Nota do autor: Antes de continuar a história, gostaria de agradecer por todo carinho, incentivo e compartilhamento das experiências de vocês. Continuem comigo..estamos próximos ao final da trama. Caíque e Marco ainda trarão muitas emoções e alegrias, além da lição de vida. Beijos no coração e vamos em frente.
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Brasília tinha duas cidades.
A primeira era feita de concreto, mármore, vidro, crachá, gabinete, bandeira hasteada, discurso moderado e sapato engraxado. Era a cidade dos homens que falavam em nome do país, das mulheres que sorriam em recepções oficiais, dos motoristas que esperavam com o motor ligado, dos elevadores ministeriais, dos memorandos, das audiências, dos cafés servidos em xícaras pequenas, dos corredores onde ninguém parecia caminhar sem algum interesse.
Era a cidade que saía nos jornais.
A segunda existia depois das seis da tarde.
Não aparecia em mapa, não constava em agenda pública, não tinha placa, não tinha porta principal. Era feita de apartamentos com cortinas fechadas, festas que começavam como jantar, telefonemas sem sobrenome, táxis que davam voltas desnecessárias, porteiros que sabiam demais, cozinhas enfumaçadas, quartos emprestados, nomes falsos, risadas abafadas e olhares que duravam um segundo além da prudência.
Essa era a cidade que Caíque realmente passou a conhecer.
E, como tudo que é proibido, ela era muito mais interessante.
Depois que Marco entrou em sua vida, Brasília deixou de ser apenas um lugar de adaptação profissional e se tornou um território a ser decifrado a dois. Caíque já circulava pelo subsolo afetivo da capital com a curiosidade de quem tinha sido formado pela Galeria Alaska. Mas, com Marco, os caminhos ganharam outra textura. Antes, ele observava. Agora, pertencia.
Ou quase.
Pertencer, naquela cidade, era sempre uma negociação.
Nas festas, os dois raramente chegavam juntos. Marco preferia entrar alguns minutos depois, cumprimentar conhecidos, medir o ambiente, localizar riscos. Caíque, mais teatral, entrava como se a sala devesse a ele pelo menos três explicações e uma bebida. Quando seus olhares se encontravam do outro lado do apartamento, ninguém desavisado entenderia. Quem sabia, sabia. Quem desconfiava, colecionava. Quem queria usar, esperava.
Brasília não era discreta. Era calculista.
— No Rio, pelo menos a hipocrisia suava — dizia Caíque, depois de certas noites.
— Você sente falta do suor? — Marco perguntava.
— Sinto falta da honestidade do suor. Aqui até a mentira usa talco.
Marco ria, mas entendia.
A cidade secreta tinha regras próprias.
Nunca elogiar demais um homem diante de pessoas erradas.
Nunca sair imediatamente depois dele.
Nunca telefonar em horário familiar.
Nunca escrever o que não pudesse ser explicado como piada, trabalho ou literatura.
Nunca confiar em alguém apenas porque frequentava os mesmos lugares.
Nunca confundir ambiente seguro com mundo seguro.
Caíque conhecia algumas dessas regras desde o Rio. Outras eram brasilienses demais para serem aprendidas em outro lugar. A capital tinha uma característica particular: ali, desejo e poder se cruzavam o tempo todo. Um caso mal resolvido podia virar fofoca. Uma fofoca podia virar chantagem. Uma chantagem podia virar nomeação, demissão, favor, silêncio ou queda.
E havia gente que vivia disso.
Irene chamava essas pessoas de “os corretores da vergonha”.
— Todo mercado tem seus intermediários — dizia, tragando um cigarro com calma. — Aqui, vergonha também circula como moeda.
Irene era jornalista, mas parecia ter sido inventada antes da profissão. Tinha olhos de quem lia rodapé de alma alheia. Sabia quem dormia com quem, quem fingia não dormir, quem pagava aluguel para amante, quem bancava sobrinho que não era sobrinho, quem tinha sido visto em Goiânia, quem alugava casa no Lago Sul para festas “culturais”, quem citava Deus de manhã e implorava pecado à noite.
— Você sabe demais — Caíque disse uma vez.
— Sei o suficiente.
— Para quê?
— Para não ser ingênua.
— E para ser perigosa.
Irene sorriu.
— Ser perigosa é o mínimo que uma mulher inteligente pode fazer em uma cidade governada por homens medíocres.
Caíque gostava dela.
Marco tinha um pouco de medo.
— Ela parece guardar todo mundo em gavetas — disse.
— Guarda mesmo.
— E nós?
— Nós provavelmente estamos em uma pasta com etiqueta bonita.
— Isso não me tranquiliza.
— Nem deveria.
Irene, porém, tinha seus códigos de ética. Não expunha quem seria destruído sem necessidade. Não entregava amores pobres aos predadores ricos. Não transformava dor em entretenimento barato. Mas adorava derrubar a pompa dos poderosos. Se um homem subia em palanque para defender a família enquanto mantinha três vidas paralelas, Irene considerava aquilo material de interesse público, ainda que publicado apenas em cozinhas confiáveis.
Foi ela quem batizou alguns personagens do circuito, já que nomes reais eram perigosos e nomes falsos eram sem graça.
Havia o Deputado da Família, um sujeito que discursava contra a “degradação dos costumes” e chorava bêbado ao som de Maria Bethânia no colo de um rapaz de vinte e poucos anos.
