Rafael não respondeu à mensagem.
Isso incomodou André mais do que deveria.
Durante a semana, ele abriu a conversa algumas vezes como quem verifica previsão do tempo. A última frase continuava ali, parada, indecente pela ausência de resposta.
Promessa?
Visualizada.
Nada depois.
André tentou se convencer de que aquilo era melhor. Homem adulto não devia ficar esperando resposta de outro homem depois de uma pelada. Homem adulto tinha trabalho, boleto, mercado para fazer, roupa acumulando no cesto, uma separação recente ainda deixando objetos fantasmas pela casa.
Mas era mentira.
Na quarta-feira, enquanto almoçava sozinho num restaurante por quilo perto do escritório, pensou em Rafael segurando a bola depois do pênalti. Na quinta, dentro do metrô lotado, lembrou do peso dele na queda, do cheiro quente da pele depois do choque, da pergunta seca no privado: teu joelho está bem?
Na sexta, chegou a digitar:
Você sempre deixa as pessoas no vácuo ou é tratamento especial?
Apagou.
Digitou:
Sábado confirmado?
Apagou também.
No fim, não mandou nada.
Caio mandou por ele.
No grupo, às 22h13 de sexta:
Amanhã 10h contra os metidos da quadra de baixo. Quem atrasar paga cerveja. Quem pipocar vira gandula.
@André substituto, leva esse joelho inteiro porque o Rafael prometeu machucar de novo.
André encarou a tela.
Marcelo respondeu primeiro:
Que papo é esse?
Caio:
Papo esportivo.
Um dos caras:
Caio não consegue falar uma frase normal.
Caio:
Normal é coisa de quem não faz gol.
Então, alguns minutos depois, Rafael apareceu.
Amanhã a gente joga. Só isso.
André leu a frase três vezes.
Só isso.
Era exatamente o tipo de coisa que um homem diria quando não era só isso.
Caio respondeu com uma figurinha de um cachorro olhando desconfiado.
André não escreveu nada.
Naquela noite, separou a roupa com uma calma falsa. Chuteira nova, meia grossa, bermuda preta, camiseta cinza escura. Quando percebeu que tinha escolhido cinza, como a camisa de Rafael no primeiro sábado, quase trocou. Não trocou.
Dormiu mal de novo.
Acordou antes do despertador.
Dessa vez, não chegou cedo demais. Ficou sentado no carro de aplicativo por dois minutos depois que ele parou na porta da quadra, fingindo responder uma mensagem. Na verdade, respirava. Tentava colocar o corpo no lugar antes de entrar naquele ambiente que parecia saber desmontá-lo.
Ao abrir a porta, o cheiro veio como saudação.
A quadra já estava cheia.
Mais cheia do que nos outros sábados.
O jogo contra o pessoal da quadra de baixo tinha trazido plateia: alguns amigos encostados na grade, dois caras que pareciam técnicos sem equipe, uma mulher com uma criança pequena vendo alguém jogar, e o dono da quadra circulando com uma prancheta suja de café. Havia uniformes dessa vez. Não exatamente uniformes profissionais, mas camisetas iguais, de cores diferentes, com nomes nas costas e números desbotados.
Marcelo veio até André imediatamente.
— Hoje é sério.
André olhou para ele.
— Você está usando braçadeira de capitão?
— Liderança exige símbolos.
— Você comprou isso onde?
— Shopee.
— Faz sentido.
Marcelo ignorou.
— Você começa no banco.
— Ótimo.
— Não por ruim.
— Claro.
— Por estratégia.
— Estratégia de preservar o time?
— Estratégia de preservar você.
André riu e olhou para a quadra.
Rafael estava no gol.
Dessa vez, de camisa preta.
O impacto foi diferente.
No primeiro sábado, André o tinha descoberto. No segundo, tinha confirmado. Agora, já havia espera. E a espera tornava tudo mais perigoso. Rafael, de preto, parecia ainda mais sólido. A camisa grudava nas costas largas; as luvas claras contrastavam com os braços. Ele se alongava encostado na trave, uma perna esticada, a outra flexionada, o corpo curvado para frente com uma concentração quieta.
André tentou não olhar muito.
Caio surgiu ao lado dele como se tivesse brotado do calor.
— Bonito, né?
André nem se virou.
— O quê?
— O dia. O clima. A natureza. O goleiro.
— Você é muito previsível.
— E você é muito ruim fingindo.
Caio usava a camiseta vermelha do time, número 7 nas costas. O tecido estava seco ainda, mas já parecia feito para durar pouco. Ele tinha uma energia elétrica antes do jogo, os olhos mais vivos, os gestos mais rápidos.
— Você joga hoje? — André perguntou.
— Sempre.
— Modesto.
— Necessário. Tem gente aqui que só sabe defender.
Caio olhou para Rafael ao dizer isso.
Rafael não olhou de volta.
Caio apertou os lábios, como se aquela indiferença o irritasse mais que uma discussão.
