Sinopse: A semana tensa de provas começou. Contando com o apoio dos pais e amigos, tudo que Nívea mais deseja é ficar acima da média exigida.
Apesar de tudo isso, o que fazer quando algo não sai como esperado?
***
Eu estava no meu quarto, diante do espelho, pronta para aquela que seria a última semana de aula. E também a semana de provas. Vestida com o meu uniforme, ele estava impecavelmente em ordem como sempre, mas meus pensamentos talvez nem tanto.
Somente naquela segunda-feira seriam quatro provas das disciplinas daquele dia e no restante da semana não seria diferente. A última aula no entanto, terminaria na segunda-feira seguinte com os primeiros resultados e cumprimento do número de aulas.
Me peguei pensando em tudo o que aconteceu naquele mês que chegava ao fim e um pouco da aflição de dias atrás começou a me incomodar.
Eu já havia tomado café da manhã e voltado ao meu quarto para terminar de me vestir. No entanto, retornei para a mesa de jantar e encontrei meus pais ainda sentados à mesa. Meu pai terminava de beber o seu café enquanto conversava com a minha mãe, quando perceberam a minha presença e se viraram na minha direção.
- Mon chère ? Já está pronta? Vamos sair em poucos minutos.
- Oui, papa. Mas antes... Mãe, você pode me ajudar?
- Claro, meu anjo. – ela ainda usava seu lindo robe de seda na cor pérola pois sempre saía um pouco mais tarde de casa – O que houve?
- Você pode fazer junto comigo aquele exercício de respiração?
- Sim, agora mesmo – ela levantou-se da mesa, vindo na minha direção e me pegou pela mão, voltando para o meu quarto.
Foram poucos minutos mas suficientes o bastante para que eu voltasse a me acalmar.
- Está melhor?
- Acho que vou adotar esse exercício pra sempre.
- Eles são infalíveis. – ela sorriu – E durante esta semana de provas, nós vamos realizá-los todos os dias antes de você ir para o colégio.
- Tá bom. Obrigada.
- Vai dar tudo certo, meu anjo. Você vai se sair muito bem.
- Mas e se eu ficar abaixo da média exigida?
- Se isso acontecer – meu pai afirmou parado na porta do meu quarto – Isso não vai mudar em absolutamente nada no que diz respeito ao orgulho que sua mãe e eu sentimos por você, que sempre foi inteligente e dedicada.
- Exatamente, minha vida – recebi um beijo no rosto – Faça suas provas do mesmo jeito que você sempre fez. Com toda calma do mundo.
Consegui esboçar um meio sorriso.
- E então? – meu pai questionou - Podemos ir? Você não deve se atrasar.
- Vamos sim.
***
Em sala de aula, a tensão pairava no ar.
A primeira prova, gramática francesa, duraria duas horas para que as duas outras disciplinas, geografia e história, também tivessem o mesmo tempo. Literatura francesa seria a única que teria o tempo estendido pois era a última do dia.
O sinal de sete e meia da manhã ainda não havia tocado e os alunos estavam sentados em seus lugares conversando em voz baixa, algo bem diferente dos dias comuns que eram conversas entusiasmadas junto de risadas. As carteiras estavam devidamente distantes uma da outra como acontecia em dias de prova.
Eu e a Gabriele também já estávamos sentadas em nossos lugares quando ela perguntou:
- Nívea, que tal você e a Melissa irem lá para casa no próximo sábado? – ela convidou após terminar de ver alguma coisa no seu celular - Vamos relaxar um pouco, fazer aquela zoeira de sempre pelo condomínio.
- Pode ser. – respondi de forma vaga olhando em sua direção.
- Melhor ainda: vocês ficam o final de semana todo!
- Vamos passar primeiro pelas provas?
- Amiga, fica tranquila! Estamos no terceiro ano sim, mas não precisamos transformar isso em um filme de terror.
- Você estudou, Gabi? – eu quis saber.
- Mas é claro que eu estudei! Eu apenas não deixo a tensão e o nervosismo me dominarem.
Eu invejava aquela tranquilidade toda. O mais incrível de tudo era que realmente a Gabriele tirava boas notas ficando na média exigida. E além disso, ela ainda possuía tempo para criar conteúdo para os seus milhões de seguidores.
O sinal, enfim, tocou e a professora Edith entrou em sala de aula cumprimentando a turma. Junto com ela, vejo a Nicole entrar a passos rápidos indo sentar-se em sua mesa, ofegante.
- Tudo bem, Nicole? – perguntei.
- Tudo sim, por pouco eu não me atraso e eu detesto me atrasar.
Ao observar todos em silêncio, a professora distribuiu as provas para cada aluno, caminhando por entre as mesas e com isso, iniciamos de fato o primeiro dia de uma semana tensa.
***
A agitação e as vozes entusiasmadas dos alunos dominavam o refeitório na nossa hora de almoço. Mas eu estava longe.
Mesmo me servindo com o que eu mais gostava de comer, que era bife com batata-frita, e sentada de frente para o Patrick, eu praticamente estava empurrando a comida. Não conseguia parar de pensar se havia realizado corretamente as provas daquela manhã e se alcançaria boas notas.
Durante todo o meu primeiro e segundo ano, eu ficava tensa nesse período mas naquele momento era como se algo maior estivesse me sufocando. Seria por que estávamos no último ano? A semana de provas foi antecipada e com isso eu não sei se consegui estudar todo conteúdo em tempo hábil?
- Nívea... – ouvi a voz do Frederik, sentado ao meu lado esquerdo.
- Oi.
- Você não vai comer?
Olhei para o meu prato e ele estava intacto. Foram pouquíssimas garfadas.
- Não consigo. – e respirei fundo.
- Nívea, tentar comer mais um pouco – Gabriele pediu sentada ao outro lado – Ou então, quando chegar a hora das provas da tarde, você vai sentir fome e aí é adeus concentração.
- Está comendo o que você mais gosta e não consegue? Tá mesmo preocupada.
- Estou muito, Patrick. É preocupação e medo.
Meus amigos me observavam calados. Mas o olhar do Frederik, como sempre, era diferente. Seu jeito tão cuidadoso comigo naquele instante era muito maior. Me olhava de uma forma que eu não merecia, pois era um olhar igual ao da pessoa a qual o meu coração havia escolhido amar.
Encarei novamente o meu prato e me forcei a comer mais um pouco para que eu não sentisse fome. E sendo assim, a leve tensão do meu amigo deu lugar a um pequeno sorriso fechado no seu rosto.
- Está quase fria – comentei enquanto comia.
- Pelo menos você não vai ficar de estômago vazio. – Gabriele disse ao fincar o garfo na sua salada que praticamente dominava todo o seu prato que continha também um frango grelhado e batatas gratinadas.
- Está mesmo firme na dieta? – perguntei observando o seu prato na tentativa de desviar os meus pensamentos.
- Óbvio! Preciso manter a boa forma e quem sabe até emagrecer um pouquinho para entrar no vestido do baile de formatura.
Patrick revirou os olhos, eu e Frederik apenas rimos.
- Aliás, eu não esqueci do seu vacilo de não bater perna comigo na Champs-Élysées atrás de um vestido – e fechou a cara.
- Se quiser ir comigo e com a minha mãe para São Paulo, está mais do que convidada.
- Oscar Freire... – foi a vez dela revirar o olhar - Que coisa cafona, Nívea.
- Não tem somente a Oscar Freire, Gabi. Tem vários shoppings elegantes por lá com muitas opções de vestidos.
- Vou pensar se vou com vocês.
Por milagre, consegui comer e me senti satisfeita. Esperei os meus amigos terminarem e saímos para dar lugar a outros estudantes. Gabriele e eu seguimos até o banheiro e por coincidência encontramos a Nicole e a Celine terminando de escovar os dentes.
