1988

Da série Caíque 7.8
Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 5363 palavras
Data: 13/06/2026 00:23:11
Assuntos: Gay

Marco começou a desaparecer antes de morrer.

Essa foi a primeira crueldade.

Não desapareceu de uma vez, como fazem os personagens nos romances ruins, com uma cena definitiva, uma música triste e uma frase pronta. Foi mais lento. Mais indigno. Mais humano. Um pouco de peso perdido. Um pouco de riso interrompido por tosse. Uma febre que voltava depois de ter ido embora. Uma camisa que ficava larga. Um cansaço que não combinava com a idade. Uma irritação súbita diante de perguntas simples.

— Você comeu? — Caíque perguntava.

— Comi.

— O quê?

— Comida.

— Marco.

— Caíque.

E os dois se olhavam, cada um segurando uma parte da mentira para que ela não caísse no chão.

Durante algum tempo, ainda foi possível fingir que era estresse. Brasília cansava. O trabalho cansava. O clima seco cansava. O medo cansava. A própria vida clandestina cansava. Havia desculpas suficientes para sustentar uma negação elegante.

Marco sempre fora magro.

Marco sempre fora introspectivo.

Marco sempre cansava depois de semanas difíceis.

Marco sempre tossia quando o ar ficava seco.

Marco sempre ficava quieto quando pensava demais.

O amor, às vezes, se agarra ao advérbio “sempre” para não encarar o “agora”.

Mas Caíque notava.

Notava porque amava. E porque tinha sido treinado pela vida a perceber detalhes antes que virassem sentença. Notava a maneira como Marco apoiava a mão na parede ao levantar rápido demais. Notava o suor frio depois de uma febre. Notava a dificuldade de terminar o prato. Notava quando Marco fingia ler, mas permanecia na mesma página por quinze minutos. Notava quando ele sorria só com a boca, poupando energia dos olhos.

A doença ainda não tinha sido nomeada oficialmente, mas já ocupava o apartamento.

Sentava-se à mesa.

Deitava-se entre eles.

Ficava parada na janela, olhando Brasília com a mesma paciência do concreto.

O primeiro médico falou em infecção persistente. O segundo pediu exames. O terceiro evitou olhar diretamente para Caíque quando perguntou sobre “hábitos de vida”. Marco respondeu com uma secura que Caíque nunca havia visto nele.

— Que hábitos interessam ao senhor?

O médico pigarreou.

— Certas informações são importantes para o diagnóstico.

— Então pergunte direito.

Caíque, sentado ao lado, sentiu orgulho e medo.

O médico perguntou.

Marco respondeu o necessário, sem entregar sua dignidade junto com os sintomas. Caíque percebeu, naquele consultório, que o corpo de Marco havia se tornado território de investigação moral. Não queriam apenas saber o que ele tinha. Queriam saber que tipo de homem ele era, como se a resposta autorizasse maior ou menor compaixão.

Ao saírem, Marco caminhou em silêncio até o carro.

Caíque abriu a porta para ele.

— Você foi muito bem lá dentro.

Marco não entrou. Ficou parado, uma das mãos apoiada no teto do carro.

— Eu não quero ser corajoso em consultório.

— Eu sei.

— Não quero ter que educar médico.

— Eu sei.

— Não quero que olhem para mim como se meu corpo fosse uma confissão.

Caíque não respondeu rápido.

O sol de Brasília caía sobre eles com uma indiferença quase administrativa. Carros passavam. Pessoas saíam de prédios. Um vendedor ambulante gritava alguma coisa do outro lado da rua. A vida continuava, vulgar e pontual.

— Eu queria te prometer que isso não vai acontecer de novo — Caíque disse. — Mas seria mentira.

Marco fechou os olhos.

— Então promete outra coisa.

— O quê?

— Que, quando acontecer, você não vai deixar eu acreditar neles.

Caíque segurou sua mão ali mesmo, por um segundo, em plena rua.

Foi rápido.

Foi imprudente.

Foi necessário.

— Prometo.

Marco entrou no carro.

Os exames vieram em etapas. Cada resultado abria nova pergunta. Cada pergunta exigia novo exame. Cada exame parecia aproximar uma palavra que todos já escutavam antes que fosse dita.

AIDS.

Quando finalmente veio a confirmação, não houve trovão.

Houve uma sala pequena.

Uma mesa.

Um ventilador barulhento.

Um médico evitando sentimentalismo e excesso de detalhe.

Houve a mão de Marco imóvel sobre a perna.

Houve Caíque sentado ao lado, reto demais, atento demais, como se postura pudesse impedir desabamento.

O médico falou de acompanhamento, cuidados, limitações, sintomas, possibilidades. Falou com uma mistura de técnica e impotência. Naquele tempo, as possibilidades eram poucas; o medo, enorme; a informação, instável; o preconceito, veloz.

Marco ouviu tudo sem chorar.

