O caminho de volta foi longo. Eu caminhava sozinho pela estrada vazia enquanto o sangue começava a secar nas minhas roupas e nas mãos. Parte dele era meu, a maior parte não. Meus passos eram lentos, a noite permanecia imóvel ao meu redor, mas dentro da minha cabeça, a voz de Angela ainda ecoava.
"Se um dia se cansar da coleira de Elana..."
Fechei os olhos por um instante, continuei andando.
"Sempre haverá espaço no meu canil para você."
Canil, só de lembrar daquela palavra, aquele ódio vinha a tona.
"Isso é um defeito terrível para um animal como você."
Animal.
"Quando eu estiver por perto, você abaixa a cabeça, entendeu?"
Apertei os punhos.
"Não toque em mim sem permissão."
Minha respiração ficou mais pesada.
"Maldito... cachorro... imundo..."
As palavras continuavam voltando, eu tentava ignorá-las. O vento soprava contra meu rosto enquanto eu caminhava, mas nem mesmo o frio cortante era capaz de afastar aquela sensação. Angela realmente me via apenas como um animal?
Maxim apareceu nos meus pensamentos, ela disse que sentia inveja de mim. Inveja, por quê? Do que exatamente? Da confiança de Elana? Da liberdade que acreditava que eu possuía? Eu nunca me senti livre.
Lembrei de Natasha, o sorriso, as brincadeiras, as provocações, os olhos cheios de desejo. Natasha realmente gostava de mim? Ou eu era apenas mais uma distração divertida? Mais uma experiência exótica para alguém acostumada a conseguir tudo o que queria?
Como Elana me vê?
Meus passos diminuíram.
Rocky surgiu na minha memória, o sorriso dela, as risadas despreocupadas, ela abandonou tudo, mas vive da forma que escolheu. Livre, a palavra permaneceu ecoando. Eu nunca fui livre, sempre existiu alguém dizendo para onde eu deveria ir, o que deveria fazer, quem deveria matar.
O vento continuava soprando, mesmo perdido nesses pensamentos, eu não cheguei a conclusão nenhuma.
Quando finalmente cheguei à organização, alguns guardas me observaram em silêncio, nenhum deles perguntou o que havia acontecido. Apenas me conduziram imediatamente até o escritório de Elana. Ela estava sentada atrás da mesa, os olhos dela passaram rapidamente pelo sangue que cobria minhas roupas.
— Missão concluída? — ela perguntou, um sorriso de canto.
Assenti. O sorriso dela aumentou.
— Bom trabalho, para a sua próxima missão...
Antes que ela continuasse, a interrompi.
— O que eu sou para você?
Elana me observou durante alguns segundos. Sem hesitação, ela respondeu.
— Minha arma mais valiosa.
Assenti, baixei a cabeça, como sempre. Elana continuou me observando por alguns segundos antes de abrir outra pasta.
— Temos um novo trabalho, Bianca entrou em contato novamente.
Bianca, lembrei imediatamente do sorriso exageradamente simpático.
— Ela ficou extremamente satisfeita com os serviços anteriores — Elana folheou algumas páginas. — Está disposta a pagar uma quantia absurda por um novo contrato.
Ela ergueu os olhos.
— E exigiu especificamente você.
Permaneci em silêncio.
— Quero que tome um banho, troque de roupa e parta imediatamente.
— Sim, senhora.
Virei as costas, caminhei até a porta, minha mão alcançou a maçaneta manchando-a de sangue. Abri a porta e saí da sala. Obedeci, como sempre, me limpei e fui a caminho até a propriedade de Bianca, a viagem foi extremamente silenciosa para quem observasse de longe, mas barulhenta internamente, na minha cabeça.
"Minha arma mais valiosa."
Porque quanto mais perguntas eu fazia, menos respostas eu tinha? Ela não hesitou nem por um segundo em me chamar de arma, ao menos refletiu a minha importância em sua vida. Fechei os olhos por alguns segundos, não podia mais deixar as emoções tomarem conta, assim como Elana disse, emoções atrapalham, induzem a erros inevitáveis.
A propriedade surgiu no horizonte muito maior do que a maioria das mansões que eu já havia visitado. Jardins impecáveis cercavam o edifício principal. Fontes ocupavam espaços. Esculturas, iluminação sofisticada, carros caros estacionados.
