O diario de Tininha!
O Diário de Tininha**
**Querida Natália,**
Lembraste de mim? Cristina. Mas, quando éramos jovens, todos me conheciam por Tininha, não por Cristina. Há dias, no sótão, encontrei meu velho diário. Vou partilhar contigo, vou tentar resumir… o mais relevante foi o último verão que João passou em Olhão, na casa dos tios.
Sua tia insistia que eu tinha de acompanhá-lo nas idas à praia da ilha de Armona. Ele era um ano mais novo, de apenas 22 anos, tímido, com olhos castanhos que pareciam perdidos no mundo. Eu, com os meus vinte e três anos já vividos, sentia-me uma mulher perante aquele rapaz que ainda cheirava a adolescência. Quando terminou o verão, fazia mais frio, já não havia carreiras regulares e a água estava horrivelmente fria. Por isso, depois do jantar, eu, Tininha, convidei o João para ir tomar sorvete e passear no jardim municipal.
— Eu vou — disse ele, com uma seriedade que me fez sorrir por dentro.
Achamos um banco no jardim, sob uma árvore cujas folhas já começavam a amarelar. Estávamos a fazer contas às nossas vidas. Ele voltaria para Coimbra, eu ficaria em Olhão. Possivelmente nunca mais veria o João. Isso deixava-me com um nó na garganta. Um nó doce e amargo, porque estava a ter um fraquinho por ele. Um fraquinho que crescia na quietude das nossas tardes na praia, nos silêncios que não eram desconfortáveis.
— Tu já beijaste alguém na boca? — perguntei, de repente, a coragem vinda não sei de onde.
Ele arregalou os olhos. — Como assim, Tininha? Na boca, com língua?
— As raparigas da universidade, algumas já têm trinta anos ou mais, e vão rir de ti se não fizeres isso bem… caso namores com alguma.
O rosto dele ficou sério. — E como faço?
— Arranja uma namorada!
— Sabes que sou tímido?
— Vais ter de desencravar!
Daí, ele fez-me rir. Pegou nas costas da sua própria mão e tentou demonstrar, beijando-a com ar concentrado.
— Assim?
— Se fizeres isso, vão fugir todas, ah ah!
— Então que faço!
Respirei fundo. O coração batia-me tão forte que eu temia que ele ouvisse.
— Bem, excepcionalmente… isto se não fores contar à tua tia… eu dou um beijo desses.
— Vais beijar-me? —Ele ficou imóvel. —
— Com a condição de abrires a boca ligeiramente e nada de tocar na minha língua… é o que tu tens de fazer nelas…
— Ok.
João abriu aquela boca inocente, os lábios um pouco trémulos. Eu já tinha praticado no colégio com uma amiga de confiança, por isso estava à vontade. Inclinei-me e beijei-o. Foi suave, um toque de lábios que rapidamente se aprofundou. Lamberam-se os contornos, senti a textura da sua língua. Fazia cócegas, pensou ele em voz alta, e riu-se, nervoso.
— Assim desisto — disse eu, afastando-me um centímetro.
— Está bem, eu comporto-me bem agora. De novo.
E beijei-o de novo. Desta vez, deixei-me ir um pouco mais. Lambi cada nervura, explorei aquele território desconhecido com uma curiosidade que era metade maternal, metade outra coisa que não queria nomear. Fiquei de olhos brilhantes, excitada pela descoberta e pela sua entrega. Contudo, fiquei frustrada ao ver o seu ar patético, de quem não compreende bem o que se passa, mas quer agradar.
— Bem, hoje é o penúltimo dia no Algarve e já não tenho tempo para mais explicações — disse, recuando.
Ele olhou para mim, os olhos ainda vidrados.
— Tininha, e quando um casal pode passar para, por exemplo, toques… sexo oral?
Ri-me, um riso que soou mais tenso do que deveria. — Calma, rapaz. Só tens de te preocupar com a língua. Depois, a mulher vai dando sinais…
— Podíamos experimentar atrás do coreto?
— Ah ah ah… Tonto! Isso não é assim. Além disso, se fizesse isso contigo, poderia gostar também. E depois, sabes, uma mulher é um fogão a lenha. Depois de acesa, precisa de muita e muita manobra para ficar fria de novo.
— Isso quer dizer o quê? —Ele franziu a testa, confuso.
Quis ser cruel para o proteger. De mim? Dele?