Fez duas perguntas.

A primeira, sobre tratamento.

A segunda, sobre tempo.

O médico não respondeu a segunda de verdade.

Ninguém respondia.

Na saída, Marco pediu para caminhar um pouco. Caíque quis dizer que ele precisava descansar, mas engoliu a frase. Foram até uma área arborizada próxima, dessas em que Brasília tentava simular intimidade entre blocos e avenidas. Sentaram-se em um banco.

Por um tempo, nenhum dos dois falou.

Marco olhava para as próprias mãos.

— Então é isso — disse.

Caíque sentiu a frase como se uma porta tivesse se fechado por dentro.

— Não é tudo.

Marco riu sem som.

— Você sempre precisa acrescentar uma cláusula.

— É meu treinamento institucional.

— Caíque.

Ele se calou.

Marco respirou devagar.

— Eu estou com medo.

— Eu também.

— Não. Eu estou com medo de dentro. Não é medo de notícia, nem de fofoca, nem de perder emprego. É medo de sentir meu corpo indo embora enquanto eu ainda estou aqui.

Caíque olhou para ele.

Não havia frase possível.

Marco continuou:

— Eu sempre achei que, se um dia isso acontecesse, eu seria mais elegante.

— Doente elegante é invenção de quem visita pouco hospital.

Marco soltou um riso fraco.

— Ainda bem que você existe.

— Para destruir fantasias estéticas?

— Também.

Caíque queria abraçá-lo. Não pôde. Havia gente passando. Sempre havia gente passando quando eles precisavam do mundo vazio.

Então apenas encostou o ombro no dele.

— Eu estou aqui.

Marco fechou os olhos.

— Eu sei.

A partir daquele dia, a vida passou a ser dividida entre antes e depois do diagnóstico, embora os dois evitassem marcar isso em voz alta.

Antes, os sintomas eram susto.

Depois, viraram contagem.

Antes, a febre era talvez.

Depois, era aviso.

Antes, o cansaço podia ser negado.

Depois, precisava ser medido.

Caíque tornou-se prático de uma forma quase militar. Comprou cadernos para anotar horários de remédio, consultas, sintomas, telefones, nomes de médicos, endereços, orientações. Organizou documentos. Fez cópias. Criou listas. Montou uma pasta.

Marco odiou a pasta.

— Você transformou minha doença em departamento.

— Eu transformei em algo que posso acompanhar.

— E isso te acalma?

— Um pouco.

— Me assusta.

Caíque fechou a pasta devagar.

— Desculpa.

— Eu sei que você está tentando ajudar.

— Estou.

— Mas às vezes parece que você está lutando contra meu corpo como se ele tivesse te traído.

A frase doeu mais do que deveria porque era verdadeira.

Caíque olhou para a pasta, depois para Marco, sentado no sofá com uma manta leve sobre os joelhos, mesmo sem frio.

— Eu estou com raiva — disse.

— De mim?

— Nunca.

— Do quê?

— De tudo. Do vírus, dos médicos, dos jornais, da sua família, da minha, da cidade, de Deus, embora eu nem saiba direito se acredito nele o suficiente para brigar.

Marco sorriu, cansado.

— Brigue. Talvez ele responda por protocolo.

Caíque riu pela primeira vez naquele dia.

Sentou-se ao lado dele.

— Eu não sei cuidar sem tentar vencer.

Marco apoiou a cabeça em seu ombro.

— Então aprende.

E Caíque aprendeu.

Aprendeu que cuidado não era apenas fazer. Era também não fazer. Não insistir em comida quando o enjoo já tinha vencido. Não completar frases que Marco demorava a dizer. Não transformar todo silêncio em emergência. Não corrigir a tristeza. Não exigir coragem de quem já estava usando toda a força apenas para permanecer.

Aprendeu a trocar lençóis sem dramatizar.

A preparar sopas que Marco talvez comesse.

A reconhecer febres pelo calor da testa.

A conversar com médicos sem se curvar nem criar inimigos inúteis.

A suportar olhares.

A engolir a palavra “amigo” quando alguém do hospital perguntava sua relação com o paciente.

Essa palavra tornou-se uma humilhação repetida.

— O senhor é parente?

— Sou amigo.

Amigo.

A palavra que protegia e apagava.

Amigo podia esperar do lado de fora.

Amigo não assinava certas coisas.

Amigo não era consultado como família.

Amigo não tinha direito ao desespero completo.

Amigo podia ser afastado por um parente que aparecia tarde demais com sobrenome e autoridade.

Mas Caíque aprendeu a usar até essa palavra como contrabando.

— Sou amigo — dizia.

E, por dentro, completava:

Sou o homem que sabe como ele toma café. Sou quem conhece a música que acalma a febre. Sou quem lavou a camisa azul. Sou quem segurou a mão dele no escuro. Sou quem ouviu “eu te amo” em rua vazia. Sou quem sabe que ele tem medo de virar só tragédia. Sou quem vai lembrar direito.