Tudo ali transmitia excesso, nada parecia necessário, tudo parecia luxo. Quando o carro finalmente parou diante da entrada principal, ela já estava me esperando. Assim que me viu, abriu um sorriso, um sorriso genuíno.
— Sabia que você viria — ela se aproximou, parando na minha frente.
— Senhorita Bianca — assenti, em reverência.
— Senti sua falta, sabia?
Sentia minha falta? Pelo que eu poderia proporcionar ou sentia minha falta como pessoa? Ela usava um vestido rosa elegante e exagerado, joias nada discretas e um perfume caro que reconheci imediatamente. Ela segurou meu braço e começou a me conduzir para dentro da mansão, como se já tivesse decidido que eu ficaria ali pelo resto da noite.
O interior era ainda mais exagerado do que o exterior, repleto de móveis que provavelmente custavam mais do que prédios inteiros do Lixão. As paredes reluziam como se fossem pintadas a ouro.
— Gostou de alguma coisa? Está muito observador.
— Aqui é grande.
— Só grande? — ela levou uma das mãos ao peito. — Essa é a forma mais sem graça possível de descrever este lugar.
— É bonito também.
— Bonito? — ela perguntou, estreitando os olhos. — Elegante? Luxuoso? Exclusivo?
— Também.
— Esperava uma reação melhor.
— Esperava?
— Todos os meus amigos que vêm aqui ficam deslumbrados com tudo isso.
Observei os arredores de novo.
— Eles nunca viram uma mansão antes?
Ela me observou por um segundo, sem palavras, pelo olhar, não sabia se estava tentando ficar ofendida ou apenas processando o que eu havia dito, no fim, acabou rindo.
— Por isso que eu gosto de você, não se surpreende com tão pouco.
Na verdade, aquelas coisas caras não faziam nenhum sentido para mim, muito menos um pedaço de pedra esculpido por algum idiota já morto que os outros julgam ser um gênio da escultura.
Pela primeira vez naquela noite, senti o canto da boca ameaçar subir, Bianca percebeu imediatamente.
— Ah — ela apontou para mim. — Quase aconteceu.
— O quê?
— Um sorriso.
Balancei a cabeça.
— Hoje você está tão sério quanto a primeira vez que te vi.
— Estou normal, como sempre fui.
O sorriso dela aumentou. Pouco tempo depois, estávamos sentados em uma sala reservada, um sofá espaçoso e, à frente, uma mesa repleta de bebidas, comida e música baixa preenchiam o ambiente.
Bianca bebia uma taça de vinho atrás da outra. Quando não estava bebendo, estava comendo. Quando não estava comendo, experimentava outra bebida. Parecia existir uma necessidade constante de ocupar a boca com alguma coisa, nada permanecia muito tempo intocado sobre a mesa.
— Então, quem eu preciso matar? — quebrei o silêncio.
— Hum? — Bianca estava de boca cheia, mastigava rápido tentando engolir a comida. — Dessa vez, ninguém.
— O que eu preciso fazer?
— Nada.
— Então por que estou aqui?
— Para me fazer companhia.
Respirei fundo.
— Você gastou uma fortuna só para ter a minha companhia?
— Sim.
— Isso não faz sentido.
Bianca deu de ombros e levou outra coisa à boca.
— Nem tudo precisa fazer sentido.
Desviei o olhar, pensei em levantar e ir embora.
— Eu paguei uma fortuna para ter você aqui essa noite, então é melhor ficar sentado aí e conversar comigo, ok? — ela pegou uma garrafa de champagne e encheu a taça.
O silêncio veio logo depois, durou alguns segundos.
— Você sabe qual é o seu problema? — Bianca esvaziou a taça no mesmo segundo em que a encheu. — Você não aproveita nada.
Não respondi, o que eu tinha para aproveitar ali?
— Experimenta alguma coisa — ela apontou para a mesa.
— Não estou com fome — falei observando a quantidade absurda de comida espalhada.
— Isso nunca me impediu de comer.
Aquilo me arrancou um olhar.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Comendo mesmo sem precisar.
