No conto anterior, contei como Mariana e eu havíamos reacendido algo que parecia morto entre nós — como, depois de anos de rotina, ela teve a coragem de vestir outra pele e me encontrar como se fosse uma prostituta de rua. Aquela noite mudou tudo. Por algumas horas, deixamos de ser marido e mulher e nos tornamos personagens de uma fantasia que nenhum de nós imaginava ter força para sustentar.
Nos dias que se seguiram, voltamos à vida normal. À rotina. Aos papéis conhecidos. Dormíamos juntos, nos tocávamos, nos procurávamos… mas como marido e mulher. O jogo havia ficado para trás — pelo menos, era o que eu pensava.
Aos poucos, ela foi voltando aos antigos cuidados, reservas e pudores. Não se permitia mais o que, naquela noite, havia parecendo tão natural para ela na pele da personagem. Como se a mulher da esquina tivesse ficado no motel e Mariana tivesse reassumido tudo o que era antes: disciplinada, controlada, cuidadosa com limites. Limites que, para mim, agora pareciam ainda mais estreitos.
Tentei conversar, argumentar, provocar. Queria trazer um pouco da liberdade daquela noite para dentro do nosso casamento. Não a fantasia inteira — só… mais ousadia. Mais entrega. A chama que ela mesma havia aceso.
Ela ouviu tudo em silêncio. Depois respirou fundo e, com a calma irritante de quem sabe exatamente como provocar, soltou:
— Se você quer esse tipo de coisa… vai procurar na rua. Eu não sou esse tipo de mulher.
Fiquei parado, sem saber o que responder. A frase ficou girando na minha cabeça, pesada, incômoda, perigosa. Porque, de certa forma, ela tinha razão. E, ao mesmo tempo, não tinha.
Ela fora aquela mulher — e eu tinha visto. Tocado. Sentido. Ela mesma tinha criado aquela personagem. Ela mesma tinha atravessado a linha. Mas agora fingia que nada daquilo existira.
E eu não conseguia mais esquecer.
Nos dias que se seguiram, não toquei mais no assunto.
Não por ter desistido — mas porque percebi que insistir não mudaria nada. Ela havia voltado ao lugar de sempre, aos limites de sempre, e qualquer tentativa minha só parecia reforçar a distância entre o que tínhamos vivido e o que ela aceitava ser.
Ainda assim, a lembrança não foi embora.
Voltava nos momentos mais banais, sem aviso. No meio do trabalho, no silêncio da casa, no instante em que deitávamos lado a lado sem dizer muito.
E, junto com ela, vinha a frase.
Simples. Direta. Incomodamente clara.
Vai procurar na rua.
Tentei ignorar. Tratar como irritação momentânea, como algo dito sem intenção maior.
Mas quanto mais o tempo passava, mais aquilo deixava de soar como recusa… e começava a parecer outra coisa.
Algo que eu ainda não sabia exatamente como interpretar.
Era uma quarta-feira à noite quando cheguei do trabalho. Abri a porta do apartamento esperando ouvir algum ruído familiar — a televisão ligada, passos vindo da cozinha, o som da torneira — mas não havia nada. Só o eco leve dos meus próprios passos no corredor.
Parei por um instante, escutando.
Nada.
Franzi a testa, afinal o carro dela estava na garagem.
Caminhei pela sala, lancei um olhar rápido para a cozinha. Tudo no lugar. Nenhuma luz acesa, nenhum sinal de movimento, nenhuma presença.
Silêncio.
Aquela combinação não fazia muito sentido. Se o carro estava lá… então ela não tinha ido longe. Ou, pelo menos, não da forma habitual.
Levei a mão ao bolso e peguei o celular por reflexo, esperando encontrar alguma mensagem dela avisando que sairia — mas não havia nada.
Ainda assim, não me preocupei de verdade. Se tivesse acontecido algo, ela teria avisado. Sempre avisava.
Guardei o celular, deixei a chave sobre a mesa e segui para o quarto, tirando a camisa pelo caminho. O estranhamento ficou ali, leve, pairando no fundo da mente — mas o cansaço do dia falou mais alto.
Entrei no quarto sem pensar muito.
Larguei a mochila, tirei a roupa e entrei no chuveiro.
O banho se estendeu mais do que eu planejava. A água quente me relaxou de um jeito que eu nem percebia que precisava, e acabei ficando ali quase quarenta minutos, deixando aquele dia cansativo escorrer ralo abaixo. Quando saí, já com uma toalha na cintura, a casa continuava quieta — mas ainda não o bastante para me causar estranhamento.
Vesti uma roupa confortável, daquelas de ficar em casa sem compromisso, e desci as escadas esperando encontrar alguma mensagem dela no celular ou ouvir a porta se abrindo a qualquer momento.
Nenhum dos dois aconteceu.
Depois de ligar a televisão, sentei no sofá e fiquei zapeando sem prestar atenção em nada.
Larguei o celular, levantei do sofá e fui até a cozinha. Abri a geladeira e peguei uma longneck de Heineken, afinal, meu organismo merecia.
Mas quando joguei a tampinha em cima da mesa é que percebi — ali na minha frente, dobrado com cuidado, um bilhete.
CONTINUA....