Havia o Embaixador das Mãos, diplomata que não conseguia conversar sem tocar o joelho de alguém, mas em público tratava a esposa com uma devoção de vitrine.
Havia o Juiz de Sodoma, que condenava tudo em tese e aceitava quase tudo na prática, desde que ninguém acendesse luz forte.
Havia o Coronel das Orquídeas, militar reformado, rígido no almoço, delicadíssimo à noite, dono de uma coleção de flores e de amantes jovens que chamava, com absoluta falta de imaginação, de “meus jardineiros”.
Havia também o Poeta do Planalto, que escrevia versos inflamados para homens que depois fingia não conhecer em lançamentos de livro.
Caíque se divertia.
— Isso não é uma cidade. É uma peça de Nelson Rodrigues com organograma.
Marco ria, mas menos.
— Você acha graça porque consegue ficar de fora.
— Eu fico?
— Às vezes.
— E você fica onde?
Marco demorava a responder.
— Perto demais.
Essa era uma diferença entre eles.
Caíque via a cidade secreta como teatro, arquivo, estratégia e, em muitos momentos, comédia. Marco a sentia como risco. Talvez porque fosse mais reservado. Talvez porque tivesse menos prazer em desafiar. Talvez porque o medo dele não saísse fantasiado de ironia.
Ainda assim, Marco frequentava.
Às vezes por Caíque. Às vezes por si mesmo. Às vezes porque, apesar do medo, também precisava daquela comunidade torta, perigosa e viva. Havia uma fome de pertencimento que nem o homem mais cauteloso conseguia negar para sempre.
As festas mais importantes aconteciam em apartamentos.
O de Davi, na Asa Norte, era o território da conversa. Livros por toda parte, discos, cadeiras quebradas, comida improvisada, vinho barato e discussões que começavam em Gramsci e terminavam em ciúme.
O de Lúcia Helena era o território da mistura. Artistas, funcionários públicos, professoras, jornalistas, rapazes das regiões administrativas, mulheres que amavam mulheres e homens que ainda tentavam negociar com a própria covardia. Lá, as noites tinham cheiro de comida boa, perfume forte e alguma crise resolvida na cozinha.
O de Paulo, o arquiteto, era o território da pose. Móveis bonitos, luz pensada, gente mais elegante, frases mais longas, menos sinceridade e mais homens que usavam gola alta no calor por convicção estética.
Havia ainda as festas fora do Plano Piloto, que Caíque preferia em segredo. No Gama, em Taguatinga, no Núcleo Bandeirante, a vida parecia menos preocupada em parecer inteligente. Havia música alta, comida simples, cerveja em copo de plástico, gente dançando com o corpo inteiro e menos paciência para o teatro da discrição burguesa.
— Aqui o medo não usa perfume caro — Caíque comentou certa noite no Gama.
Marco olhou ao redor. Um grupo dançava na sala. Duas mulheres riam perto da porta. Um rapaz muito jovem cantava errado e feliz. Havia uma energia quente, popular, desprotegida.
— Talvez por isso doa mais — Marco disse.
Caíque olhou para ele.
— Você sempre encontra a tristeza até onde ela está tentando descansar.
— E você sempre tenta fazer a tristeza dançar.
— Alguém precisa.
Marco sorriu.
Naquela noite, dançaram pouco e separados, por prudência. Mas, em um momento em que a sala estava cheia demais para que qualquer gesto individual fosse notado, Marco encostou a mão na cintura de Caíque por um instante. Um toque breve, escondido entre corpos, música e calor.
Caíque sentiu o mundo inteiro caber naquele segundo.
A cidade secreta era feita disso: segundos roubados.
Um joelho encostado sob a mesa.
Um bilhete dentro de um livro.
Uma chave entregue sem discurso.
Uma xícara deixada de propósito.
Um olhar atravessando uma sala cheia.
Uma mão que se retirava rápido demais quando alguém entrava.
A vida deles não podia ocupar a rua. Então ocupava frestas.
Mas frestas também criam raízes.
Com o tempo, Caíque e Marco passaram a ser reconhecidos, ainda que raramente nomeados como casal. Havia um respeito silencioso entre os mais próximos. Lúcia Helena tratava os dois com uma naturalidade que chegava a ser revolucionária.
— Vocês vêm jantar no sábado? — perguntava.
— Eu venho — dizia Caíque.
— Não perguntei no singular.
Marco, ao ouvir, ficava sem saber onde colocar as mãos.
Davi era mais debochado.
— O matrimônio clandestino da burocracia nacional chegou.
— Não fale essa palavra — Marco dizia.
— Matrimônio?
— Clandestino.
— Burocracia?
— Davi.
— Está bem, retiro burocracia. Seria crueldade.
Irene apenas observava.
— Vocês dois têm boa estrutura narrativa — disse certa vez.
— Isso é elogio ou ameaça? — Caíque perguntou.
— Depende do final.
Marco não gostou da frase.
Caíque também não, embora tenha fingido.
A verdade é que, no mundo deles, todo amor parecia viver sob ameaça de final prematuro. Não por falta de sentimento, mas por excesso de mundo. Família, trabalho, polícia, doença, chantagem, medo, exílio emocional. A felicidade era possível, sim. Mas raramente era relaxada.
Mesmo nos melhores dias, havia cálculo.