— Não é sobre precisar — ela sorriu, Bianca girou a taça entre os dedos. — É sobre querer.
Olhei para ela.
— Por exemplo, eu quis ter você essa noite comigo, então aqui está você.
— Elana disse que você queria especificamente a mim, mas por quê?
— Porque eu posso, porque eu quero — ela largou a taça na mesa. — Mas estou começando a me arrepender.
— Se arrepender?
— Sim, você estava mais divertido na primeira vez que nos conhecemos — ela serviu mais vinho na taça e tornou a beber. — Agora estamos tendo essa conversa entediante, e você está com a mesma cara desde que chegou, alguma coisa está te incomodando?
Olhei para as minhas mãos, a cabeça baixa, o polegar tocou o anel de Rocky.
— Já se sentiu presa alguma vez?
— Presa? — ela pensou um pouco.— Não, nunca.
— Então mesmo se eu explicar, você não vai entender.
— É, que seja — ela tomou o vinho novamente. — Somos de mundos diferentes, você segue ordens e eu faço o que eu quero.
Os olhos dela repousaram em mim.
— Se eu quiser, eu posso comprar você, posso fazer um acordo irrecusável com Elana e você passa a ser meu.
Aquele ódio, voltou a crescer. Por que todas insistem em me tratar assim? Porque elas insistem em me tratar como se eu fosse uma posse delas?
Bianca largou novamente a taça e pegou a garrafa de vinho que estava pela metade, se levantou e se sentou ao meu lado no sofá.
— Vamos cortar esse papo entediante e te alegrar um pouco — ela me ofereceu a garrafa. — Você não comeu e nem bebeu nada desde que entrou, bebe isso.
Peguei a garrafa instintivamente, mas hesitei na hora de beber. Bianca me encarou, fez um gesto para eu tomar, obedeci. Virei a garrafa e a sequei em segundos. Bianca agora sorria, levou o dedo até o canto da minha boca para recolher um pouco do vinho que escorreu.
— Isso, bom garoto — ela levou o dedo molhado com o vinho até a própria boca.
Ela se levantou e pegou mais uma garrafa, abriu e me ofereceu.
— Está querendo me embebedar? — perguntei, desconfiado.
— Sim, quero ver se o Sangue bêbado é mais divertido que o sóbrio.
Balancei a cabeça e ri.
— Ei, isso foi um sorriso? — Bianca bateu palmas, rindo. — O primeiro sorriso da noite.
Não respondi, apenas virei a garrafa e tomei um pouco menos na metade. Os minutos seguintes foram basicamente isso, Bianca abrindo mais garrafas me forçando a beber...
Não, ela não forçou nada, ela me deu uma ordem para beber e eu estava apenas cumprindo. Por um momento, conforme fui ficando embriagado, esqueci de tudo, mas Rocky ainda permanecia na minha cabeça. Tive uma breve sensação de estar livre.
É assim que ela se sentia?
Em algum momento, um pouco de vinho escorreu pelo queixo de Bianca indo até o meio dos seus peitos. Ela mordeu o lábio e sinalizou o rastro vermelho para mim, me dando a ordem de limpá-la. A agarrei ali mesmo, lambi o vinho entre seus peitos, subindo até o pescoço, chegando em sua boca, o beijo foi imediato, porém lento. Ela respondeu o beijo agarrando minha nuca, a mão subiu um pouco mais e apertou meu cabelo.
Sem nos separarmos, Bianca fez outro movimento, a mão inclinou a garrafa de vinho, derramando uma quantidade generosa sobre seus peitos, que se espalhou pelo corpo e manchando o vestido rosa. Vi a forma dos mamilos eretos por baixo do tecido, ela recuou um pouco do beijo, o olhar direto para a sujeira que acabou de fazer intencionalmente.
A agarrei pela cintura, num movimento rápido, deslizei as alças finas do vestido pelos ombros e o tecido molhado cedeu, descendo e expondo os peitos cheios e brancos, agora salpicados com o líquido escarlate. Não perdi tempo, abaixei a cabeça e levei um dos peitos até a boca, chupando com força. O sabor era uma mistura intoxicante do vinho doce e do perfume na pele quente. Usei a língua para limpar cada gota, ao mesmo tempo ouvindo a sinfonia dos gemidos de Bianca. Passei para o outro peito, repetindo o tratamento, as minhas mãos a apertaram pela cintura, puxando-a mais contra mim.
