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Vestiário

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Um conto erótico de Gabriel Rocha
Categoria: Gay
Contém 4697 palavras
Data: 21/06/2026 13:36:30
Assuntos: Gay

André respondeu primeiro a Rafael.

Ficou encarando a mensagem por quase um minuto, como se uma carona fosse uma decisão maior do que era.

RAFAEL

Sábado que vem eu posso te dar carona.

André digitou:

ANDRÉ:

Pode.

Apagou.

Digitou outra:

ANDRÉ:

Se não for desviar muito.

Apagou também.

No fim, mandou apenas:

ANDRÉ:

Pode. 9h20?

Rafael visualizou quase imediatamente.

RAFAEL:

9h20.

Nada de emoji. Nada de brincadeira. Nada de provocação. Rafael conseguia fazer até uma confirmação de horário parecer uma parede.

Depois André abriu a conversa de Caio.

CAIO:

Sábado chega cedo. Quero te mostrar uma coisa antes do jogo.

André respondeu:

ANDRÉ:

Que coisa?

Caio demorou menos de dez segundos.

CAIO:

Se eu contar, você não chega cedo.

ANDRÉ:

Isso não é exatamente um bom argumento.

CAIO:

Confia em mim.

André riu sozinho.

ANDRÉ:

Não.

Caio respondeu:

CAIO:

Sábio. Mas chega cedo mesmo assim.

André travou. Olhou para a conversa de Rafael. Carona às 9h20. Olhou para a de Caio. Chegar cedo. Não dava para fazer as duas coisas sem transformar o sábado num pequeno tratado de logística do desejo.

Digitou para Caio:

ANDRÉ:

Vou de carona com Rafael.

A resposta não veio de imediato.

Quando veio, perdeu a piada.

CAIO:

Claro que vai.

André ficou encarando a frase.

Depois Caio mandou outra:

CAIO:

Então ele te mostra.

E sumiu.

Naquela noite, André dormiu pouco. Não por ansiedade comum. Era mais baixo, mais corporal. Havia algo nele antecipando cheiro, calor, suor, voz. Como se o sábado já tivesse começado por dentro da pele.

Às 9h10, estava pronto.

Camiseta azul-escura. Bermuda preta. Chuteira na mochila. Toalha limpa. Uma troca de roupa. Desodorante. Ficou parado diante do espelho do quarto e se sentiu ridículo por parecer arrumado demais para um jogo de futebol amador. Tentou bagunçar o cabelo. Piorou. Passou a mão de novo. Desistiu.

Às 9h19, o celular vibrou.

RAFAEL:

Cheguei.

André desceu.

O carro de Rafael era uma picape antiga, limpa, com marcas de uso real: painel arranhado, garrafa de água no console, flanela no banco de trás, cheiro de café frio, couro aquecido e algum perfume amadeirado que parecia mais grudado no homem do que no veículo.

Rafael estava ao volante, de camiseta branca, bermuda esportiva e boné. Sem luvas, sem trave, sem a solenidade do gol, ele parecia menos inalcançável. Mas só até André entrar. De perto, no espaço fechado do carro, a presença dele mudava de forma. Ficava mais densa.

— Bom dia — André disse.

— Bom.

Rafael engatou a marcha.

Silêncio.

Não era um silêncio vazio. Era ocupado. O braço de Rafael no volante, os dedos firmes, a veia discreta no antebraço, o cheiro limpo de banho recente misturado ao calor da manhã. André olhava pela janela para não olhar demais para dentro.

Depois de três quarteirões, Rafael falou:

— Caio te mandou mensagem.

André virou o rosto.

— Pergunta ou constatação?

— Constatação.

— Então você não precisa que eu responda.

Rafael manteve os olhos na rua.

— Ele sempre manda.

— Para todo mundo?

— Não desse jeito.

André sentiu uma vontade perigosa de sorrir.

— Que jeito?

— Você sabe.

— Eu gosto quando vocês dizem que eu sei coisas que ninguém explica.

Rafael respirou fundo, como se escolhesse não discutir.

— Caio gosta de testar limite.

— E você?

— Eu gosto de saber onde está a linha.

— Para não passar?

Rafael olhou rapidamente para ele.

