Eu não sou sua.
Karina permaneceu em silêncio por alguns segundos.
– Não. Não é.
Havia algo diferente naquela admissão.
Menos certeza.
– Augusto sabe que eu venho? – Giulia perguntou.
– Sabe que existe uma quarta mulher – respondeu Karina. – Não sabe nada além disso.
– E vocês querem que eu faça o quê?
– Nada que não queira – Fernanda disse.
Bianca completou:
– Pode conversar, beber, observar. Pode ir para o quarto se não gostar dele.
Giulia olhou para Karina.
– E se eu pedir para ele ir embora?
Karina hesitou.
Foi um segundo apenas.
Mas Giulia percebeu.
– Ele não vai embora – respondeu.
– Então a escolha não é exatamente minha.
– A escolha de permanecer na sala é sua – Karina corrigiu.
Giulia respirou fundo.
A situação a incomodava.
Mas também despertava curiosidade.
Um homem poderoso, ligado ao dinheiro da igreja, conhecedor dos segredos das três e íntimo o suficiente para ser chamado de chefinho. Um homem diante de quem até Karina parecia medir as palavras.
Isso tornava a gravação ainda mais importante.
– Tudo bem – Giulia disse. – Eu fico.
Fernanda pareceu preocupada.
Bianca, satisfeita.
Karina apenas assentiu.
– Ótimo.
Pouco antes das oito, as três começaram a se arrumar.
Giulia percebeu que nenhuma delas tratava aquela noite como uma festa comum.
Karina escolheu um vestido escuro, elegante e discreto. Bianca usou algo mais ousado, mas ainda sofisticado. Fernanda demorou mais diante do espelho, experimentando duas roupas antes de escolher a mais simples.
– Vocês estão nervosas – Giulia comentou.
Bianca riu.
– Não estamos nervosas.
– Estão, sim.
Fernanda sorriu para o próprio reflexo.
– Faz algum tempo que não o vemos.
– E isso deixa vocês assim?
Karina apareceu na porta.
– Augusto tem presença.
– Só isso?
– Você vai entender.
Quando as três foram para a cozinha, Giulia disse que precisava buscar o celular no quarto.
Em vez disso, pegou o aparelho antigo.
Caminhou até a sala, certificou-se de que estava sozinha e o colocou entre os objetos da estante. Ajustou discretamente o ângulo, iniciou a gravação e apagou a luz da tela.
O coração batia rápido.
Por um instante, pensou em retirar o aparelho.
Aquilo era errado.
Era exatamente o tipo de violação que Karina havia cometido contra ela.
Mas a lembrança da fotografia no celular da amiga endureceu sua decisão.
Não era pessoal.
Era uma garantia.
Giulia voltou para perto das outras.
Poucos minutos depois, faróis iluminaram o portão.
Um carro preto entrou na propriedade e parou diante da varanda.
As três ficaram em silêncio.
Karina colocou a taça sobre a mesa.
Bianca ajeitou o vestido.
Fernanda respirou fundo.
Giulia observou tudo.
O homem que saiu do carro tinha cabelos grisalhos, postura firme e movimentos tranquilos. Usava camisa escura, calça social e um relógio discreto que provavelmente custava mais do que o carro de Rafael.
Augusto não parecia precisar demonstrar riqueza.
Ela já estava em tudo ao redor dele.
Subiu os degraus da varanda sem pressa.
Karina abriu a porta antes que ele tocasse a campainha.
Por alguns segundos, os dois apenas se olharam.
– Karina – ele disse.
– Augusto.
Ele tocou o rosto dela com a mão e beijou sua testa. Depois cumprimentou Fernanda e Bianca com uma intimidade silenciosa, como alguém que conhecia cada uma havia muitos anos.
Bianca sorriu.
– Sentiu saudade, chefinho?
Augusto olhou para ela.
– Você continua falando demais.
– E você continua gostando.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
Então seus olhos encontraram Giulia.
Não percorreu seu corpo de forma vulgar. Apenas a observou com atenção, como se tentasse compreender por que ela estava ali.
Karina aproximou-se.
– Augusto, esta é Giulia.
Ele estendeu a mão.
– Finalmente.
Giulia apertou a mão dele.
– Finalmente?
– Ouvi bastante sobre você.
Ela olhou rapidamente para as três.
– Espero que tenham falado bem.
– Falaram com interesse.
Augusto soltou sua mão, mas manteve os olhos nela.
– Disseram que você é curiosa.
– E disseram que o senhor gosta de mandar.
Bianca prendeu uma risada.
Fernanda arregalou discretamente os olhos.
Karina observou Giulia com atenção.
Augusto, porém, não pareceu ofendido.
Apenas sorriu.
– Só em quem gosta de obedecer.
Giulia sustentou o olhar dele.
– Então ainda não sabe se pode mandar em mim.
– Exatamente.
Ele entrou na sala.
Ao passar pela estante, ficou a poucos centímetros do celular escondido.
Giulia sentiu o corpo enrijecer.
Augusto olhou para os objetos por um instante, como se tivesse notado alguma coisa.
Depois se virou para ela.
– Está esperando alguém?
Giulia sentiu o coração bater na garganta.
– Só estava tentando entender por que todos parecem tão tensos.
Augusto observou as três mulheres.
– Elas ficam assim quando não sabem exatamente o que esperar.
Bianca entregou uma taça a ele.
– E você adora fazer suspense.
Augusto aceitou a bebida.
– Suspense é o que vocês chamam quando não têm controle.
Os olhos de Karina se estreitaram, mas ela sorriu.
Giulia percebeu naquele instante que a dinâmica entre eles era antiga, complexa e cheia de regras que ninguém ainda lhe havia explicado.
Também percebeu outra coisa.
Naquela sala, Karina não era a única pessoa acostumada a ter poder.
E, escondido entre dois objetos da estante, o celular antigo registrava tudo.