🚫 Propagandas te atrapalhando? Assine o plano premium por menos de R$3/mês. Saiba mais →

Garoto do EB / Ep 08

Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →
Um conto erótico de Michel
Categoria: Gay
Contém 3752 palavras
Data: 26/07/2026 01:17:00
Última revisão: 26/07/2026 01:19:01

(Capítulo Estendido)

O silêncio dentro da barraca era tão denso que cobria até o som das gotas pesadas que ainda despencavam dos galhos das árvores do Pólux. A mão grande de Gustavo continuava cravada sobre a minha boca, áspera e quente, cheirando a terra molhada e fumaça de fogareiro. Nossos corpos estavam colados de um jeito que eu conseguia sentir cada batida desgovernada do peito dele contra as minhas costelas.

Do lado de fora, a voz de Dagoberto ecoou mais uma vez, se distanciando devagar pelo corredor das tendas que estavam cheios de lama:

— Pô, Cardoso... O cara sumiu, mano! Se o Brito pegar ele moscando por aí, amanhã o pelotão todo tá no sal!

— Deixa o cara, Dago! Ele deve tá cagando no mato, porra. Vamos voltar que eu tô congelando!

O som dos coturnos deles pisando na poça de lama foi sumindo aos poucos, até que o mato voltou a ser engolido apenas pelo ruído da garoa caindo no plástico da minha barraca.

Lentamente, Gustavo foi afrouxando os dedos da minha boca. Ele respirou fundo pelo nariz, puxando o ar em forma de alívio, os olhos escuros arregalados no breu encarando os meus a poucos centímetros de distância. O terror de ter sido pego, já não tinha qualquer resquício daquele beijo urgente de segundos atrás.

Ele não disse uma única palavra. Com uma agilidade desesperada e quase sem fazer barulho, ele se descolou do meu corpo, apoiou os cotovelos na lama da entrada e rastejou de barriga para fora da tenda. Percebi que ele estava contornando a vegetação por trás das árvores para não pisar na aleia central onde os outros recrutas passavam.

Fiquei deitado naquela barraca gelada, ouvindo o ritmo acelerado do meu próprio coração. Passei os dedos devagar pelos meus lábios, ainda sentindo a pressão quente da boca dele. Um sorriso lento e carregado de deboche se desenhou no meu rosto na penumbra. O "máscara" do Terceiro Pelotão tinha acabado de rastejar na lama com medo de sermos pegos.

Às quatro e meia da manhã, o som estridente do apito do Tenente Brito rasgou a névoa congelante do Pólux.

— ALVORADA! TERCEIRO PELOTÃO, FORA DAS BARRACAS! EQUIPAMENTO DE CAMPANHA PRONTO EM TRÊS MINUTOS! MOVA-SE, ACORDEM SEUS PREGUIÇOSOS.

O caos se instalou na clareira. O chão da mata virara uma pasta espessa de lama cinzenta que engolia os coturnos até o tornozelo. Em segundos, as fardas ficaram encharcadas, mochilas pesando o dobro por causa da água absorvida na tempestade e o ar frio saindo em fumaça pela boca de cada recruta.

Eu tentava ajeitar a alça da minha mochila com os dedos quase anestesiados pelo frio quando uma sombra se aproximou pelo lado direito. Era o Simões. Ele vinha arrastando os coturnos na lama densa, ajeitando o cinto de combate com certa dificuldade e soltando o ar quente que virava fumaça no ar gelado da madrugada.

Ele parou bem do meu lado, olhando para o chão encharcado e depois para a névoa escura que cobria as copas das árvores.

— Caramba,— Simões murmurou baixo, balançando a cabeça com uma expressão de puro desânimo enquanto limpava um pingo de lama da bochecha. — A gente nesse frio desgraçado, nessa lama até a canela, tomando essa chuva sem parar... isso só pode ser castigo de Deus, não é possível.

Soltei um riso soprado, ajustando a gandola molhada sobre os ombros para tentar segurar o tremor do corpo.

— Pelo menos a gente sabe que tá todo mundo no mesmo barco furado, 117.