— Para saber o que estou fazendo quando passar.

A frase caiu no carro com peso.

André sentiu o corpo responder antes de ter uma ideia clara. Uma contração baixa, um calor subindo, a lembrança do quase beijo no fundo do bar. Rafael voltou a olhar para frente, mas o canto da boca denunciou que ele sabia exatamente o que tinha feito.

— Você fala pouco — André disse —, mas quando fala é uma covardia.

— Você prefere o Caio?

A pergunta veio seca demais.

André virou de vez.

— Isso é ciúme?

— É pergunta.

— Não. É ciúme usando uniforme de pergunta.

Rafael ficou em silêncio.

André decidiu não salvar o momento.

— Eu não prefiro ninguém. Eu nem sei o que está acontecendo.

— Sabe o suficiente para voltar.

— Isso vale para você também.

Rafael apertou o volante.

— Eu volto há anos.

— Mas agora me buscou em casa.

A picape parou num semáforo.

Rafael olhou para André. Não havia defesa suficiente naquele espaço pequeno. O carro parecia mais estreito. A rua, distante. O vermelho do semáforo demorava demais.

— Busquei — ele disse.

Só isso.

André sentiu a palavra como toque.

O sinal abriu.

A quadra apareceu depois de alguns minutos, com a grade já aberta e dois homens fumando na entrada. Marcelo ainda não tinha chegado, o que era quase poético. Caio estava lá.

Claro que estava.

Encostado no muro, camiseta regata preta, bermuda vermelha, bola debaixo do pé. Ao ver a picape, sorriu. Mas não foi o sorriso inteiro. Foi um sorriso de quem confirmou uma suspeita e não gostou de estar certo.

André desceu primeiro.

— Chegou de carruagem — Caio disse.

— Picape velha — Rafael respondeu, saindo pelo outro lado.

— Para alguns, qualquer coisa vira luxo.

Caio olhou para André ao dizer isso.

— Você falou que ia me mostrar uma coisa — André lembrou.

Caio tirou a bola debaixo do pé.

— Agora não precisa mais.

— Caio — Rafael disse.

— O quê? Você não ia mostrar?

Rafael fechou a porta do carro com força controlada.

— Não começa.

— Começar? Rafael, querido, eu sou continuação.

André olhou de um para o outro.

— Alguém pode traduzir?

Caio sorriu, mas os olhos continuaram tensos.

— Tem um armário no vestiário. O do canto. Era dele.

— Dele quem?

Rafael respondeu antes:

— Ninguém.

Caio riu.

— Ninguém tem nome agora? Interessante.

Rafael deu um passo na direção dele.

— Hoje não.

Caio sustentou.

— Nunca é hoje.

André sentiu a mesma frase rondando de novo: nunca aqui, nunca agora. Caio usava deboche como faca, mas parecia cortar a própria mão junto.

Antes que o clima piorasse, Marcelo chegou gritando do outro lado da rua.

— Família! Atletas! Vagabundos! Hoje é dia de humilhar!

Ele vinha carregando uma sacola de gelo, atrasado, suado e feliz. A realidade voltou ao lugar por alguns segundos.

— André veio com Rafael? — Marcelo perguntou.

— Vim.

— Boa. Economiza Uber. Rafael, agora você é responsável por ele. Se quebrar, devolve inteiro.

Caio murmurou:

— Inteiro já não está.

Marcelo não ouviu.

Rafael ouviu.

André também.

A quadra foi enchendo. Os homens chegaram em ondas, cada um trazendo uma camada nova de barulho e cheiro. O lugar acordava rápido: chuteira raspando no piso, colete sendo jogado, garrafa de água estalando, risada alta, reclamação sobre mensalidade, alguém perguntando se o dono da quadra tinha aumentado de novo.

Marcelo, no meio de tudo, discutia com seu Nivaldo.

— Como assim falta dinheiro?

— Falta, ué.

— Mas eu repassei.

— Então alguém não pagou ou você calculou errado.

— Eu sei calcular, Nivaldo.

— Sabe nada. Você ainda divide conta de bar por aproximação.