Quando Marco dormia no apartamento de Caíque, deixava a luz da sala apagada ao sair cedo, para que vizinhos não notassem movimento demais.
Quando Caíque ligava para o trabalho de Marco, modulava a voz, usava assunto neutro, dizia “sobre aquele documento” mesmo quando queria apenas dizer “senti sua falta”.
Quando viajavam juntos, escolhiam pousadas onde dois homens dividindo quarto pudessem ser confundidos com amigos, colegas, primos, qualquer coisa que não exigisse imaginação social.
— O Brasil aceita dois homens no mesmo quarto desde que não aceite a própria conclusão — Caíque dizia.
— Você faz piada porque é absurdo.
— Faço piada porque é triste.
— Também.
Marco, porém, começou a mudar.
Devagar.
O amor não o transformou em homem sem medo, porque isso seria mentira e literatura ruim. Mas lhe deu alguns gestos novos. Em ambientes confiáveis, passou a se sentar mais perto de Caíque. A contar histórias de infância sem pedir desculpa por elas. A rir mais alto. A defender opiniões sem aquela cautela excessiva de quem parecia sempre se desculpar por ocupar ar.
Caíque notava tudo.
E se apaixonava de novo a cada pequena desobediência.
Uma noite, no apartamento de Davi, Otávio fez um comentário atravessado sobre homens “que confundiam liberdade com falta de compostura”. Não olhou diretamente para Caíque, mas todos entenderam o alvo. Antes que Caíque respondesse, Marco falou.
— Curioso. Eu sempre achei que falta de compostura fosse vigiar a vida alheia para não encarar a própria.
A sala ficou em silêncio.
Otávio sorriu com veneno.
— Marco, não esperava esse tom de você.
— Talvez você espere pouco demais.
Caíque olhou para Marco como se o visse sob uma luz nova.
Lúcia Helena quase bateu palmas.
Davi murmurou:
— Nasceu um monstro.
Mais tarde, na cozinha, Caíque encostou-se ao balcão.
— Você foi magnífico.
Marco lavava uma taça, fingindo calma.
— Fui mal-educado.
— Foi histórico.
— Eu tremi depois.
— Eu também tremo. Só disfarço com vocabulário.
Marco sorriu.
— Eu aprendi com você.
— Não. Essa parte foi sua.
Marco olhou para ele.
Havia orgulho e susto no rosto.
Naquela noite, ao chegarem ao apartamento, Marco o beijou com uma urgência incomum. Como se tivesse entendido que coragem também podia ser erótica. Caíque o abraçou, rindo contra sua boca.
— Brigar com fascista de sala de estar te deixou animado?
— Cala a boca.
— Com prazer.
Nem toda vitória precisava de discurso.
Mas os riscos aumentavam à medida que a cidade os identificava.
Otávio, especialmente, tornou-se uma presença incômoda. Não era poderoso o suficiente para destruir sozinho, mas era próximo de gente que podia. Tinha aquele tipo de influência de corredor: sabia quem indicar, quem queimar, quem descrever com uma palavra ambígua na hora certa. Em Brasília, a frase “não é confiável” podia significar incompetência, oposição política, vida sexual, independência de pensamento ou apenas antipatia. A beleza da maldade estava na imprecisão.
— Ele não gosta de você — Irene disse a Caíque.
— Que perda para minha autoestima.
— E gosta menos ainda de Marco agora.
— Porque Marco mostrou coluna vertebral?
— Porque mostrou em público.
Caíque ficou sério.
— Você acha que pode acontecer alguma coisa?
— Sempre pode. A pergunta é se vale a pena ter medo antes da hora.
— Marco já tem medo antes da hora.
— E você costuma ter depois. Talvez juntos formem uma pessoa prudente.
Caíque não riu.
Irene apagou o cigarro.
— Proteja o que vocês têm. Mas não transforme proteção em funeral antecipado.
Essa frase o acompanhou.
Proteção podia virar prisão. Exposição podia virar desastre. Entre uma e outra, eles tentavam viver.
A vida, apesar de tudo, era boa em muitos momentos.
Havia manhãs em que Marco acordava no apartamento de Caíque e fazia café sem camisa, lendo jornal encostado na pia. Havia domingos em que os dois cozinhavam ouvindo música, brigando sobre tempero, rindo de qualquer coisa. Havia noites em que Marco lia em voz alta trechos de livros e Caíque reclamava que ele escolhia autores com “alergia à felicidade”. Havia tardes de cinema, passeios breves, viagens discretas, presentes pequenos.
Havia sexo, claro.
Não como estatística, não como bravata, mas como linguagem entre eles. Caíque, que na juventude aprendera o desejo como libertação, descobriu com Marco o desejo como permanência. O corpo do outro não era apenas território a ser conquistado, mas casa a ser reconhecida no escuro. Com Marco, até o silêncio depois importava. Às vezes mais.
— Você está quieto — Marco dizia.
— Estou sem defesa.
— Isso é bom?
— Apavorante.
Marco tocava seu rosto.
— Então fica.
E Caíque ficava.
Naqueles anos, Brasília ensinou aos dois uma forma estranha de casamento.
Não havia aliança. Não havia cartório. Não havia família reunida, festa, fotografia na sala, imposto conjunto, convite de Natal como casal. Mas havia rotina, cuidado, brigas, reconciliações, contas divididas informalmente, livros misturados, roupa esquecida, remédio comprado, comida preparada, preocupação quando um demorava a chegar, ciúme administrado, planos pequenos, sonhos sem documento.
