Capítulo 4 - Os Ecos do Silêncio

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 1562 palavras
Data: 14/06/2026 21:10:52
Última revisão: 14/06/2026 21:20:07

Como a chuva ficara forte demais para permitir qualquer permanência no campo, Luís e Gerson decidiram voltar ao sítio. O caminho de volta foi feito quase em silêncio, sob a água que caía pesada sobre os pastos e transformava a estrada de terra num lamaçal escorregadio. Quando chegaram à sede, encharcados da cabeça aos pés, João Carlos já havia retornado da cidade e pouco percebeu além do estado lamentável das roupas dos dois. Para Luís, porém, nada parecia igual. Enquanto ajudava a guardar os animais e fingia normalidade diante do pai, carregava consigo a lembrança daquele beijo como quem guarda um segredo precioso e perigoso ao mesmo tempo.

Dali em diante, os dois passaram alguns dias como se nada tivesse acontecido, sem tocar no assunto, tentando seguir a rotina diária; entretanto, quanto mais tentavam agir como antes, mais evidente se tornava que alguma coisa havia mudado entre eles. Porém, não conseguiram permanecer na negação por muito tempo e começaram a se entregar àquele sentimento.

Durante o trabalho, quando se encontravam longe da sede do sítio e dos olhos de João Carlos, eles trocavam palavras que antes não ousariam dizer, demoravam-se mais do que o necessário em conversas sem importância e, vez ou outra, encontravam alguns minutos de privacidade para compartilhar a intimidade que vinha crescendo com beijos ardentes, abraços acalorados, mãos que acariciavam as partes um do outro.

Aquilo trazia felicidade a Luís. Pela primeira vez desde a morte da mãe, ele sentia que alguém realmente o enxergava. Mas trouxe medo também. Porque toda alegria daquela relação parecia existir sob a sombra constante da descoberta.

Os dias passaram assim, entre encontros às escondidas, toques rápidos e olhares carregados de desejo. Bastava um trecho mais afastado da propriedade, uma sombra de árvore no fim da tarde ou um galpão vazio para que os dois se aproximassem. Não havia grandes declarações. O sentimento deles parecia crescer justamente nas pequenas coisas: num sorriso compartilhado, numa mão que encontrava a outra por alguns segundos, num olhar que dizia mais do que qualquer palavra.

Já próximo do final de dezembro, porém, aconteceu algo que ambos sabiam ser inevitável. Numa tarde quieta, mas de muito sol e calor e, Luís e Gerson deixaram seus afazeres por um instante para curtirem um momento a sós. Carlos estava na cidade para resolver alguma questão relacionada à venda de sua produção na feira. Ambos foram para o rio se refrescar do calor completamente nus, aos beijos. Após saírem da água, eles se deitaram sobre um lençol que o peão levou consigo e em meio aos beijos ardentes, iniciaram uma masturbação mútua.

Mas o desejo deles pedia muito mais, e foi aí que Gerson se abaixou e colocou o membro do jovem na boca, iniciando um sexo oral prazeroso. O rapaz se contorcia, tentando conter seus gemidos. Gerson fazia movimentos com a língua ao redor da glande e a sugava com gula, tesão e paixão. Ele então virou o rapaz de bruços e usou a língua agora entre as nádegas de Luís, fazendo-a adentrar o orifício virgem. Luís jamais imaginou que se fazia isso em uma relação sexual, e mesmo sem conhecer, se entregou nas mãos – e na língua – de Gerson.

Gerson pegou na mochila um pequeno frasco contento vaselina e lambuzou o ânus de Luís, que inicialmente ficou meio assustado. Ele estava deitado sob suas costas e o peão de pé na beira da cama. Gerson segurou as mãos do rapaz como quem tenta acalmar um pássaro assustado. Sabendo o que estava por vir, Luís sentia o coração bater tão forte que parecia impossível esconder o nervosismo. Ainda assim, havia uma paz estranha naquele instante, como se finalmente estivesse chegando a um lugar que procurava havia muito tempo sem saber.

— Por favor, vai devagar. — pediu ele com voz trêmula.

— Fica tranquilo, meu pombinho. Prometo que serei gentil com ocê.

Com cuidado, Gerson aproximou o mastro lambuzado de vaselina no ânus do jovem, passando a glande avermelhada devagar ao redor do orifício. Aos poucos, ele iniciou a penetração, recuando a cada vez que Luís demonstrava sentir dor.

— Tá vendo, já entrou a cabecinha... Agora vai ser mais fácil.

— Pode colocar tudo, peão!

Gerson forçou um pouco e então o mastro entrou completamente. Luís sentia dor, mas sua excitação permanecia intacta. Ele desejava isso há muito tempo! O peão ficou parado, apenas acariciando Luís para que ele ficasse relaxado, e então iniciou com movimentos pélvicos lentos e foi acelerando aos poucos. A excitação de Luís fez com que sua dor fosse dando lugar ao prazer. Seu próprio membro ereto desde o início pulsava a cada vez que era invadido pelo peão. Naquele quarto fechado, seus corpos suavam e arrepiavam e queimavam de desejo.