- Oi, meninas – sorri ao vê-las.
- Oi, Nívea! – as duas amigas quase que responderam juntas.
- E então? Foram bem nas provas?
- Eu espero que sim – Celine respondeu enquanto secava as mãos – Estou na expectativa mesmo é pela prova do professor favorito de todas as meninas da turma.
- O professor Schneider! – falamos juntas e nossas gargalhadas ecoaram pelo banheiro todo.
- Mesmo ele sendo exigente, eu estou tranquila – Nicole disse encostada no mármore da pia – Teremos mais tempo para terminarmos a prova.
- O que eu acho estranho é que no ano passado e no outro, não tínhamos este tempo a mais durante a última prova do dia. – analisei enquanto abria a minha pasta de dente e colocava na minha escova.
- Ué, o Frederik não te falou nada? - Gabriele fez o mesmo e ficamos nós duas de frente para o espelho, começando a escovação.
- Uhn-uhn – respondi negando com a cabeça e a boca cheia de espuma.
Continuamos a escovar nossos dentes e poucos minutos depois ela terminou, enchendo a boca com água, concluindo o que iria falar.
- Por estarmos no terceiro ano, vamos ter esse tempo a mais na semana toda de provas durante a última do dia.
- Ah, sim.
- Isso vai ser bom, é o mínimo que podemos ter com essa pressão toda – Celine concordou.
- Eu vou esganar o Frederik por ele não ter contado pra você, Nívea. São pequenos segredinhos que ele vaza pra mim do grupo dos três representantes de turma com a Dona Jacqueline no WhatsApp.
- Gabi, então não era pra você ter contado!
- Ih, fica de boas. A Nicole e a Celine não vão falar nada, não é meninas?
- Por mim, tanto faz. – Nicole deu de ombros, com uma expressão no rosto um pouco séria.
Terminamos de fazer tudo o que precisávamos no banheiro, quando a porta se abriu e três meninas entraram. Elas sorriram ao ver a minha amiga e a cumprimentaram no que ela fez o mesmo, se olhando pelo espelho, ajeitando e maquiagem e os cachos do cabelo. A popularidade da Gabriele nunca perdia o fôlego.
- Frederik e Patrick devem estar na quadra de esportes. Vamos ficar lá com eles? – Gabriele me perguntou.
- Vamos. Vocês querem ir com a gente, meninas?
- Não Nívea, tudo bem – Nicole cruzou o braço com o da Celine – Eu gosto de ficar pelo jardim do colégio. É mais tranquilo.
Nicole realmente não fazia questão alguma de estreitar laços de amizade com a Gabriele. Tanto ela quanto a Celine poderiam ser próximas de nós mas depois de tudo o que nós conversamos, após estudarmos juntas, eu só poderia respeitar a distância que ela preferia manter.
- Então tá bom. A gente se vê na sala. – Gabriele me puxou pela mão e saímos banheiro afora.
A quadra estava agitada no nosso horário de intervalo. Era o momento de respiro para todos os estudantes. Não demoramos muito para encontrar os meninos e nos sentamos na arquibancada ficando próximas a eles dois. Patrick conversava alguma coisa sobre jogos e filmes enquanto Frederik apenas ouvia ao lado dos outros garotos. E claro, ele sempre esboçava um sorriso ao me ver.
Mais uma vez, voltei os meus pensamentos para as duas últimas provas do dia que me aguardavam.
***
Eu estava quieta, sentada no meu lugar, com os olhos fechados e realizando o exercício de respiração. Porém, não era a mesma coisa sem a minha mãe me dando o suporte necessário para que eu o realizasse de forma correta.
Infelizmente a minha respiração e a concentração se dissiparam no momento em que aquele perfume masculino que eu já conhecia surgiu em sala de aula. E junto dele, a voz rouca e deliciosa cumprimentando os alunos.
Abri lentamente os olhos e lá estava ele. Olhando sério para toda a turma, colocando sua mochila preta em cima da mesa dos professores, abrindo o zíper e retirando o envelope de cor parda com as provas.
Usando blusa e calça social preta, os sapatos da mesma cor e... Tudo bem, eu já descrevi isso umas cem mil vezes. E me pegava olhando para ele como se fosse sempre a primeira vez. Sim, eu nunca me cansaria de dizer o quanto que Eric Schneider era lindo de todas as formas e era o meu namorado em segredo.
Nicole estava certa. Eu ficava hipnotizada em sala de aula admirando cada detalhe do seu rosto. Ainda bem que não era apenas eu e sim, todas as meninas da turma.
O silêncio pela última vez no dia dominou a sala. Depois do envelope, foi a vez dele retirar o diário de classe para a realização da chamada que talvez fosse feita no fim do horário.
E enfim, ele dirigiu sua atenção para nós, apoiando as mãos fechadas em punho em cima da mesa como se fosse dar um soco.
- Preparados? – eles quis saber.
Aqueles óculos com aros transparentes tão perfeitos que o deixava mais perfeito.
- Se for para sair correndo agora, estamos sim – Gabriele ironizou séria fazendo alguns alunos rirem.
- Ora, senhorita Fernandes, assim eu fico magoado – ele retribuiu a ironia, sorrindo de lado – Vocês já conhecem a minha prova, ela não morde.
- Mas fritam o nosso cérebro.
- Se vocês estudaram como eu espero que tenham estudado, não será difícil. E agora, como sempre, quero apenas caneta, lápis e borracha em cima da mesa – orientou com o semblante sério.
Não trocamos olhares e foi melhor assim. Ele estava mantendo a sua postura como professor. Distribuiu as provas viradas para baixo tranquilamente e após terminar, voltou para sua mesa permanecendo de pé e nos orientou em português.
- Como vocês já sabem, teremos uma hora a mais. Leiam e respondam tudo com calma. Questões deixadas em branco serão anuladas e não é isso que queremos aqui. – ele seguiu para o fundo da sala como sempre fazia. – Podem começar e boa sorte.
O rápido farfalhar das folhas nas mesas de cada aluno indicava o início da prova. Folheei cada página antes de começar e cheguei até a última que continha duas questões discursivas sobre o livro O Estrangeiro valendo meio ponto como estava descrito após o fim do enunciado.
Respirei fundo e voltei para a primeira página começando a responder as questões.
Eric deixou o fundo da sala, seguindo em direção à sua mesa onde ficou encostado, continuando a observar toda a turma. Olhei para ele e voltei a olhar para a minha prova que estava com todas as questões preenchidas. Mas alguma coisa me incomodava e eu não sabia dizer o que era. Fui novamente até a última página e revisei as duas questões discursivas do livro. Estavam respondidas normalmente.
- Il ne nous reste que dix minutes !* – ele avisou.
(Só temos mais dez minutos!)
Será que eu deixei de passar caneta em alguma questão?, pensei enquanto folheava a prova. Olhei novamente e estava tudo escrito em caneta azul.
Respirei fundo e não havia mais nada a ser feito. Minha prova estava terminada. Fechei minha caneta e a coloquei perto do lápis e da borracha em um canto da mesa. Virei todas as folhas devidamente grampeadas para baixo e agora me restava esperar o sinal das seis horas da noite tocar.
Após o toque do sinal, veio a sensação de alívio com o fim daquele primeiro dia que eu jamais conseguiria escrever.
- Deixem as provas aqui na minha mesa e estão liberados – Eric começou a arrumar a sua mochila e aos poucos os alunos foram levantando-se das mesas, com as mochilas nas costas e colocando as provas na mesa como ele havia pedido.
Quando os três últimos alunos se afastaram da mesa dele, saindo de sala, foi a minha vez de levantar e fazer o mesmo. Trocamos um rápido olhar, um meio sorriso da minha parte e saí de sala junto dos meus amigos que me esperavam.
