Retornei ao complexo pouco depois do amanhecer, não tive tempo para fazer muita coisa antes que um soldado aparecesse dizendo que Elana queria me ver.
Alguns minutos depois, caminhei pelos corredores em direção ao escritório, os guardas abriram a porta. Entrei, Elana estava sentada atrás da mesa, Maxim estava ali, ela mantinha a mesma postura impecável de sempre. As mãos de Elana repousavam sobre alguns documentos. Ela ergueu os olhos quando me aproximei.
— Fiquei sabendo do ocorrido com Natasha.
Ocorrido? Mas não aconteceu nada de mais, pelo menos nada que ela devesse saber...
Meu olhar foi imediatamente para Maxim, ela continuou olhando para frente, perfeitamente imóvel, mas havia algo diferente, um leve sorriso.
Entendi imediatamente, provavelmente ela havia contado para Elana sobre eu ter passado parte da noite com Natasha.
— Dormir com clientes é expressamente proibido pela organização — continuou Elana.
Mantive o olhar sobre Maxim, ela não demonstrou qualquer arrependimento, desconforto ou vergonha.
— Houve quebra de protocolo — Elana continuou, me observou durante alguns segundos. — Ainda assim, não haverá punição, considere-se advertido, Sangue.
O pequeno sorriso de Maxim desapareceu.
— Com licença.
— O quê? — Elana ergueu uma sobrancelha.
— Gostaria de entender a decisão.
— Entender?
— Sim — Maxim manteve a voz firme. — Houve quebra de protocolo, então logicamente deveria haver punição, por que ele recebe tratamento especial?
Aquilo foi mais direto do que eu esperava, vi algo mudar na expressão de Elana. Não era raiva, ainda não, mas era algo bem próximo.
— Maxim — a voz de Elana saiu calma. — Questione minhas decisões novamente e eu mesma vou arrancar sua língua.
— Sim, senhora — Maxim pareceu sentir o peso da ameaça, abaixou a cabeça.
Elana recostou-se na cadeira, como se nada tivesse acontecido.
— Ótimo, continuem o trabalho com Natasha — Elana apontou para mim. — E nada de dormir com ela de novo, por mais que ela tenha me ligado hoje cedo e elogiado seu trabalho. Seja mais firme, não caia em tentações.
Assenti, Elana girou a cadeira e pegou outra pasta.
— Agora saiam da minha sala, descansem e voltem para Natasha ao cair da noite.
Eu e Maxim saímos após a reverência, a porta se fechou atrás de nós. Caminhamos pelo corredor sem trocar uma única palavra, nos separamos, fui para o meu quarto e descansei o máximo que pude. As lembranças da noite anterior ainda pareciam meio vagas, mas o cheiro da Natasha parecia impregnar no meu corpo. A noite caiu, encontrei Maxim aguardando no elevador, parei ao seu lado sem trocar uma palavra, descemos até a garagem, entramos no carro. Maxim assumiu o volante, ocupei o banco do passageiro, esperei até que ela ligasse o motor.
— Contou para a Elana? — quebrei o silêncio.
— Sim.
— Por quê?
— Porque você quebrou as regras.
— Podia ter ignorado.
— Não.
— Poderia.
— Não, regras existem para serem seguidas.
— Mesmo quando não fazem diferença?
— Principalmente quando não fazem diferença.
— Então você me denunciou só por isso?
— Sim.
— Mesmo sabendo que não mudaria nada?
— Sim.
O carro saiu da garagem.
— Não importa quem seja, não importa o motivo — a voz dela permanecia fria, controlada e rígida. — Se alguém quebra as regras, deve ser punido.
— Mesmo que seja eu?
— Principalmente, você acha que elas não se aplicam a você.
— Eu nunca disse isso.
— Não precisa dizer, você é o cachorrinho favorito de Elana e não adianta negar. Se dependesse de mim, você teria recebido uma punição severa.
— Por dormir com uma cliente? — tentei esconder o desconforto, porque todos insistiam em me chamar de cachorro?
— Por quebrar uma regra.
— Você realmente acredita nisso?
— Sim.
— Mesmo depois do que aconteceu na sala?
— Sim.
— Mesmo sabendo que Elana discordou de você?
— Sim.
— Você é completamente maluca.