Com um movimento decisivo, a levantei e a deitei de costas no sofá enquanto me movia para me ajoelhar no chão, ela ergueu um pouco o corpo e se livrou por completo do vestido molhado. Abri as pernas dela com as mãos, inclinei a cabeça e mergulhei a língua fundo em sua buceta melada, chupei com vontade, o sabor dela misturando com o vestígio de vinho que ainda permanecia na sua pele. Ela arqueou as costas, as mãos agarrando o meu cabelo, me empurrando para baixo. Nesse momento, senti um líquido caindo sobre a minha cabeça e os ombros. A garrafa que nunca havia saído de suas mãos, ela derramou o resto do vinho sobre o próprio corpo, escorria pelo abdômen e se junto a mistura de fluidos e saliva entre as pernas.
Lambi tudo, aquela mistura mexia com os meus sentidos. Depois me levantei, de uma vez tirando as roupas, meu pau duro saltou para fora, me encaixei entre suas pernas e penetrei, ela estava ofegante, os lábios entreabertos, o peito subindo e descendo de prazer. Meu pau entrava pouco a pouco enquanto os gemidos dela se intensificavam, ao mesmo tempo as mãos delas agarravam meu antebraço e apertavam.
Comecei a meter, tirava tudo e enfiava de uma vez, fazendo o som dos nossos corpos se chocando tomar a sala. Me inclinei e a beijei novamente, uma das minhas mãos apertava um seio, o polegar esfregava o mamilo, a outra mão apertava sua boca, ela abocanhou meu polegar e começou a chupar.
De repente, ela me empurrou virando nós dois sobre o sofá com uma força que me surpreendeu. Agora era ela por cima, com os joelhos no sofá. Ela se levantou um pouco, meu pau havia escapado de dentro naquela virada. Ela agarrou e alinhou novamente em sua buceta, sentou com força, engoliu minha pica inteira de uma só vez. Bianca gritou de prazer, as mãos dela se apoiaram firmemente no meu peito, as unhas cravaram na minha pele. Ela passou a rebolar, subindo e descendo, desordenadamente, cada movimento mais profundo e mais intenso que o anterior. Olhei para ela, para a forma como o corpo se movia, para a expressão de êxtase no rosto dela.
Por um momento, senti que aquilo não tinha fim, parecia que minha percepção de tempo havia se reduzido, observei seus peitos balançando lentamente na minha frente, fiz o movimento para agarrá-los, minhas mãos também se moviam devagar. A cabeça rodava, tive a sensação de ser apenas um espectador assistindo tudo ao meu redor em câmera lenta.
Senti a primeira contração de sua buceta, ela começou a gozar no meu pau, as unhas se afundaram um pouco mais na minha carne enquanto as pernas tremiam. Logo, eu também estava quase no limite, agarrei sua bunda e meti algumas vezes, logo a enchi de esperma, começamos a gozar juntos.
Na medida que meu pau latejava, a buceta dela me apertava. Ela colapsou em cima de mim, ofegante, cansada. O tempo parecia ter voltado ao normal, minha cabeça não girava mais, percebi isso com os batimentos cardíacos acelerados que ainda podia sentir no peito dela.
Ela se jogou de lado, deitando no sofá largo e me levando junto com ela, me deitei também e repousei a cabeça em seu peito. O silêncio tomou conta da sala, foi confortável por um tempo, mas me sentia estranho, assim como nos últimos dias. Sentia que não deveria estar ali, sentia que deveria me livrar de algo, como se tivesse um papel de bala no meu bolso que deveria achar um lixo e jogá-lo fora o mais rápido possível.
Bianca permanecia deitada, os dedos passeando lentamente pelo meu cabelo. O sorriso dela era tranquilo, satisfeito.
— Você é um bom garoto, sabia? — ela suspirou em alívio. — É sempre tão obediente.
Ergui a cabeça devagar.
— Isso é algo que se diz para um cachorro, não para uma pessoa.
— Mas não é isso que você é? — ela riu, uma risada leve, despreocupada, como se eu tivesse contado uma piada, ou como se eu fosse a piada ali.