- Eu achei que este dia nunca iria acabar – comentei enquanto descia as escadas em direção à saída.
- Quer uma boa notícia? – Patrick me perguntou.
- Quero.
- De amanhã até sexta-feira será a mesma coisa! – e sorriu debochado.
- Deixa de ser ridículo – Gabriele retrucou.
- Ué, mas é verdade!
- E pra piorar, as provas de exatas ainda vão acontecer.
- Nivea, pensa que na sexta-feira teremos um respiro. – Frederik me lembrou – Somente a prova de cultura francesa. Artes e educação física só iremos marcar presença para ganharmos a média exigida para o terceiro ano.
- Isso sim, talvez seja uma boa notícia.
Ao chegar na portaria do Saint Vincent, sorri ao ver que a minha mãe estava ali me aguardando e, como sempre, Evandro fazendo companhia à ela.
- Trabalhei pensando o dia todo em você, meu anjo – ela me abraçou apertado, de lado e beijou o topo da minha cabeça – Como foi o primeiro dia? – ela quis saber, me pegando carinhosamente pelo queixo.
- Acho que fui bem.
- Mas é claro que foi.
- Helena, convença a sua filha a ir lá pra casa no próximo fim de semana. A Melissa eu tenho certeza de que vai aceitar.
- Eu não vejo problema nenhum! Você pode ir sim, filha.
- Eu confirmo na sexta-feira.
Nos despedimos e segui com a minha mãe para casa. Durante o caminho, sentada no banco do carona, senti o cansaço mental e físico juntos. Demoramos um pouco mais que o normal pois o trânsito naquele horário estava infernal. E seria assim durante toda aquela semana.
***
Era o início da noite na Universidade.
Luciana Monteiro começara o seu expediente um pouco depois das duas horas da tarde e ficaria até o fim do último horário noturno de aulas. Durante toda a manhã ela esteve ocupada finalizando algo que mudaria a sua vida dali por diante. E dentro da sua sala, sentada em sua cadeira, inúmeras coisas passavam pela sua cabeça ao olhar para o chaveiro dourado em forma de coração em suas mãos que continham três chaves.
Uma nova fase. Um novo lar que se tornara apenas seu. Naquela manhã encontrou-se com a corretora de imóveis e finalizou a assinatura de compra e venda do apartamento que sonhava, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Almoçaram juntas para comemorar e durante o almoço tirou uma foto das chaves, enviando para o grupo da família no WhatsApp. Fez questão de que seus pais, irmãos e primos fossem os primeiros a saber. As mensagens foram surgindo quase que ao mesmo tempo para dar os parabéns, junto de figurinhas, emojis e áudios. A filha mais velha de três irmãos era o orgulho da família Monteiro naquele instante.
Foram poucos meses de negociação e com o dinheiro recebido pela venda do apartamento na região dos lagos que pertenceu à ela e ao ex-marido, tudo foi avançando de forma rápida. A localização era perfeita, próximo à bares, mercados, lojas e com uma agitação muito maior, bem diferente da localização triste e bucólica de onde estava morando, até então, na rua Santa Clara.
Inconscientemente, Luciana necessitava disso em sua vida. E ao olhar novamente o chaveiro, guardando-o em sua bolsa, ela sorriu. Aos poucos, conforme o dia passava, ela absorvia o acontecimento.
Saiu de sua sala, atravessando o campus, cujo pátio ainda tinha muitos estudantes circulando e seguiu para o prédio administrativo. Ao parar de frente para o elevador, que já estava aberto, apertou o botão de número seis cujo andar era da sala dos professores.
Ao chegar, sentiu a potência máxima do ar condicionado arrepiar a sua pele o que a fez esfregar os próprios braços. Olhou por todo o local e ele estava razoavelmente vazio pois naquele horário, a maioria dos professores estava em sala de aula. Foi quando o viu sentado em uma das mesas, concentrado em uma leitura. Caminhou no alto dos seus saltos e sentou-se de frente para ele.
- Sinto muito por interromper o seu silêncio e concentração. Mais um artigo da Sorbonne?
Eric deixou as folhas grampeadas em cima da mesa e a encarou por trás de seus óculos que o deixava sempre mais atraente.
- Sim, mais um. Tudo bem, eu já estava terminando a leitura... – suspirou – Depois de ler o último parágrafo por três vezes para conseguir entender.
- Problemas?
- Não – Eric retirou os óculos, colocando-os em cima da folha e esfregou o próprio rosto – Só estou preocupado. Hoje começou a semana de provas no Saint Vincent. Correu tudo bem mas, como sempre, ela me preocupa.
- A Nívea vai se sair bem.
- É o que eu espero. Não vou passar o sábado com ela. Vou ficar mergulhado em correção de provas e finalizar a revisão das provas daqui.
- E ela já sabe?
- Ainda não. Vou falar quando chegar em casa. E você? Tem alguma novidade? Li sua mensagem no grupo dizendo que chegaria no campus apenas depois do almoço.
- Depois da minha família, acho que posso contar para você... – a coordenadora sorriu.
Eric manteve o seu semblante sério.
- Coisa boa?
- Maravilhosa – o brilho nos olhos da sua chefe não escondia a felicidade – Pra falar a verdade, eu ainda estou atordoada e querendo me beliscar pra ter certeza de que não estou sonhando.
- Se é algo tão bom, acho que não é para mim que você deveria contar.
Luciana não esperava aquela resposta em forma de geleira.
- O quê? Como assim, Schneider? Você é o meu melhor amigo! Quase um irmão!
- Eu sei e também considero você como uma irmã – ele levantou-se da mesa, pegando sua mochila, pondo nas costas e levando nas mãos o artigo lido – Mas acho que outra pessoa merece saber da novidade antes de mim – aproximou-se dela, acariciando seus curtos cabelos por trás e deixou um carinhoso beijo na testa por cima dos fios loiros – Preciso ir, começo a minha aula daqui a pouco.
Eric saiu caminhando rapidamente em direção à saída, deixando a amiga com a expressão incrédula porém, pensativa. E o silêncio da sala dos professores não demoraria muito em ajudar a Luciana sobre a quem ele se referia.
No momento em que chegara em casa, ela percebeu que teria muito trabalho a ser feito. Alguns pequenos móveis foram vendidos e caixas de papelão vazias estavam amontoadas em um canto qualquer da sala de estar.
Tomou um bom banho, fez o seu lanche habitual da noite, se alimentando de forma leve, e, deitada na cama pronta para dormir, buscou a conversa em seu contato que tornara-se mais recente nas últimas semanas. Pegou-se sorrindo novamente, olhando para o aparelho. Clicou na pequena câmera ao lado da barra de mensagens e enviou para ele a mesma foto que enviou horas atrás para a sua família.
Poucos minutos depois veio a resposta:
''Que chaves são essas?'' – Evandro perguntou.
É o meu sonho que foi realizado hoje.
''Vc conseguiu??????''
***
Quando o sono começou a ganhar força eu já tinha terminado de revisar o conteúdo das provas do dia seguinte. Ajeitei meu material e o guardei em um canto da minha mesa de estudos.
Naquele momento, a tela do meu celular acendeu em cima da mesa com uma ligação que era o coração na tela. Sorri e aceitei na mesma hora, indo sentar na beira da cama.
- Oi, prince.
- ''Oi, meu amor. Tá tudo bem?''
- Tô um pouco mais cansada do que o normal.
- ''Eu imagino. Tô preocupado com você por isso te liguei.''
- Esses dias que passaram você me liga todas as noites.
- ''Eu tô incomodando?''
- Não, você sabe que eu amo ouvir a sua voz.
- ''Eu também. Além da preocupação, eu te liguei por outro motivo.''
- Qual?
