O que Fazer com Alguém que Fica?

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2531 palavras
Data: 14/06/2026 21:39:17
Última revisão: 14/06/2026 21:51:45

Existe uma diferença brutal entre alguém que foge de você e alguém que permanece. Eu já tinha aprendido a sobreviver à ausência, o problema era a presença. Porque Leandro estava ficando e eu não sabia o que fazer com isso.

A mudança não aconteceu de uma vez, nenhum terremoto anuncia o instante exato em que a rachadura começa. Primeiro veio uma mensagem, depois outra. Depois uma pergunta qualquer sobre uma prova, depois uma foto idiota de um cachorro dormindo dentro de um pneu no galpão.

Depois um "vi isso e lembrei de você". E aquilo era ridículo, absolutamente ridículo. Porque eu era capaz de passar semanas analisando significados ocultos em frases de três palavras, enquanto Leandro parecia fazer tudo com a naturalidade de quem respirava.

Numa quinta-feira de chuva, ele apareceu na minha casa sem avisar. Eu estava estudando ou tentando. O livro estava aberto havia quarenta minutos na mesma página, meu cérebro em greve. O céu cinza, o cheiro de terra molhada entrando pela janela. A campainha tocou, quando abri o portão, encontrei Leandro segurando uma sacola de padaria.

— O que você está fazendo aqui?

— Trouxe pão de queijo.

— Isso não responde minha pergunta.

— Trouxe dois sacos de pão de queijo.

— Continua não respondendo.

Ele sorriu.

— Sua mãe falou que você tava estudando.

— E?

— Achei que você podia estar sofrendo.

— Então veio prestar assistência humanitária?

— Exatamente.

Nos sentamos na cozinha. A chuva batia nas telhas, o cheiro do café recém passado preenchia a casa. Por alguns minutos conversamos sobre coisas absolutamente inúteis. Futebol, filmes, o caminhão que havia atolado ontem, um cachorro que perseguia motocicletas no bairro. Nada importante e, ao mesmo tempo, tudo importante. Porque a intimidade nasce dessas conversas, não das grandes declarações, mas da repetição das pequenas presenças.

— Você pensa em ir embora todo dia, né?

A pergunta surgiu do nada ou quase. Olhei para ele.

— Como assim?

— Da cidade.

Fiquei em silêncio, Leandro mexeu na própria caneca.

— Você olha para esse lugar como quem já fez as malas.

Aquilo me pegou desprevenido, porque era verdade. Uma verdade tão óbvia que eu mesmo nunca tinha colocado em palavras.

— E você? — perguntei.

— O quê?

— Nunca quis sair daqui?

Leandro demorou para responder, pela primeira vez desde que o conhecia. Demorou de verdade.

— Querer eu já quis.

— E por que não foi?

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Porque querer e poder são esportes diferentes.

O comentário ficou pairando entre nós, pesado. Não como uma reclamação, mas como um fato. Pela primeira vez comecei a enxergar algo que antes não via. Eu sempre interpretava Leandro como alguém satisfeito com a própria vida. Alguém simples, direto, resolvido. Mas talvez aquilo fosse apenas minha arrogância, talvez eu tivesse confundido silêncio com ausência de ambição.

— Quando eu era moleque — ele disse — Queria jogar futebol.

— Você é bom.

— Eu sou ótimo.

— E modesto.

— Estou falando sério.

Sorri, ele não.

— Só que uma hora a vida vai chegando. Você precisa trabalhar, precisa ajudar em casa. Precisa pagar conta e quando vê... passou.

A chuva continuava caindo, constante, hipnótica. Foi estranho, porque aquela era a primeira vez que Leandro falava de sonhos perdidos. E sonhos perdidos são uma forma muito íntima de nudez, muito mais íntima do que qualquer contato físico.

— Eu achava que você não ligava para essas coisas.

— Quais coisas?

— Futuro.

Ele me encarou, divertido, quase ofendido.

— Mateus.

— O quê?

— Você acha que só porque eu não fico filosofando igual um personagem dos seus contos eu não penso?

Acabei rindo.

— Personagem dos meus contos?

— Sim.

— Você nunca leu um conto meu.

— Nem quero, parecem depressivos.

Ficamos sorrindo, mas algo tinha mudado, outra vez. Mais uma camada removida, mais uma defesa abandonada. Quando a chuva diminuiu, fomos para a varanda. A rua brilhava molhada, o bairro parecia suspenso num silêncio azul. Leandro apoiou os braços no muro, observando a cidade. A cidade que eu sonhava deixar, a cidade que ele nunca conseguiu abandonar.