Havia amor.
O mundo podia não reconhecer, mas o apartamento reconhecia.
A cama reconhecia.
A cozinha reconhecia.
A toalha de Marco no banheiro de Caíque reconhecia.
A cidade secreta reconhecia, do jeito torto dela.
Carmem, do Rio, reconhecia por cartas.
Quando Caíque contou que Marco havia enfrentado Otávio em público, ela respondeu:
“Meu filho,
Gostei do rapaz. Quem tem medo e mesmo assim fala merece respeito. Só não deixem que essa cidade transforme vocês em dois fantasmas educados.
E cuidado com homem ferido no orgulho. É bicho baixo.
C.”
Caíque leu a carta para Marco.
— Ela gostou de mim? — Marco perguntou.
— Dentro do padrão Carmem, isso é praticamente adoção.
— Estou emocionado e ameaçado.
— Sensação correta.
Marco sorriu.
Mas Carmem tinha razão.
Homem ferido no orgulho era bicho baixo.
Otávio não atacou de frente. Isso seria vulgar demais para ele. Preferiu pequenas insinuações. Um comentário sobre “certos vínculos pouco profissionais”. Uma piada sobre “amizades intensas”. Uma pergunta casual a um colega de Marco sobre seus horários. Um convite insistente para uma reunião onde Caíque não deveria estar. Uma presença inesperada em lugares onde antes não aparecia.
Caíque percebeu.
Marco também.
— Talvez seja melhor ficarmos mais discretos por um tempo — Marco disse uma noite.
A frase acendeu algo em Caíque.
— Mais discretos do que já somos?
— Você entendeu.
— Entendi. Só não gostei.
— Eu também não gosto.
— Parece recuo.
— Talvez seja estratégia.
— Ou medo com outro nome.
Marco se feriu.
— Você fala como se medo fosse falta de caráter.
— Não foi isso que eu disse.
— Mas às vezes é isso que você pensa.
Caíque abriu a boca, fechou.
Porque, em parte, era verdade. Não de modo justo. Não de modo consciente. Mas havia nele uma impaciência com o medo alheio que vinha de sua própria história. Ele fugira aos dezesseis. Ele atravessara estrada. Ele sobrevivera no Rio. Ele entrara na Galeria. Ele passara em concurso. Ele aprendera a usar ironia como escudo. Uma parte dele, a mais dura, acreditava que todo mundo deveria encontrar uma forma de enfrentamento equivalente.
Mas cada vida tinha sua geografia.
E Marco não era Caíque.
— Desculpa — Caíque disse.
Marco pareceu surpreso pela rapidez.
— Pelo quê?
— Por medir sua coragem com a minha régua.
Marco ficou quieto.
Depois sentou-se ao lado dele.
— Eu admiro sua coragem.
— Às vezes ela é só falta de alternativa antiga.
— Mesmo assim.
— Eu admiro sua prudência.
Marco soltou uma risada curta.
— Mentira.
— Estou tentando.
— Palavra honesta.
— Aprendi com você.
Marco segurou sua mão.
— Eu não quero te diminuir.
— Eu sei.
— Só quero que a gente sobreviva.
Caíque olhou para ele.
— Eu também. Mas não quero que sobreviver seja a única coisa que a gente faça.
Essa frase ficou entre eles como uma verdade difícil.
A cidade secreta oferecia vida, mas frequentemente cobrava em pedaços de liberdade. Para continuar existindo, muita gente aceitava reduzir-se. Menos gesto. Menos palavra. Menos sonho. Menos futuro. O mínimo de si em troca do máximo de segurança possível.
Caíque odiava essa matemática.
Mas, com Marco, aprendeu a respeitar o medo sem venerá-lo.
Por algum tempo, evitaram certas festas. Foram menos a apartamentos onde Otávio circulava. Privilegiaram encontros com Lúcia Helena, Davi, Irene e um círculo mais confiável. Passaram mais noites em casa. Isso teve um efeito inesperado: a relação ficou mais doméstica, mais profunda, menos dependente da cidade secreta.
Marco gostava de ficar.
Caíque aprendeu a gostar.
Em uma dessas noites, Marco trouxe uma pequena planta.
— Para sua sala.
— Eu não sei cuidar de planta.
— Aprende.
— Isso é simbólico?
— É uma planta, Caíque.
— Nada é só uma planta vindo de você.
Marco colocou o vaso perto da janela.
— Então digamos que é um teste de permanência.
— Da planta ou nosso?
— Sim.
Caíque riu.
A planta quase morreu três vezes nos primeiros meses. Marco a salvou em todas. Anos depois, Caíque lembraria dela como um dos primeiros seres vivos que cuidaram juntos sem precisar explicar a ninguém.
Enquanto isso, fora do apartamento, o mundo piorava em detalhes.
A palavra AIDS começou a circular com mais frequência.
No início, ainda vinha atravessada por ignorância. Alguns jornais tratavam como doença estrangeira. Outros, como punição. Havia quem fizesse piada. Havia quem exagerasse riscos. Havia quem dissesse que era invenção moralista. Havia quem jurasse conhecer uma cura. Havia quem culpasse corpos antes de entender vírus.
Nas festas, o assunto surgia e desaparecia.