- ''Eu vou ficar muito ocupado no próximo sábado. Corrigindo as provas do Saint Vincent e revisando o conteúdo das provas da faculdade. Essa semana das provas antecipadas bagunçou o meu cronograma.''
- Ah... Bom, é que...
- ''O que foi?''
- A Gabi me convidou, na verdade eu e a Melissa pra passarmos o final de semana com ela.
- ''E você quer ir?''
- Eu não confirmei nada porque na verdade...
- ''O que houve?''
- Eu queria ficar com você.
O silêncio do outro lado da linha fez meu coração acelerar.
- Eric?
- ''Eu não sei se vou conseguir te dar atenção, meu amor.'' – senti a minha garganta apertar – ''E me sinto mal quando isso acontece porque foi o que eu prometi quando fui atrás de você na França.''
- No outro sábado é quando eu viajo por isso tô te pedindo. Eu fico quietinha sem te atrapalhar, só pra ficar perto de você. Por favor.
- ''Nívea, eu não sei...''
Nesse momento eu apertava meus lábios na tentativa de segurar as primeiras lágrimas.
- Tudo bem, então – respirei fundo – É o seu trabalho. Você tá pensando em nós dois.
- ''Sim. Só queria que você entendesse.''
- Então só vamos ficar juntos quando eu voltar de viagem...
- ''Eu sinto muito, ma petite...''
- A gente se vê na próxima segunda-feira com o resultado das provas de hoje. Da sua prova.
- ''Tá bom, meu amor. Me perdoa por não te dar essa atenção.''
- Não fica preocupado. Eu vou voltar a focar nas provas. Boa noite, Eric. Te amo.
- ''Também te amo.''
Encerrei a ligação e me permiti chorar. O único momento em que ficaríamos juntos antes da minha viagem de férias não iria acontecer e eu precisava entender sim que o Eric possuía suas responsabilidades de trabalho, pois era no nosso futuro que ele pensava. E da minha parte, eu precisava voltar para a realidade e sobreviver àquela semana.
Talvez aceitar o convite da Gabriele não seria uma ideia ruim.
***
E eu consegui sobreviver...
Foi uma sensação de missão cumprida e o cansaço mental era mais evidente do que nunca.
Minha maior expectativa estava na nota que eu tiraria em física e em biologia. A primeira foi a qual eu encontrei dificuldade e a segunda foi a que eu estudei com a Nicole, o que criou em mim uma pequena curiosidade também sobre qual seria a nota dela.
Na sexta-feira no instante em que saí do elevador, ao invés de ir para casa, fui falar com a Melissa. Ela estava sozinha, com os pesados cachos ruivos amarrados em um coque no alto, usando roupas confortáveis quando se está em casa e ficamos ali mesmo na sala quando falei do convite da Gabi.
- Ah Ní, vou ter que furar com você. Minhas provas começaram na quarta-feira e terminam só na outra semana. Não posso vacilar nas notas.
- Tudo bem.
Fiquei um pouco triste pois sair sem a companhia da minha melhor amiga nunca era a mesma coisa. No entanto, ela estava na mesma situação que eu.
- Você e o Eric não vão ficar juntos?
- Não. – abaixei a cabeça chateada – Ele vai ficar mergulhado em provas. Corrigir todas do meu colégio e aplicar as provas da universidade.
- Poxa, que merda! Se o Fê fizer alguma coisa no aniversário dele, vocês dois só vão se encontrar de novo no dia?
- Na segunda-feira é o último dia de aula mas é isso mesmo o que você falou. Vamos ficar juntos talvez quando a gente voltar de viagem.
- Eu nem te enviei mensagem nem memes porque eu sabia que você estava em prova. Acha que se deu bem?
- Espero que sim.
- Desculpa não ir com você, de verdade. Vou mandar uma mensagem pra Gabi explicando tudo.
- Tá bom.
Nos despedimos com um apertado abraço e eu fui para casa. Pelo silêncio, meus pais ainda não tinham chegado. Fui para o meu quarto, deixei minha mochila na poltrona, ficando com o meu celular em mãos e me sentei na cama. Pela primeira vez em vários dias, mesmo cansada, eu me sentia completamente aliviada. Tudo o que eu podia fazer naquele momento, além de um bom banho, era esperar pelos resultados na segunda-feira.
Olhei para o meu aparelho e já passava das seis e meia da noite no relógio.
''Essa hora, o Eric deve estar em aula'', pensei antes de enviar uma mensagem pra ele. Pus meu aparelho na cama, fui para a suíte, me livrei no meu uniforme e caí debaixo do chuveiro.
Passar o final de semana com os meus amigos seria o melhor a fazer.
***
Durante o caminho até o condomínio, mesmo usando óculos escuros, observei o Evandro e ele estava tamborilando os dedos no volante enquanto ouvia a música tocando no rádio, visivelmente mais animado.
- Tá tudo bem, Evandro?
- Tudo ótimo.
- Parece feliz...
- Eu diria esperançoso. – ele exibiu o seu bonito sorriso ao me olhar pelo retrovisor sem tirar a atenção do trânsito.
- Recebeu boas notícias?
- Sim, uma ótima notícia. Talvez em breve você saberá.
- E você não pode me contar?
- Infelizmente não posso. A pessoa não me pediu mas, em respeito à ela, eu prefiro guardar segredo.
- Hum...
''Será que finalmente ele e a Luciana começaram a namorar?''
Era um verdadeiro encantamento da minha parte chegar no enorme condomínio dos meus amigos que eu sempre achava parecido com um bairro. Realmente foi uma pena os meus pais não conseguirem um apartamento no local... No entanto, a única parte ruim pelo menos pra mim seria não ter conhecido a família Amorim e eu e a Melissa não nos tornarmos amigas.
- Minha querida, como é bom ter você aqui!
Ainda era o início da manhã quando cheguei na cobertura dos irmãos e ser recebida pelo abraço afetuoso da avó Raquel aqueceu o meu coração.
- Uma pena que a Melissa não veio – ela acariciava o meu rosto – Aquela menina é a alegria em pessoa.
- Ela ainda está em prova, por isso não pôde vir comigo.
William e Natália também me receberam carinhosamente em meio ao café da manhã e me convidaram para comer com eles. Aceitei educadamente, sentei-me à mesa e a Gabriele sentou-se ao meu lado. Era uma manhã agradável de Sol e a enorme sala de estar recebia os raios de luz. Era incrível pensar que semanas antes, aquele cômodo estava totalmente transformado em uma pista de dança.
- William, ainda vai precisar de mim? – Evandro perguntou.
- Não Evandro, obrigado por ter ido buscar a Nívea. – o jornalista respondeu – Simon deve precisar de você.
- Com licença. Se precisar, estarei no celular – e saiu, deixando a cobertura.
- Ansiosa para a viagem de férias? – Natália me perguntou.
- Bastante. É a primeira vez que eu vou para a Itália e espero que seja uma viagem incrível. Vamos ficar uma semana na Sardenha.
- E já está tudo combinado para nos encontrarmos em Paris. – Gabriele falou enquanto se servia com um pequeno pedaço de rocambole recheado com geleia de morango. – Todos nós juntos comemorando a formatura por antecipação.
- Você vai gostar de conhecer os meus primos, Gabi. – me servi com o mesmo pedaço de rocambole.
- Infelizmente eu e a Natália não iremos viajar com vocês. Mesmo julho sendo mês das nossas férias no jornal, decidimos ficar pelo Brasil.
- Que pena.
- Mas a vovó vai viajar e cuidar da gente.
- Espero viajar mais vezes quando você e seu irmão terminarem o colégio. – Dona Raquel comentou enquanto comia uma pequena torrada – Se vocês forem morar fora, viajar será a minha terapia.
- Aliás, cadê o Patrick? – percebi a ausência dele.