— Quer dizer que, a sério, a gente teria de praticar sexo mesmo, com pénis dentro da xotinha.
Vi o choque nos seus olhos. E, ao mesmo tempo, tive pena dele. Embora eu já não tivesse os meus pais, João tinha, mas eles eram esquisitos. O pai dele devia falar destas coisas com o filho. Estavam sempre a proibir um rapaz de vinte e dois anos de ir a festas. Fui-me deitar nessa noite com um arrependimento doce e pesado.
No dia seguinte, ainda fui ao quarto dele. A minha tia adotiva sabia que a gente se respeitava… mas eu queria dizer algo.
— Logo, não vou despedir-me de ti na estação como de costume.
— Porquê? — A voz dele era pequena.
— Porque eu, no fundo, queria mesmo ter transado contigo.
— Juras?
— Mas isso é loucura. Tu és bonzinho, e eu amo-te muito… Quero que encontres alguém a valer! Por isso, é melhor ignorares o que te disse.
Mas arrependi-me. Não do que disse, mas de não ter feito. Nos anos seguintes, para tapar o vazio da minha vida sem o João, acabei por conhecer o Filipe, que virou meu namorado. Ele era bem diferente: nada romântico, queria só sexo. Incluindo coisas que eu nunca tinha imaginado. Acabámos por fazer de tudo, incluindo sexo anal. Era mecânico, era vazio, era um preenchimento agressivo de uma ausência.
Se o João aqui tivesse, teria sido bem diferente. Sinto-me suja, Natália. Não pelo sexo, mas pela falta de amor nele. Pela falta daquele beijo no jardim, que era uma pergunta, não uma exigência.
O João casou-se, soube depois. Com uma rapariga de Coimbra. Espero que ela lhe tenha ensinado o resto. Espero que ele tenha sido feliz.
Eu fiquei com a memória de um verão, de uma língua que fazia cócegas, e da mulher que poderia ter sido se tivesse tido a coragem de acender aquele fogão, sabendo que nunca mais o apagaria.
Beijos da tua amiga de sempre,**Tininha (Cristina)**
O diario de Tininha dois!
**15 de Julho**
Hoje aconteceu algo que não esperava. Passaram sete anos desde o último verão em Olhão, sete anos desde que João partiu. O tempo, esse artista caprichoso, pintou rugas nos nossos rostos e histórias nas nossas almas. O casamento dele terminou, soube por amigos comuns, mas nunca imaginei que ele voltaria. E muito menos que eu, sentada no café da praça a observar o vai e vem das gaivotas, o veria aparecer.
Ele chegou com um sorriso tímido, aquele mesmo que me fazia derreter aos dezanove anos. A brisa do mar brincava com os seus cabelos agora um pouco mais grisalhos.
— “Faz tempo!”, disse com voz mais grave…
— “Pois é, amiga!”, tentando disfarçar o turbilhão de emoções. Conversámos sobre tudo e nada: o seu trabalho em Leiria, a minha livraria aqui em Olhão, os seus pais, os amigos que se foram e os que ficaram. Foi fácil, como se o tempo não tivesse passado. Como se ainda fôssemos os dois jovens que partilhavam segredos à beira-mar ao pôr-do-sol.
E então, veio a surpresa.
— “Vou com o Filipe passar duas semanas para ilha do Farol!”… — “Podias vir connosco?”…
João ficou sem palavras. O Farol… aquele lugar isolado no cabo, com vistas infinitas para o oceano, onde tantas vezes sonhámos em fugir quando éramos jovens.
— “Não vou atrapalhar?”, perguntou, cauteloso.
— “Nada… o Filipe não se importará”, garanti, com um brilho nos olhos.
João aceitou… Não pensou duas vezes. Talvez porque, nestes sete anos, percebera que a vida é demasiado curta para dizer “não” às oportunidades que nos fazem sentir vivos. Talvez porque, no fundo, ele também sempre soubera que a história entre nós não estava totalmente escrita. Ou talvez apenas porque precisava de escapar da rotina, e naturalmente ele estava a precisar de desabafar.
O Filipe um rapaz brincalhão, agora é um homem feito, engenheiro, mas com o mesmo coração aberto.
Partiria daqui a três dias. Mal posso esperar. Vou levar o meu diário, claro. E as minhas aguarelas. Há tanto tempo que não pinto o mar… João disse que ainda se lembra dos meus quadros. Surpreende-me que se recorde de tantos pormenores.