— E você é completamente indisciplinado.
Pouco tempo depois, chegamos ao edifício de Natasha. Maxim permaneceu no carro enquanto eu seguia para a entrada para anunciar a chegada. Natasha apareceu poucos minutos depois, acompanhada por dois de seus seguranças particulares.
— Achei que meu cachorrinho favorito viria me buscar mais cedo.
Ignorei o comentário, sentia uma pequena brasa de raiva queimar dentro de mim ao ser chamado de cachorro daquela maneira, começava a me incomodar.
— Estamos indo — rebati, sério.
— Você é sempre tão romântico — Natasha me acompanhou.
Permaneci sério, tentando ignorar a ira crescente dentro de mim e a luxúria que aquela mulher exalava. Natasha sorriu, começamos a caminhar em direção ao carro.
Foi quando percebi, foi tudo muito rápido, mas posso contar com detalhes. Notei algo anormal, um homem encapuzado vinha se aproximando, rápido, porém discreto, os passos mal faziam barulho, mas conseguia ouvir a respiração pesada mesmo um pouco longe. O homem encapuzado surgindo entre os veículos estacionados, notei a arma por baixo dos bolsos da blusa, meu corpo reagiu antes mesmo de pensar. Corri em sua direção, o homem tentou sacar a arma, mas eu o atingi primeiro, no braço, desarmando-o, o segundo golpe o derrubou, o terceiro deslocou a mandíbula, deixando ele inconsciente.
Tudo aconteceu em poucos segundos, quando o homem parou de se mover, Natasha se aproximou, seu sorriso desapareceu. Ela observou o rosto do agressor por alguns instantes.
— Já vi esse homem antes, acho que é o meu stalker.
O alívio em sua voz era evidente, Maxim saiu do carro logo em seguida, avaliou a situação e iniciou os procedimentos da organização. Os seguranças particulares dela imobilizaram o homem, Maxim sacou o telefone e começou a ligar para Elana, relatando tudo o que houve.
A missão estava oficialmente encerrada, Natasha poderia voltar a depender exclusivamente de seus próprios seguranças.
— O trabalho terminou — Maxim guardou o telefone.
— Foi divertido enquanto durou — Natasha sorriu para mim. — Até mais, cachorrinho.
Aquela brasa queimou mais forte. Cachorrinho, porque insistia em me chamar assim?
Poucos minutos depois, Natasha entrou no prédio e desapareceu. Maxim observou a entrada por alguns segundos antes de voltar para o carro.
— A missão acabou — disse ela. — Elana nos liberou o restante da noite.
Entrei no veículo, o silêncio permaneceu durante alguns minutos. Maxim dirigia sem pressa, algo raro para ela. Normalmente parecia estar sempre correndo atrás de alguma obrigação invisível.
— O que vai fazer agora? — ela perguntou.
— Nada.
— Quer beber alguma coisa?
— Não quero.
— Para de ser chato, considere uma tentativa de compensação — Maxim soltou um pequeno suspiro.
— Por ter contado sobre Natasha?
Ela assentiu, fiquei alguns segundos observando seu perfil.
— Não precisa.
— Eu sei.
— Então por que está oferecendo?
— Porque, apesar do que você pensa, eu não faço tudo porque gosto, eu não gosto muito de você e sei que você não gosta muito de mim — ela sorriu, um sorriso pequeno. — Mas somos parceiros, querendo ou não.
— Eu não vejo motivo para aceitar, mas ok, vamos.
— Ótimo — ela respondeu, um sorriso mais largo.
Aquilo não fez sentido algum, mas, de alguma forma, aceitei. Pouco tempo depois estacionamos diante de um bar discreto, longe das regiões mais movimentadas da cidade. O local era silencioso, frequentado por poucas pessoas. Escolhemos uma mesa afastada dos demais clientes, ou melhor, Maxim escolheu.
Eu apenas sentei, a primeira bebida chegou, a segunda, terceira, quarta. Percebi rapidamente que ela estava bebendo muito mais do que eu. No início ela mantinha a postura reta, movimentos controlados, tom educado, mas aquilo começou a desaparecer aos poucos, o restante da bebida levou embora parte da formalidade.
— Você sabe o que é irritante? — ela perguntou.
— Não.
— Você — ela tomou mais um gole. — Todo mundo te adora mesmo você não fazendo nada.