- Ele, o Frederik e uns amigos nossos daqui combinaram de tomar café da manhã na padaria daqui do condomínio. Depois de comer, vamos deixar a sua mochila lá no meu quarto e encontrar com eles.
- Tá legal.
Continuamos a conversar sobre as férias, em especial sobre onde eu ficaria hospedada na ilha com a minha família e tudo o que o meu tio havia planejado. Foi um momento leve e descontraído que me fez esquecer quase que em definitivo os momentos de tensão que passei naquela semana. Só não foi ainda melhor porque eu não estava na companhia da Melissa.
Já no quarto da Gabi, deixei a minha mochila na cama, peguei o meu celular e troquei o meu par de tênis por chinelos. Eu usava uma calça jeans e blusa regata cor-de-rosa quando ela me levou até o escritório onde estudamos física.
- Quero te mostrar uma coisa – ela me disse animada enquanto ligava o seu notebook em cima da mesa de estudos.
- O quê? – sentamos uma ao lado da outra à mesa.
- Eu mudei de ideia.
- Como assim? – perguntei um pouco confusa enquanto observava o aparelho ligar as funções e então a área de trabalho aparecer e mostrar uma foto dela posando em frente ao Big Ben em Londres.
- Lembra do que a gente falou sobre bater perna em Paris atrás do meu vestido de formatura?
- Lembro.
- Pode esquecer. – ela começou a direcionar o mouse sem fio em uma pasta e clicou. De repente, fotos de atrizes famosas surgiram em elegantes vestidos posando no tapete vermelho com vários fotógrafos ao fundo. – Salvei as fotos da edição deste ano do festival de Cannes e vou escolher um vestido para usar.
- É uma boa ideia.
- Por que você não escolhe um deles e reproduz também?
- Pode ser.
Enquanto ela passava as fotos, o que mais me chamou a atenção foi o quanto as atrizes optavam por modelos chamativos e até mesmo excêntricos.
- Espera! Dá uma pausa – pedi e ela pausou em um modelo específico. – Gostei desse – Apontei para a tela.
- Jura? Ela é a Kaia Gerber, filha da super modelo Cindy Crawford da época de adolescência das nossas mães – e riu - Eu sigo ela no Instagram. Vem despontando com uma modelo de sucesso há alguns anos.
- É um vestido simples mas muito bonito.
- Achei simples até demais – ela opinou.
O vestido da modelo era todo vermelho com uma frente única de alças finas e em seda, sem nenhuma abertura nas coxas, longo até os pés o que me permitiria usar um modelo de sapato bem alto. Foi paixão à primeira vista.
- Vai ser ele, Gabi. Vai ser o meu vestido de formatura.
- Uhull – ela bateu palmas rapidamente – Então você e eu vamos juntas até a figurinista da emissora dos meus pais e tiramos as medidas. Mas não agora, é óbvio. Vamos depois que eu escolher o meu.
- Mesmo assim, eu vou fazer uma coisa. – falei pensativa.
- O quê?
- A sua ideia de usarmos os figurinos deste ano do festival foi ótima. Mas eu vou comprar um vestido e deixá-lo como uma segunda opção, de reserva.
- Perfeito! Vou fazer igual!
- A minha mãe vai adorar ir comigo pra comprar, então é mais por causa dela também.
- Sim! Vamos fazer o seguinte: Nós três compramos os vestidos reservas em São Paulo e os principais serão o do festival.
- Combinado!
- Ahhh, nem acredito! – ela me abraçou de lado bem apertado – Uma preocupação a menos esse ano.
- E era uma coisa que eu nem estava pensando...
- Viu só? Focou tanto nas provas, toda preocupada e acertou sem querer no vestido da nossa festa! Agora vem aqui, vamos tirar uma selfie que eu vou postar pra engajar e, na segunda-feira, vou falar com as meninas da nossa turma sobre essa ideia dos vestidos do festival.
- Acho melhor você postar uma mensagem sobre isso no nosso grupo – sugeri.
- Você acha?
- Segunda-feira será o nosso último dia de aula... Aquele surto todo com as notas... As meninas nem devem pensar muito nisso e vai ser melhor você falar a respeito só daqui uns dias.
- Verdade. Vou esperar e postar na semana que vem.
Tiramos a selfie, juntas em um abraço e imediatamente ela postou no seu perfil, digitando uma legenda. Recebi a notificação na mesma hora e quando eu cliquei, vi a foto de nós duas com a seguinte frase:
Adivinha quem já escolheu o vestido da formatura? e com o meu @ marcado.
- Pronto, vai gerar um engajamento dos grandes porque vai ficar a dúvida no ar sobre quem escolheu o vestido, eu ou você.
- Não precisava ter me marcado, Gabi.
- Deixa de ser boba, suas fotos são lindas, das suas viagens, suas roupas... Uma pena você ser tímida, seria uma influencer e tanto igual a mim.
Minutos depois, recebo a notificação de perfis me seguindo. Nunca iria entender como a Gabriele conseguia ter seguidores na casa dos milhões. Meus poucos mais de sete mil eu já achava muito.
- Vamos nos encontrar com os meninos? – ela levantou-se e desligou o notebook – Se eles não estiverem na padaria, o jeito é ligar pra saber onde eles estão.
- Beleza.
***
Durante aquele sábado, Nívea passou momentos muito divertidos ao lado dos seus amigos. O luxuoso condomínio era, de fato, um verdadeiro parque de diversões para adolescentes daquela idade. Conversas, piadas contadas pelo Patrick, risadas, Gabriele normalmente sendo o centro das atenções entre as meninas, selfies, fotos e vídeos. Tudo postado praticamente em tempo real pela estudante influencer e filha do casal mais famoso do jornalismo do país e repostado pelos amigos em comum.
Tudo isso não passou despercebido por uma jovem que naquela tarde, deitada em sua cama, visualizava cada story. Principalmente os registros em que ele aparecia ao lado da menina pela qual era apaixonado.
Nicole Dumont não conseguiu segurar uma pequena lágrima ao ver as fotos e vídeos em que Nívea e Frederik apareciam juntos. Como bons amigos, mas estavam juntos de qualquer forma. Engoliu em seco e sentiu o coração acelerar ao clicar no perfil dele, algo que fazia todos os dias para rever as postagens do jovem. Ele não atualizava com frequência mas a cada nova foto no feed, Nicole sempre fazia questão de curtir como uma colega de turma e seguidora. Para Frederik seria normal. Para ela, o amor que sentia era o motivo para um simples like.
- Me aperta o coração te ver sofrendo em silêncio, Nick.
Estela Dumont lamentou ao flagrar a filha chorando, no momento em que passava pelo quarto. Mãe e filha eram parecidas fisicamente onde a única diferença era que Estela possuía os cabelos cortados na altura do pescoço e os fios eram ondulados.
- Eu não consigo evitar, mãe - rapidamente ela enxugou a lágrima e sentou-se na cama – Eu sei que não tenho e nunca vou ter nenhuma chance com ele mas é mais forte que eu.
- Eu imagino – a mãe se aproximou e abraçou a filha de forma acolhedora – Você é muito forte, sabia? Mais forte do que pode imaginar. – sentiu a filha soluçar em seu colo – Mas não precisa ser assim o tempo todo, ouviu?
A primeira vez que Nicole sentira o coração bater mais forte pelo colega de turma foi em algum momento quando eles estavam ainda no sétimo ano. Além da beleza, Frederik possuía um carisma e simpatia fora do comum. Não havia um estudante e professor que não gostasse dele. Na triste semana em que sua querida avó falecera e com as notas do bimestre abaixo da média no segundo ano, Frederik percebeu que ela não estava bem, tornou-se um ponto de apoio onde ela pôde chorar e desabafar com tudo o que estava acontecendo em sua vida. O colega da turma pacientemente ouviu o ocorrido e lhe deu um abraço junto de um conselho que seria conversar com o professor Schneider. Com isso, o sentimento dentro do peito da jovem ganhou força mas ela conseguiu contê-lo pois sabia que tratava-se de um amor impossível.