Quando Marco precisou ser internado pela primeira vez, a cidade secreta se mobilizou.

Lúcia Helena levou comida para Caíque, que esquecia de comer.

Davi conseguiu indicação de um médico menos brutal.

Irene anotou nomes, datas, procedimentos e humilhações, como se um dia pudesse processar o mundo por falta de humanidade.

Paulo ofereceu carro.

Outros amigos se revezaram em visitas possíveis, telefonemas discretos, pequenas ajudas. Ninguém dizia “rede de apoio”. Naquela época, faziam antes de nomear.

Mas havia limites.

A família de Marco apareceu.

Primeiro a irmã, Clarice. Depois a mãe. O pai demorou mais e, quando veio, trouxe consigo o peso de quem preferia estar em qualquer outro lugar, desde que a ausência não manchasse a própria imagem.

Clarice era tensa, educada, religiosa de um modo que parecia sempre prestes a virar acusação. A mãe, Dona Cecília, chorava em silêncio, segurando uma bolsa pequena sobre o colo como se a bolsa fosse a única coisa que ela ainda controlava. O pai, senhor Armando, perguntava pouco e decidia demais.

No corredor do hospital, Clarice olhou para Caíque.

— Você é colega dele?

Caíque sentiu Marco, mesmo ausente, dentro daquela pergunta.

— Sou amigo.

Clarice assentiu com uma expressão ilegível.

— Ele falou de você.

— Falou?

— Falou.

Nada mais.

Dona Cecília segurou a mão de Caíque uma vez. Foi rápido, quase escondido. Seus olhos diziam algo que a boca não sabia ou não podia dizer.

— Obrigada por cuidar dele — murmurou.

Caíque quis odiá-la. Quis culpá-la por todas as mães que não souberam defender seus filhos antes da tragédia. Mas, diante daquela mulher pequena, devastada e tardia, sentiu algo mais complicado.

— Ele merece cuidado — respondeu.

Ela chorou.

O pai de Marco foi outra coisa.

Senhor Armando tratava Caíque com uma cordialidade tão fria que beirava expulsão.

— Agradecemos muito sua dedicação — disse certa tarde.

Agradecemos.

Sua dedicação.

Caíque reconheceu a linguagem: era o idioma de quem transforma amor em serviço prestado.

— Não fiz por agradecimento.

O homem o encarou.

— Naturalmente.

— Fiz porque amo seu filho.

A frase saiu antes que Caíque calculasse as consequências.

O corredor pareceu estreitar.

Senhor Armando endureceu o rosto.

— Acho melhor mantermos certo respeito pela situação.

Caíque sentiu uma raiva limpa, quase luminosa.

— Respeito é exatamente o que estou tentando manter.

O homem aproximou-se um passo.

— Você entende que este é um momento delicado para a família.

— Eu entendo que Marco está doente.

— E nós somos a família dele.

Caíque respirou.

Não podia gritar. Não ali. Não naquele corredor. Não com Marco frágil atrás de uma porta. A raiva precisava usar sapato bom outra vez.

— Então ajam como tal — disse.

Senhor Armando ficou imóvel.

Caíque entrou no quarto antes que a conversa virasse outra coisa.

Marco estava acordado.

— Ouvi vozes — disse.

— Seu pai e eu estamos construindo uma relação belíssima.

Marco fechou os olhos.

— O que você disse?

— Pouco.

— Caíque.

— Disse que te amo.

Marco abriu os olhos.

Por um instante, parecia mais assustado com essa coragem do que com a doença.

— Para ele?

— Para o corredor inteiro, se tiver acústica boa.

Marco ficou olhando para ele.

— Obrigado.

Caíque sentou-se ao lado da cama.

— Não sei se ajudei.

— Ajudou a mim.

Isso bastou.

Mas o preço veio.

Nos dias seguintes, a família tentou controlar mais as visitas. Clarice falava em “preservar”. O pai falava em “organizar”. Dona Cecília chorava. Marco, exausto, tentava evitar conflito. Caíque precisou negociar sua presença como quem reivindica território ocupado.

— Eu quero que ele fique — Marco disse uma vez, com voz fraca, diante da irmã.

Clarice olhou para ele, depois para Caíque.

— Marco, talvez seja melhor…

— Eu quero que ele fique.

A repetição encerrou a conversa.

Por enquanto.

Caíque ficou.

No hospital, o tempo tinha outra textura. Era feito de passos no corredor, carrinhos metálicos, cheiro de desinfetante, luz fria, gemidos distantes, vozes de enfermeiras, horários de medicação, espera. Sobretudo espera. Esperar exame. Esperar médico. Esperar febre baixar. Esperar notícia. Esperar piora. Esperar melhora. Esperar, mesmo sabendo que talvez a espera não estivesse levando a lugar nenhum.