— Isso não é verdade.
— É sim.
Balancei a cabeça, Maxim riu, não foi uma risada agradável, foi amarga.
— Está vendo? Isso também é irritante.
— O quê?
— Você nem percebe o que acontece ao seu redor — ela apoiou um braço sobre a mesa, os olhos estavam mais pesados agora. — Eu passei a vida inteira tentando ser perfeita, decorei cada regra, cada protocolo, dei meu sangue para cada treinamento.
Ela apontou para si mesma.
— Eu nunca falhei, mas você — ela apontou para mim. — Você quebra regras, ignora protocolos, sempre faz o que quer e mesmo assim...
Ela riu novamente.
— Mesmo assim continua sendo o favorito.
A palavra ficou suspensa entre nós. Favorito.
— Elana confia em você de um jeito que não confia em mais ninguém — aquilo me fez desviar o olhar.
— Ela confia em você também — respondi.
— Não, ela respeita minha competência — ela fez uma pausa. — Com você é diferente.
Mais bebida, mais silêncio.
— Eu queria ser como você — ela se debruçou na mesa. — Queria o que você tem.
A voz pareceu cansada, realmente cansada.
— Queria ter o seu talento, a sua reputação, a confiança, a liberdade.
Liberdade?
Lembrei da Rocky.
Eu era livre como ela?
Porque não me sentia assim?
— Você faz coisas que fariam qualquer outro agente desaparecer — ela olhou diretamente para mim. — E nada acontece.
Não consegui responder, porque, em parte, ela estava certa.
— Enquanto isso... — ela soltou uma risada vazia. — Eu preciso ser perfeita, preciso seguir as regras, preciso provar meu valor todos os dias mesmo sabendo que eu nunca vou ter o que você tem.
A mão apertou o copo vazio.
— Sabe qual é a pior parte?
Balancei a cabeça. Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Elana — o olhar foi para baixo. — Eu queria aquele olhar em mim, queria ser a escolhida dela, queria ser a pessoa para quem ela liga primeiro, aquela em quem ela acredita sem precisar de provas.
A amargura desapareceu, restou apenas tristeza.
— Queria ser a favorita dela — ela ficou em silêncio, encarou o fundo do copo, então soltou uma risada fraca, derrotada. — Que merda, no final das contas...
Ela passou a mão pelos olhos e respirou fundo.
— Eu só queria a Elana por uma noite.
Ela desabou na mesa, tentei checar, apagou completamente. Pedi uma água, tentei fazer Maxim tomar, mas sem muito sucesso. No final, a peguei no colo e voltei até o carro. Quando chegamos ao lado do carro, ela acordou, estranhou quando percebeu que estava carregando ela e tentou se desvencilhar, parou ao lado da porta e permaneceu imóvel por alguns segundos.
— Não conta para ninguém — disse.
— Contar o quê?
— Tudo — ela permaneceu séria. — Que eu sou uma invejosa e frustrada.
— Ninguém vai saber, quem tem fama de dedurar as pessoas aqui é você — respondi, balançando a cabeça.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se acreditava em mim ou não, abri a porta do carro e ela entrou, entrei logo em seguida.
— Você realmente não entende, não é?
— Entender o quê?
— Como é fácil te odiar.
Olhei para ela.
— Eu não quero te odiar — a voz dela saiu mais baixa. — Mas às vezes quero, você tem tudo que eu queria ter.
Ela suspirou e se afundou no banco. Por um momento, achei que ela continuaria falando, mas não continuou, apenas permaneceu ali, cansada, vulnerável. Provavelmente mais vulnerável do que jamais permitiria que qualquer outra pessoa a visse.
De repente, um gemido baixo partiu dos lábios dela e, com um movimento tão rápido que me apanhou de surpresa, ela endireitou-se. O banco rangeu com o peso do corpo dela a se virou para mim. Antes que pudesse reagir, a sua mão se agarrou ao colarinho da minha camisa, me puxando para a frente com uma força que não sabia que ela possuía. O rosto dela estava a poucos centímetros do meu, os olhos vidrados, hostis demais para ignorar.
— Você se acha melhor que todo mundo, não é? — a voz dela saiu arrastada, um sussurro áspero de desprezo.