- Eu te mostrei as fotos da Nivea, mãe. Ela é linda, não é difícil nenhum garoto se apaixonar por ela.
A mãe da jovem ficou inconformada com o que acabara de ouvir.
- E quem disse que você não é? – ela afastou a filha do abraço para olhá-la em seus olhos – Você é linda exatamente do seu jeito e não deixe ninguém te dizer o contrário! Você tem uma família que te ama, tem as suas amigas e é tão inteligente quanto a Nívea.
E prosseguiu:
- Continue sendo exatamente assim e se não for o Frederik, outro garoto vai aparecer e enxergar todas essas qualidades que sempre me fizeram ter orgulho de você.
A jovem estudante ouvia com atenção todas as palavras de motivação e carinho da mãe. Mesmo assim sentia seu peito doer.
- Vou insistir de novo neste assunto: você não quer mudar para uma outra turma do terceiro ano? Posso entrar em contato com a Jacqueline e fazer o pedido.
- E você sabe que eu não vou mudar e não posso por causa da Celine. – disse ainda chorosa - Ela é a minha amiga.
- Eu sei. Mas não custava nada falar novamente sobre isso com você.
- E além disso, a Nívea é uma garota muito legal também. Tem um coração gigante e eu não consigo sentir raiva dela por ser a garota por quem o Frederik é apaixonado.
- Pelo que você falou, parece mesmo. Não podemos esquecer de convidá-la para almoçar com a gente para agradecer pelo que ela fez por você.
- Pode ser um pouco antes da formatura.
- Isso, vamos marcar um dia. – ela terminou por enxugar as lágrimas do rosto da filha – Mas enquanto isso, que tal você se distrair por hoje? Vamos juntas ao cinema? Seu irmão está na casa da sua tia e seu pai foi para o Country na Gávea.
- A típica tarde entre os sócios uma vez por mês.
- Exato! – as duas riram e Estela suspirou aliviada ao ver o sorriso no rosto da jovem em meio à algumas lágrimas.
- Se não tiver nada de bom no cinema, podemos comer em algum lugar legal.
- Que seja! Se arruma pra gente sair!
O alento no coração da jovem era saber que Nívea e Frederik jamais iriam iniciar um namoro. Quando soube, ainda no segundo ano, que Nívea recusou o convite dele para saírem juntos, Nicole sentiu que se o romance entre eles não começou naquele momento, não teria razão para começar tempos depois. O que de fato aconteceu.
Porém, era doloroso flagrar quase todos os dias os olhos do representante da turma serem apenas para aquela que ela julgava ser a mais bonita entre as meninas das turmas do terceiro ano.
Mais do que a oportunidade de um primeiro emprego, o intercâmbio em Bruxelas seria a fuga necessária para, quem sabe, seu coração deixar de amar Frederik Bertrand e permitir encontrar um novo amor.
***
A desculpa inventada no final de semana do Dia das Mães poderia ter sido realidade...
Durante aquela semana, Luciana Monteiro se viu em meio à mais caixas de papelão espalhadas pelo seu pequeno apartamento e percebeu que não teria mais como escapar daquele chato processo de embalar seus objetos pessoais. Poderia ter feito tudo com a ajuda da Nívea, se aquilo não tivesse sido puro pretexto para tirar a estudante de casa e fazer com que ela se encontrasse com Eric Schneider.
- Em pleno sábado à noite e o que estou fazendo? Iniciando a mudança.
Optou por embalar objetos da cozinha como panelas, travessas de alumínio, talheres e ao terminar, direcionou seu foco em porta-retratos e alguns objetos decorativos que necessitavam mais cuidado.
Em meio a todo este pequeno caos, sentiu seu telefone vibrar na pequena mesa de centro da sala e viu na tela o nome do Ricardo, o seu irmão do meio. Sentou-se no sofá e respirou fundo, sentindo o cansaço e o suor na testa, antes de atender à ligação. Pegou o aparelho e deslizou o dedo na tela.
- Oi, Ric.
- ''Oi, Lu. Tá fazendo o quê?''
- Começando a embalar algumas coisas pra mudança.
- ''A essa hora?''
- Fiquei ocupada o sábado todo, resolvendo algumas coisas e quando vi essas caixas aqui na sala me encarando de volta, era claramente o sinal de que devia começar a encaixotar tudo aos poucos.
- ''Entendi. Bom, te liguei pra falar sobre isso mesmo.''
- O que foi?
- ''Aquela indicação de pintor que você pediu no grupo quando deu a notícia da mudança, eu consegui pra você.''
- Ah, meu Deus, Jura?
- ''Aham. Ele tem experiência e foi indicação do meu sócio.''
Ricardo Monteiro era Engenheiro Civil e sócio-proprietário em uma empresa do ramo. Apenas um ano mais novo que a coordenadora, possuíam uma ótima relação entre irmãos que contava também com a irmã caçula, Carolina, arquiteta e trabalhava na empresa do irmão.
- ''Quando podemos marcar com ele?'' – Ricardo perguntou - Eu vou com você.
- Eu não sei... Pode ser na segunda-feira por volta das nove da manhã?
- ''Pode sim. Vou falar com ele.''
- Ótimo. Te agradeço muito.
- ''Pode contar com a minha ajuda sempre, irmã.''
- Eu sei disso – e riu.
- ''Estou indo com a Vivian e as crianças para a casa dos nossos pais, você não quer ir?''
- Agora?
- ''Deixa essas caixas aí e vamos passar esse fim de semana lá. Daqui a pouco você vai ficar ocupada até o fio de cabelo com mudança e não vai nem respirar.''
- Eu vou tomar um banho e vou direto.
- ''Isso aí, a Carol foi mais cedo e você sabe que o pai e a mãe adoram ver a casa cheia.''
- Verdade. E tem o Bernardo, já estou com saudades.
- ''A gente se vê lá. Beijão.''
- Outro.
Luciana pôs o aparelho de volta na pequena mesa e se recostou no sofá, voltando a respirar fundo.
As reuniões com a família Monteiro aconteciam quase todos os meses e a maioria das datas comemorativas era quase sempre na casa dos pais da coordenadora. Ela gostava e sentia orgulho dos pais e irmãos sempre unidos. Além disso, todos eles foram o principal suporte que ela precisou no triste momento do seu casamento, terminado em divórcio.
A casa era localizada no Recreio dos Bandeirantes e assemelhava-se com uma casa de praia. O enorme quintal era composto por um belo gramado e piscina e na varanda havia uma longa mesa e bancos de madeira muito parecidos com aqueles que poderiam ser encontrados em sítios, fazendas e pousadas.
Pouco mais de uma hora após conversar com o irmão, Luciana chegou na casa dos pais e encontrou todos reunidos além de alguns vizinhos que ela conhecia desde a adolescência e juventude.
- Dinda, Lu!! – viu Bernardo, o seu sobrinho mais velho e afilhado, fantasiado de Batman, correr em sua direção e pular no seu colo, dando um abraço.
- Meu amorzinho, como você está?
- Tô bem e você?
- Um pouco cansada do trabalho mas seu pai me convenceu a vir pra cá – ele desceu do colo e os dois caminharam de mãos dadas até onde todos estavam reunidos na varanda. O cheiro do churrasco que começava despertou um pouco o seu apetite.
- Vai brincar comigo?
- Vou sim!
- Que bom que você veio, minha filha! – a mãe, Sandra a abraçou apertado ao lado do seu pai, Ernesto.