Meu olhar se fixou nela, senti meu peito ardendo enquanto ela continuou sorrindo.
— Você não é o cachorro da Elana que executa ordens sem ao menos questionar?
Meu coração acelerou, como aquela noite com Angela, um silêncio infernal tomou conta do ambiente.
Angela. Maxim. Natasha. Elana.
A mesma ideia, sempre a mesma ideia. O cachorro da Elana.
Senti alguma coisa se mover dentro de mim, como se estivesse quebrando por dentro, uma rachadura, uma fissura que já existia havia muito tempo. Bianca pareceu notar algo diferente, o sorriso diminuiu.
— Sangue?
Não respondi.
— Ei...
Então alguma coisa finalmente se rompeu.
...
Quando voltei a perceber o mundo ao meu redor, estava de pé, minha respiração era pesada, as mãos tremiam, a sala parecia diferente, olhei para baixo.
Um líquido vermelho tingia as paredes, o chão, o sofá, minhas mãos, meus braços, a roupa jogada no chão. Um líquido vermelho como o vinho, mas o cheiro era metálico.
Bianca estava jogada no chão, não se movia, o rosto se tornou uma massa de carne, irreconhecível e coberta pelo líquido vermelho.
Sangue, sangue da Bianca.
Passei as mãos no rosto, minha cabeça latejava de dor. Como aquilo foi acontecer? Eu fiz aquilo? Não conseguia lembrar de nada, como se por um momento tivesse um lapso na linha do tempo. Eu apenas pisquei e então, ela estava daquele jeito.
A frase voltou ecoando dentro da minha cabeça.
O cachorro da Elana.
O cachorro da Elana.
O cachorro da Elana.
Baixei o olhar para as minhas próprias mãos. O que eu era? Quem eu era? Aquele vazio voltou. Meu estômago revirou, agachei e comecei a vomitar todo o vinho que havia bebido com Bianca.
...
Elana...
Precisava voltar para ela.
O mundo parecia lento de novo, percebi quando estava vestindo minha roupa, percebi quando me sentei para calçar os sapatos.
Não olhei para Bianca novamente, a mulher que poucas horas antes sorria, bebia e falava sem parar agora era apenas mais um corpo. Abri a porta e saí caminhando, como se nada tivesse acontecido, meu corpo simplesmente agia assim. O corredor parecia silencioso demais, dei alguns passos, ouvi vozes, um dos seguranças virou o corredor e congelou quando me viu, o olhar dele desceu para minhas roupas, mãos, observando o sangue.
O homem percebeu, sacou a arma, mas sequer chegou a apontar. Meu golpe o atingiu primeiro, o corpo caiu. Outro segurança apareceu logo depois, depois outro, depois mais dois. Não lembro exatamente quantos, mas comecei a fazer o que fazia de melhor, matar.
Quando finalmente alcancei a saída, o caminho atrás de mim estava coberto por corpos, mas eu não sentia nada, nem raiva e nem alívio, sequer culpa. A viagem de volta pareceu durar uma eternidade, as luzes da cidade passavam pela janela, eu mal percebia.
O cachorro da Elana.
O cachorro da Elana.
O cachorro da Elana.
A frase continuava voltando.
Quando os portões da organização surgiram diante de mim, percebi imediatamente que algo estava errado, os guardas já estavam esperando, armados e preparados. De alguma forma, a notícia havia chegado antes de mim.
O primeiro grupo bloqueou meu caminho, continuei caminhando, eles gritavam para eu parar, mas o grito deles mais parecia um zumbido de uma mosca. Eles continuaram gritando, para parar, para ajoelhar, para deitar no chão com as mãos para trás.
Eles não cansavam de dar ordens, sempre ordens, sempre me falando para fazer alguma coisa.
Os homens trocaram olhares e então avançaram, o primeiro tentou me agarrar, foi ali que aquele corredor explodiu em violência. Gritos. Tiros. Sangue. Corpos. Por anos eu fui a arma da organização. Naquela noite, essa mesma arma estava apontada para eles. .