André ouviu de longe. Era a primeira vez que a mensalidade parecia mais do que piada. Rafael também escutava, quieto, sentado no banco, colocando a joelheira. Caio embaixava a bola, mas os olhos iam e voltavam para a discussão.

— Isso dá problema — Rafael disse baixo.

André sentou ao lado dele.

— O quê?

— Dinheiro em grupo de homem que se acha amigo.

— Você fala como quem já viu.

— Já.

— Com essa pelada?

Rafael terminou de ajustar a joelheira.

— Com outra coisa.

André ia perguntar, mas Caio chutou a bola contra a parede e a pegou no retorno.

— Vocês dois formam um casal lindo de velório.

André olhou para ele.

— Você quer atenção de quem exatamente?

Caio abriu os braços.

— Hoje? Estou aceitando propostas.

Rafael se levantou.

— Vamos jogar.

Dessa vez, André caiu no time de Rafael.

A informação mudou tudo.

Jogar contra ele era desejo à distância. Jogar com ele era outra espécie de intimidade. Rafael ficava atrás, comandando. André sentia a voz dele nas costas.

— Fecha a direita.

André fechava.

— Não vira de frente para o Caio.

André não virava.

— Deixa passar por fora.

André deixava.

A cada comando, o corpo obedecia antes da razão. Não era submissão. Era jogo. Mas havia uma coisa física em ser orientado por Rafael, em ouvi-lo tão perto, em saber que aquele homem o observava de trás enquanto ele corria, suava, errava, acertava.

Caio percebeu.

E decidiu explorar.

Recebeu uma bola na ponta e partiu para cima de André.

— Vai obedecer ao goleiro agora?

— Se ele estiver certo.

— E se eu estiver?

— Você raramente está.

Caio tentou o drible. André acompanhou. O atacante freou, deixou o corpo chegar perto demais, quase grudado. O cheiro dele era diferente do de Rafael: mais ácido, mais solar, mais jovem no sentido de pressa, não de idade. Suor começando, desodorante cítrico, pele quente.

— Hoje você está bonito — Caio disse baixo.

André falhou meio segundo.

O suficiente.

Caio passou.

Rafael saiu do gol e fechou o ângulo. Caio chutou. Rafael defendeu com o peito, a bola voltou, e Marcelo afastou berrando como se tivesse salvado a pátria.

Rafael levantou e gritou:

— André, não compra provocação!

Caio respondeu:

— Mas ele gostou da oferta!

André sentiu o rosto queimar.

— Vai se ferrar, Caio!

— Melhorou! Agora tem sangue!

O jogo ficou mais físico. André já não era turista. Já tinha corpo suficiente para disputar, errar com dignidade, acertar com surpresa. Sentia a chuteira cravar na grama sintética, a respiração raspar na garganta, o suor descendo pela nuca. E havia o cheiro. O cheiro da quadra parecia mais forte quando ele jogava no time de Rafael. Talvez porque agora tudo o empurrasse para trás, para o gol, para o homem que guardava a linha final.

Aos vinte minutos, um adversário chutou forte. Rafael espalmou. A bola sobrou viva na área. André entrou antes de pensar, travando o chute de outro jogador. O impacto veio na coxa, seco, dolorido. Ele caiu de lado.

— Porra! — André gritou.

Rafael chegou imediatamente.

— Onde pegou?

— Coxa.

— Deixa eu ver.

— Estou bem.

— André.

O nome, dito daquele jeito, fez André obedecer.

Ele se sentou no piso e puxou um pouco a barra da bermuda. A pele já começava a avermelhar. Rafael se agachou diante dele, luvas apoiadas nos joelhos, olhos atentos. Sem erotismo aparente. Só cuidado. Mas o cuidado de Rafael tinha peso. A mão dele, mesmo com luva, tocou a lateral da coxa de André de leve, verificando o local.

Foi um toque rápido.

Insuficiente para qualquer coisa.

Excessivo para o corpo de André.

O calor subiu imediato. Não só pela dor. Pela posição. Rafael agachado entre as pernas dele, concentrado, grande, suado, olhando uma parte de seu corpo com atenção séria. André sentiu o tecido da bermuda ficar estreito demais e odiou a própria reação.

Rafael percebeu.

Porque sempre percebia.

O olhar dele subiu devagar até encontrar o de André.