- Estou orgulhoso pela sua conquista, querida! – o pai a abraçou da mesma forma – Finalmente vai dar tudo certo pra você.
- Eu ainda estou um pouco assustada mas ao mesmo tempo, feliz.
Luciana cumprimentou os convidados dos seus pais e ao chegar na espaçosa sala viu sua cunhada e a pequena sobrinha Julia assistindo um filme infantil. Não demorou muito para ela identificar o vestido amarelo de princesa que usava e dançava igual, rodopiando na frente da enorme TV enquanto assistia ao clássico filme da Disney, A Bela e a Fera.
Cumprimentos e beijos entre as três onde aquela noite em família estava apenas começando.
***
Mãe, as duas filhas e a nora estavam na cozinha o que ocasionou uma reunião em particular, enquanto conversas animadas aconteciam ao mesmo tempo na varanda. Dentre os inúmeros assuntos, não demorou muito para que um em específico viesse à tona.
- Depois que o seu apartamento estiver pronto, o que pretende fazer, filha? – Sandra perguntou enquanto terminou de lavar e organizar alguns pratos e talheres para levar até a varanda onde o churrasco seria servido.
- Continuar tocando a minha vida, mãe. Como estou fazendo.
- Mãe, a Lu está se fazendo – Carolina comentou enquanto deslizava cobertura de chocolate por todo o bolo de cenoura recém tirado do forno – Ela sabe bem a sua pergunta.
- Eu já disse para vocês que não quero me relacionar – ela afirmou enquanto beliscava alguns amendoins que estavam na mesa – Não quero criar expectativas, abrir o meu coração para ele ser ferido de novo.
- O problema é você ou é ele? – foi a vez da cunhada questionar – E seja sincera!
- Claro que sou eu! – ela calou-se pensativa - E talvez ele também.
- Você ainda está com essa paranoia ridícula de diferença de idade? – Carolina perguntou sem rodeios.
- Já disse isso a ele, filha?
- Ainda não. Eu e o Evandro nos tornamos bons amigos, depois de vocês ele foi a primeira pessoa a saber sobre o meu apartamento novo.
- E mais alguém sabe?
- Não, ainda não contei para ninguém.
- E com isso, esse rapaz está criando expectativas que não deveria criar pois por mais que seja uma boa notícia, ele vai se sentir especial na sua vida.
- Concordo com você, sogra. – Vivian completou ao pegar alguns dos amendoins e levava à boca.
- São dez anos de diferença... Não tem a mínima chance de um namoro entre eu e ele dar certo.
- Isso foi o que você criou na sua cabeça só porque além de mais novo, ele é lindo!
- Carolina! – a mãe a repreendeu – Cadê o respeito com o seu marido?
- O Maurício está viajando, esqueceu? Além disso é apenas um elogio para, quem sabe, a Lu se tocar de uma vez por todas.
- O Evandro é um homem bonito eu não nego e é exatamente essa beleza dele também que acaba sendo um problema.
- E com isso temos três problemas – Vivian pontuou – Você que se recusa a abrir-se novamente para o amor, a diferença de idade e a insegurança que te atormenta por ele ser bonito.
- Então eu acho que você deveria conversar com esse rapaz de forma definitiva, minha filha – Sandra fora enfática – Acabar com essa amizade e assim ele se conforma de que não terá nada mais sério entre vocês dois.
- Eu vou fazer isso, conversar pessoalmente. Mas depois que eu me mudar.
O churrasco entre família e amigos correu tranquilamente bem como em todas as outras vezes.
Luciana deixou de lado toda e qualquer reflexão a respeito da conversa que aconteceu na cozinha e decidiu curtir aquele bom momento de um sábado à noite ao lado daqueles que mais amava na sua vida. Carne mal passada, caipirinhas, competição de videokê e até mesmo um mergulho na piscina ainda que estivesse à noite.
Ao lado da família, não existia a dor da solidão que a rondava todas as noites ao chegar em casa após um exaustivo dia de trabalho. A amizade de poucos meses construída com Evandro foi uma grata surpresa porém, era limitada. Limite que ela impôs entre eles dois.
Era por volta de onze horas da noite quando a reunião familiar já estava dando os sinais de que chegava ao fim. A brisa agradável da noite aliada ao aroma inconfundível da maresia invadiu toda a área externa da casa. Na mesa da varanda, o tabuleiro ainda tinha algumas carnes. Ernesto Monteiro e sua neta dormiam juntos na rede em um lado mais afastado da varanda, com um pequeno livro infantil aberto no colo da menina. Mãe, filhos e a nora conversavam na mesa no mesmo local e Luciana estava relaxada no sofá da sala com o seu afilhado também dormindo no sofá, com a cabeça em seu colo, enquanto assistia alguma coisa na TV. Só voltaria para Copacabana na tarde de domingo e desabaria no sono em seu antigo quarto que ainda era mantido pelos pais.
Ouviu seu aparelho celular vibrando na mesa de jantar. Com todo cuidado afastou a cabeça do menino, deixando o dormir tranquilamente e foi até a mesa. Não esperava receber uma ligação dele naquela hora. Atendeu totalmente movida pela curiosidade.
- Schneider?
- Oi, Luciana. Foi mal pela hora. Você já ia dormir?
- Não, eu tô na casa dos meus pais. Fizemos um churrasco.
- Então eu falo com você amanhã.
- Pra você me ligar essa hora da noite é porque aconteceu alguma coisa!
- É, aconteceu.
- Sua voz não está nada boa... É grave?
- Não para nós dois.
- Você tá me preocupando. Me fala! O que foi que aconteceu? – e em questão de poucos segundos, ela ficou sem ar – Meu Deus do céu...
O sono, após algumas caipirinhas que Luciana consumiu, dissipou-se por completo feito névoa após ouvir o que o seu amigo acabara de contar.
***
O clima lá fora não estava dos melhores. Ao olhar pela janela da sala, o céu estava nublado porém, eu não sentia muito frio mesmo com o ar condicionado ligado. Foi assim o dia inteiro e eu sempre gostei de dias de Sol, ainda que na maioria das vezes eles fossem insuportáveis por causa do calor. O que era óbvio.
Mas naquele momento, as minhas preferências sobre o frio e o calor tornaram-se pequenos detalhes.
Eu olhava o meu bloco de anotações no celular e sorria. Sorria sem acreditar o que estava vendo e digitado momentos antes.
Língua Francesa – 9,7
Geografia – 9,6
História – 9,8
Literatura Francesa -
O meu último dia de aula não poderia ser finalizado da melhor forma. Eu estava acima da média nas disciplinas da segunda-feira e faltava Literatura Francesa para encerrá-lo com sucesso. Toda a angústia, a ansiedade, a tensão eram apenas uma breve lembrança. Eram notas as quais eu já estava acostumada a tirar mas naquele momento elas tinham algo a mais. Uma sensação de dever cumprido devido à pressão maior que vivíamos naquele ano.
Durante as aulas das três disciplinas os professores realizaram comentários e dúvidas sobre o que um aluno ou outro errou. Da minha parte, eu não tive dúvidas. Eu estava mais do que satisfeita com os meus resultados e naquele momento todas as notas já deveriam estar na área de acesso do site da escola para os pais e responsáveis.
Frederik, Gabriele e Patrick também ficaram acima dos nove e meio e ao olhar para o lado, vi Nicole e Celine conversando e rindo. Com certeza, elas tiraram boas notas. Não apenas elas, mas a turma toda conseguiu alcançar e ficar acima da média para o terceiro ano. O que causou euforia e conversas animadas.