— Dizem que em São Paulo já tem casos — alguém comentava.
— No Rio também.
— Um rapaz que eu conheci emagreceu muito.
— Isso pode ser tanta coisa.
— Mas e se for?
A pergunta ficava.
A cidade secreta, tão acostumada a conviver com medo social, não sabia como lidar com um medo que parecia entrar pelo sangue, pela pele, pelo desejo. Alguns reagiam com negação escandalosa.
— Não vou deixar jornal moralista me transformar em freira — Toninho escreveu do Rio, em uma carta para Caíque.
Outros se retraíam.
Marco se retraía.
Caíque percebia que ele lia as notícias com atenção demais. Guardava recortes. Fazia perguntas a médicos conhecidos. Comentava sintomas de pessoas distantes. Observava o próprio corpo em silêncio. Às vezes, depois de uma febre simples, ficava inquieto por dias.
— Você está se assustando antes do fato — Caíque dizia.
— O fato não avisa quando chega.
— Nem todo cansaço é sentença.
— Eu sei.
— Sabe?
— Saber e sentir são países diferentes.
Caíque não tinha resposta para isso.
O medo da AIDS não atingia apenas o futuro. Reescrevia o passado. Cada encontro antigo, cada noite, cada descuido possível, cada amante sem nome, cada alegria corporal começava a ser revisitada por alguns como prova, ameaça ou culpa. Era uma violência sutil: o prazer, que já havia sido condenado pela moral, agora era também sequestrado pelo pânico.
Caíque se recusava a aceitar completamente essa lógica.
— Não vou permitir que transformem minha vida inteira em prontuário — disse certa noite.
Marco respondeu baixo:
— E se o prontuário vier mesmo assim?
Caíque calou.
A doença ainda não tinha entrado oficialmente no apartamento deles. Mas sua sombra já sabia o endereço.
Lúcia Helena foi uma das primeiras a perder alguém próximo. Um amigo de juventude, Geraldo, que vivia em São Paulo, adoeceu rapidamente. As informações vinham fragmentadas: pneumonia, fraqueza, internação, família escondendo, amigos impedidos de visitar. Depois, morte.
A notícia chegou em uma tarde seca.
Lúcia Helena telefonou para Caíque.
— Ele morreu.
Não precisou explicar quem.
Caíque foi até a casa dela. Marco chegou depois. Encontraram-na sentada no chão da sala, cercada de cinzeiros e papéis. Não chorava. Ou já tinha chorado tudo antes.
— A irmã dele disse que foi “uma doença ruim” — Lúcia falou. — Como se a doença tivesse cometido o pecado sozinha.
Marco sentou-se ao lado dela.
Caíque ficou de pé por alguns segundos, sem saber o que fazer com as mãos. Depois foi até a cozinha e preparou café. Era seu reflexo diante do desastre: organizar alguma coisa mínima.
— Ele não deixou ninguém entrar no hospital — Lúcia disse quando Caíque voltou.
— Ele?
— A família. O pai. Disseram que os amigos eram má influência. Má influência. Depois de tudo, ainda quiseram limpar a biografia dele.
Marco fechou os olhos.
Caíque colocou a xícara diante dela.
— Nós lembramos.
Lúcia olhou para ele.
— Isso basta?
Caíque queria dizer que sim.
Não disse.
— Não. Mas é começo.
Naquela noite, os três ficaram juntos até tarde. Davi apareceu. Irene também. Contaram histórias de Geraldo. Algumas bonitas, outras ridículas. Riram mais do que alguém de fora consideraria adequado. Mas rir, ali, era uma forma de impedir que a morte editasse a pessoa inteira.
— Ele dançava mal — disse Irene.
— Muito mal — Lúcia corrigiu. — Parecia que brigava com o chão.
— E mentia idade.
— Todo mundo mente idade.
— Não como ele. Ele envelhecia para trás em anos eleitorais.
Riram.
Marco riu também, mas com os olhos molhados.
Caíque percebeu.
Mais tarde, ao voltarem para casa, Marco ficou em silêncio no carro. Quando chegaram, não quis comer, não quis vinho, não quis música. Sentou-se no sofá.
— Vão fazer isso com a gente se puderem — disse.
— Isso o quê?
— Limpar. Apagar. Chamar amor de influência ruim. Chamar vida de doença. Chamar companheiro de amigo. Chamar medo de decência. Chamar abandono de família.
Caíque sentou ao lado dele.
— Não vou deixar.
Marco olhou para ele com ternura e pena.
— Você não controla tudo.
— Eu sei.
— Sabe?
Caíque respirou fundo.
— Estou tentando saber.
Marco encostou a cabeça em seu ombro.
— Se acontecer comigo…
— Não começa.
— Caíque.
— Não.
— Escuta.
Ele escutou.
Com esforço.
— Se acontecer comigo, não deixa que contem por mim.
Caíque sentiu frio.
— Não vai acontecer.
Marco se afastou, olhando para ele.
— Você acabou de mentir para me proteger ou para se proteger?
A pergunta o atingiu.
— Para nós dois.
Marco suavizou.
— Eu não estou dizendo que vai. Estou dizendo que, se um dia…
— Eu não quero viver no “se um dia”.
— Eu também não. Mas ele existe.
Caíque levantou-se, inquieto.
— Você quer que eu diga o quê?
— Que vai lembrar.