Continuei avançando, até finalmente chegar diante da sala principal, a porta já estava aberta. Elana me esperava, de pé, imóvel, os olhos queimando de raiva. Pela primeira vez desde que me encontrou no Lixão, ela estava verdadeiramente furiosa.
— O que aconteceu com você? — ela esbravejou.
Não respondi.
— Bianca está morta.
Silêncio.
— Você enlouqueceu?
Continuei parado, as mãos dela se fecharam sobre a mesa.
— Eu estou falando com você!
A voz ecoou pela sala.
— Por quê? — ela exigiu. — Por que matou Bianca?
Continuei olhando para ela, distante, vazio, quebrado. A raiva de Elana só aumentava.
— Responde!
Minha voz saiu baixa.
— O que eu sou para você?
A pergunta pareceu pegá-la desprevenida, por um instante, ela apenas me encarou.
— Essa pergunta idiota de novo?
— O que eu sou para você?
O silêncio voltou, então ela soltou uma risada curta, sem humor algum, Elana passou a mão pelos cabelos, irritada, impaciente.
— Você é minha arma.
Aquele ardor no peito surgia novamente.
— Meu melhor soldado.
A raiva aumentava.
— O homem mais perigoso que eu já treinei.
Eu abaixei o olhar, não era a resposta que esperava ouvir. Dei um passo à frente.
— Você está começando a esquecer quem te tirou daquele inferno.
Levantei os olhos, minha mão encontrou o cabo da faca.
— Quem te alimentou.
Outro passo.
— Quem te treinou.
Mais um.
— Quem transformou um pedaço de lixo em algo útil.
Explodi novamente em raiva, mas dessa vez, me lembrava de tudo. Então avancei, a mesa virou no caminho, Elana já estava se movendo, ela sempre foi rápida, a faca passou onde o pescoço dela estava um instante antes, ela girou o corpo e acertou meu rosto com o cotovelo, sempre prevendo meus movimentos. Minha visão escureceu por um segundo, retribui imediatamente, meu punho encontrou suas costelas. Ela recuou, eu avancei, ela desviou. A lâmina dela apareceu como mágica na mão direita, a faca riscou meu braço, mais sangue escorreu. Continuei avançando.
Mestre contra aluno. Criadora contra criação, anos de treinamento colidindo dentro daquela sala. Golpes de punhos fechados, golpes de faca, joelhadas, chutes, socos, cada movimento que eu fazia, ela já havia me ensinado um dia.
Cada reação dela, eu já conhecia, por isso a luta parecia um espelho quebrado. Nenhum dos dois conseguia vantagem, até que Elana conseguiu distância, só alguns passos, mas bastaram, vi a arma surgir na mão dela.
O primeiro disparo atingiu meu abdômen. O segundo acertou meu ombro. O terceiro atravessou minha coxa. O quarto atingiu meu braço.
Minhas pernas vacilaram, quase caí. O sangue escorria rapidamente, a visão começou a embaçar, Elana manteve a arma apontada para mim, respirando pesado, o rosto tomado pela fúria.
— Como ousa?
A voz dela tremia.
— Como ousa me atacar?
Outro passo.
— Seu verme inútil.
Mais um.
— Você era só um pedaço de lixo que eu achei por aí.
As palavras ecoaram, lixo, arma, soldado, cachorro.
— Como ousa se virar contra mim depois de tudo que eu fiz por você?
Ela baixou a arma lentamente, convencida de que tinha vencido. Eu mal conseguia ficar de pé, ela se aproximou, foi então que cai de joelhos. Ela deu mais alguns passos com a lâmina em mãos para me finalizar. Ela chegou perto o suficiente, foi quando usei tudo que ainda restava. Reprimi toda a dor, toda a raiva e juntei o restante de força que tinha, avancei. Os olhos dela se arregalaram, sua faca veio num golpe direto, segurei a lâmina com a mão livre, minha faca atravessou seu pescoço.
Elana tentou falar, nenhum som saiu, o sangue começou a jorrar, os joelhos cederam, os olhos de ódio continuavam fixos em mim. Ela caiu, o sangue escorria de seu pescoço, formando uma poça escura sobre o chão. Meus olhos perderam o foco, e então acabou. Nenhuma sensação de vitória, nenhum alívio, apenas aquele maldito vazio.
Me virei para sair, a porta se abriu violentamente.