Marco detestava que o vissem fraco.

Nos dias melhores, penteava o cabelo antes das visitas. Pedia a Caíque que trouxesse uma camisa específica. Recusava-se a receber certos conhecidos se estivesse com aparência “dramática demais”.

— Você está doente, não concorrendo a anúncio de perfume — Caíque dizia.

— A estética é a última trincheira.

— Carmem aprovaria.

— Então me ajude.

Caíque ajudava.

Penteava o cabelo dele com cuidado. Ajustava a gola. Passava um pano úmido no rosto. Fazia comentários absurdos para arrancar um sorriso.

— Se aparecer algum diplomata, direi que você está em retiro existencial.

— Diplomata adora retiro existencial.

— Especialmente quando tem serviço de quarto.

Marco ria, às vezes tossia depois, e Caíque fingia que o riso valia a tosse.

Lúcia Helena vinha quase todos os dias possíveis. Entrava no quarto como quem se recusava a deixar o hospital vencer o ambiente.

— Trouxe fofoca — anunciava.

— Boa? — Marco perguntava.

— Excelente. O Poeta do Planalto dedicou um poema a três pessoas diferentes usando a mesma metáfora de estrela ferida.

Marco fechava os olhos, sorrindo.

— Preguiçoso.

— Muito. Irene está pensando em denunciar por crime contra a metáfora.

Davi trazia livros que Marco nem sempre conseguia ler, mas gostava de ter por perto. Irene trazia notícias filtradas, nunca piedade crua. Paulo levava frutas, flores discretas, revistas.

A cidade secreta entrava naquele quarto em pequenos pacotes de vida.

Mas nem todos vinham.

Alguns amigos desapareceram. Não por maldade simples, embora às vezes fosse. Alguns tinham medo do hospital. Outros da doença. Outros do espelho. A doença de Marco lembrava a cada um que o risco não era abstração. Havia quem preferisse transformar ausência em prudência.

Caíque julgou todos.

Depois tentou julgar menos.

Não conseguiu sempre.

Carmem escreveu do Rio.

A carta chegou em um envelope colorido, como se desafiasse a palidez do hospital.

“Marco, meu querido que ainda não conheci pessoalmente,

Caíque me fala de você com uma irritação que só pode ser amor. Saiba que isso é um elogio. Ele não se irrita profundamente com qualquer um.

Não vou dizer ‘seja forte’, porque acho essa frase uma grosseria com quem está cansado. Seja o que conseguir ser. Se hoje for forte, ótimo. Se amanhã for fraco, também serve. Só não deixe que façam de você uma lição moral. Você é homem, não sermão.

Caíque, meu filho, coma. Gente dramática de estômago vazio fica insuportável.

Com afeto, batom e pouca paciência para tragédia mal escrita,

Carmem.”

Marco pediu que Caíque lesse duas vezes.

Na segunda, chorou.

— Ela é maravilhosa — disse.

— Eu avisei.

— Diga a ela que gostei.

— Ela vai fingir que não se emocionou.

— Melhor tipo de pessoa.

Caíque guardou a carta na gaveta do hospital.

Naquela noite, Marco dormiu com a mão sobre o papel.

As semanas seguintes foram instáveis. Houve melhoras que pareciam milagres pequenos e pioras que pareciam vinganças. Às vezes, Marco voltava para casa por períodos curtos, e o apartamento ganhava uma alegria cuidadosa. Caíque preparava tudo: lençóis limpos, remédios organizados, comida leve, planta regada, janela aberta.

Marco entrava, olhava ao redor e dizia:

— Casa.

Caíque fingia não se emocionar.

— Apartamento funcional com pretensões afetivas.

— Casa — Marco repetia.

E era.

Nesses retornos, a vida tentava fingir normalidade. Tomavam café. Ouviam música. Falavam pouco da doença. Marco sentava perto da janela. Caíque lia jornais e comentava absurdos políticos. Às vezes, recebiam Lúcia, Davi ou Irene. Às vezes, ficavam sozinhos.

Em uma tarde de aparente calma, Marco pediu para ver a caixa com suas coisas.

Aquela primeira caixa, a do tempo bom: cartas, fotografias, bilhetes, programas de cinema, cartões, lembranças de viagem.

Caíque colocou-a sobre a cama.

Marco abriu devagar.

Pegou uma fotografia dos dois em Pirenópolis, tirada por Davi. Não estavam abraçados. Não podiam. Mas estavam próximos demais para quem soubesse ler. Caíque aparecia rindo. Marco olhava para ele, não para a câmera.

— Essa me entrega — Marco disse.

— Você olha para mim como quem perdeu a briga.

— Talvez eu tenha perdido.

— Arrependido?

Marco passou o dedo sobre a foto.

— Não.

Continuou mexendo na caixa. Encontrou bilhetes.

“A cidade se comportou?”