Não disse “acontece”.

Dessa vez, ficou calado.

Caio apareceu atrás.

— Machucou?

Rafael não tirou os olhos de André.

— Não.

Caio olhou para a mão de Rafael perto da coxa dele, depois para André.

— Sei.

André empurrou o chão e levantou depressa demais.

— Dá para jogar.

Rafael se ergueu junto, perto.

— Tem certeza?

— Tenho.

Caio sorriu sem humor.

— Ele é guerreiro quando tem plateia.

André passou por ele.

— E você é insuportável quando não é o centro.

A frase acertou.

Caio ficou um segundo sem resposta.

Rafael viu. André viu. O jogo voltou.

O time de Rafael ganhou por 3 a 2, com defesa decisiva nos últimos minutos. A vitória veio suja, cansada, comemorada com gritos exagerados. Marcelo levantou os braços, dizendo que sua visão tática tinha mudado o futebol de bairro. Seu Nivaldo xingou todos porque uma bola quase quebrou a lâmpada da entrada.

André saiu da quadra com a coxa latejando e o corpo elétrico.

O vestiário os recebeu como uma boca quente.

Dessa vez, parecia ainda menor. Havia mais homens, mais roupas molhadas, mais vapor, mais barulho. O chão estava escorregadio. Os armários batiam. Alguém reclamava da falta de toalha. Outro ria de uma mensagem da esposa. Marcelo discutia a mensalidade com dois caras, segurando uma lista amassada.

— Tem cento e oitenta reais faltando — ele dizia. — Cento e oitenta não evaporam.

— Caio deve ter apostado em escanteio — alguém falou.

— Vai tomar no cu — Caio respondeu, rindo.

André abriu o armário.

Ao tirar a camiseta, sentiu o tecido desgrudar das costas com resistência. A pele ficou exposta ao ar úmido e frio do vestiário, mas continuava quente por dentro. Ele passou a toalha no rosto e se encostou no armário, tentando não parecer tão consciente de tudo.

Rafael entrou logo depois.

Sem camisa já.

André perdeu a preparação.

O goleiro vinha com a camiseta preta na mão, o peito molhado, a pele marcada pela partida, uma gota de suor descendo do pescoço até o meio do tórax. Não havia pose. Rafael parecia apenas cansado. Isso o tornava mais difícil de olhar e mais impossível de não olhar.

Caio, sentado no banco, viu André ver.

— Hoje o vestiário está educativo — ele disse.

Marcelo, ainda na lista:

— Educativo é vocês aprenderem a pagar em dia.

Caio respondeu:

— Eu pago com presença.

— Presença não paga lâmpada, desgraçado.

Rafael abriu o armário ao lado de André.

De novo.

Agora já não parecia coincidência.

— A coxa? — ele perguntou.

— Está viva.

— Gelo depois.

— Você sempre manda nos corpos dos outros?

Rafael olhou para ele.

— Só quando estão fazendo besteira.

— Então vai ter trabalho comigo.

A frase saiu leve, mas não chegou leve ao corpo dos dois.

Rafael ficou imóvel por um segundo.

Caio levantou do banco.

— Eu vou fingir que não ouvi porque estou tentando amadurecer.

— Vai tomar banho, Caio — Rafael disse.

— Mandão.

— Insuportável.

— Saudade?

Rafael fechou o armário com força.

O vestiário diminuiu de novo.

André, cansado de ser atravessado por história alheia, falou:

— Vocês dois fazem isso sempre?

Caio virou.

— Isso o quê?

— Transformam qualquer frase em briga inacabada.

Rafael olhou para André, surpreso.

Caio sorriu, mas não inteiro.

— E você transforma qualquer briga em convite?

André sustentou.

— Talvez eu só esteja tentando entender onde entrei.

Caio se aproximou. Sem camisa, suor ainda secando no peito, toalha jogada no ombro. Parou perto demais para ser casual.

— Entrou no vestiário, André. Aqui ninguém entende nada. Só finge que sim.

Rafael deu um passo.

— Caio.

André levantou a mão, sem olhar para Rafael.

— Deixa.

Caio pareceu gostar.

— Corajoso.

— Cansado.

— De mim?