— Eu vou lembrar.
— Direito.
— O que é lembrar direito?
Marco demorou.
— Sem me transformar só em tragédia.
A frase antecipava outra, que anos depois viria na janela: “se um dia contarem sobre nós, espero que não façam parecer só tristeza.”
Caíque, naquela noite, ainda não sabia o peso que essas palavras ganhariam.
— Eu prometo — disse.
Marco olhou para ele.
— Promessa séria?
— Séria.
— Sem deboche?
— Sem deboche.
Marco assentiu.
Depois, como se tivesse se arrependido de trazer a morte para dentro da sala, tentou sorrir.
— Agora pode fazer uma piada. Ficou insuportável.
Caíque se aproximou.
— Eu estava esperando autorização. Sou uma pessoa respeitosa.
Marco riu pouco.
Mas riu.
E isso bastou para atravessarem aquela noite.
Com o tempo, a cidade secreta começou a mudar de som.
Antes, as festas tinham uma confiança imprudente. Agora, em algumas delas, havia ausências demais. Um comentário interrompido quando alguém tossia. Uma atenção maior ao emagrecimento alheio. Um cuidado novo, ainda desorganizado. Um medo que dividia opiniões, amizades, desejos.
Alguns homens desapareceram por pânico. Outros por doença. Outros por vergonha. Outros porque casaram de repente, como se aliança fosse vacina moral. Alguns ficaram mais cruéis, tentando se salvar culpando os outros. Alguns ficaram mais generosos, criando redes de cuidado antes mesmo de saber exatamente o que estavam enfrentando.
Caíque observava.
Marco sentia.
Irene começou a registrar nomes em cadernos. Não publicava. Não podia. Mas escrevia. Datas, apelidos, histórias, pequenas biografias. Dizia que alguém precisava impedir que todos virassem “casos”.
— Caso é palavra de médico, polícia e jornal preguiçoso — dizia. — Pessoa tem nome.
Caíque se ofereceu para ajudar.
— Não agora — ela disse.
— Por quê?
— Porque você ainda acha que memória é algo que se organiza. Primeiro ela precisa doer.
Ele não gostou da frase.
Depois entendeu.
Davi, por sua vez, organizava encontros menores, mais cuidados. Havia conversas sobre prevenção, ainda cheias de dúvida. Havia médicos convidados em segredo. Havia panfletos estrangeiros traduzidos de forma improvisada. Havia discussões sobre sexo, culpa, liberdade, cuidado.
Caíque participava com interesse e resistência.
— Eu odeio que o moralismo tenha sequestrado a conversa sobre corpo — disse em uma dessas noites.
Um médico jovem respondeu:
— Cuidado não precisa ser moralista.
— Mas estão fazendo ser.
— Então a gente disputa o sentido.
Caíque gostou da frase.
Disputar o sentido.
Era isso que faziam desde sempre. Disputavam o sentido do desejo, da família, do amor, da vergonha, da cidade, da palavra amigo, da palavra sobrevivência.
Agora precisariam disputar também o sentido da doença.
Marco acompanhava essas conversas com atenção tensa. Fazia perguntas precisas. Queria saber, queria entender, queria controlar pelo conhecimento aquilo que o medo tornava informe. Caíque reconhecia esse movimento. Era o mesmo que fazia diante de qualquer ameaça: estudar para não enlouquecer.
— Você está virando eu — disse.
— Deus me livre.
— Tarde demais. Já está fazendo pergunta com cara de relatório.
Marco sorriu.
— Pelo menos um de nós precisa usar método.
— Eu sou método com perfume.
— Você é caos com boa gramática.
Caíque gargalhou.
Apesar da sombra, havia ainda muita vida.
Essa é uma verdade que a memória triste costuma esquecer: mesmo em épocas atravessadas pelo medo, as pessoas continuam fazendo aniversário, errando receita, desejando gente errada, comprando camisa bonita, discutindo filme, dançando mal, sentindo ciúme, rindo de piada vulgar, perdendo ônibus, transando, brigando por bobagem, sonhando com viagem, reclamando do preço do tomate.
Caíque e Marco viveram tudo isso.
Não eram mártires. Não eram símbolos. Eram dois homens tentando amar em uma cidade que preferia classificá-los como risco.
Numa tarde, Marco apareceu no apartamento com duas passagens para uma viagem curta.
— Pirenópolis — disse.
— Isso é sequestro?
— É convite.
— Com passagem comprada?
— Estratégia.
Caíque pegou os bilhetes.
— Você está ficando autoritário.
— Aprendi com a burocracia.
Foram.
A viagem foi simples, bonita e quase feliz demais. Caminharam por ruas de pedra, comeram mal em um restaurante que prometia comida caseira e entregava arrependimento, riram de turistas, compraram doces, dormiram em uma pousada onde a dona pareceu aliviada ao acreditar que eram colegas de trabalho.
No quarto, sem a vigilância imediata de Brasília, algo neles relaxou.
Marco deitou-se na cama e disse:
— Aqui eu quase esqueço.
— Do quê?
— De olhar por cima do ombro.
Caíque deitou ao lado dele.
— Então não olha.
Marco virou-se.
— Você consegue?
— Não. Mas posso fingir melhor.
Marco tocou seu rosto.
— Obrigado por vir.
— Você comprou a passagem. Eu fui sequestrado com documentação.
— Obrigado mesmo assim.