“Não. Venha.”

“Comprei café.”

“Isso é declaração?”

“É abastecimento.”

Marco riu.

Depois ficou sério.

— Você precisa guardar essas coisas.

— Já estão guardadas.

— Melhor.

— Melhor como?

Marco fechou a caixa.

— Como quem sabe que um dia vão importar.

Caíque sentiu o medo subir.

— Elas importam agora.

— Eu sei.

— Não fala como se já estivesse virando passado.

Marco segurou sua mão.

— Tudo vira passado, Caíque. O amor só não pode virar mentira.

Caíque se levantou, inquieto.

— Você está impossível hoje.

— Estou lúcido.

— Pior ainda.

Marco sorriu com tristeza.

— Eu quero escrever algumas coisas.

— Para quem?

— Para você. Talvez para minha mãe. Talvez para ninguém.

— Você está falando de despedida.

— Estou falando de escrever.

— Marco.

— Me deixa.

Caíque queria dizer não. Queria arrancar papel, caneta, doença, lucidez, medo e morte da mão dele. Queria devolver Marco ao primeiro encontro, à janela, ao copo segurado com as duas mãos, à camisa azul, à pergunta sobre adaptar-se a si mesmo. Queria voltar a qualquer ponto antes daquele.

Mas cuidado também era permitir que o outro se preparasse para o que você não suportava nomear.

Então buscou papel.

E a caneta elegante que Marco lhe dera.

— Essa? — perguntou.

Marco sorriu.

— Essa.

Nos dias seguintes, Marco escreveu pouco, em intervalos. Às vezes cansava depois de poucas linhas. Às vezes amassava folhas. Às vezes pedia para ficar sozinho. Caíque respeitava de forma imperfeita, rondando a porta como animal preocupado.

— Você está vigiando minha literatura? — Marco perguntou uma vez.

— Estou avaliando condições de produção.

— Economista até no luto.

— Quem falou em luto?

Marco o olhou.

Caíque desviou.

A palavra começava a aparecer antes da morte, e isso o enfurecia.

Luto antecipado parecia traição. Mas o corpo já ensaiava despedidas. A cada internação, a cada febre, a cada noite em claro, Caíque perdia Marco um pouco e, pela manhã, precisava amá-lo de novo no estado em que ele estivesse.

O amor se tornou presente radical.

Não “para sempre”.

Não “quando melhorar”.

Não “depois”.

Agora.

Beber água agora.

Dormir agora.

Rir agora.

Segurar a mão agora.

Dizer “eu te amo” agora, mesmo que a enfermeira entre, mesmo que a família ache demais, mesmo que o mundo prefira outro nome.

Na última internação, Caíque já sabia.

Não porque alguém tivesse dito. Ninguém dizia com clareza suficiente. Mas havia um modo como os médicos entravam. Um modo como saíam. Um modo como baixavam a voz no corredor. Um modo como as enfermeiras olhavam para ele com uma ternura profissional que doía mais que frieza.

Marco também sabia.

Ficou mais sereno em alguns momentos, mais irritado em outros. A doença lhe roubava o corpo, mas não inteiramente a lucidez. E a lucidez, às vezes, era tortura.

— Quero ir para casa — disse uma manhã.

Caíque segurou sua mão.

— Vou ver com o médico.

— Não. Eu quero ir para casa mesmo se não for possível.

Caíque entendeu.

— Eu sei.

— Não quero morrer aqui.

A frase abriu uma cratera.

Caíque aproximou-se.

— Talvez você não…

Marco apertou sua mão.

— Não mente hoje.

Caíque fechou os olhos.

Quando abriu, respondeu:

— Eu queria te levar.

— Eu sei.

— Eu faria qualquer coisa.

— Não faz qualquer coisa. Faz a possível. A possível já é muito.

Caíque encostou a testa na mão dele.

— Eu odeio o possível.

Marco sorriu.

— Eu também. Mas ele é o que temos.

Naquele dia, Lúcia Helena veio e trouxe uma pequena caixa de doces que Marco gostava, embora ele quase não conseguisse comer. Davi trouxe um disco portátil, brigou com a tomada e desistiu. Irene contou uma fofoca curta, sem brilho suficiente. Todos estavam tentando atuar normalidade em um palco que desabava.

Marco percebeu.

— Vocês estão péssimos — disse.

Lúcia chorou e riu ao mesmo tempo.

— Culpa sua. Você sempre elevou nosso padrão de drama.

— Então melhorem. Está constrangedor.

Davi beijou a testa dele.

Irene segurou sua mão por alguns segundos.

— Eu vou lembrar de você direito — disse.

Marco olhou para ela.

— Sei que vai.

— Isso é ameaça e promessa.

— Em você, sempre.

No fim da visita, Marco pediu que Caíque ficasse sozinho com ele.

Quando todos saíram, o quarto ficou grande.

Grande demais.