— Barco furado é pouco, isso aqui tá parecendo o titanic — ele respondeu num tom bem-humorado, embora os lábios dele estivessem roxos de frio. Ele olhou para a minha barraca e depois para mim. — Mas ó... tua lona ficou firme, hein? Vi de longe no meio do temporal ontem. Achei que tu ia voar junto com a estrutura, mas o negócio nem mexeu.

— É... deu pra segurar a onda — desconversei com um sorriso discreto de canto de boca, me lembrando na hora da figura do Gustavo encarando o teto e cravando os braços na estrutura para a barraca não ceder.

— Pois a minha quase foi pra PQP — Simões resmungou, dando um risinho irônico. — Tive que segurar a estaca com a mão quase a noite inteira. Se o Tenente inventar de mandar a gente marchar agora sem nem um café quente, eu juro que caio duro antes do primeiro quilômetro.

— Guarda o fôlego, Simões... Olha lá o homem vindo — avisei baixo, indicando com a cabeça a silhueta ereta do Tenente Brito que se aproximava da frente da tropa.

Simões fechou a boca na hora, virando o corpo para a frente e entrando na postura de sentido no meio do lamaçal.

O Tenente Brito caminhou com passos firmes até o centro da clareira. A farda dele, embora molhada na barra pela vegetação, continuava impecável. Ele parou com os pés afastados, as mãos cruzadas nas costas, e percorreu o olhar sério por cada um dos rostos pálidos e encharcados do Terceiro Pelotão.

— Atenção, Terceiro Pelotão! — a voz do Tenente cortou o silêncio da alvorada com uma clareza impressionante, sem precisar esgoelar. — Olhem para esse céu. Olhem para o chão onde os senhores estão pisando. A tempestade de ontem não foi um acidente, foi o cartão de visitas do Pólux. A natureza aqui não quer saber quem tá com frio, quem tá com fome ou quem tá com saudade de casa. A mata é neutra. Se você vacilar, ela te engole.

Ele fez uma pausa calculada, deixando o barulho do vento gelado preencher o silêncio por um segundo.

— A partir de agora, o dia de vocês vai ser decidido no limite do corpo e da mente. A instrução desta manhã é a Pista de Obstáculos de Baixa Espessura, seguida da Transposição de Curso d'Água. Os senhores vão rastejar na lama sob arame farpado, vão carregar o equipamento encharcado e vão cruzar o rio com a água no peito sem molhar uma única peça do armamento! Quem achar que não aguenta, a hora de pedir para ir embora é agora. Porque lá dentro do circuito, o único socorro que os senhores vão ter é o companheiro do lado.

Brito deu dois passos à frente, apontando para a cabeceira da pista.

— Recruta Vítor e Recruta Gustavo! Os dois na frente da primeira patrulha! Quero ver liderança, padrão e velocidade. Pelotão... em direção à pista de obstáculos... MARCHE!

— SIM, SENHOR! — a tropa respondeu em um coro grave que fez os pássaros revoarem das copas das árvores.

Não deu nem tempo de colocar os dois pés na entrada da pista de obstáculos. Assim que o Tenente Brito se virou para orientar os monitores no início do circuito, Dagoberto aproveitou a movimentação da tropa para esbarrar o ombro com força contra o meu peito, me fazendo dar um passo em falso na lama espessa.

Ele soltou, a voz baixa, carregada de um veneno debochado que fez o Cardoso, logo atrás dele, dar uma risadinha abafada. — Cuidado pra não sujar a unhazinha nessa poça, tá? Se o barro tiver muito pesado, avisa que eu chamo o Tenente pra te carregar no colo de novo!

— Deixa de ser babaca, Dagoberto — respondi sem abaixar a cabeça, mantendo o tom de voz calmo, embora o peito queimasse de raiva. — Preocupa com a tua caminhada. Do jeito que tu tá bufando só de marchar, vai ter que sair dessa pista de maca.

O rosto gordinho do Dagoberto avermelhou na hora. Ele deu meio passo na minha direção, cerrando os punhos imundos de terra, mas a presença do Cardoso e o medo de tomar um esporro dos instrutores o fizeram recuar.