— Às vezes eu tenho inveja de você.

Demorei alguns segundos para entender que ele estava falando sério.

— Inveja de quê?

— Você acredita que as coisas podem mudar.

— E você não acredita?

Leandro pensou, muito. Mais do que costumava.

— Acho que eu acredito nas pessoas, não nos lugares.

A resposta me desmontou, porque era exatamente o contrário de mim. Eu acreditava em possibilidades, ele acreditava em vínculos. Eu sonhava com horizontes, ele sonhava com permanências. Talvez aquele fosse nosso verdadeiro conflito. Não o desejo, não o segredo, não o medo, mas a direção. Eu estava sempre olhando para frente, Leandro estava sempre olhando para quem caminhava ao lado.

Quando ele foi embora naquela noite, fiquei observando o Golzinho desaparecer na esquina. O coração inquieto, confuso, desconfortavelmente feliz. E pela primeira vez surgiu uma pergunta que eu não queria responder, porque ela tinha o poder de destruir tudo.

Se eu realmente conseguisse ir embora... Leandro seria capaz de me acompanhar? Ou o mais doloroso ainda estava por vir? E se o problema fosse exatamente o contrário? E se, pela primeira vez na vida, eu encontrasse alguém que valia a pena levar comigo? E descobrisse tarde demais que algumas pessoas não cabem dentro dos nossos planos.

_________

Existe um momento em todo romance em que o perigo muda de forma. No começo, o perigo é o desejo. Depois, é a descoberta. Mais tarde, é a possibilidade de perder. Mas existe uma fase intermediária, uma fase traiçoeira. Silenciosa, quase invisível. Quando duas pessoas começam a construir hábitos uma ao redor da outra, e nenhum dos dois percebe o tamanho da armadilha.

Tudo começou com os cafés, ou talvez com as caronas. As coisas importantes raramente têm uma data exata. Eu só percebi quando minha mãe perguntou:

— O Leandro vem jantar hoje?

Como se fosse uma informação cotidiana, como se ele fosse parte da mobília, como se sempre tivesse estado ali.

— Não sei.

— Uai.

— O quê?

— Vocês vivem juntos.

Revirei os olhos. Minha mãe sorriu daquele jeito que mães sorriem quando sabem alguma coisa que você ainda não descobriu.

Em uma outra noite, Leandro apareceu em casa. Sem avisar, como sempre. Entrou pelo portão dos fundos, cumprimentou meus pais. Pegou um copo de água, sentou-se à mesa. Tudo com uma naturalidade irritante. Eu observava aquilo e tinha a estranha sensação de que ele se movia pela minha vida como alguém que já conhecia os caminhos.

— Sua mãe fez pão de queijo.

— Você veio por causa do pão de queijo?

— Em minha defesa, era um excelente motivo.

Meu pai gargalhou. Eu tentei não rir, falhei. Era isso, as pequenas coisas, as coisas que não aparecem nos grandes romances. Ninguém escreve poemas sobre dividir uma garrafa de refrigerante. Sobre disputar o controle remoto, sobre mandar uma mensagem só para reclamar do calor. Mas talvez fossem justamente essas coisas que estavam nos aproximando.

Algumas semanas depois, aconteceu algo ainda mais perigoso. Eu fiquei doente, nada grave. Uma gripe, febre, dor no corpo, nariz congestionado. O tipo de sofrimento que transforma qualquer ser humano em uma criatura profundamente dramática (a gripe masculina é, de fato, uma das doenças mais graves existentes).

Peguei um atestado e passei o dia inteiro deitado, reclamando da minha própria existência. Por volta das seis da tarde ouvi alguém bater no portão, achei que fosse um vizinho. Era Leandro, segurando uma sacola.

— O que é isso?

— Sua mãe falou que você tava morrendo.

— Estou.

— Dramático.

— É terminal.

Ele ignorou. Entrou, colocou a sacola na mesa. Remédios, suco, bolacha, chocolate.

— Você comprou tudo isso?

— Uhum.

— Por quê?

Leandro deu de ombros, como se fosse óbvio. Como se não tivesse importância, como se aquele gesto não estivesse bagunçando completamente minha cabeça.

— Porque você tá doente.

Fiquei olhando para ele, por tempo demais. Tempo suficiente para deixá-lo desconfortável.

— O quê?

— Nada.

— Tá me encarando.

— Estou observando.

— Para.

— Não.

— Estranho.

— Você trouxe remédio.