Não esperei uma resposta. Com outro movimento brusco, ela ergueu-se, ajoelhando-se no assento, e montou no meu colo. O peso dela foi um choque contra o meu, as mãos trêmulas começaram a desabotoar a própria camisa, sem a menor delicadeza, alguns botões caíram com tanto desespero, quando o último botão cedeu, ela agarrou a minha nuca e empurrou o meu rosto contra seus peitos. Senti o calor da pele dela, o batimento rápido do coração.
— Se acha melhor do que eu, não é? — ela repetiu, a voz agora um murmúrio contra o meu cabelo.
A razão, já enfraquecida pelas bebidas anteriores, tornou-se completamente impotente naquela situação. O cheiro dela inundando os meus sentidos e a agressividade nos movimentos despertavam algo primal em mim, qualquer autocontrole, tanto meu quanto dela, evaporou. As minhas mãos, que estavam passivas ao meu lado, subiram. Uma agarrou a bunda dela, sentindo a firmeza do treinamento intenso dela, a outra apertou um dos seios, o mamilo endurecendo sob a palma da minha mão. Inclinei a cabeça e encontrei a boca dela, o beijo foi selvagem, dentes e línguas, tão desleixado digno de dois bêbados se pegando no carro. Senti o gosto forte do álcool, a acidez da sua saliva.
Ela recuou um pouco, ofegante, com dificuldade, abaixou a própria calça, suas mãos desceram até à minha calça. Os dedos dela lutaram com o cinto, depois com o zíper. Com um puxão final, ela conseguiu baixar a calça, o suficiente para pousar na entrada da sua buceta, como se houvesse um magnetismo invisível que nos favorecia naquele momento.
Entrei nela de uma só vez, sem nenhuma resistência, apenas o calor devorador. Foi como se uma cachoeira jorrasse de dentro dela, uma onda de lubrificação que melou todo o meu pau numa fração de segundo. Maxim começou a se mover, a cavalgar com uma fúria incessante. Os seus quadris balançavam para cima e para baixo, o ritmo rápido e descontrolado. Ela se inclinou para o meu ouvido, o corpo começou a suar, os vidros embaçando, ela murmurava sem parar palavras que eu nem me esforcei para entender.
De repente, parou. O seu corpo ficou tenso por um segundo. Então, com um movimento brusco, abriu a porta do carro. O ar frio da noite invadiu o espaço, ela saiu, tropeçando um pouco, e puxou-me pela mão. Saí do carro, a calça ainda presa nas pernas. Sem soltar a minha mão, ela se virou e encostou no carro. Eu agarrei-a pelos ombros e a forcei a se curvar sobre o capô frio. O metal rangeu sob o peso dela. A sua bunda ficou perfeitamente empinada. Guiei o meu pau, ainda molhado, de volta à entrada da buceta dela e mergulhei fundo.
O carro começou a balançar com a força dos meus movimentos. As molas dos amortecedores rangeram a cada estocada. O som dos nossos corpos se chocando era alto, brutal, ecoando no silêncio da rua vazia. Maxim gemia, agora sons mais altos, menos contidos. Depois de alguns minutos, ela virou-se debaixo de mim, se deitando de costas no capô, as pernas abertas. Eu não dei tempo para descanso, agarrei as pernas e afundei meu pau até as bolas naquela buceta molhada e fervente, olhando para o seu rosto contorcido de prazer. Os seios dela balançavam com cada metida.
Senti a buceta dela me apertando, as contrações começaram leves, depois se intensificando, ela gemeu alto, arqueou as costas, as unhas arranharam o metal do carro tentando pegar alguma coisa para apertar.
Eu também estava no limite, continuar metendo naquela buceta molhada mantendo a mesma velocidade, estava se tornando um desafio. Num último movimento, tirei o meu pau de dentro dela. O primeiro jato de porra atingiu a entrada da buceta dela, continuei gozando, cobri os lábios, o clitóris, a porra escorreu, um fio branco que desceu pela fenda do cuzinho dela e manchou o capô do carro, uma marca suja da nossa noite.
Ela se levantou subitamente, como se tomasse consciência do que havia feito, ela ajustou a roupa, o cabelo bagunçado e entrou no carro no lado do motorista. Fiquei um tempo ali, me vesti também e entrei no carro.