Enquanto penetrava o jovem, Gerson pegou no membro do rapaz para masturba-lo, mas tão logo sentiu o toque em seu instrumento e Luís não resistiu e ejaculou tão forte que o sêmen atingiu seu próprio rosto. Como ele também já estava segurando o gozo há algum tempo, pois o orifício do rapaz era apertado, Gerson intensificou os movimentos segurando na cintura de Luís, e enterrando o pênis ao mais fundo que pode, ejaculou dentro dele, deixando escapar seu gemido contido. Enquanto recuperava o fôlego, ele se deitou ao lado de Luís, onde ficaram acariciando um ao outro sem dizer nada.

Para Luís, aquela tarde ficou gravada na memória não pelos gestos em si, mas pela sensação de pertencimento que experimentou pela primeira vez. Pela certeza de que não estava sozinho. Pela forma como Gerson o olhava, como se enxergasse não apenas o rapaz que trabalhava no sítio, mas tudo aquilo que ele escondia dentro de si.

Ali naquele quarto abafado com Gerson ao seu lado, sentindo o cheiro de suor e sexo, Luís acreditou, talvez pela primeira vez desde a infância, que a felicidade pudesse ser uma coisa simples. Mas a felicidade raramente permanece simples por muito tempo.

Os dias avançaram. O ano chegava ao fim. As chuvas caíam com regularidade e intensidade.

Numa manhã, Luís saiu cedo para a feira da cidade vizinha, levando parte da produção do sítio para vender, como fazia desde a adolescência. O movimento costumava se estender até o fim da tarde, e João Carlos já conhecia tão bem aquela rotina que raramente perguntava detalhes sobre o horário de retorno do filho.

O dia transcorreu normalmente. A movimentação das barracas, o cheiro de frutas maduras misturado ao de pastel frito e o burburinho constante dos fregueses produziam a sensação familiar de sempre. Entretanto, pouco depois do almoço, uma forte chuva acompanhada por ventos intensos obrigou os organizadores a encerrar a feira antes do previsto. Muitos comerciantes começaram a desmontar suas bancas às pressas, tentando salvar mercadorias e evitar prejuízos maiores. Alguns, como Luís, procuraram abrigo por perto até que a chuva cessasse.

Após a chuva que durou quarenta minutos, Luís organizou na caminhonete o que restara da carga, despediu-se rapidamente de alguns conhecidos e iniciou o caminho de volta ao sítio muito mais cedo do que qualquer pessoa esperaria. A estrada estava úmida, o céu permanecia carregado e o rapaz aproveitou o trajeto para pensar em Gerson, lembrando de seus encontros furtivos na fazenda, de seus momentos íntimos, e imaginando a surpresa que o aguardava ao vê-lo regressar ainda cedo.

Ao chegar à propriedade, porém, não viu ninguém em casa. Olhou em volta e foi até o curral, onde ouviu vozes vindas da parte de trás. Reconheceu imediatamente que eram seu pai e Gerson. A princípio não achou estranho. Mas havia algo no tom da conversa que o fez parar. Os dois não estavam conversando, mas discutindo. Instintivamente, Luís permaneceu escondido, ouvindo a discussão.

— João...

— Não. Agora ocê me escuta.

Outra pausa.

— Eu trouxe ocê pra cá porque confiava n’ocê.

Luís sentiu o coração acelerar.

— Mas não tá acontecendo nada, Carlos.

— Você acha que eu sou cego? — ouviu João Carlos dizer, com a voz carregada de raiva.

O tom de João Carlos misturava irritação e algo mais difícil de definir. Mágoa, talvez.

— Ocê parou de me procurar de noite, começou dormir cedo... e fica de papinho com Luís. Até que vi ocês dois de safadeza no pasto ontem, esfregando o pau um no outro. Vai mentir que ocê tá me traindo com o meu fi, Gerso? Desembucha logo, seu fi duma quenga!

A frase atingiu Luís como um golpe, mas ele permaneceu imóvel, quase sem respirar ou pensar. Gerson, ficou calado... não tinha o que dizer.

— Por que fez isso com a gente? – a voz de João Carlos estava agora embargada, possivelmente contendo um choro.

Nenhum dos dois falou durante alguns segundos. E aquele silêncio pareceu dizer mais do que qualquer explicação. Para Luís, porém, já era tarde demais. Seu pensamento correu para todos os momentos estranhos desde a chegada de Gerson. As conversas noturnas na varanda, a intimidade antiga entre os dois, alguns olhares, as pausas, as histórias compartilhadas. De repente, tudo pareceu ganhar um significado diferente. Um significado terrível.

Sem esperar o restante da discussão, ele se afastou em silêncio. Quando chegou à casa, sentia-se traído. Traído por Gerson, traído pelo pai. E, talvez mais do que tudo, traído pela própria confiança.

Naquela noite, durante o jantar, um silêncio desconfortante pairou no ar. Ninguém dizia nada. Porque algumas tempestades começam no céu. Outras começam dentro das pessoas. E estas costumam durar muito mais e causar mais estragos.

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Comentários

Foto de perfil de Xandão Sá

Imaginava que ele iria pegar os dois transando, mas flagrar a conversa teve o mesmo efeito bombástico, ainda que desde o começo aguardado, os dois eram amantes…

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