— Senhora Elana! — Maxim entrou correndo.
Parou, os olhos encontraram o corpo, o rosto perdeu toda a cor, por um instante ela ficou imóvel, incapaz de compreender o que estava vendo. Então os olhos dela encontraram os meus, o olhar se tornou uma mistura de ódio e frustração junto as lágrimas, ela avançou. A faca surgiu na mão dela quase instantaneamente, desviei do primeiro golpe, do segundo, do terceiro.
Ela não estava tentando vencer, apenas se vingar, por isso os golpes estavam previsíveis. Bloqueei o braço dela, torci, o estalo ecoou pela sala, Maxim gritou e a faca caiu, ela caiu de joelhos logo depois, segurando o braço quebrado.
Me lembrei de Rocky, Maxim estava responsável em investigá-la.
— Onde Rocky está?
— Vai para o inferno — ela me encarou, os olhos inundados com o ódio mais puro.
Ajoelhei diante dela, quebrei o outro braço, o grito foi ainda pior.
— Onde?
Maxim tremia, lágrimas escorriam pelo rosto, ainda assim tentou resistir por alguns segundos até finalmente ceder. Informou a localização, fiquei em silêncio, memorizei cada detalhe. Me levantei.
— Sangue...
Parei.
— Você matou ela...
Olhei para o corpo de Elana, me lembrei de quando a conheci, estava contorcido naquela gaiola de cachorro, desde o início, não era a intenção me tratar diferente disso, um cão. Senti aquela coleira invisível que por tantos anos me sufocou, se desintegrando, aquela coleira que nunca existiu de verdade, mas sempre me guiou no caminho oposto do que eu realmente queria. Retomei os passos e fui embora.
Deixei a organização sozinho, cada passo parecia mais pesado que o anterior, o sangue escorria pelos ferimentos, a camisa estava completamente encharcada. Minha visão falhava, às vezes tudo ficava escuro. Não sabia quanto tempo havia passado, mas continuei andando.
Quando finalmente cheguei ao esconderijo, mal conseguia permanecer em pé, empurrei as inúmeras portas daquele local abandonado, até conseguir achar a sala cheia de monitores e cabos. Ela estava lá, Rocky levantou os olhos, sorriu quando me viu. Ela suspirou em alívio, como se já estivesse me esperando, como sempre soubesse que eu voltaria até ela.
— Eu sabia que você faria a coisa certa — a voz dela era suave, os olhos estavam vermelhos. — Mas demorou muito.
Tentei responder, nada saiu, as pernas falharam e acabei caindo. Antes que pudesse chegar ao chão, ela me segurou em seus braços, me guiou lentamente, primeiro sentado, depois deitado, minha cabeça repousou sobre suas pernas.
Aquela sensação de dever cumprido me tomou, um alívio por ver Rocky, o seu sorriso ao me ver entrando naquele prédio abandonado. Pela primeira vez em muitos anos, eu estava em paz.
Então isso que era liberdade? Isso que era paz?
Os dedos dela deslizaram pelo meu cabelo, devagar, com cuidado, então as lágrimas dela começaram a cair. Uma delas atingiu meu rosto.
— Era para ter sido diferente — outra lágrima. — Se tivesse fugido comigo naquela noite...
Tentei abrir os olhos, tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa. Mas o corpo não obedecia mais, meu coração batia devagar, cada vez mais fraco. Respirar estava ficando difícil.
Como teria sido? Como teria sido a vida se eu tivesse fugido com Rocky naquela noite?
Maldito senso de dever, atrasei a minha própria liberdade.
Rocky continuou acariciando meu cabelo, continuou chorando, continuou segurando minha mão até a escuridão tomar conta de tudo.
...
O que ela fez quando percebeu que meu coração havia parado?
O que ela fez quando percebeu que eu não respirava mais?
Será que permaneceu ali por muito tempo?
Será que enterrou meu corpo?
Será que existia uma cova especial?
Será que alguém visitou meu túmulo algum dia?
Tarde demais para pensar nisso.
Tarde demais para imaginar que alguém além de Rocky pudesse se importar comigo.
Então o mundo desapareceu.
E pela primeira vez desde o Lixão, eu estava livre.