Marco respirava com dificuldade leve, mas falava com clareza.

— Tem uma carta na minha bolsa.

Caíque sentiu o corpo endurecer.

— Agora não.

— Agora sim.

— Marco.

— Escuta.

Caíque sentou-se.

— Tem uma carta. Para você. Não precisa ler agora.

— Eu não quero carta.

— Eu sei.

— Eu quero você.

Marco fechou os olhos por um segundo.

— Eu também queria me dar.

A frase destruiu Caíque em silêncio.

— Não fala assim.

— É verdade.

— Verdade não precisa ser cruel.

— Às vezes precisa ser inteira.

Caíque virou o rosto.

Marco continuou:

— Eu escrevi porque tem coisas que eu não consigo dizer olhando para você. Você me interrompe com amor.

Caíque soltou uma risada quebrada.

— Isso parece crítica.

— É carinho com observação.

— Aprendeu comigo.

— Infelizmente.

Ficaram quietos.

— Promete que um dia vai ler — Marco disse.

— Um dia.

— Inteira.

Caíque não respondeu.

— Caíque.

— Prometo.

Marco pareceu relaxar um pouco.

— E promete que não vai virar túmulo.

— Marco…

— Promete.

— Eu não sei como prometer isso.

— Promete tentando.

A palavra deles.

Tentando.

Caíque segurou sua mão com as duas.

— Eu prometo tentando.

Marco sorriu.

— Serve.

Naquela noite, Caíque ficou no hospital até ser obrigado a sair por uma combinação de regras, exaustão e intervenção de Lúcia Helena, que praticamente o arrastou para casa.

— Você precisa dormir — ela disse.

— Não fala como enfermeira.

— Estou falando como amiga irritada.

— Eu não posso sair.

— Pode. E vai. Se você cair, não ajuda ninguém.

— E se acontecer alguma coisa?

Lúcia não respondeu imediatamente.

Esse silêncio foi resposta.

— Então me leva de volta — ele disse.

— De manhã.

— Lúcia.

— De manhã.

Caíque dormiu duas horas, talvez três. Sonhou com a Galeria Alaska. O néon piscava, mas ninguém entrava. Carmem estava no balcão, de costas, e dizia algo que ele não conseguia ouvir. Quando acordou, o telefone tocava.

Era antes do amanhecer.

Lúcia atendeu, porque estava no sofá da sala.

Caíque viu o rosto dela mudar.

Não dramaticamente.

Pior.

Mudou pouco.

O suficiente.

— Vamos — ela disse.

No carro, Brasília ainda estava escura. As avenidas largas pareciam mais vazias do que nunca. Os monumentos surgiam à distância como ossos brancos. Caíque olhava pela janela sem respirar direito. Lúcia dirigia em silêncio.

Quando chegaram ao hospital, uma enfermeira o reconheceu.

— O senhor é…

— Sou.

Não disse amigo.

Não disse nada.

O médico veio. Falou baixo. Usou palavras corretas. Disse que Marco havia tido uma piora súbita durante a madrugada. Disse que tinham tentado. Disse sinto muito.

Caíque ouviu como se estivesse debaixo d’água.

Em algum momento, perguntou:

— Ele chamou?

O médico hesitou.

— Ele estava sedado.

A resposta era técnica.

Não era consolo.

Caíque entrou no quarto.

Marco estava imóvel.

Não parecia dormir. Essa foi outra mentira que Caíque se recusou a aceitar. Morto não parece dormir. Morto parece ter deixado o corpo encarregado de uma tarefa impossível. O rosto de Marco estava mais fino, mais quieto, sem a tensão dos últimos dias. As mãos repousavam sobre o lençol.

Caíque aproximou-se.

Por um instante, ficou com raiva.

Raiva de Marco por ter ido.

Raiva de si por ter saído.

Raiva de Lúcia por tê-lo levado.

Raiva do médico, do pai de Marco, da doença, de Brasília, do Brasil, de Deus, da palavra amigo, das regras de visita, da família, da cama, da madrugada, da promessa, da carta, do silêncio.

Depois a raiva encontrou o corpo na cama e não soube o que fazer.

Sentou-se ao lado.

Segurou a mão de Marco.

Estava fria de um jeito inaceitável.

— Eu cheguei — disse.

A frase era inútil.

Disse mesmo assim.

— Eu cheguei, meu amor.

Ninguém respondeu.

Caíque chorou pouco naquele momento. Muito menos do que imaginaria. As lágrimas vieram, mas controladas, quase silenciosas. Talvez o corpo ainda não acreditasse. Talvez o choque fosse uma anestesia. Talvez ele soubesse que haveria burocracia antes do desabamento.

E houve.

Documentos.

Família.

Funeral.

Decisões.

Telefonemas.

Roupas.

Horários.

Nome completo.

Causa da morte suavizada.

Conversas de corredor.

Eufemismos.

Doença prolongada.