Sentia um misto de nervosismo e excitação. Como se estivesse à beira de redescobrir uma parte de mim que deixei adormecida há sete anos. Não sei o que estes dias no Farol nos reservam. Não sei se é apenas uma reencontro entre velhos amigos ou se o destino nos está a pregar uma partida. Mas estou disposta a descobrir.
O João deixou-me hoje com um abraço apertado, aquele que parece durar uma eternidade e um instante ao mesmo tempo.
— “Até sábado, Tininha”, sussurrou no meu ouvido. E eu, que pensava ter o coração guardado a sete chaves, senti-o bater com uma força esquecida.
—“Até sábado, João”… Até sábado, Farol. Estou pronta para o que vier. Ou pelo menos, é o que tento convencer-me a acreditar enquanto arrumo a mala e olho para o retrato nosso, jovem e despreocupado, que ainda guardo na mesa-de-cabeceira.
O diário vai comigo. E quem sabe, talvez estas páginas venham a contar uma nova história. Ou talvez apenas o epílogo da antiga. De qualquer forma, estou aqui, viva, a sentir outra vez o frio na barriga da expectativa. E isso, depois de tantos anos de calmaria, é um tesouro…
**Sábado, 18 de Julho**
Sábado chegou finalmente. O sol ainda não tinha subido completamente quando João já estava no cais de embarque à espera. Cheguei com o meu namorado Filipe, os dois carregados com trouxas e mantimentos.
— Desculpa pelo atraso! — disse logo, quase sem fôlego. Ele acenou com a cabeça, um sorriso tranquilo nos lábios. Não havia pressa naquele rosto.
Descemos as escadas e embarcamos. Escolhemos o convés superior, onde a brisa do mar podia fazer-me volltar ao passado. Ao chegarmos na casa da ilha, Filipe toma a iniciativa de imediato para fazer o almoço, e João, sempre prestativo, aliou-se a ele. Havia uma simplicidade naquele gesto que me comoveu.
— Vai ser simples, ovos cozidos com atum e batatas! — anunciou o Filipe, com aquele seu jeito prático de quem não gosta de complicações.
Olhei para o João e sorri.
— O João nunca foi esquisito! — Verdade?
— Verdade, Cristina. — respondeu ele, mantendo aquele tom respeitoso que sempre teve. Ele nunca me chama de Tininha na frente do Filipe. É um cuidado que tem, como se quisesse guardar uma distância honrosa, não invadir um espaço que não é dele. Achei graça a isso, e ao mesmo tempo uma ponta de saudade da intimidade que um dia partilhamos, quando éramos apenas duas crianças a crescer lado a lado.
Comemos em silêncio, ouvindo o bater das ondas contra o casco. Quando acabámos, o Filipe esticou-se e bocejou.
— Vou descansar um pouco na rede lá fora. Fiquem aí a arrumar as coisas — disse, com um olhar que era ao mesmo tempo cansaço e cumplicidade. — Pois vocês os dois devem ter muita conversa para pôr em dia.
Ficámos só os dois, eu e o João. O ar estava carregado de perguntas não feitas. Desde que soube do divórcio dele, há quase um ano, tenho morrido por saber pormenores. A vida afastou-nos, mas as raízes da infância mantêm-nos ligados de um modo que nem o tempo desfez.
Pousei a chávena e encostei-me ao balcão.
— Sinto pena pelo teu divórcio — disse finalmente, tocando-lhe levemente no ombro.
Ele suspirou, um som longo e profundo que parecia vir do fundo do mar. Olhou para as mãos, como se nelas lesse uma história antiga.
— Não sintas — disse, com uma voz tão serena que quase me assustou. — Ela foi uma grande vaca.
A franqueza dele surpreendeu-me, mas não me chocou. Sempre foi assim: directo, sem rodeios.
— Então? — perguntei, baixando a voz.
Os olhos dele perderam-se no horizonte, onde o céu se encontrava com a água.
— Andava a pôr-me os cornos — disse, devagar, como se estivesse a sopesar cada palavra.
— E eu não sabia. Descobri por acaso, um recibo esquecido no bolso de um casaco, um jantar para dois num sítio caro. Ela disse que tinha sido com uma amiga do trabalho. Não foi.
Calei-me, sentindo um nó na garganta.
— Normalmente somos sempre os últimos a saber — murmurei, mais para mim do que para ele.