— Vai se foder, seu morde-fronhas... — ele sussurrou, se virando de costas, mas não sem antes dar uma piscada maliciosa para o Cardoso, que olhou em meus olhos e disse com deboche. — Fica esperto sua bichinha! Não vejo a hora de ver você se atolando e pedindo socorro!

— ATENÇÃO, PRIMEIRA PATRULHA! — o monitor gritou no início da pista. — VALENDO!

A partir dali, o inferno começou.

A pista de obstáculos era um corredor de lama profunda, coberto por uma teia baixa de arame farpado que nos obrigava a rastejar de barriga no chão, arrastando o fuzil e a mochila encharcada. O cheiro de podridão e terra molhada entrava pelas narinas a cada respiração desesperada.

Foi aí que a diferença entre os recrutas ficou escancarada.

Vítor movia-se como uma máquina. Com uma técnica impecável, ele empurrava o corpo usando a ponta dos coturnos e os cotovelos, sem erguer o quadril um centímetro além do necessário. A cada metro vencido, ele olhava para os lados, puxando os recrutas que travavam.

— Puxa com o cotovelo, Simões! Não levanta a cabeça! — Vítor orientava com a voz firme e límpida, liderando a patrulha com uma autoridade natural que dava segurança para todo mundo.

Do outro lado, Gustavo era pura devastação. Ele não usava técnica; usava raiva. Avançava pela lama feito um trator, rasgando o solo e arrancando mato com as mãos nuas. Ele parecia querer descarregar naquele chão todo o desejo reprimido, a vergonha do beijo na tenda e a humilhação de ter fugido rastejando. Ele chegou ao final da pista de arame farpado em tempo recorde, levantando-se coberto de lama cinzenta da cabeça aos pés.

Eu vinha logo no meio do pelotão, avançando num ritmo constante. Minha estrutura mais magra ajudava no rastejo, permitindo que eu deslizasse pelo barro com mais facilidade que os caras mais pesados. Mas Dagoberto não digeriu ver que eu estava me saindo bem.

Enquanto rastejávamos lado a lado, senti um peso anormal afundar a parte traseira da minha mochila. Olhei de relance por cima do ombro: Dagoberto, com um sorriso maldoso no rosto, tinha aproveitado a escuridão debaixo das tábuas para fisgar a alça do meu equipamento e engatar uma pedra pesada e pontuda na trança do meu nylon, tentando me travar na lama para que eu ficasse para trás e levasse uma punição do Tenente.

— O que foi, 114? — Dagoberto sussurrou com deboche, passando por mim no rastejo. — Pesou, foi? Pede ajuda pro Tenente!

A fivela da minha mochila estalou com a tensão, prensando o meu peito contra a lama fria. Eu estava prestes a travar no meio do circuito.

Senti a fivela da mochila esmagar minhas costas contra a lama enquanto o riso abafado de Dagoberto e Cardoso sumia à minha frente. A pedra pontuda que ele tinha engatado na minha trança me prendia no chão feito uma âncora.

Mas em vez de entrar em pavor, forcei o peito contra o barro e dobrei o joelho direito até alcançar a borda da fivela. Com um movimento rápido do quadril e usufruindo da graxa que já cobria meus dedos, consegui soltar a trava lateral da alça. A pedra deslizou para trás com um baque seco no barro, bem na trajetória de quem vinha babando logo em seguida.

Respirei fundo, ajustei a mochila novamente nas costas e voltei a deslizar pela lama. Minha estrutura mais leve jogava a meu favor, e em poucos metros recuperei o ritmo, vencendo o trecho de arame sem deixar que a sabotagem do Dagoberto me fizesse travar ou levar bronca do Tenente.

Avançamos direto para a etapa seguinte: a Transposição de Curso d'Água. O rio do Pólux parecia um corredor de gelo líquido. A água batia na altura do peito e a correnteza puxava com força, exigindo que cada recruta cruzasse segurando a mochila e o fuzil bem no alto da cabeça para não molhar as peças do armamento.