Complicações.

Sofrimento.

Descanso.

Melhor assim.

Caíque detestou cada frase.

A família assumiu a organização formal. Clarice falava com a funerária. Senhor Armando fazia ligações. Dona Cecília chorava sentada, pequena e perdida. Caíque circulava como presença necessária e inconveniente. Ninguém sabia onde colocá-lo. Perto demais para ser visita. Sem título para ser família. Amado demais para ser ignorado. Oficialmente, nada.

Em certo momento, Clarice se aproximou.

— Vamos fazer uma cerimônia reservada.

— Entendo.

— Papai acha melhor evitar muitos comentários.

Caíque riu.

Não queria rir.

Riu.

Clarice se ofendeu.

— Algum problema?

— Seu irmão morreu. Os comentários sobreviveram. É impressionante a hierarquia de vocês.

Ela ficou pálida.

— Você não entende nossa posição.

— Eu entendo perfeitamente. Essa é a tragédia.

Clarice baixou os olhos.

Por um instante, pareceu menos inimiga e mais filha da mesma máquina.

— Mamãe quer que você vá — disse.

Caíque respirou.

— E você?

Ela demorou.

— Eu acho que ele gostaria.

Não era pedido de desculpa.

Mas era alguma coisa.

No velório, Marco foi tratado como um homem discreto, inteligente, querido, correto. Colegas falaram de sua competência. Parentes falaram de sua bondade. Alguém mencionou sua sensibilidade. Essa palavra antiga, sensibilidade, voltou a ferir Caíque. No mundo deles, sensível era muitas vezes o modo educado de dizer aquilo que ninguém tinha coragem de nomear.

Ninguém disse que Marco amou um homem.

Ninguém disse que Caíque era esse homem.

Ninguém disse que havia uma toalha dele no banheiro, livros dele na estante, bilhetes na caixa, uma planta quase morta perto da janela.

Ninguém disse que Marco tinha medo de virar apenas tragédia.

Caíque ficou de pé, imóvel, recebendo condolências de pessoas que não sabiam o que estavam consolando.

— Meus sentimentos. Você era muito amigo dele, não?

— Era.

Amigo.

A palavra agora parecia uma lâmina cega, machucando por repetição.

Lúcia Helena ficou ao seu lado quase o tempo todo. Davi chorou sem elegância. Irene observou tudo com olhos duros, talvez registrando mentalmente cada apagamento. Paulo levou flores simples. Alguns conhecidos da cidade secreta apareceram discretamente, entraram, cumprimentaram, saíram. O medo continuava frequentando até velórios.

Dona Cecília aproximou-se de Caíque perto do fim.

Estava devastada.

— Ele gostava muito de você — disse.

Caíque olhou para ela.

A frase era pequena demais, mas talvez fosse o máximo que aquela mulher conseguia atravessar.

— Eu também gostava muito dele.

Ela segurou sua mão.

Dessa vez, por mais tempo.

— Eu sei.

Caíque sentiu algo quebrar na própria raiva.

— A senhora sabe?

Dona Cecília chorou.

— Mãe sabe muitas coisas tarde demais.

Não era absolvição.

Não era reparo.

Mas era verdade.

Caíque apertou a mão dela.

Depois soltou.

O enterro foi rápido.

Enterros sempre parecem rápidos para quem ainda tem coisas a dizer.

A terra caiu sobre o caixão com um som absurdo, concreto, vulgar. Caíque pensou que o corpo humano não deveria terminar sob ruído tão simples. Marco, que gostava de cinema italiano e frases precisas, que segurava copos com as duas mãos, que chamava janela de fuga educada, que perguntava se Caíque cuidaria dele sem beleza, agora era reduzido a um protocolo de despedida sob o sol branco de Brasília.

Quando tudo terminou, as pessoas começaram a ir embora.

Sempre chega esse momento obsceno em que o mundo retoma agendas.

Um carro liga.

Alguém pergunta o caminho.

Outro comenta o calor.

A vida, sem pedir autorização, prossegue.

Caíque ficou um pouco mais.

Lúcia Helena esperou.

Irene também, a certa distância.

Caíque olhou para a terra recém-colocada e pensou que não sentia nada do jeito certo. Nem desespero suficiente, nem paz, nem revolta completa. Sentia uma falha. Como se algo dentro dele tivesse sido desligado para evitar curto-circuito.

— Vamos? — Lúcia perguntou, com cuidado.

Ele assentiu.

No carro, não chorou.

Em casa, também não.

Entrou no apartamento e encontrou Marco em tudo.

Na xícara.

Na manta.

No livro aberto.

Na planta.

Na camisa azul pendurada atrás da porta.

Foi a camisa que o destruiu.

Não a morte no hospital. Não o velório. Não o enterro. Não as condolências erradas. Foi a camisa.