Ele concordou com a cabeça.
— Foi isso. Enquanto eu estava a planear as férias em família, ela estava a marcar fins-de-semana com ele. Enquanto eu me preocupava com a hipoteca, ela comprava lingerie nova que eu nunca cheguei a ver.
Houve um silêncio pesado, mas não era um silêncio incómodo. Era um silêncio de cumplicidade, daqueles que só se partilha com alguém que nos conhece desde sempre.
— E agora? — perguntei.
Ele olhou para mim, e pela primeira vez desde que chegámos, vi um verdadeiro sorriso a iluminar-lhe o rosto.
— Agora estou aqui. E esta ilha, a promessa de uns dias de paz… e de reencontro contigo, Tininha — disse, e o facto de ter usado a alcunha, ali, naquele momento, pareceu um pequeno tesouro que me oferecia. — É mais do que preciso.
Pela janela da cozinha entrava o bafo do calor, lá fora Filipe ressonava levemente na rede. Dentro de mim, o coração encheu-se de uma esperança terna. Há feridas que não se curam com palavras, mas talvez com tempo, com brisa salgada e com a presença silenciosa de quem nos viu crescer.
**O Diário de Tininha**
**Dia 1**
A noite depois do jantar fomos os três dar um passeio pelo pontão da ilha. O ar estava salgado e quente, e o céu era um manto de estrelas que pareciam piscar só para nós. Cristina caminhava entre nós, mas os seus passos estavam pesados.
— Estou cansada — disse ela, com uma voz que era mais um suspiro do que palavras.
— Vamos regressar — respondeu Filipe, imediatamente, o seu braço a envolver os ombros dela num gesto que pretendia ser protetor, mas que a mim me pareceu possessivo.
— Hoje foi um dia e tanto... — comentou João, tentando aligeirar o ambiente, mas a observação ficou a pairar no ar noturno, sem resposta.
Regressámos em silêncio. A magia do passeio dissipara-se.
Já em casa, no meu quarto, podia finalmente respirar. O quarto cheirava a limpo, a lavanda suave. Os lençóis da minha cama, cuidadosamente estendidos por Tininha, eram frescos e convidativos. Deitei-me, deixando o cansaço do dia dissolver-se no algodão imaculado. O silêncio da casa era uma benção, e os meus olhos começavam a pesar quando os ouvi.
Não eram sons de amor. Não eram sussurros partilhados. Eram ruídos de atividade vinda do quarto deles, que não era muito longe dali. Uma luta surda, abafada pelas paredes.
— Não, Filipe... — a voz de Cristina, Tininha, era um fio, tenso e quebrado. — É sempre a mesma coisa...
Um silêncio cortante. Depois, um gemido abafado, misturado com dor.
— Ai... isso doi, estúpido...
O meu corpo gelou sob os lençóis. O coração batia-me tão forte que julguei que eles o podiam ouvir. Não eram necessárias mais palavras. A cadência, a força brusca, o tom dela... Claro que pude perceber. Filipe estava a forçá-la. A forçá-la a ter sexo anal. Era um conhecimento que me encheu a boca de um gosto amargo, de nojo e de uma impotência furiosa. Fiquei paralisado, os punhos cerrados sob o travesseiro, obrigado a ouvir os soluços abafados da minha amiga. Foi um bocado terrível, interminável. Cada segundo era uma agulha no meu próprio peito. Até que, finalmente, o silêncio regressou, mais pesado e mais sombrio do que antes. Adormeci com lágrimas secas no rosto e uma revolta a ferver-me por dentro.
**Domingo dia 19 de julho**
A manhã chegou, implacavelmente brilhante. A luz entrava a jorros pelas janelas, zombando da escuridão da noite anterior. Fingi dormir. O corpo pesava-me como chumbo, a alma ainda atordoada pelo que ouvira. Não queria enfrentar o dia, nem os seus segredos sujos.
A porta do meu quarto abriu-se suavemente. Tininha entrou. Senti a sua presença antes de a ver, um vazio silencioso a pairar à entrada.
— Vamos, dorminhoco? O Filipe já está na praia — a voz dela tentava a normalidade, mas havia uma fragilidade por trás, como vidro rachado.
Ela aproximou-se da beira da cama. Eu mantinha os olhos fechados, a fingir um sono profundo. Senti o colchão ceder ligeiramente quando ela se sentou. E então, um movimento inadvertido. A sua mão, ao ajustar o cobertor, deslizou sob o meu lençol, procurando talvez um canto solto.