Caíque beijou sua mão.
— Eu iria.
— Para onde?
— Com você?
Marco assentiu.
Caíque pensou.
— Para lugares sem ata.
Marco riu.
Aquela frase virou deles.
“Lugares sem ata” passou a significar tudo que não precisava justificar existência. Um quarto de pousada. Uma cozinha de madrugada. Um banco vazio. Um beijo sem testemunha. Um silêncio bom.
Mas sempre voltavam para Brasília.
E Brasília sempre cobrava o retorno.
Em uma festa no Lago Sul, meses depois, Caíque viu algo que o incomodou profundamente. O Deputado da Família — aquele que Irene havia apelidado — estava acompanhado de um rapaz muito jovem, quase menino. O rapaz parecia fascinado e desconfortável. O deputado ria alto, oferecia bebida, tocava seu braço com intimidade proprietária. Em público, naturalmente, falaria de valores, juventude sadia e bons costumes.
Caíque sentiu nojo.
— Não olha assim — Marco murmurou.
— Assim como?
— Como se fosse comprar briga.
— Talvez compre.
— Não aqui.
— Ele é um predador.
— Eu sei.
— Então?
Marco segurou seu braço discretamente.
— Então escolhe o campo. Essa sala é dele.
Caíque odiou a frase porque era verdadeira.
Irene apareceu ao lado deles.
— Marco tem razão.
— Vocês estão muito prudentes hoje.
— E você está com cara de mártir imprudente — ela respondeu. — Não ajuda o rapaz virando espetáculo. Ajude depois, quando puder ser útil.
Caíque engoliu a raiva.
Mais tarde, encontrou o rapaz sozinho na varanda. Conversou sem assustá-lo. Não perguntou demais. Apenas disse, em um tom casual, que, se um dia precisasse de contatos mais seguros na cidade, poderia procurar Lúcia Helena ou Davi. Anotou um telefone em um papel. O rapaz pegou com mãos trêmulas.
— Obrigado — disse.
— Não precisa agradecer.
— Eu achei que ele gostava de mim.
Caíque sentiu uma dor antiga.
— Talvez goste do que você faz ele sentir sobre si mesmo. É diferente.
O rapaz olhou para dentro da festa.
— Eu sou burro.
— Não. Você é novo. E gente mais velha adora transformar juventude em culpa da vítima.
O rapaz quase chorou.
Caíque quis abraçá-lo, mas não sabia se seria demais.
— Procura a Lúcia — disse. — Ela é insuportável, mas salva vidas.
Quando voltou para dentro, Marco o esperava.
— Você ajudou?
— Não sei.
— Ajudou.
— Eu queria fazer mais.
— Eu sei.
— Isso é insuportável.
Marco segurou sua mão por um segundo, escondido atrás de uma cortina de corpos e vozes.
— Bem-vindo ao meu mundo.
Caíque olhou para ele.
— Eu achei que seu mundo fosse janela e melancolia.
— Também é impotência organizada.
Caíque sorriu triste.
Naquela noite, entendeu melhor Marco.
Nem todo medo era covardia. Às vezes, era a experiência repetida de saber que força mal posicionada vira desperdício. Caíque aprendera a romper portas. Marco aprendera a sobreviver em salas fechadas. Ambos tinham razão. Ambos tinham falhas.
O amor era tentar construir uma casa entre essas duas estratégias.
No fim de 1987, a saúde de Marco começou a se tornar assunto mesmo quando ninguém falava dela.
Ele se cansava mais. Tinha febres ocasionais. Emagreceu um pouco. Dizia que era trabalho, estresse, clima seco. Caíque quis acreditar. Marco quis acreditar mais ainda.
Lúcia Helena notou.
Irene notou.
Davi notou.
Ninguém disse.
Porque dizer era abrir uma porta que todos ainda tentavam manter fechada.
Em uma noite na casa de Davi, Marco tossiu por tempo demais. A conversa na sala continuou, mas mudou de densidade. Caíque buscou água. Marco bebeu, irritado.
— Pare de me olhar assim.
— Assim como?
— Como se eu fosse quebrar.
— Você tossiu.
— Pessoas tossem.
— Eu sei.
— Então saiba com o rosto.
Caíque se afastou, ferido.
Depois entendeu que a irritação de Marco era medo pedindo dignidade.
Na volta para casa, não falaram por alguns minutos.
— Desculpa — Marco disse.
— Não precisa.
— Precisa. Eu estou assustado.
Caíque apertou o volante.
— Eu também.
— Mas eu não quero virar assunto antes de virar alguma coisa.
A frase era horrível.
E exata.
— Você não é assunto — Caíque disse.
— Nesta cidade, todo mundo vira.
— Para mim, não.
Marco olhou pela janela.
— Para você, eu sou o quê?
Caíque respondeu sem pensar:
— Minha casa.
Marco fechou os olhos.
Não disse nada.
Mas, quando chegaram ao apartamento, abraçou Caíque antes mesmo que ele fechasse a porta.
Ficaram assim no corredor de entrada, entre o mundo e a sala, entre o medo e a tentativa, entre o que sabiam e o que ainda se recusavam a nomear.
A cidade secreta continuou girando.