Enquanto Dagoberto, mais à frente, se batia pesado para não afundar, tremendo igual vara verde e quase perdendo o equilíbrio sob os gritos do monitor, eu e Simões mantivemos o foco e conseguimos alcançar a outra margem com segurança.

Desembarcamos na barranca de terra, batendo os queixos de tanto frio, os corpos exaustos, mas com a farda e o armamento preservados. Nós nos jogamos de costas na grama molhada por alguns segundos para recuperar o fôlego antes do próximo comando.

Olhei de relance para o alto do barranco. Gustavo estava lá, de pé, com os braços cruzados sobre o peito largo, coberto de lama da cabeça aos pés após ter terminado a pista no grupo da frente. Ele tinha visto tudo: a tentativa de sabotagem do Dagoberto e a forma como me livrei sozinho da situação. O olhar do Gustavo estava cravado em mim — uma mistura densa de alívio por eu não ter me ferrado, raiva reprimida do atrito do grupo e aquela tensão incubada que ele tentava a todo custo disfarçar por trás da carranca de brabo.

Quando eu havia recuperado o fôlego, o apito do Tenente Brito voltou a ecoar assim que a tropa terminou de se recompor da travessia do rio.

— ATENÇÃO, TERCEIRO PELOTÃO! — Brito bradou, indicando com a mão a estrutura erguida entre duas árvores seculares na borda do mato. — Próxima instrução: Transposição de Obstáculo por Cabo Aéreo! Os senhores vão cruzar este vão de quinze metros equilibrando-se sobre as cordas. Quero técnica, braço firme e concentração! Se escorregar, vai direto pro barro!

A tropa se alinhou debaixo da estrutura. As cordas grossas e úmidas balançavam ligeiramente com o vento gelado que cortava a mata.

Enquanto eu aguardava a minha vez na fila, tentando secar as mãos na gandola úmida para não escorregar, senti uma presença se aproximar por trás de mim. Um cheiro forte de cigarro barato e mofo misturou-se ao ar puro da floresta.

Era o Cabo da Guarda. (Renan) - Que pegou eu e Emiliano na guarita.

Ele não usava o capacete de instrução, apenas o gorro verde-oliva enterrado até a altura das sobrancelhas. Caminhava com as mãos postas nas costas, com aquele sorriso de canto cheio de desdém que eu já conhecia bem. Ele parou bem ao meu lado, disfarçando como se estivesse apenas supervisionando a postura dos recrutas.

Ele se inclinou devagar, falando baixo, num sussurro peçonhento que fez o sangue congelar nas minhas veias:

— Olhando daqui... parece até que você vai despencar dessa corda, ô 114 — o Cabo soltou uma risada abafada e cruel, a boca quase colada à minha orelha. — Esse teu corpo fino não foi feito pra aguentar esse tranco não. O quartel tá cheio de homem de verdade, e você fica aí desfilando como se isso aqui fosse passarela. Me dá nojo ver gente do teu tipo vestindo essa farda.

Engoli em seco, mantendo o olhar fixo para a frente, a mandíbula travada para não demonstrar o pavor que começava a tomar conta de mim.

— Mas você sabe como é, né? — o Cabo continuou, baixando ainda mais o tom de voz, cobrindo o rosto com a prancheta de instrução para que ninguém ao redor pudesse ler os lábios dele. — Eu posso ser um cara muito compreensivo se você souber colaborar... Lembra da conversa que a gente teve na madrugada? Do relatório da pizza e do seu amiguinho do Primeiro Pelotão que tá guardado na minha gaveta?

Senti o peito apertar, a respiração ficando curta.

— Hoje à noite, quando o toque de recolher soar e a mata virar um breu... eu vou passar na tua tenda — ele ordenou num tom frio e cortante, sem dar espaço para réplica. — É bom que a tua lona esteja aberta e que você esteja bem disposto pra me atender. Se você der um pio, se tentar se esquivar ou contar qualquer historinha pro Brito... amanhã cedo o seu amiguinho Emiliano terá uma punição bem agradável do Exército por conduta desonrosa. Ficou bem claro pra você, recruta?

