Ônibus
Capítulo 1 — A poltrona vazia
Há viagens que começam quando o ônibus parte.
E há viagens que só começam muitas horas depois, quando alguma coisa muda dentro de nós.
Naquele dia, eu acreditava que seria apenas mais uma viagem de volta para casa.
Nada parecia diferente.
O terminal tinha o mesmo movimento de sempre. Pessoas andando depressa, malas sendo puxadas pelo chão, vozes se misturando ao anúncio das plataformas, crianças correndo, gente se despedindo com abraços rápidos porque o relógio não esperava ninguém.
Entrei no ônibus ainda carregando o cansaço dos dias anteriores.
Encontrei minha poltrona perto da janela.
Coloquei minha mochila entre os pés, organizei uma garrafa de água, algumas balas e os salgadinhos que havia comprado antes de embarcar. Conferi o carregador do celular. Fiz tudo de maneira automática, como sempre faço quando viajo.
Olhei para a poltrona ao lado.
Vazia.
Sorri sozinho.
Confesso que gosto quando isso acontece.
Não porque eu não goste das pessoas.
Mas porque sempre fui alguém que encontra conforto no próprio silêncio.
Enquanto o ônibus deixava a cidade para trás, fui alternando entre olhar pela janela e mexer no celular.
As paisagens começaram a mudar lentamente.
Prédios deram lugar às rodovias.
As rodovias deram lugar aos campos.
Depois vieram os postos de gasolina iluminados, pequenas cidades passando ao longe e o céu escurecendo pouco a pouco.
O tempo, dentro de um ônibus, funciona de um jeito diferente.
Os minutos parecem maiores.
As conversas acontecem em voz baixa.
As luzes diminuem.
As pessoas vão desaparecendo atrás dos próprios fones de ouvido.
Depois de algumas horas, eu já tinha aceitado que faria toda a viagem sozinho.
E, para dizer a verdade, isso não me incomodava.
Foi então que, durante uma das paradas, ouvi o som das malas sendo colocadas no bagageiro superior.
Levantei os olhos por um instante.
Um rapaz havia acabado de embarcar.
Ele olhou rapidamente os números das poltronas até encontrar a dele.
Era justamente ao meu lado.
Sem dizer uma palavra, acomodou a mochila, sentou-se e colocou o cinto.
Foi tudo muito simples.
Tão simples que, naquele momento, seria impossível imaginar que aquele desconhecido ocuparia um espaço tão grande nas minhas lembranças.
Olhei discretamente para ele.
Achei bonito.
O cabelo estava recém-cortado.
A barba era bem desenhada.
A pele tinha um tom moreno claro que contrastava com a camiseta escura.
Usava um pequeno brinco preto de argola.
A calça bege de alfaiataria chamava a atenção pela simplicidade elegante.
Pensei nisso durante poucos segundos.
Depois fiz exatamente o que costumo fazer quando conheço alguém que desperta minha curiosidade.
Levantei um muro invisível.
Voltei para o celular.
Sempre fui assim.
Quando alguém me interessa, minha primeira reação nunca é me aproximar.
É me esconder.
Talvez porque seja mais fácil imaginar possibilidades do que correr o risco de vê-las desaparecer.
Enquanto fingia prestar atenção na tela, meus olhos escapavam de vez em quando.
Ele assistia vídeos.
Primeiro um trecho de um jogo.
Depois outro.
God of War.
Mais tarde apareceu alguma coisa sobre heróis.
Em seguida ouvi, baixinho, o som de um jogo de tiro enquanto ele conversava pelo fone com alguns amigos.
Achei curioso.
Sem que ele soubesse, existiam várias pequenas coincidências entre nós.
Eu também gostava de videogames.
Também conhecia aqueles personagens.
Também teria parado para assistir exatamente os mesmos vídeos.
Mas nenhuma dessas coisas foi dita.
O silêncio continuava ocupando quase todo o espaço entre nós.
E, estranhamente, aquele silêncio não parecia vazio.
De tempos em tempos o ônibus balançava sobre pequenas irregularidades da estrada.
As luzes internas diminuíram.
Algumas pessoas já dormiam.
Outras continuavam olhando para o celular como se ainda fosse cedo.
Lembro de observar as mãos dele enquanto segurava o telefone.
Mãos grandes.
Calmas.
Sem movimentos apressados.
Há lembranças curiosas que a memória escolhe guardar.
Às vezes esquecemos frases inteiras.
Mas lembramos da maneira como alguém segurava uma garrafa de água.
Ou da forma como cruzava as pernas.
Ou do jeito como respirava enquanto assistia alguma coisa.
Não sei por que meu cérebro escolheu guardar esses detalhes.
Talvez porque, sem perceber, eu já estivesse prestando atenção muito antes de admitir para mim mesmo.
Depois de algum tempo, ele abriu um pacote de balas.
Olhou discretamente para mim.
Ergueu uma delas na minha direção.
— Quer?
Foi uma palavra simples.
A primeira que ouvi da voz dele.
Agradeci.
Peguei a bala.
Voltei a olhar para a frente.
Hoje, quando tento lembrar do timbre daquela voz, quase não consigo.
Ela ficou perdida em algum lugar da memória.
O que permaneceu foi o gesto.
É curioso como alguns atos pequenos conseguem atravessar o tempo muito melhor do que muitas conversas.
Horas depois, aconteceu outra coisa igualmente simples.
Meu carregador começou a falhar.
Mexi algumas vezes no cabo.
Nada.
Percebendo minha dificuldade, ele tirou o carregador dele da mochila.
Sem cerimônia, estendeu na minha direção.
Novamente agradeci.
Novamente quase não conversamos.
E, ainda assim, alguma coisa muito discreta começou a mudar.
Não era intimidade.
Não era interesse declarado.
Era apenas aquela sensação rara de que, entre tantos desconhecidos compartilhando a mesma estrada, havia alguém cuja presença parecia surpreendentemente confortável.
Lá fora, a noite já havia tomado conta da rodovia.
As luzes das cidades apareciam e desapareciam como pequenas constelações distantes.
O motor mantinha um ronco constante.
Hipnótico.
As pessoas dormiam.
O ônibus seguia atravessando quilômetros de asfalto enquanto, sem que eu pudesse imaginar, as horas mais marcantes daquela viagem ainda estavam por acontecer.
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Fim do Capítulo 1.