— Ele te respondeu no privado? — Caio perguntou.
André sentiu o corpo denunciar antes da boca.
— Você é doente.
— Isso é sim.
— Como você sabe que ele mandou mensagem?
Caio sorriu.
— Rafael é repetitivo. Quando finge que não liga, pergunta de joelho, tornozelo, caminho de volta, se chegou bem. O cuidado dele vem vestido de manutenção predial.
A informação mexeu com André.
— Você fala como se conhecesse muito os hábitos dele.
— Conheço.
— E isso deveria me assustar?
Caio olhou para ele, agora sem deboche por um segundo.
— Deveria te deixar atento.
Antes que André respondesse, Marcelo gritou:
— Caio! Para de seduzir meu irmão e vai aquecer!
Marcelo riu da própria piada.
André não.
Caio abriu os braços.
— Ele que chegou seduzível.
— Vai jogar — André disse.
Caio se aproximou só o bastante para a voz baixar.
— Fico melhor depois que percebo que tem alguém olhando.
E correu para a quadra.
André ficou na lateral, sentado no banco, vendo o jogo começar.
O time adversário era melhor do que ele esperava. Mais organizado, mais físico, menos dado à resenha. Eles se comunicavam com frases curtas, pressionavam a saída de bola, chutavam de longe. Marcelo, que antes parecia comandante de churrasco, ficou sério. Caio corria como se tivesse raiva do chão. Rafael quase não falava, mas sua presença comandava tudo.
A primeira grande defesa veio aos sete minutos.
Um adversário recebeu livre na entrada da área e chutou forte, alto, seco. André mal viu a bola. Rafael viu. Saltou para o lado com o corpo inteiro, braço esticado, mão firme. A bola bateu na luva e desviou para fora. Ele caiu de lado, pesado, a coxa raspando na grama sintética.
Todos gritaram.
Rafael levantou sem comemorar.
Só bateu as luvas uma na outra.
O som estalou na quadra.
André sentiu no peito.
Havia algo obsceno na forma como Rafael defendia. Não por exposição. Pelo contrário. Era a economia que excitava. O corpo dele não desperdiçava gesto. Cada movimento parecia necessário, exato, denso. Ele não corria bonito como Caio. Não dançava. Não se oferecia ao olhar. Mas quando se lançava, quando caía, quando levantava com o rosto fechado e a camisa colada no tronco, parecia que o mundo tinha recebido uma prova física de sua força.
André cruzou as pernas no banco.
Caio fez o primeiro gol dez minutos depois.
Recebeu na ponta, cortou para dentro, deixou um marcador escorregar e chutou cruzado. A bola entrou no canto. Ele saiu correndo, abriu os braços e passou na frente de Rafael.
— Viu?
Rafael respondeu:
— Até relógio parado acerta.
Caio sorriu largo.
— Mas você viu.
Rafael não respondeu.
André viu o maxilar dele endurecer.
Aos poucos, entendeu: Caio jogava para o gol, mas também jogava para Rafael. Cada arrancada, cada toque de calcanhar, cada provocação tinha endereço. O problema é que, naquele sábado, Caio também jogava para André. E sabia disso.
Depois de quinze minutos, Marcelo chamou:
— André! Entra no lugar do Rodrigo!
Rodrigo saiu mancando e fazendo drama. André entrou tentando parecer menos nervoso do que estava.
O calor dentro da quadra era outro. Fora, ele observava. Dentro, era engolido. A respiração dos outros, o cheiro da grama quente, as vozes batendo nas paredes, a bola vindo rápida demais. O corpo precisava decidir antes da inteligência. André gostava menos disso e mais disso do que queria admitir.
Rafael gritou do gol:
— André, fecha o meio!
A voz atravessou André como uma mão nas costas.
Ele fechou.
Roubou uma bola.
Marcelo comemorou.
— Boa!
Caio veio buscar jogo perto dele.
— Tá obediente hoje.
— Alguém precisa compensar sua carência.
Caio riu, mas tentou passar por ele com um corte seco. André acertou o bote e tirou a bola.
Dessa vez, Caio não caiu. Ficou perto demais, corpo freando em cima do dele.
— Olha só.
— O quê?
— Você aprende quando quer impressionar.
— Estou tentando ganhar.
— Claro.
Caio encostou o ombro no dele, como se fosse apenas disputa de espaço.
André sentiu a pele sob a camiseta reagir.
Caio percebeu.
— Cuidado — ele disse baixo. — Aqui dá para ver menos, mas dá para sentir mais.
André empurrou-o com o corpo.
— Joga.
— Manda de novo.
Do gol, Rafael gritou:
— Caio!
A voz veio dura.
Caio se afastou sorrindo.