Ele deu dois tapinhas secos e debochados no meu ombro, bem na altura da alça do fardamento, dando meia-volta e caminhando calmamente entre os outros recrutas, como se nada tivesse acontecido.

— Próximo! Recruta 114, para a instrução! — o grito do monitor cortou o nó que sufocava a minha garganta.

Subi a pequena plataforma de madeira com o peito subindo e descendo desgovernado. Minhas mãos, molhadas de suor frio e lama, agarravam a corda guia superior. A altura de quase quatro metros sobre o chão pedregoso parecia um abismo. Lá embaixo, o Cabo me encarava com um sorriso sarcástico, de braços cruzados, esperando o meu primeiro vacilo.

Ao lado dele, Gustavo continuava estático, o maxilar trancado de um jeito que parecia prestes a quebrar os dentes, os olhos escuros cravados em mim.

Abri os olhos, joguei o corpo sobre a corda e comcei a travessia. As pernas tremeram no primeiro metro, mas forcei a barra com os braços, puxando o corpo com uma velocidade e uma raiva que eu nem sabia que tinha. Ignorei a dor nos ombros e o vento congelante na cara. Cruzei os quinze metros de vão e pisei na plataforma oposta com um baque seco, cravando os pés firmes no chão. O Tenente Brito, que observava do canto, deu um aceno discreto de aprovação com a cabeça:

— Bom ritmo, 114. Rápido e preciso. Próximo!

Desci da plataforma sem olhar para a cara do Cabo. Mas o alívio durou pouco. As horas passaram rápido, o sol sumiu por trás da copa das árvores e o Pólux foi engolido por um breu absoluto.

Às dez da noite, o acampamento Pólux estava totalmente imerso na escuridão e no silêncio da mata. O som do vento balançando as lonas e o estalar esporádico dos galhos eram as únicas coisas que se ouviam.

Eu estava encolhido na minha barraca, tentando descansar o corpo moído pela pista de obstáculos, quando o barulho de uma bota pesada chutando a haste da minha entrada me fez dar um pulo no escuro.

A lona se abriu e a luz forte de uma lanterna tática mirou direto nos meus olhos, me cegando por alguns segundos.

— Fora da barraca, recruta 114! Agora! — a voz baixa e autoritária do Cabo cortou a penumbra.

Pisquei rápido, tentando ajustar a visão, e me levantei às pressas, vestindo o coturno sem nem amarregar os cadarços direito. Ao sair para o sereno gelado, vi o Cabo com os braços cruzados e um sorriso maldoso no rosto. Ao lado dele, perto do ponto de apoio, havia duas caixas de madeira pesadíssimas, cheias de ferramentas e estacas de reserva do batalhão.

— O senhor tá achando que o acampamento é hotel, recruta? — o Cabo debochou num tom baixo, para não acordar os outros. — O alojamento dos graduados precisa dessas caixas transportadas pro outro lado do setor de apoio. Você vai carregar as duas. Uma por uma. Na raça.

— Cabo... essas caixas pesam mais de quarenta quilos cada uma — arrisquei dizer, a voz falhando de cansaço. — A instrução de amanhã começa às quatro...

— Não pedi pra você falar, 114 — ele deu um passo na minha direção, a voz virando um sussurro ameaçador. — Ou você pega essas caixas e me acompanha até a área isolada do apoio agora... ou amanhã cedo o relatório sobre o seu amiguinho Emiliano vai parar direto na mesa do Comandante. Escolhe.

Engoli o pavor a seco. Sem alternativa, me abaixei e segurei as alças de ferro da primeira caixa. A madeira úmida e o peso bruto fizeram meus braços estralarem. Com o peito queimando e as pernas trêmulas pela exaustão do dia, comecei a arrastar o fardo pesado pela lama fria, seguindo os passos do Cabo que caminhava um pouco à frente, indicando o caminho para o breu atrás das barracas.

A cada passo, o peso parecia dobrar, e o medo do que ele pretendia fazer assim que chegássemos à área isolada fazia meu coração disparar.