Festas, fofocas, risos, mortes sussurradas, amores clandestinos, pequenas vitórias, grandes covardias. O Deputado da Família seguiu discursando. O Embaixador das Mãos foi transferido para outro país. O Juiz de Sodoma apaixonou-se por um cantor de bar e quase perdeu o cargo por falta de discrição poética. O Coronel das Orquídeas adoeceu do coração, para alívio das orquídeas e desespero de dois jardineiros. O Poeta do Planalto publicou um livro ruim dedicado “à liberdade”, palavra que usava em público e temia na cama.
Caíque colecionava tudo.
— Um dia eu vou escrever essa cidade inteira — dizia.
Marco sorria.
— Vai trocar os nomes?
— Alguns.
— O meu?
— O seu, nunca.
— Perigoso.
— Eu sei.
— Então por quê?
Caíque olhava para ele.
— Porque tem nome que não nasceu para rodapé.
Marco desviava os olhos.
No início de 1988, chegou a notícia de que Benedito, um frequentador antigo das reuniões de Davi, estava internado.
Benedito era professor, magro, engraçado, sempre com camisas coloridas e uma risada que parecia começar antes da piada. Tinha desaparecido por algumas semanas. Depois alguém disse que estava doente. Depois alguém disse que era grave. Depois ninguém sabia se podia visitar.
Davi tentou.
Foi barrado pela família.
— Disseram que ele precisava de repouso — contou, furioso. — Repouso de quê? De afeto?
Lúcia Helena organizou uma forma de mandar bilhete. Irene escreveu. Caíque escreveu. Marco ficou muito tempo com a caneta na mão antes de conseguir qualquer frase.
No fim, escreveu apenas:
“Benedito, estamos aqui.”
Caíque leu e achou pouco.
Depois percebeu que era tudo.
Alguns dias depois, veio uma ligação no apartamento de Caíque. Era Davi. A voz estava diferente.
— Ele morreu.
Caíque fechou os olhos.
Marco estava na sala, sentado perto da janela, segurando um copo com as duas mãos.
Como na primeira noite.
Caíque desligou devagar.
— Benedito? — Marco perguntou.
Caíque assentiu.
Marco baixou o olhar para o copo.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
Do lado de fora, Brasília permanecia limpa, monumental e indiferente. As luzes dos prédios brilhavam à distância. O céu escuro parecia grande demais para qualquer luto particular.
Marco disse, quase sem voz:
— Está chegando perto.
Caíque quis negar.
Quis dizer que não, que eram casos isolados, que haveria tratamento, que o medo exagerava, que eles ficariam bem, que o amor serviria de escudo, que a inteligência daria um jeito, que a vida não podia ser tão cruel depois de ter sido tão difícil.
Mas, ao olhar para Marco, não conseguiu mentir.
A cidade secreta, com suas festas, suas fofocas, seus escândalos deliciosos e suas estratégias de sobrevivência, começava a se transformar em outra coisa: uma rede de vigília, cuidado e despedida.
Caíque sentou-se ao lado dele.
Marco apoiou a cabeça em seu ombro.
— Conta uma fofoca — pediu.
— Agora?
— Agora.
Caíque entendeu.
Não era frivolidade. Era pedido de vida.
Pensou por alguns segundos.
— O Juiz de Sodoma escreveu uma carta de amor rimando “pecado” com “dourado”.
Marco soltou um riso pequeno.
— Péssimo.
— Criminoso, eu diria. Finalmente um delito de competência dele.
Marco riu de novo, mais fraco.
Caíque continuou. Contou outra. Depois outra. Falou do Coronel das Orquídeas, do diplomata que só mentia em francês, de Lúcia Helena expulsando um poeta porque ele usara a palavra “transcendência” três vezes antes da sobremesa. Marco riu pouco, mas riu.
E, naquela noite, cada riso pareceu uma vela acesa contra uma escuridão que se aproximava.
Mais tarde, quando foram dormir, Marco segurou a mão de Caíque com força incomum.
— Se eu ficar com medo demais, não deixa eu virar só medo.
Caíque virou-se para ele.
— Não vou deixar.
— Promete?
— Prometo.
— E se você também ficar?
Caíque respirou.
— Aí você não deixa.
Marco assentiu.
Dormiram mal.
Ao amanhecer, Caíque acordou antes dele. Ficou olhando Marco dormir. O rosto ainda bonito, mais fino talvez, a boca entreaberta, os cabelos escuros espalhados no travesseiro. Parecia jovem e cansado. Parecia seu. Parecia impossível de perder.
Na cozinha, preparou café.
A planta perto da janela estava murchando outra vez.
Caíque tocou a terra seca e sentiu raiva de si mesmo por não ter regado. Pegou água, despejou devagar, como se aquele pequeno gesto pudesse reparar algo maior. Como se manter viva uma planta fosse treinamento para manter vivo o amor. Como se cuidado bastasse quando chegasse a hora.
Do quarto, Marco tossiu.
Uma tosse curta.
Depois outra.
Caíque ficou parado com o copo d’água na mão.
A cidade lá fora começava seu expediente oficial. Carros, repartições, jornais, homens sérios, discursos, agendas, assinaturas, o país seguindo como se nada estivesse mudando por baixo.
Mas por baixo tudo mudava.
A cidade secreta sabia.
Caíque também começava a saber.
E, pela primeira vez desde que fugira de casa aos dezesseis anos, sentiu que talvez houvesse uma ameaça da qual não conseguiria simplesmente partir.
Fim do Capítulo 7.