O sinal tocou e a professora Marie despediu-se da turma, desejando boas férias para os alunos e deixou a sala. Foi nesse momento que o meu coração acelerou. Só restava a última disciplina. A disciplina dele. Senti meu corpo gelar dos pés à cabeça e fiquei com medo de ter outra crise de ansiedade. Comecei a respirar a inspirar fundo. E ao segurar no braço da Gabi, ela tomou um susto quando sentiu a minha mão.
- Que isso, Nívea! – ela pousou a sua mão por cima da minha, me olhando espantada – Você tá gelada!
- Tô nervosa...
- Fica calma! Você tá humilhando nas notas até agora, com a prova do professor Schneider vai ser igual! Aliás nós duas estamos.
Eu não tive tempo de responder pois naquele exato instante, Eric entrou na sala cumprimentando a turma seguindo direto para a sua mesa como sempre.
No entanto, havia algo diferente nele.
Seu rosto estava mais sério do que de costume, a típica cara de poucos amigos. Observei que ele engolia em seco e enquanto mexia na sua mochila, ainda não olhava de volta para os alunos. Ele estava tenso. Foi um recado fácil de entender e, com isso, a turma inteira começou a ficar em silêncio.
O que será que aconteceu?, foi o que eu pensei enquanto continuava a observá-lo.
- Aí ó – Frederik sentado atrás de mim, aproximou-se e ficou por entre nós duas – Ele tá esquisito de novo. Daquele jeito igual no nosso primeiro ano. – comentou em voz baixa.
- Será que foi algo grave? – foi a vez da Gabriele perguntar.
- Com certeza não deve ter transado esse final de semana.
- Patrick! – ela chamou a atenção do irmão que estava sentado atrás dela.
- Que foi?
No fundo, Patrick tinha um ponto. Eric e eu não passamos o final de semana juntos pois ele ficou totalmente ocupado com pilhas de provas. Deveria estar frustrado, chateado por não ter ficado junto comigo. Será que era isso? Ou talvez, ele não tivesse gostado de saber que eu estava com os meus amigos o final de semana todo mas não quis me dizer?
- É melhor eu perguntar...
- Gabi, não faz isso! – repreendi – O professor não tá com uma cara boa. – falei enquanto continuava a observá-lo ainda de pé em sua mesa, mexendo no seu celular.
- Por isso que é bom saber o que aconteceu! Professor! – e ela o chamou.
Eric, enfim, voltou a encarar os alunos e mais precisamente a Gabi.
- Sim, senhorita Fernandes.
- Tá tudo bem?
Ele continuou a observá-la e respirou fundo.
- Não, não está.
- Percebi. – ela riu sem jeito.
- Então turma, eu peço desculpas por estar assim mas é que surgiu um problema. Na verdade, não foi um problema mas apenas algo que eu não consegui contornar.
- Se for algo pessoal, não precisa falar nada, professor – Frederik aliviou a tensão que estava na sala inteira.
- Eu sei que vocês estão na expectativa pelo resultado das provas mas eu optei por distribuí-las quando faltar quinze minutos para o sinal do fim do dia tocar.
- Show! E a nossa ansiedade que lute! – Gabriele debochou causando alguns risinhos entre a turma.
- Eu sei o que estou fazendo, senhorita – Eric foi ríspido – E como hoje é o último dia de aula e não há mais nenhum conteúdo a ser passado, podem ficar à vontade para fazer o que quiserem mas sem bagunça. Precisamos apenas cumprir a última aula deste cronograma que, como bem sabemos, foi antecipado.
Eu poderia perguntar qualquer coisa mas ao ver o quanto ele estava tenso, não tive a mesma coragem da minha amiga. Alguma notícia de doença na família? Algum problema na universidade? Ou ele estava mesmo chateado comigo?
Eu e Eric teríamos o nosso momento a sós e então, ele me contaria o que estava acontecendo. Por outro lado, só me restava esperar pelo resultado da sua prova que eu teria ali em menos de duas horas nas minhas mãos.
***
A melhor forma de fazer o tempo passar rapidamente é ficar no celular e foi o que a maioria da turma fez, inclusive eu. Poderia ter puxado conversa com o Eric no WhatsApp mas seria muito arriscado pois a Gabriele estava ao meu lado. Os vídeos nos Instagram me distraíram um pouco e, ao lembrar que o tempo passava, eu ficava mais apreensiva.
Ao olhar a hora, faltava quinze minutos para as cinco horas da tarde. Quando desviei meu olhar do celular, Eric já estava de pé, encostado na mesa e com as provas em mãos. Senti meu ar faltar e minhas mãos molhadas. E voltei a ficar aliviada quando abri meu bloco de notas ao ver novamente meus resultados e apenas Literatura Francesa ainda em branco.
- Turma... – ele finalmente chamou a todos e o silêncio ganhou a sala – Bom, eu gostaria de dizer que todos vocês foram muito bem na minha avaliação neste segundo bimestre. – ele seguiu na direção da porta, deixando-a aberta.
- Uhulll – Gabriele vibrou, erguendo as mãos fazendo Eric sorrir fechado pela primeira vez em sala.
- Porém... – ele retornou para perto da mesa e ficou sério no mesmo instante, respirando fundo.
- Ah não... – ela perguntou – O que rolou?
- Tivemos apenas uma nota abaixo da média. Tivemos uma nota nove.
A turma inteira entrou em choque ao ouvi-lo falar e assobios, conversas, suposições dominaram a sala.
- Por favor. Me deixem continuar.
- Então tá explicado a sua cara de velório no início da aula – Patrick concluiu.
- Exato e foi isso que eu não consegui contornar. Mas eu quero que saibam o seguinte: é uma nota abaixo do que se espera dos alunos do terceiro ano, mas não irá afetar em NADA – ele enfatizou - no futuro universitário de vocês.
- Mas professor, alguém ficar abaixo da média não é legal pro histórico escolar. – Frederik comentou.
- Eu sei e por isso é bom que não aconteça novamente. Que este nove seja apenas um pequeno tropeço.
- Eu sou a prova viva – foi a vez da Nicole falar – Espero não passar de novo pelo que eu passei.
- Professor, pelo amor de Deus – Gabriele implorou – Entrega as provas, por favor!
- Claro, vou entregar para cada um de vocês viradas para baixo e vocês só abram quando eu pedir.
- Tá, tá bom! – ela concordou aflita.
Caminhando pela sala conforme olhava o nome escrito no alto da primeira folha, Eric começou a chamar e entregar as provas para cada aluno. Me peguei pensando e fiquei com pena do aluno ou aluna que ficara abaixo da média. O boletim daquele bimestre ficaria arranhado por ser um estudante do terceiro ano em que todos nós estávamos sob pressão.
A entrega de cada avaliação foi rápida e curiosamente, a minha prova foi a última a ser entregue. Mas sorri ao lembrar que era sempre a minha que ele corrigia por último.
Ao vê-lo ficar ao lado da mesa, seus olhos azuis encontraram-se com os meus. Não entendi o jeito que ele me olhava. Estava diferente.
- Podem virar – finalmente ele autorizou.
Quando virei a minha prova, meu mundo parou e eu não senti o chão. Havia uma nota nove ali escrito em caneta preta. E ao lado do ponto, não havia um cinco, nem um seis, nem um sete.
Haviaque formava uma nota nove.
Continua...
Nota da autora:
Ih gente, deu ruim para nossa princesa. Ficar abaixo da média exigida não é nada bom, não é mesmo? Acredito que muitos aqui já estejam cientes do que vai acontecer no próximo capítulo, rsrsrs...
O término deste semestre ficou tão longo que precisei dividi-lo em duas partes. A conclusão dele será no próximo capitulo sem falta. A divisão também foi feito pois eram muitas coisas para serem assimiladas e a leitura não ficar cansativa para vocês. Ainda este mês ou no máximo em meados de julho, publicarei o próximo que já está praticamente mais da metade escrito.
Novamente, agradeço a compreensão de todos.
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