— E daí?

— Você é fofo.

— Cala a boca.

Ele ficou vermelho, literalmente vermelho. Foi uma descoberta maravilhosa, porque eu nunca tinha visto Leandro sem resposta.

Depois daquele dia comecei a notar outras coisas. Pequenas, ridículas, perigosas. Ele sempre lembrava quando eu tinha prova, perguntava como tinha ido. Sempre, sem exceção. Sabia quais músicas eu gostava, sabia meu pedido favorito na lanchonete. Sabia quando eu estava mentindo que estava tudo bem. E isso era particularmente irritante.

Numa sexta-feira à noite, estávamos sentados na arquibancada vazia de um campo de futebol. A cidade inteira parecia desacelerada, luzes amarelas, insetos girando em volta dos postes. O cheiro distante de terra úmida. Leandro chutava pequenas pedras para frente, eu observava.

— Posso te perguntar uma coisa? – perguntei.

— Depende.

— Você sempre responde isso.

— Porque funciona.

Suspirei.

— Você já percebeu que me procura?

Ele virou o rosto.

— Como assim?

— Assim.

— Você também me procura.

— Eu sei.

— Então pronto.

— Não é a mesma coisa.

— É exatamente a mesma coisa.

Sorri, porque ele parecia genuinamente confuso. Como alguém que não entendia o próprio comportamento. O silêncio caiu entre nós, mas não era um silêncio ruim. Era daqueles que só acontecem quando existe intimidade suficiente para ninguém precisar preencher os espaços.

— Minha mãe gosta de você.

A frase saiu antes que eu pudesse impedir, Leandro riu.

— Sua mãe gosta até do entregador de gás.

— Não. Ela gosta de você.

— Seu pai também.

— Meu pai gosta de quem conserta as coisas.

— Eu conserto coisas.

— Exatamente.

Ele sorriu, mas depois ficou quieto. Pensativo.

— Minha mãe gosta de você também.

Aquilo me pegou desprevenido.

— Sério?

— Uhum.

— Por quê?

— Ela acha que você vai ser importante.

Meu coração tropeçou. Uma vez, forte, desajeitado.

— Importante em quê?

— Sei lá. Ela só fala isso. Que você tem cara de quem vai longe.

Olhei para o campo vazio. Para as traves, para as luzes, para qualquer coisa que não fosse ele. Porque aquela frase tinha encontrado exatamente o lugar onde minhas inseguranças moravam. Quando finalmente reuni coragem para olhar de novo, encontrei Leandro me observando. Sem brincadeira, sem ironia, sem defesa. Apenas olhando.

E naquele instante compreendi uma coisa que me assustou mais do que qualquer desejo. Nós estávamos começando a cuidar um do outro. Sem combinar, sem admitir, sem sequer perceber. E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão perigoso.

Porque você pode sobreviver à paixão, pode sobreviver ao desejo, pode sobreviver até a um coração partido. Mas é muito mais difícil sobreviver a alguém que aprende a ser casa justamente quando você está se preparando para partir.

__________

Descobri que existem duas formas de admirar alguém. A primeira é simples, você olha para a pessoa e deseja ser notado por ela. A segunda é mais perigosa, você começa a admirar coisas que jamais tinha considerado importantes. Foi assim que acabei fascinado pela maneira como Leandro apertava um parafuso, por exemplo. Parece ridículo, talvez seja, mas era verdade.

O calor daquela tarde era quase ofensivo. O galpão parecia um forno industrial, o metal dos caminhões devolvia o sol em ondas tremeluzentes, o cheiro de óleo queimado e borracha aquecida pairava no ar. Eu estava sentado numa bancada tentando organizar umas planilhas quando ouvi a voz dele.

— Vem cá.

Levantei os olhos.

— Tenho medo quando você fala isso.

— Você tem medo de tudo.

— Verdade.

— Então vem.

Encontrei Leandro ao lado de um caminhão. Manga da camisa do uniforme dobrada até os cotovelos, as mãos manchadas de graxa, suor escorrendo pela têmpora. Parecia perfeitamente integrado àquele universo de concreto, ferrugem e barulho. Eu parecia um visitante alienígena.

— Segura isso.

— O quê?

— Isso.

— Excelente explicação.

— Mateus.

— O quê?

— Segura.

Obedeci, naturalmente sem entender nada, como acontecia com frequência. Durante os vinte minutos seguintes ele tentou me ensinar algo relacionado à manutenção de uma peça metálica cujo nome esqueci antes mesmo de ouvi-lo.