O toque foi casual, mas o meu corpo, ainda em alerta máximo da noite anterior, reagiu. A sua mão roçou-me acidentalmente na coxa, e eu, num reflexo de susto e de uma vergonha súbita, encolhi-me. Ela deve ter sentido a humidade residual, o resultado de um sonho agitado e confuso que tivera.
Os seus olhos encontraram os meus, que se abriram finalmente. O olhar dela desceu para a sua própria mão, e depois para mim. A expressão no seu rosto mudou. A fragilidade transformou-se num misto de cansaço e de um desdém amargo, um desdém que não era só para mim, mas para tudo.
— Que nojo! — refilou ela retirando a mão como se tivesse tocado em algo repugnante. — Se querias masturbar-te, usavas papel higiénico... Era mais normal...
As palavras cortaram como lâminas. Não era só o insulto; era a frieza, a desconexão total da dor que eu sabia que ela carregava.
— Desculpa, amiga... — consegui gaguejar, a voz rouca do sono e da emoção. — Foi um sonho húmido. Um pesadelo. Não sabia que irias entrar assim...
Ela levantou-se, endireitando a saia com um gesto brusco. O seu olhar vagueou pelo quarto, mas não me viu realmente. Estava noutro lugar, talvez ainda naquela cama, naquela noite.
— Essas vacas fazem merda sempre... — murmurou ela, mais para si própria do que para mim, enquanto se virava para sair. A referência à minha ex-mulher foi como um golpe baixo, uma tentativa de desviar a atenção, de projetar para fora a sujidade que a asfixiava por dentro. Era sobre ela, sobre Filipe, sobre a prisão em que se tinha tornado a sua vida, e não sobre um lençol manchado.
Então pegando na roupa suja levou para cozinha onde tinha a máquina de lavar…a porta fechou-se suavemente atrás dela. Fiquei sozinho, com o cheiro a lavanda agora misturado com o cheiro do meu próprio suor e vergonha. E com a certeza esmagadora de que a minha amiga, a Tininha que eu conhecia, estava a afogar-se bem à minha frente, e eu não tinha a mais pequena ideia de como a salvar. O diário dela, se alguma vez o escrevesse, seria preenchido com estes silêncios gritantes, com estas manhãs após noites terríveis. E eu, impotente, seria apenas uma testemunha das suas páginas em branco…
**Título: O Diário de Tininha**
**Quarta-feira, 23 de julho**
Hoje aconteceu algo que, provavelmente, vai mudar tudo. Escrevo estas palavras ainda com as mãos a tremer, não de arrependimento, mas de uma espécie de choque silencioso. O tipo de choque que vem quando se cruza uma linha que nunca se imaginou cruzar, e se descobre que o outro lado não é um precipício, mas sim… outra paisagem.
Estava no quarto de banho, a tentar compor-me depois do pequeno-almoço. O calor já se fazia sentir e o plano era ir para a praia. Tinha acabado de vestir os shorts e estava a pentear o cabelo quando ouvi a porta a abrir-se. Era a Tininha. Ela tinha ido pôr a máquina a lavar a trabalhar.
Bateu suavemente na porta do lavabo.
— Sou eu, posso entrar?
Hesitei. — Mas…
— O Filipe já foi para a praia — disse ela, a voz um pouco mais suave do que o habitual.
— Filipe quiz ir mais cedo.
Abri a porta. Ela estava ali, com o seu fato de banho já vestido, uma toalha enrolada debaixo do braço. O seu olhar era diferente. Menos desafiador, mais… vulnerável.
— Estava a arranjar-me — disse eu, desnecessariamente, como se precisasse de uma desculpa para estar no meu próprio quarto de banho.
— Eu é que quero pedir desculpa — começou ela, entrando e fechando a porta atrás de si com um clique suave. — Fui um bocado bruta no outro dia contigo…afinal é normal isso acontecer…
Aproximou-se. O espaço do lavabo é pequeno e, de repente, ficou muito mais pequeno. O seu perfume de verão – coco e protetor solar – encheu o ar. As suas mãos encontraram as minhas, e os seus dedos envolveram os meus pulsos com uma firmeza gentil.
— Se te sentasses no vaso sanitário, isso ajudava — sugeriu ela, com um sorriso mordaz nos cantos da boca.