O jogo endureceu depois disso. Um adversário deu uma entrada em Marcelo, Marcelo levantou xingando até a terceira geração do sujeito, alguém separou, a bola voltou. André começou a suar de verdade. A camiseta cinza escura colou no peito, nas costas, na linha da barriga. Ele sentia o tecido pesando, o elástico da bermuda úmido, a meia apertada. Havia uma animalidade naquele cansaço que parecia limpar a cabeça e sujar o corpo ao mesmo tempo.
Aos vinte e oito minutos, André cometeu um erro.
Recebeu uma bola simples, tentou dominar com o pé direito e deixou escapar. O atacante adversário roubou e saiu sozinho na cara de Rafael.
Tudo aconteceu rápido.
Rafael avançou.
O atacante chutou rasteiro.
Rafael abriu o corpo, caiu, defendeu com a perna.
A bola voltou para o meio.
Outro adversário chegou para completar.
André, desesperado, entrou de carrinho.
Não sabia que ainda era capaz de dar um carrinho. Talvez não fosse. Fez de qualquer jeito. Tirou a bola, mas levou junto a perna do cara. O apito imaginário da quadra explodiu em gritos.
— Falta!
— Foi na bola!
— Na bola o caralho!
— Levanta, porra!
André ficou sentado no chão, respirando forte, com pedaços pretos de borracha grudados na coxa suada. Rafael veio até ele.
— Você tá bem?
André olhou para cima.
Rafael estava contra a luz da cobertura, a camisa preta encharcada, as luvas apoiadas na cintura. O suor descia pelo pescoço dele e desaparecia na gola. Havia preocupação ali, mas embrulhada na mesma dureza de sempre.
— Tô.
— Carrinho de velho desesperado.
— Funcionou.
— Quase quebra o tornozelo.
— O meu ou o dele?
— Os dois.
Rafael estendeu a mão.
André segurou.
O puxão foi forte demais. André levantou quase colando nele. Por um segundo, ficaram próximos. O cheiro de Rafael veio grosso, misturado à adrenalina da defesa. André sentiu a própria respiração mudar.
Rafael também sentiu.
Dessa vez, o olhar dele não desceu. Ficou no rosto de André. Mais perigoso.
— Presta atenção — Rafael disse baixo.
André respondeu no mesmo tom:
— Estou prestando.
Rafael soltou a mão dele devagar.
Caio apareceu ao lado.
— Que lindo. Quase chorei.
Rafael virou só o rosto.
— Você está perdendo muita bola.
Caio sorriu.
— E você está perdendo a paciência.
— Com você é fácil.
— Saudade de quando você gostava.
A frase foi baixa, mas não o bastante.
André ouviu.
Rafael congelou.
Caio pareceu se arrepender por meio segundo. Depois colocou a máscara de volta.
— Vamos jogar ou abrir terapia?
Marcelo berrou de longe:
— Jogo, caralho! Terapia é caro!
A bola voltou.
Mas André já tinha escutado.
Saudade de quando você gostava.
A frase grudou nele como suor.
No intervalo, os homens saíram para beber água. Alguns levantaram a camisa para secar o rosto, expondo barrigas, peitos, marcas de elástico, pelos grudados na pele. O corpo masculino cansado tomava conta do espaço sem cerimônia. Ninguém parecia notar. Ou fingiam que não notavam.
André ficou perto da grade, bebendo água em goles curtos.
Caio encostou ao lado.
— Antes que você pergunte: sim, eu falei de propósito.
— Eu não ia perguntar.
— Ia.
— Vocês dois tiveram alguma coisa.
— Todo mundo tem alguma coisa com Rafael. Nem que seja raiva.
— Não respondeu.
Caio tomou água, deixou um fio escorrer pelo canto da boca e limpou com as costas da mão.
— Tivemos.
A resposta, direta, fez André olhar para ele.
— E acabou?
Caio riu sem alegria.
— Rafael não acaba as coisas. Ele tranca. Deixa dentro. Finge que não está lá. Aí um dia alguém encosta na porta e ele fica puto porque faz barulho.
André olhou para o goleiro.
Rafael estava sozinho perto do gol, mexendo nas luvas. Não parecia olhar para eles. Mas parecia ouvir.
— E você? — André perguntou.
— Eu?
— Você acabou?
Caio demorou.
— Eu jogo melhor quando tenho alguma coisa para perseguir.
— Isso não é resposta.
— É a única que eu tenho.
O segundo tempo começou.
André voltou mais inquieto. Agora, tudo parecia ter camada. Rafael não era só o goleiro que o atraía. Era também um homem com portas trancadas. Caio não era só o atacante provocador. Era alguém ferido o bastante para transformar desejo em piada.
E André, que havia entrado ali como substituto, agora estava no meio de uma história antiga sem saber o regulamento.
Aos dez minutos, o adversário empatou.
Marcelo ficou furioso.
— Ninguém marca nessa porra!
Caio respondeu:
— Eu marquei no primeiro tempo.
— Marca atrás também!
— Atrás você gosta, capitão?
Os homens riram. Marcelo mandou Caio se ferrar. André riu apesar de si mesmo.