— De vocês dois me tratando como se eu fosse bola dividida.

A frase ficou no ar.

Rafael abaixou os olhos. Caio perdeu o sorriso por completo.

Por alguns segundos, só existiram os ruídos: chuveiros, sacolas, vozes, o metal dos armários, Marcelo xingando a própria planilha de pagamentos.

Depois Caio falou baixo:

— Justo.

E foi para o chuveiro.

Rafael permaneceu ao lado de André.

— Você tem razão — ele disse.

André olhou para ele.

— Eu sei.

Quase um sorriso passou pelo rosto de Rafael.

— Convencido.

— Estou aprendendo com o grupo.

Rafael pegou a toalha.

— Vou pegar gelo depois.

— Para minha coxa?

— Para a tua coxa.

— Eu posso pegar.

— Eu sei.

— Mas você vai pegar mesmo assim.

— Vou.

André sentiu uma ternura perigosa atravessar o desejo. Era mais fácil lidar com Rafael quando ele era só corpo. Mais difícil quando virava cuidado.

Foi para o banho.

A água bateu na pele com força, descendo pelo rosto, peito, barriga, coxa dolorida. André apoiou as mãos no azulejo e fechou os olhos. Ao redor, os homens falavam, riam, se ensaboavam, se enxugavam. A nudez ali era direta, cotidiana, e justamente por isso o atingia. Nada era encenado. Corpos cansados eram mais verdadeiros que corpos posados. Havia barrigas, cicatrizes, pelos, marcas de meia, ombros vermelhos de sol, joelhos ralados, respirações pesadas. Havia vida demais.

André ouviu o chuveiro ao lado abrir.

Não precisou olhar para saber que era Rafael.

O cheiro mudou.

Sutil, mas mudou.

Sabonete misturado à pele dele, suor se desfazendo na água, calor próximo. André manteve os olhos fechados. Sentia a presença de Rafael como se a divisória não existisse.

— Você ficou bravo — Rafael disse.

— Fiquei.

— Comigo?

— Também.

— E com ele?

— Também.

— E consigo?

André abriu os olhos.

— Principalmente.

Silêncio.

A água continuou caindo.

Rafael falou:

— Eu não queria te colocar nisso.

André riu baixo.

— Rafael, você não me sequestrou. Eu vim de chuteira própria.

Do outro lado, ouviu algo parecido com riso.

— Chuteira limpa demais.

— Já está suja.

— Está.

A palavra veio baixa.

André virou o rosto.

Pela abertura lateral, viu apenas parte de Rafael: ombro, braço, água correndo pela pele, a cabeça inclinada. Nada explícito. Mas a proximidade era indecente. O vapor fazia o contorno dele parecer uma coisa viva demais, quase palpável.

— Você ainda tem medo de muita coisa? — André perguntou.

Rafael demorou.

— Tenho.

— De mim?

— Um pouco.

— Por quê?

O chuveiro de Rafael continuou aberto. Ele não respondeu logo.

— Porque com você eu penso menos antes de agir.

André sentiu a frase descer pelo corpo com a água.

— E isso é ruim?

— Para um goleiro, é péssimo.

— Talvez você precise sair do gol às vezes.

Rafael desligou o chuveiro.

O silêncio que veio depois foi pior que o som da água.

André desligou o dele também.

Quando saiu, o vestiário estava mais vazio. Parte dos homens já tinha ido para o bar. Marcelo ainda discutia com dois jogadores na porta, falando de dinheiro e campeonato. Caio não estava à vista.

Rafael estava diante do armário, de toalha na cintura, secando o cabelo.

André foi até o seu, pegou outra toalha, enxugou o peito, a nuca, a coxa. Sentia Rafael perto sem olhar.

— Senta — Rafael disse.

— O quê?

— Gelo.

Rafael tinha uma bolsa pequena na mão.

André olhou para o banco.

— Aqui?

— Não tem maca, jogador.

André sentou.

Rafael se agachou diante dele outra vez.

A cena se repetia, mas agora sem quadra, sem urgência, sem desculpa suficiente. André estava apenas de toalha, pele ainda úmida, a coxa exposta. Rafael também quase nu, grande, próximo, segurando gelo envolto em pano. O vestiário, antes cheio, agora parecia suspenso.