O meu coração começou a bater com uma força desproporcionada.
— O que é que queres, Tininha? — perguntei, tentando soar normal, como se ignorasse completamente o que estava a acontecer, o calor da sua pele, a proximidade.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, com um movimento decisivo mas nada agressivo, puxou o elástico dos meus shorts e tirou-me o pénis para fora da roupa. Não houve hesitação, nem um segundo para pensar. Ela ajoelhou-se no tapete felpudo à minha frente e, sem demora, começou a chupar-me.
Um arrepio percorreu-me a espinha.
— Mas o Filipe… — consegui sussurrar, a voz rouca.
Ela parou, olhou para cima, os seus olhos castanhos sérios.
— O Filipe? Ele é um animal. Só pensa em foder.
A franqueza daquela afirmação, vinda dela, deixou-me sem ar.
— Sim, lamento ter ouvido vocês ontem à noite.
—Desculpa envorver-te nisto… fez um ar genuinamente envergonhado.
Depois, levantou-se, virou-se para o lavatório e debruçou-se sobre a bacia de porcelana branca. A curva das suas costas, a linha do seu fato de banho… Era uma imagem de uma rendição deliberada…afastou um pouco a parte de baixo do seu fato expondo-lhe a buceta babada de desejo…
— Vem — sussurrou, a voz ecoando um pouco na concha do lavatório. — Há muito que queria sentir esse caralho dentro de mim.
A última réstia de resistência desfez-se. — Mas… — foi o único protesto que consegui formar.
— Vai — ordenou ela, suave mas firme.
E eu fui. Penetrei-a, e um gemido profundo, quase um suspiro de alívio, saiu-lhe da garganta.
— Isso… QUE BOM… Foda-se, QUE BOM…
Os seus gemidos não eram teatrais. Eram autênticos, guturais, e cada um deles alimentava um fogo dentro de mim que já há muito não sentia.
Movia-me dentro dela, e o embate dos meus quadris contra as suas nádegas fazia um som húmido e ritmado, obscenamente íntimo. Ela estava quente, apertada, viva. Então, ela, sentindo os meus músculos a contraírem-se, a minha respiração a ficar ofegante, disse:
— É bom que te venhas cá fora…
Obedeci. Saí de dentro dela, e ela imediatamente se virou e ajoelhou novamente. As suas mãos continuaram onde a sua boca tinha estado, punhetando-me com uma urgência que me deixou tonto.
— Isso, caralho… Esporra-te todo… Lindo! — sussurrou, os olhos fixos nos meus. — Banha-me toda com esse leitinho…
E eu gozei. Não foi um orgasmo comum. Foi uma explosão, uma libertação de tudo o que tinha sido reprimido, de todas as tensões não ditas desta casa de férias partilhada. Gozei tanto que só me dei conta da bagunça quando já era tarde. Jorrei sobre o seu rosto, nos seus cabelos castanhos, nos seus olhos fechados, no seu nariz, na sua boca aberta num sorriso de satisfação pura. Tudo ficou salpicado com a minha porra branca.
Ela abriu os olhos, pestanejando.
— És um amor, Joãozito — disse, a voz rouca, lambendo os lábios.
A realidade começou a infiltrar-se novamente, fria e racional.
— Acho que não devíamos ter feito isto.
Ela levantou-se, foi buscar um lenço de papel e começou a limpar o rosto com uma naturalidade desconcertante.
— Não sejas idiota — disse, sem olhar para mim. — E por favor, não vás ficar com macaquinhos na cabeça agora. Foi bom. Foi só isso.
Depois, como se nada de extraordinário tivesse acontecido, vestimos os nossos trajes de banho, pegamos nas toalhas e saímos para ir ter com o Filipe na praia.
Ele estava estendido ao sol, a rir-se de uma piada que contava a um casal na toalha ao lado. Acenou para nós, todo sorrisos. — Finalmente! Pensei que tinham ficado a fazer as malas!
Sorrimos de volta. Sentámo-nos. A água estava azul-turquesa, o mundo continuava perfeito.
Mas eu sabia. E, pelos breves olhares furtivos que a Tininha me lançava por cima dos óculos de sol, ela também sabia. Nada ficaria igual entre nós. Alinhámos uma nova verdade, só nossa, sob o sol abrasador. E agora, carrego-a comigo, um segredo quente e pegajoso, enquanto finjo normalidade ao lado deles como se nada tivesse acontecido.