Rafael não.
O jogo foi ficando mais tenso. O empate parecia pessoal para todo mundo. A quadra de baixo começou a provocar. Um deles chamou Rafael de “estátua”. No lance seguinte, Rafael fez uma defesa absurda com uma mão só e respondeu apenas olhando. O silêncio dele humilhou mais do que qualquer xingamento.
André gostou disso.
Gostou tanto que ficou irritado.
Faltando poucos minutos, Caio puxou contra-ataque. André acompanhou pela esquerda. Caio podia tocar. Não tocou. Tentou driblar mais um e perdeu.
Marcelo explodiu.
— Toca a bola, fominha!
Caio abriu os braços.
— Eu resolvo!
Rafael veio andando do gol até a entrada da área.
— Resolve para o time, não para você.
Caio se aproximou.
— Agora você quer me ensinar a jogar?
— Alguém precisa.
— Engraçado. Para outras coisas você nunca ensinou nada. Só mandava eu adivinhar.
O silêncio veio seco.
Dessa vez, todos perceberam que havia algo além da pelada. Alguns desviaram o olhar. Outros ficaram atentos demais.
Rafael tirou as luvas devagar.
— Não faz isso aqui.
Caio deu um sorriso torto.
— Aqui não? Você prefere onde? No vestiário? No estacionamento? Ou em lugar nenhum, como sempre?
André sentiu o estômago contrair.
Marcelo se aproximou.
— Ei. Que porra é essa?
Caio olhou para Marcelo, depois para André.
Por um segundo, pareceu cansado.
— Nada. Jogo.
Mas não era nada.
Rafael colocou as luvas de volta.
— Continua.
Caio continuou.
E, talvez por raiva, jogou melhor.
Dois minutos depois, roubou uma bola no meio, passou por um marcador e, dessa vez, tocou para André.
André não esperava.
Recebeu torto, mas conseguiu dominar. Rafael gritou:
— Chuta cruzado!
André chutou.
A bola bateu na trave.
Sobrou para Caio.
Gol.
A quadra explodiu.
Caio correu para comemorar, mas em vez de ir para Marcelo ou para o time, veio para André. Pulou nele, braços no pescoço, corpo quente colado ao dele, riso aberto, respiração forte.
— Viu? Você presta quando obedece.
André segurou Caio por reflexo, as mãos nas costas molhadas da camiseta vermelha.
O abraço durou um segundo a mais.
Talvez dois.
O suficiente para Rafael ver.
Caio desceu, mas não se afastou totalmente.
— Assistência linda, substituto.
André respondeu ofegante:
— Foi chute errado.
— Quase tudo bom começa errado.
Rafael voltou para o gol.
O time venceu por 2 a 1.
A comemoração foi barulhenta, exagerada, masculina até o ridículo. Tapas nas costas, empurrões, gritos, gente se chamando de craque, Marcelo dizendo que era um gênio tático. André ria, cansado, com a boca seca e o corpo em brasa.
Rafael passou por ele na saída da quadra.
— Bom jogo.
— Você também.
— Menos o carrinho.
— O carrinho salvou seu gol.
— Meu gol não precisa de você.
André sorriu.
— Hoje precisou.
Rafael parou.
O olhar veio pesado.
— Cuidado, André.
Foi a primeira vez que ele disse seu nome.
Não “irmão do Marcelo”. Não “você”. André.
O som ficou nele.
— Com o quê? — André perguntou.
Rafael olhou para Caio, que bebia água e fingia não prestar atenção.
— Com achar que toda bola dividida vale a pancada.
Rafael seguiu para o vestiário.
André ficou parado por um instante.
Caio apareceu atrás.
— Ele disse seu nome?
André se virou.
— Disse.
Caio fez uma careta teatral.
— Ih. Grave.
— Você ouviu?
— Eu ouço tudo que ele tenta esconder.
— Vocês precisam conversar.
O sorriso de Caio sumiu.
— A gente já conversou. Rafael só gosta de diálogo quando está usando luva.
André não respondeu.
No vestiário, o ar parecia mais denso que nunca.
A vitória tinha deixado os homens expansivos. As vozes estavam mais altas. O suor mais abundante. A nudez mais descuidada. Camisetas foram arrancadas, bermudas trocadas, toalhas jogadas nos ombros, corpos se espremendo entre armários e bancos. O cheiro era quase sólido: esforço, pele quente, desodorante vencido, sabonete, grama sintética, um fundo de cerveja aberta cedo demais.
André abriu o armário e sentiu que tremia de cansaço.
Tirou a camiseta devagar.
O tecido estava tão molhado que parecia pele. Ao puxá-lo pela cabeça, ficou um segundo sem enxergar. Quando o rosto saiu, Rafael estava à frente, do outro lado do banco, olhando.
Não desviou.
André também não.
O vestiário continuou existindo ao redor deles, mas perdeu nitidez.