Estava ali, levemente amassada, com o cheiro dele ainda possível. Caíque a pegou devagar, como se tocasse algo sagrado e indecente. Aproximou o rosto do tecido.

O cheiro era fraco.

Mas era Marco.

Então o corpo entendeu.

Caíque caiu sentado no chão do quarto, segurando a camisa contra o peito, e chorou como não chorara desde os dezesseis anos. Chorou sem postura, sem frase, sem ironia, sem sapato bom para a raiva. Chorou com som, com falta de ar, com o rosto molhado, com a camisa apertada nas mãos.

Chamou o nome dele.

Uma vez.

Duas.

Muitas.

Chamou como se nome fosse corda.

Não trouxe ninguém de volta.

Naquela noite, Lúcia Helena ficou na sala. Não entrou no quarto. Soube, talvez, que algumas dores precisam de testemunha próxima, mas não de plateia. Davi veio mais tarde e deixou comida. Irene deixou um envelope com alguns papéis: fotografias, bilhetes, anotações de Marco que encontrara com amigos. Ninguém tentou consolar demais.

Isso foi amor.

Nos dias seguintes, Caíque funcionou pouco.

Levantava porque alguém mandava. Comia porque Lúcia aparecia. Tomava banho porque o próprio cheiro começou a incomodá-lo. Respondia telefonemas necessários. Ignorava outros. O trabalho concedeu afastamento por “falecimento de pessoa próxima”, fórmula burocrática que o fez rir pela primeira vez depois da morte.

Pessoa próxima.

Marco tinha sido pessoa próxima.

Quase uma categoria de transporte.

A carta ficou na bolsa de Marco por três dias.

Caíque sabia.

Não tocava.

No quarto dia, abriu a bolsa.

Havia objetos pequenos: documento, lenço, caneta, recibos, um papel com anotação de médico, um livro fino, a carta.

O envelope tinha seu nome.

Caíque.

A letra de Marco estava um pouco irregular, mas reconhecível.

Sentou-se à mesa.

Colocou o envelope diante de si.

Ficou olhando.

A tarde caiu. A sala escureceu. Ele não acendeu a luz.

Por fim, abriu.

Leu a primeira linha.

“Meu amor,”

Parou.

O mundo inteiro coube nessa saudação.

Meu amor.

Não amigo.

Não colega.

Não pessoa próxima.

Meu amor.

Caíque cobriu o rosto com as mãos.

Depois tentou continuar.

Leu alguns trechos soltos.

Marco falava de memória. De medo. De não querer ser transformado apenas em doença. De agradecer por ter tido casa. De pedir que Caíque não parasse de desejar. De pedir que contasse um dia, se conseguisse. Não para expor, não por vingança, mas porque o silêncio havia sido a primeira violência contra eles.

Caíque não conseguiu terminar.

Dobrou a carta com mãos trêmulas, colocou de volta no envelope e guardou dentro da caixa de madeira junto com fotografias, bilhetes e a camisa azul, cuidadosamente dobrada.

Fechou a caixa.

A tampa produziu um som pequeno.

Definitivo demais.

— Um dia — disse.

Para Marco.

Para a caixa.

Para si mesmo.

Mas esse dia não seria logo.

Nos meses seguintes, Caíque sobreviveria como quem cumpre pena em liberdade. Continuaria trabalhando, respirando, respondendo, pagando contas, indo ao mercado, recebendo amigos, agradecendo pêsames atrasados, odiando frases prontas, evitando janelas, evitando músicas, evitando certos caminhos.

Evitaria também a carta.

Principalmente a carta.

Porque havia coisas que, depois de lidas, passavam a ser verdade de outro jeito.

E Caíque ainda não estava pronto para uma verdade sem corpo.

No fim daquele ano, a cidade secreta continuava perdendo gente. Marco não foi o último. Nem o primeiro. Mas para Caíque, depois dele, todos os nomes pareciam trazer eco.

Brasília seguia monumental.

Os gabinetes abriam.

Os homens discursavam.

Os jornais circulavam.

As famílias preservavam aparências.

Os hospitais enchiam.

Os amigos viravam amigos no papel e viúvos sem nome na prática.

Caíque aprendeu que o luto de quem não pôde ser oficialmente amado é uma sala sem porta: você está dentro, mas ninguém anuncia sua presença.

Ainda assim, permaneceu.

Não porque era forte.

Força era uma palavra pobre para aquilo.

Permaneceu porque Marco havia pedido.

Não vire túmulo.

Promete tentando.

Caíque tentou.

Mas, naquele primeiro ano, tentar significava apenas não morrer junto.

E, em certas manhãs, isso já era uma forma violenta de fidelidade.

Fim do Capítulo 8.

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Comentários

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Chorando horrores. Não perdi um amor mas vários amigos que de certa forma também eram amores. Que época cruel. Me diz aí, Caíque merecia isso? Porra de vida cruel. Agora esperando como ele sobreviveu.

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