— Onde pegou? — Rafael perguntou.

André apontou.

Rafael encostou o gelo.

A dor fria veio imediata.

André inspirou forte.

— Arde.

— Segura.

— Você fala isso para todo mundo?

Rafael levantou os olhos.

— Não.

O corpo de André reagiu com uma honestidade constrangedora. A toalha sobre a cintura tornou-se frágil, insuficiente para esconder o efeito daquela proximidade. O frio na coxa e o calor do resto do corpo brigavam. Rafael viu. Desta vez, André não tentou disfarçar tanto.

Rafael manteve o gelo no lugar.

A mão dele estava firme. O rosto, sério. Mas a respiração mudou.

— André — ele disse.

— Fala.

— Eu estou tentando fazer certo.

— E o que seria certo?

— Não te usar para esquecer o Caio.

— Então não usa.

Rafael engoliu seco.

— Não te puxar para uma coisa confusa.

— Já está confuso.

— Não te beijar no vestiário feito moleque sem controle.

André inclinou o corpo um pouco para frente.

— Essa parte parece específica.

Rafael olhou para a boca dele.

— É.

O som de Marcelo vinha distante, lá fora, reclamando:

— Cento e oitenta reais, gente! Não é sobre dinheiro, é sobre princípio!

O mundo comum insistia.

Mas ali, entre o banco de madeira, os armários molhados, a toalha, o gelo e a respiração dos dois, não havia princípio nenhum que resistisse muito.

André falou baixo:

— Você quer?

Rafael fechou os olhos por meio segundo.

Quando abriu, algo tinha cedido.

— Quero.

— Então para de falar como se eu não pudesse escolher.

Rafael largou o gelo no banco.

Subiu a mão para a lateral do rosto de André, ainda molhada do banho, e o beijou.

Não foi delicado.

Também não foi brutal.

Foi contido por tempo demais.

A boca de Rafael veio quente, firme, com gosto de água, cerveja distante e vontade engolida. André respondeu no mesmo instante, como se o corpo estivesse esperando antes da cabeça. A mão dele subiu para o ombro de Rafael, sentindo a pele úmida, a força sob os dedos, o músculo vivo. Rafael se aproximou mais, entre as pernas dele, e o banco rangeu.

O beijo ganhou peso.

Não havia mais o quase.

Havia boca, barba roçando, respiração falhando, mão procurando lugar, pele molhada, toalha ameaçando ceder, o corpo de André denunciando sem pudor o que Rafael causava. Rafael percebeu e apertou a mão em sua nuca, como se aquela reação o tirasse ainda mais do controle.

André sentiu a presença dele inteira: o peito próximo, a coxa encostando na dele, o calor do corpo recém-saído do banho. O vestiário tinha cheiro de sabonete barato, suor antigo e desejo novo. O metal frio do armário tocava suas costas. A boca de Rafael desceu para o canto do seu maxilar por um segundo, e André soltou um som baixo, quase irritado consigo mesmo.

Rafael parou.

Encostou a testa na dele.

Os dois respiravam como depois de corrida.

— Merda — Rafael murmurou.

André riu sem fôlego.

— Péssima avaliação.

Rafael quase sorriu.

Então uma voz veio da entrada:

— Eu sabia.

Caio.

André fechou os olhos.

Rafael se afastou, mas não rápido o suficiente para fingir qualquer coisa. Caio estava parado perto dos armários, vestido só com a bermuda, camiseta na mão, cabelo molhado, expressão impossível de ler.

Não parecia surpreso.

Parecia ferido por confirmar.

— Caio — Rafael disse.

— Não. Continua. Eu interrompo muito, né?

André se levantou, ajeitando a toalha com firmeza.

— Você não precisa fazer isso.

Caio olhou para ele.

— Isso o quê?

— Transformar dor em espetáculo.

A frase acertou mais fundo do que André pretendia.

Caio riu baixo, sem alegria.

— Vocês se merecem. Um se esconde atrás do silêncio, o outro atrás da lucidez.

Rafael passou a mão pelo rosto.

— Não é sobre você.

Caio virou para ele, rápido.