Rafael tirou a própria camisa.
A imagem veio inteira.
Peito molhado, ombros pesados, marcas vermelhas nas laterais do corpo, a respiração ainda alta. A cicatriz perto da costela apareceu de novo. André teve vontade de perguntar. Teve vontade de tocar. Teve vontade de sair.
Caio passou entre os dois, sem camisa, toalha no ombro.
— Vocês dois têm um problema sério de comunicação.
— Caio — Rafael disse.
— Tô indo, tô indo.
Mas antes de ir para o chuveiro, Caio se aproximou de André e falou baixo:
— Ele está com ciúme.
André respondeu:
— De você?
Caio sorriu.
— De mim em você. De você em mim. De qualquer coisa que tire ele do lugar onde finge estar seguro.
Caio foi para o banho.
André ficou com a frase no corpo.
Rafael se aproximou do armário ao lado. O mesmo armário do primeiro sábado. Talvez coincidência. Talvez não.
— Ele fala demais — Rafael disse.
— Fala.
— Não acredita em tudo.
— Em qual parte eu não acredito?
Rafael pegou a toalha, mas não respondeu.
André arriscou:
— Na parte em que vocês tiveram alguma coisa?
A mandíbula de Rafael endureceu.
— Isso não é assunto de vestiário.
— Tem razão.
— Nem seu.
A resposta veio mais dura do que precisava.
André sentiu a pancada e recuou por dentro.
— Beleza.
Pegou a toalha e caminhou para o chuveiro.
Rafael segurou seu braço antes que ele passasse.
Não foi forte. Mas foi firme.
A mão nua, quente, úmida, fechando em torno do braço de André.
O corpo dele reagiu de imediato. O cansaço, o cheiro, a vitória, o nome dito antes, tudo se juntou num golpe baixo. André sentiu o desejo subir, físico e claro, e odiou o quanto aquilo era visível nele.
Rafael também percebeu.
Sempre percebia.
Mas não soltou logo.
— Eu quis dizer que é complicado — Rafael falou baixo.
André olhou para a mão dele em seu braço.
— Eu entendi.
— Não entendeu.
— Então explica.
Rafael respirou fundo.
Por um instante, parecia que ia dizer alguma coisa verdadeira.
Caio desligou o chuveiro ao fundo.
O som cortou o momento.
Rafael soltou André.
— Depois.
André quase riu.
— Você sempre joga para depois?
Rafael o encarou.
— E você sempre quer entrar em bola dividida sem saber quem vai te acertar?
— Depende se vale o gol.
O olhar de Rafael mudou.
A frase tinha saído maior que André.
Caio, enrolado na toalha, apareceu no corredor dos chuveiros e bateu palmas devagar.
— Meu Deus. Eu pago internet para quê se tenho isso ao vivo?
Rafael passou a mão no rosto.
— Vai se vestir, Caio.
— Ciúme deixa você autoritário.
— Você gosta de me provocar.
— Gostava de outras coisas também.
O vestiário ficou quieto demais por meio segundo.
Marcelo, alheio ao centro da tensão, gritou do chuveiro:
— Alguém pegou meu sabonete?
A normalidade absurda voltou.
André foi para o banho antes que o corpo o denunciasse mais.
A água fria caiu sobre ele e não resolveu nada. Pelo contrário. A pele quente recebia a água como choque. Os músculos tremiam de exaustão. O sangue continuava alto. André apoiou a testa no azulejo e tentou respirar.
No chuveiro ao lado, alguém cantava. Mais adiante, Caio falava com outro jogador. Rafael entrou no último chuveiro, distante, mas não o bastante.
André não olhou.
Dessa vez, foi Rafael quem falou.
— André.
A voz atravessou o vapor.
Ele fechou os olhos.
— Fala.
— O carrinho foi bom.
André soltou uma risada curta.
— Agora virou elogio?
— Constatação.
— Você tem medo de elogiar?
Silêncio.
A água batendo no piso.
Depois, Rafael respondeu:
— Tenho medo de muita coisa.
A frase, baixa, quase se perdeu no barulho.
Mas André ouviu.
Abriu os olhos.
Entre as divisórias, não dava para ver Rafael inteiro. Só um recorte do corpo, o braço apoiado na parede, a água descendo pelo ombro, a cabeça baixa. Pela primeira vez, o monumento parecia cansado. Não fisicamente. Por dentro.
André quis dizer algo.
Caio falou antes, de algum lugar atrás:
— Milagre. O paredão confessou uma rachadura.
Rafael desligou a água com força.
— Caio, chega.
— Chega quando você parar de fingir.
— Você não sabe do que está falando.
— Eu sei exatamente.
— Não aqui.
— Nunca é aqui. Nunca é agora. Nunca é nada.
André desligou o chuveiro.
O vestiário havia virado campo de novo.