Depois de algum tempo em silêncio, Maxim fechou os olhos e respirou profundamente, quando voltou a abri-los, algo havia mudado. A armadura estava retornando, pouco a pouco, os ombros se endireitaram, a expressão recuperou o controle habitual e a voz voltou a ficar firme.
Como se nada tivesse acontecido, ela ligou o carro. Nenhum dos dois falou durante o trajeto de volta. As luzes da cidade passavam pela janela, Maxim mantinha os olhos na estrada.
Quando finalmente cheguei ao meu quarto, tudo já estava silencioso demais. Fechei a porta atrás de mim e permaneci alguns segundos parado, observando o ambiente vazio. A conversa com Maxim continuava ocupando espaço na minha cabeça. Era estranho vê-la daquela forma, estranho perceber que, por trás da postura perfeita, existia alguém carregando tantos ressentimentos.
Soltei um suspiro e me sentei na beirada da cama, foi então que o telefone vibrou. Pouquíssimas pessoas possuíam aquele número, olhei para a tela, desconhecido.
— Alô.
Do outro lado, ouvi uma risada familiar, meu coração apertou imediatamente.
— Nossa, que alô mais triste.
— Rocky?
— Acertou de primeira.
Apesar do tom brincalhão, senti um alívio inesperado ao ouvir sua voz.
— Como conseguiu esse número?
— Tenho meus talentos, você sabe.
Ouvi outra risada, a mesma risada de sempre, leve, livre, como se nada no mundo pudesse prendê-la.
— Liguei para agradecer.
— Agradecer?
— Pelo aviso, aquele esconderijo ficou comprometido logo depois que você saiu — ela continuou. — Se eu tivesse permanecido lá por mais algumas horas, provavelmente teria problemas.
— Eu imaginei.
— Então obrigada.
O silêncio retornou, nenhum dos dois parecia com pressa de desligar.
— Você está bem? — perguntei.
— Estou.
— Tem certeza?
— Tenho, e você?
Demorei para responder.
— Estou vivo.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Sorri sem perceber, Rocky sempre fazia aquilo, sempre encontrava perguntas que eu não sabia responder.
— Eu me preocupo com você — ela continuou.
Não respondi, senti o peito apertar, uma vontade de sentir o toque dela, querer ficar ao lado dela sem preocupações. Apertei o telefone com mais força.
— Você também precisa se cuidar — respondi.
Rocky ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu me cuido — ela continuou.
— Não o suficiente.
— Olha quem está falando.
— Estou falando sério.
— Eu também.
A voz dela suavizou.
— Sangue idiota, não quero acordar um dia e descobrir que você morreu por causa de uma ordem boba.
Meu coração apertou ainda mais.
— Não quero imaginar você enterrado em algum lugar qualquer...
Fechei os olhos, imediatamente, aquela lembrança retornou, Rocky pedindo para eu acompanhá-la como um desertor enquanto ela estava sentada sobre uma mureta destruída, balançando as pernas, observando o horizonte. Ela fez um longo discurso para tentar me convencer, um longo discurso sobre um lugar longe da organização, longe de tudo, longe da morte, longe da Elana, longe de coleiras. Ela queria viver junto comigo, ela queria ir embora comigo. Eu lembro que por um instante eu quis dizer sim, quis abandonar tudo, quis seguir Rocky não importa para onde.
Mas eu não consegui, sempre que pensava em ir embora, algo me puxava de volta. Elana, ordens, lealdade, a dívida que eu sentia ter com ela. Era como uma coleira invisível apertando meu pescoço. Quanto mais eu tentava me afastar, mais ela apertava.
— Sangue?
A voz de Rocky me trouxe de volta.
— Estou aqui.
— Você ficou quieto de novo.
— Estava pensando.
— Isso é perigoso.
— Por quê?
— Você sempre pensa nas coisas erradas.
— Talvez.
— Você está bem mesmo? — a voz dela ficou baixa. — Posso confiar em você?
Por um momento, senti uma fraqueza no corpo, meus olhos se encheram de lágrimas, queria o abraço dela.
— Sim, estou bem, pode confiar em mim — disse rindo.
Ela também riu, por alguns segundos, tudo pareceu mais leve, como costumava ser quando ela estava por perto. Conversamos noite adentro, até eu pegar no sono.