— Mentira. Com você, sempre é sobre o que você não quer admitir. Aí todo mundo vira figurante da tua coragem atrasada.

Rafael deu um passo.

— Eu não te prometi nada.

Caio sorriu de um jeito feio.

— Não. Esse foi o talento. Você nunca prometia. Só fazia o suficiente para eu acreditar sozinho.

O vestiário ficou pequeno demais para os três.

André sentiu o beijo ainda na boca. O corpo ainda aceso. Mas agora havia outra coisa ali, áspera. Ele não queria ser prêmio, vingança, anestesia nem prova.

— Eu vou me vestir — André disse.

Caio olhou para ele.

— Boa. Todo mundo se veste quando percebe que está nu demais.

— Caio.

— O quê?

André pegou a roupa limpa no armário.

— Você me quer ou quer que ele veja você me querendo?

Caio ficou em silêncio.

Rafael olhou para André.

A pergunta era cruel porque era limpa.

Caio baixou os olhos por um segundo. Quando levantou, o sorriso tinha voltado, mas menor.

— Não sei ainda.

André assentiu.

— Quando souber, fala comigo. Não com ele usando meu corpo no meio.

Caio absorveu.

Dessa vez, não rebateu.

Rafael falou baixo:

— André...

— Não.

André vestiu a cueca e a bermuda de costas para os dois, sem pressa, recuperando para si o próprio corpo. Depois colocou a camiseta. A pele ainda guardava a mão de Rafael, o beijo, o frio do gelo, a tensão de Caio. Guardava tudo. Mas ele precisava sair dali inteiro.

Marcelo apareceu na porta, segurando a lista.

— Achei o erro! O Juninho pagou duas vezes e o Rodrigo não pagou nenhuma. Ou seja, estamos pobres, mas honestos.

Parou ao perceber o clima.

— Que foi?

Caio pegou a camiseta e vestiu.

— Nada, capitão. Só reunião de condomínio emocional.

Marcelo piscou.

— Vocês são muito estranhos.

— Somos — André disse.

Rafael não falou.

Foram para o bar, mas o grupo já não parecia tão leve para André. A mesa de plástico, a cerveja gelada, o pastel, as piadas de sempre — tudo continuava ali, mas ele agora conhecia o fundo falso. Sabia que debaixo da resenha havia desejo, medo, ciúme, histórias antigas e homens tentando caber dentro das versões que inventaram de si mesmos.

Rafael sentou longe.

Caio sentou mais longe ainda.

Marcelo, graças a Deus ou à sua cegueira fraternal, sentou ao lado de André e começou a explicar o erro da mensalidade em detalhes absurdos.

— O problema é que Rodrigo paga em dinheiro, Juninho paga no Pix da esposa, e Nivaldo anota igual médico de posto. Aí dá nisso.

— Uhum.

— Você está me ouvindo?

— Estou.

— Não está. Está com cara de quem tomou bolada no espírito.

André quase riu.

— Talvez.

Do outro lado da mesa, Rafael levantou para ir embora.

André viu.

Caio também.

Rafael pagou sua parte e saiu sem fazer cena. Ao passar por André, parou por um segundo.

— Eu te levo?

André olhou para ele.

Queria dizer sim.

O corpo inteiro queria.

A boca lembrava. A pele lembrava. A coxa lembrava a mão dele, o gelo, o cuidado.

Mas havia Caio olhando. Havia a confusão. Havia o fato de que Rafael ainda parecia decidir sempre no limite da perda, nunca na claridade.

— Hoje não — André respondeu.

Rafael aceitou com um movimento mínimo de cabeça.

— Certo.

E saiu.

Caio ficou olhando para a garrafa de cerveja.

André levantou alguns minutos depois e foi ao balcão pagar. Quando voltou, Caio estava na calçada, sozinho, encostado no muro, olhando para o nada.

André parou ao lado dele.

— Você está bem?

Caio riu pelo nariz.

— Essa pergunta é uma violência quando a resposta é óbvia.

— Então responde outra coisa.

— O quê?

— O que você queria me mostrar hoje?

Caio olhou para ele.

Por um momento, pareceu mais jovem do que era. Não pela idade, mas pelo cansaço de quem brincou demais com algo que doía de verdade.