Caio estava de toalha, peito molhado, rosto sem o sorriso habitual. Rafael saiu do banho com a toalha presa na cintura, cabelo pingando, expressão fechada. André ficou entre os dois, literalmente, com a toalha na mão e a sensação de ter entrado numa briga antes de saber o nome dela.
Rafael falou baixo:
— Você quer plateia?
Caio respondeu no mesmo tom:
— Você sempre quis segredo. Olha como deu certo.
— Para.
— Por quê? Medo do André ouvir?
Rafael olhou para André.
André sentiu o impacto daquele olhar. Havia raiva ali, mas não dele. Havia vergonha também. E desejo, talvez. Ou o desejo era André querendo ver.
— Eu vou me vestir — André disse.
Caio riu sem humor.
— Claro. Todo mundo se veste quando a coisa fica nua de verdade.
André virou para ele.
— Você também foge, Caio. Só faz mais barulho.
A frase saiu antes que ele medisse.
Caio ficou imóvel.
Rafael olhou para André de outro jeito.
Por um instante, ninguém falou.
Então Marcelo entrou no meio, enrolado na toalha, segurando o sabonete.
— Achei. Tava na janela. Vocês estão com uma energia péssima, sabia?
Caio começou a rir.
Primeiro baixo. Depois de verdade.
Rafael também quase sorriu, contra a própria vontade.
A tensão não desapareceu, mas mudou de forma.
André vestiu-se em silêncio. Sentia o corpo ainda ligado, mas agora havia algo além do tesão: curiosidade, preocupação, uma vontade perigosa de entender Rafael. E outra, igualmente perigosa, de não deixar Caio sozinho no próprio deboche.
Foram para o bar.
A vitória rendeu cerveja, pastel e uma euforia coletiva que ajudou a esconder o resto. Marcelo fez discurso sobre o campeonato. Rodrigo jurou que não tinha se machucado, embora mancasse. Caio voltou a ser o Caio de sempre, mas André já tinha visto a falha. Rafael ficou mais calado que o habitual.
André sentou-se à ponta da mesa. Rafael ficou em pé por alguns minutos, como se fosse embora, mas acabou sentando ao lado dele. Não em frente. Ao lado.
Caio viu.
Não comentou.
Isso chamou mais atenção que qualquer piada.
Rafael bebeu um gole de cerveja.
— Você joga melhor quando está com raiva.
André olhou para ele.
— Eu estava com raiva?
— Depois do erro, sim.
— Você repara muito em mim.
Rafael encarou o copo.
— Sou goleiro.
— Essa desculpa está ficando fraca.
Rafael soltou um ar pelo nariz. Quase riso.
— Talvez.
André esperou.
Rafael continuou:
— Goleiro aprende a olhar antes. O pé de apoio. O ombro. A intenção antes do chute.
— E o que você viu em mim?
Rafael demorou.
A mesa ao redor continuava barulhenta, mas os dois estavam em outro volume.
— Que você não veio só jogar.
André sentiu o estômago fechar.
— E você?
Rafael olhou para ele.
— Eu nunca venho só jogar.
A frase ficou entre os dois como uma toalha esquecida no chão do vestiário: úmida, íntima, impossível de ignorar.
Antes que André respondesse, Caio se levantou do outro lado da mesa.
— Vou fumar.
— Você não fuma — Marcelo disse.
— Hoje eu inventei.
Caio saiu para a calçada.
Rafael acompanhou com o olhar.
André percebeu.
— Vai atrás dele.
Rafael ficou quieto.
— Rafael.
O goleiro fechou os olhos por um segundo.
— Você não entende.
— Então explica.
— Não aqui.
André sorriu sem alegria.
— O Caio tem razão em uma coisa.
Rafael virou para ele.
— Qual?
— Nunca é aqui.
A frase acertou.
Rafael levantou.
Por um segundo, André achou que ele fosse embora. Mas Rafael apenas fez um sinal com a cabeça em direção ao fundo do bar, onde havia um corredor estreito para os banheiros e uma porta de serviço.
— Vem.
André não pensou.
Levantou.
O corredor era apertado, com caixas de cerveja empilhadas e cheiro de gordura, detergente e umidade. O barulho da mesa ficou abafado atrás deles. Rafael abriu a porta de serviço e os dois saíram para uma área pequena nos fundos, meio depósito, meio quintal, cercado por paredes altas.
O ar ali era quente e parado.
Rafael encostou na parede.
André ficou de frente para ele.
Nenhum dos dois falou no começo.
Sem a quadra, sem as luvas, sem o grupo, Rafael parecia menos inatingível. Mas não menos perigoso. A camiseta limpa colava um pouco no peito ainda úmido. O cabelo estava penteado de qualquer jeito. A barba escurecia a linha do maxilar. Ele parecia cansado de sustentar a própria força.
— O Caio e eu tivemos uma coisa — Rafael disse.
André não se mexeu.
— Uma coisa?
— Não me pede nome bonito.
— Não pedi.
— Durou mais do que devia e menos do que ele queria.