— Anda logo, porra! Tá parecendo uma mocinha arrastando isso aí — o Cabo zombou, virando-se para me encarar na penumbra.

Mas antes que ele pudesse dar mais um passo, duas silhuetas altas surgiram do meio da névoa da mata, cortando o nosso caminho.

— Permissão, Cabo — a voz firme e tranquila de Vítor ecoou na escuridão.

Ao lado dele, Gustavo vinha com os ombros largos travados, os punhos fechados ao lado do corpo e o olhar de raiva cravado direto no pescoço do Cabo.

O Cabo parou no mesmo instante, franzindo o teto e tentando disfarçar a surpresa:

— O que vocês dois tão fazendo fora das barracas a essa hora? Voltem pro alojamento agora, recrutas!

Vítor deu um passo à frente, ajustando a lanterna desligada no cinto. Ele olhou para mim, vendo minhas mãos trêmulas segurando a caixa pesada, e depois olhou direto para o Cabo, mantendo uma postura impecável de respeito, mas com um tom de voz cirúrgico:

— A gente tava na escala de ronda do perímetro, Cabo. E o Tenente Brito foi bem claro no briefing antes do recolher: nenhuma faxina, transporte de carga ou punição individual seria executada de madrugada sem a autorização direta dele ou do Sargento Mello.

— É... — Gustavo deu meio passo para o lado, fechando o cerco e encurralando a passagem do Cabo no caminho estreito entre as árvores. A voz de Gustavo saiu rouca, carregada de um veneno perigoso. — Estranho o senhor tá fazendo o 114 carregar caixa pesada sozinho no meio do mato a essa hora... O Tenente tá sabendo disso, Cabo? Quer que a gente vá lá na barraca do Brito perguntar pra ele se tá tudo liberado?

O sangue sumiu do rosto do Cabo da Guarda. Ele olhou de Gustavo para Vítor, percebendo que tinha sido pego no pulo. A autoridade dele ruiu num segundo diante da presença dos dois recrutas mais fortes e respeitados do pelotão.

Ele gaguejou, tentando ajeitar a postura de durão, mas a voz saiu vacilante. — Eu... eu só tava conferindo o material do apoio! O recruta tava moscando na barraca e eu pedi uma força!

— A gente assume o fardo aqui, Cabo — Gustavo interrompeu num tom cortante, dando mais um passo intimidador para cima dele, obrigando o Cabo a dar um passo para trás. — O senhor pode voltar pro seu posto. Pode deixar que a gente resolve o fardo... e a gente mesmo fala com o Tenente Brito amanhã cedo se precisar.

O Cabo engoliu em seco, olhando fixamente para Gustavo e Vítor. Vendo que não tinha como sustentar a mentira sem arrumar um problema gravíssimo com o comando do acampamento, ele deu meia-volta, soltando um resmungo:

— Bando de folgado... Larga essa merda aí e voltem pras barracas!

Assistimos o Cabo se afastar rápido, sumindo no meio das árvores.

Soltei a caixa de ferro no chão com um baque pesado na lama, o peito subindo e descendo, a respiração falhada enquanto tentava absorver o que tinha acabado de acontecer. Olhei para o Vítor, que me deu um aceno calmo de cabeça, e depois para o Gustavo... cujos olhos escuros continuavam cravados nos meus, queimando com uma mistura intensa de alívio, raiva e proteção.

Curta uma leitura sem interrupções.
Conheça o plano sem propagandas (R$36/ano — menos de R$3/mês) →
Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 9 estrelas.
Incentive Derick Femboy a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários

Foto de perfil genérica

Minha novela preferida 😍😍

O capítulo estendido terminou tão rápido hahaha quando percebi já era o final.

0 0
Foto de perfil genérica

Muito bom os capítulos, mas estou sentindo falta da amizade do Michel com o Emiliano, o Michel foi injusto com ele da última vez.

0 0
Foto de perfil genérica

Eu leria todos os capítulos mil vezes de tão bons kkkkk

0 0
Cansado destas propagandas? Assine por R$36/ano e navegue sem anúncios →