— O armário do canto.

— O que tem nele?

— Nada agora.

— E antes?

Caio olhou para dentro da quadra, para o corredor que levava ao vestiário.

— Antes era onde Rafael deixava as luvas antigas. Onde ele se escondia depois dos jogos quando não queria ir embora comigo nem sem mim.

André ficou quieto.

Caio continuou:

— Eu queria te mostrar porque achei que você precisava saber que aquele vestiário já tinha fantasma antes de você chegar.

— E por que não mostrou?

Caio virou para ele.

— Porque você chegou com ele.

A resposta veio sem proteção.

André não soube o que fazer com ela.

— Caio...

— Não faz caridade comigo.

— Não estou fazendo.

— Está pensando em fazer. Dá para ver.

André respirou fundo.

— Eu não sei o que quero de você.

Caio sorriu.

— Mentira. Você sabe uma parte.

André não negou.

Caio deu um passo mais perto. Não tocou. Dessa vez, talvez por respeito, talvez por medo.

— E dele?

André olhou para o lugar por onde Rafael tinha saído.

— Também sei uma parte.

— E as outras?

— As outras estão me ferrando.

Caio riu baixo.

— Bem-vindo.

Marcelo gritou da porta do bar:

— André! Vai embora comigo ou vai fundar família na calçada?

— Já vou!

Caio se afastou um pouco.

— Vai lá.

André começou a andar, mas Caio chamou:

— André.

Foi a primeira vez que ele disse o nome sem ironia.

André virou.

Caio sustentou o olhar.

— Quando eu souber se te quero ou se quero que ele me veja te querendo, eu falo com você.

André assentiu.

— Fala.

Entrou no carro de Marcelo com a cabeça latejando.

No caminho, o irmão falou da mensalidade, do campeonato, da necessidade de comprar coletes novos e de como Rafael estava estranho.

— Ele é sempre estranho — André disse.

— Hoje mais.

André ficou olhando pela janela.

A cidade passava quente e indiferente. Gente na feira, ônibus lotado, criança com uniforme de futebol, casal discutindo na calçada. Tudo seguia como se nada tivesse acontecido num vestiário de quadra society atrás de um posto.

Mas André ainda sentia a boca de Rafael.

Ainda sentia o olhar de Caio.

Ainda sentia o próprio corpo dividido não entre dois homens, mas entre duas formas de desejo: uma pesada, silenciosa, que o prendia contra a parede; outra afiada, provocadora, que o puxava para a beira.

Quando chegou em casa, havia duas mensagens.

A primeira, de Rafael:

RAFAEL:

Eu devia ter esperado.

A segunda, de Caio:

CAIO:

Você beija como quem quer resposta ou como quem quer problema?

André sentou na beira da cama.

Ainda tinha cheiro de quadra na mochila fechada.

Ainda tinha gosto de Rafael na boca.

Ainda tinha Caio na cabeça.

Digitou para Rafael:

ANDRÉ:

Esperar o quê?

Não enviou.

Digitou para Caio:

ANDRÉ:

Você quer descobrir?

Não enviou.

Apagou as duas.

Deitou sem responder ninguém.

Mas antes de dormir, passou os dedos pela lateral da coxa onde Rafael tinha colocado gelo. A dor estava ali, roxa, concreta.

Pela primeira vez, André entendeu que algumas marcas não vinham da pancada.

Vinham do cuidado.

E talvez fossem essas as mais difíceis de curar.

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Comentários

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será que teve um cara novo/antigo nesse casal não casal que está fazendo entrar nessa marmita involuntário?

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Cada vez mais confuso. São muitas metáforas, muitas meias respostas, pouca explicação e segredos quase indecifráveis. Rafael e Caio já ficaram mas parece que ainda não acabaram ou ficou mal resolvido. E o beijo? O que foi aquilo? Rafael quer André? Ou quer atingir Caio? São muitas perguntas, pouca explicação e uma ansiedade imensa de desenrolar esse mistério. Penso que parece um jogo entre Caio e Rafael e André está sendo a bola driblada, disputada e ficando perdida no meio do campo. E aí repito é aquele beijo, o que foi aquilo?

SOCORRO.

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