— E do que você queria?
Rafael olhou para o chão.
— Eu não sabia querer direito.
André deixou a frase respirar.
— E agora sabe?
Rafael levantou os olhos.
— Não.
A honestidade foi pior que qualquer sedução.
Rafael deu um passo.
— Mas eu sei quando alguém me tira do lugar.
André sentiu o corpo inteiro responder.
— Eu?
— Você.
A palavra veio seca.
Sem ornamento.
Sem fuga.
André respirou fundo. O cheiro de Rafael ainda estava lá, mesmo depois do banho. Mais discreto agora, misturado a sabonete e cerveja, mas ainda pele. Ainda corpo.
— Você me deixou no vácuo a semana inteira.
— Porque eu quis responder.
— Isso não faz sentido.
— Faz para mim.
Rafael chegou mais perto.
— Se eu respondesse, eu ia continuar.
André tentou rir, mas saiu baixo demais.
— E agora?
Rafael olhou para a boca dele.
Não havia dúvida sobre o que aquilo significava.
O corpo de André acendeu de uma vez, sem delicadeza. A proximidade, a parede, o barulho abafado dos homens do outro lado, a memória do vestiário, a mão no braço, a queda na área. Tudo veio junto. Ele sentiu a excitação crescer, clara, física, difícil de esconder. Não tentou tanto.
Rafael percebeu.
Dessa vez, o olhar dele desceu sem pressa.
Quando voltou, estava mais escuro.
— Acontece — Rafael disse.
A mesma palavra do primeiro sábado.
Mas agora não era consolo.
Era provocação.
André deu um passo até quase encostar nele.
— Você fala isso como se não acontecesse com você.
Rafael respirou pelo nariz, lento.
— Acontece.
A voz saiu mais baixa.
O silêncio depois dela pareceu encostar nos dois.
André sentiu a vontade de tocar Rafael como uma pressão nas mãos. Não tocou. Ainda. Havia algo mais forte justamente por não ter acontecido. Uma linha esticada demais. Um quase.
Rafael ergueu a mão.
Por um segundo, André pensou que ele fosse agarrá-lo.
Mas Rafael apenas encostou dois dedos na lateral de sua camiseta, perto da cintura. Um toque pequeno, quase nada. O suficiente para o corpo de André inteiro se concentrar ali.
— Você gosta de provocar também — Rafael disse.
— Eu?
— Fica com essa cara de quem não sabe o que está fazendo.
— Talvez eu não saiba.
— Sabe.
A mão de Rafael permaneceu ali. Quente através do tecido.
André olhou para ele.
— E você gosta de fingir que controla tudo.
Rafael se aproximou mais um centímetro.
— Gosto.
— Está funcionando?
— Não.
A palavra veio quase contra a boca de André.
Eles teriam se beijado.
André soube.
Rafael soube.
O beijo já estava formado antes de acontecer.
Então a porta abriu.
Caio apareceu.
Parado no batente, cigarro apagado na mão, olhar passando de um para o outro.
Não sorriu.
Isso foi o mais grave.
— Foi mal — disse. — Interrompi o treinamento?
Rafael se afastou primeiro.
André sentiu a perda do calor como uma ofensa.
— Caio — Rafael começou.
— Não. Relaxa. Eu só vim fumar no lugar onde ninguém fuma.
O atacante entrou na área externa, mas não se aproximou muito. Acendeu o cigarro com duas tentativas. A mão tremia pouco. O bastante para André ver.
— Vocês podem continuar — Caio disse. — Eu já vi esse jogo antes.
Rafael fechou a cara.
— Não faz cena.
Caio soltou a fumaça devagar.
— Cena é quando tem público. Aqui somos só nós três.
A frase caiu pesada.
André olhou de Caio para Rafael.
Pela primeira vez, entendeu que o triângulo não estava começando ali.
Ele só tinha sido convidado a entrar.
Rafael falou:
— Eu não quero te machucar.
Caio riu, mas os olhos não acompanharam.
— Tarde.
André sentiu algo apertar no peito. Não era culpa exatamente. Ele mal conhecia aqueles homens. Mas o desejo raramente esperava as coisas ficarem justas.
Caio olhou para André.
— E você, substituto?
— O quê?
— Vai fingir que caiu aqui sem querer?
André sustentou o olhar dele.
— Não.
Caio pareceu surpreso.
André continuou:
— Eu quis vir.
Rafael olhou para ele.
Caio tragou o cigarro, depois jogou no chão e apagou com o tênis.
— Pelo menos um homem honesto.
— Isso não quer dizer que eu entenda o que está acontecendo — André disse.
Caio se aproximou um pouco.
— Ninguém entende. A gente só sua, joga e depois finge que é sobre futebol.
O silêncio entre os três foi quase íntimo.
Do lado de dentro, Marcelo gritou:
— André! Rafael! Caio! Vocês morreram?