— Você não tá prestando atenção.

— Estou sim.

— Então repete o que eu falei.

— Não.

— Por quê?

— Porque eu valorizo a nossa amizade.

Leandro soltou uma gargalhada. Daquelas sinceras, sem defesa, sem ironia.

— Você é inútil.

— Em minha defesa, eu nunca aleguei o contrário.

— Como você pretende sobreviver sozinho quando for embora?

— Dramaticamente.

— Isso não é um plano.

— É um estilo de vida.

A risada dele ecoou pelo galpão vazio. E aquele som fez alguma coisa estranha dentro de mim, porque não era desejo. Ou pelo menos não era só desejo, era outra coisa. Uma felicidade doméstica, pequena, perigosa.

No fim da tarde, após o expediente, fomos comprar lanche em uma padaria perto da rodoviária. Mesas de plástico, ventilador girando preguiçosamente, cheiro de café. Leandro pediu o de sempre, eu pedi algo completamente diferente. Naturalmente ele criticou minha escolha.

— Quem coloca salada num sanduíche?

— Pessoas saudáveis.

— Pessoas tristes.

— Você tem uma relação complicada com vegetais.

— Eles quem começaram.

Ficamos quase uma hora ali, falando de nada, falando de tudo, olhando os ônibus chegarem e partirem. Aquela movimentação constante de gente indo embora me deixava inquieto, sempre deixava, Leandro percebeu, como ultimamente parecia perceber tudo.

— Você gosta disso, né?

— Disso o quê?

Ele apontou para a rodoviária.

— Gente partindo.

Olhei pela janela. Uma criança corria atrás da mãe carregando uma mochila maior que ela. Um casal se despedia perto da plataforma. Um motorista fumava sozinho.

— Acho que gosto da ideia.

— De ir embora?

— De poder ir.

Leandro ficou em silêncio, um silêncio pensativo. Não magoado, não irritado. Apenas pensativo.

— Eu nunca entendi isso.

— O quê?

— Você fala de futuro como se ele fosse um lugar.

A frase ficou comigo, porque, de certa forma, era exatamente isso. O futuro para mim sempre foi geográfico. Uma cidade, uma universidade, uma vida diferente. Quando saímos da padaria já estava escurecendo. O céu tinha aquele tom azul-profundo que antecede a noite, a cidade parecia mais bonita nesses horários. Menor, mais humana.

No caminho de volta encontramos o carro de Leandro estacionado atrás do galpão. Ele abriu a porta, jogou as chaves no painel. Se sentou no banco do motorista, eu me sentei ao lado. Nenhum de nós tinha vontade de voltar imediatamente.

— Só cinco minutos.

— Claro.

— O quê?

— Nada.

— Você tá rindo.

— Porque cinco minutos seus nunca duram cinco minutos.

Aconteceu então uma das cenas mais simples da minha vida e uma das que mais me marcaram. Leandro recostou o banco, fechou os olhos, e adormeceu. Assim, simplesmente. Como alguém exausto, como alguém que confiava o suficiente para descansar. O rádio desligado, o carro parado. A luz dourada dos postes entrando pelo para-brisa, o movimento distante da cidade.

Fiquei observando, a respiração lenta. Os braços pesados e musculosos, a barba começando a aparecer no rosto. As marcas de cansaço que ele escondia durante o dia já deixando marcas físicas naquele rosto ainda tão jovem.

Foi nesse instante que entendi uma coisa. Eu conhecia o Leandro engraçado, o provocador, o trabalhador, o desejável. Mas aquele homem-menino adormecido ao meu lado era alguém que quase ninguém via. E o fato de eu estar vendo me assustou, porque intimidade não nasce quando alguém mostra seus segredos. Intimidade nasce quando alguém abaixa a guarda.

Meu celular vibrou, uma mensagem. Abri, era um e-mail. Minha inscrição para o vestibular. Meu coração disparou, instantaneamente. Olhei para a tela, depois para Leandro dormindo ao meu lado. Depois para a tela outra vez, a mensagem continuava ali. Esperando, silenciosa, capaz de mudar tudo. Bastava abrir e, pela primeira vez desde que comecei a sonhar em sair daquela cidade, não tive certeza se queria descobrir a resposta.

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Comentários

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Caramba, e eu que achava o Leandro um cafajeste, agora estou me identificando com ele!? E Mateus, sabendo de tudo isso desde antes daquele capô do gol, ainda assim tem dúvidas de que Leandro o ama? Ou será que é Mateus que tem medo de amar?

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