Caio respondeu alto, sem tirar os olhos deles:
— Quase!
Depois sorriu.
O sorriso voltou. Mas agora André sabia que era armadura.
Rafael passou a mão no cabelo molhado.
— Vamos voltar.
Caio abriu passagem com um gesto teatral.
— Claro. O time precisa dos seus homens de bem.
Rafael passou primeiro.
André ficou um segundo diante de Caio.
— Você está bem?
Caio olhou para ele com desprezo ensaiado.
— Não faz essa cara comigo.
— Que cara?
— De quem quer salvar alguém. Eu não sou travado igual ele.
André respondeu baixo:
— Não. Você sangra mais alto.
Caio perdeu o sorriso.
Por um instante, pareceu que ia dizer algo real.
Não disse.
— Cuidado, André.
Era a segunda vez no mesmo dia que alguém dizia aquilo.
— Com você ou com ele?
Caio olhou para a porta por onde Rafael tinha saído.
— Com gostar da parte de alguém que ele só mostra quando está quase perdendo.
Voltaram para a mesa.
Marcelo não percebeu nada. Ou percebeu pouco e escolheu a paz dos ignorantes. Continuou falando do campeonato, dizendo que agora André era titular moral, fosse lá o que isso significasse.
Rafael ficou mais meia hora e foi embora sem olhar muito para ninguém.
Caio ficou até o fim, barulhento, brilhante, exagerado. Mas André notou que ele não bebeu tanto quanto fingia.
Quando todos se dispersaram, Marcelo ofereceu carona. André aceitou. No caminho, o irmão falou do jogo, do gol de Caio, da defesa de Rafael, da entrada criminosa de André.
— Você está melhorando — Marcelo disse.
— Estou?
— Está. Só precisa parar de quase matar os outros.
André sorriu.
— Vou trabalhar nisso.
— E o pessoal gosta de você.
André olhou pela janela.
— Gosta?
— Claro. Caio pega no pé de quem ele gosta. Rafael não fala com quase ninguém. Falou com você. Isso é muito para ele.
André virou o rosto.
— Rafael é sempre assim?
Marcelo deu de ombros.
— Fechado? É. Mas gente boa. Só teve umas tretas antigas aí.
— Com o Caio?
Marcelo franziu a testa.
— Talvez. Não me meto. Pelada tem fofoca demais. Eu só quero jogar e não pagar quadra sozinho.
— Entendi.
— Mas toma cuidado com o Caio.
André riu.
— Todo mundo resolveu me mandar tomar cuidado hoje.
— É porque você tem cara de quem demora para perceber buraco.
— Obrigado.
— De nada.
Ao chegar em casa, André tomou banho pela terceira vez naquele sábado.
Dessa vez, a água não tinha função de limpeza. Era tentativa de esfriar pensamento. Não funcionou.
Ele lembrava da área externa do bar. Da mão de Rafael na sua cintura. Do quase beijo. Da frase: acontece. Lembrava também dos olhos de Caio no batente, sem piada, sem máscara por um segundo. A tensão entre os três tinha cheiro próprio agora: suor, cerveja, ciúme, desejo, coisa interrompida.
Depois do banho, deitou de toalha na cama, sem vontade de vestir nada ainda. O corpo doía. A coxa tinha um arranhão do carrinho. Havia uma mancha roxa começando no quadril por causa da queda. Marcas pequenas de um jogo que não era só jogo.
O celular vibrou.
André pegou rápido demais.
Mensagem de Rafael.
Desculpa pelo fundo do bar.
André encarou a tela.
Digitou:
Pelo quê exatamente?
A resposta demorou.
Por quase.
André sentiu o corpo reagir à palavra.
Quase não é crime.
Rafael visualizou.
Depois:
Às vezes é pior.
André respirou fundo.
Antes que respondesse, outra notificação apareceu.
Caio.
Privado.
Ele pediu desculpa?
André ficou imóvel.
Como se os dois estivessem em lados opostos da mesma cama invisível.
Respondeu:
Você sempre adivinha?
Caio:
Não. Eu conheço o goleiro.
Depois:
E estou começando a conhecer você.
André alternou entre as duas conversas.
Rafael, silencioso depois de dizer demais.
Caio, falando demais para não dizer o principal.
André largou o celular sobre o peito e encarou o teto.
No primeiro sábado, Rafael tinha sido uma imagem.
No segundo, uma presença.
No terceiro, tornou-se um problema.
E Caio, que parecia apenas o homem que ria do incêndio, agora estava dentro dele também: não como monumento, mas como faísca procurando combustível.
O celular vibrou mais uma vez.
Rafael:
Sábado que vem eu posso te dar carona.
André fechou os olhos.
Antes que respondesse, Caio mandou:
Sábado que vem chega cedo. Quero te mostrar uma coisa antes do jogo.
André riu sozinho, sem humor, sem defesa.
A pelada tinha acabado fazia horas.
Mas o jogo, agora, não parava mais.