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Garoto do EB / Ep 09

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Um conto erótico de Michel
Categoria: Gay
Contém 3852 palavras
Data: 27/07/2026 00:42:00
Última revisão: 27/07/2026 02:00:11
Assuntos: Gay

O som das botas do Cabo afundando na lama foi se apagando aos poucos. O silêncio que sobrou na clareira era pesado, quebrado apenas pela respiração desregulada do meu peito e pelo gotejar contínuo da chuva nas folhas altas.

A caixa de ferro que eu carregava continuava no chão, afundada no barro. Minhas mãos, doloridas pelo esforço e trêmulas pelo pico de adrenalina, custavam a fechar.

Vítor deu um passo para trás, ajustando a lanterna no cinto de combate com a calma cirúrgica de sempre. Ele me olhou de cima a baixo, verificando se eu estava inteiro, antes de soltar um suspiro baixo que virou fumaça no ar gelado da madrugada.

— Você tá bem, 114? — Vítor perguntou, a voz grave e calma.

— Tô... tô sim — respondi, engolindo em seco e tentando firmar a voz. — Valeu, Vítor. Se você não tivesse chegado com o Gustavo, eu nem sei o que aquele cara ia arrumar...

— O Cabo exagera na dose — Vítor cortou com sobriedade, mantendo o tom neutro. — Ele gosta de botar banca de madrugada pra ver quem se apavora. Mas o Tenente deixou claro no briefing que nada de serviço pesado fora de hora seria feito sem ordem dele. Você não precisa aceitar ordem torta de graduado quando estiver fora da escala. Se ele tentar te empurrar fardo de novo sem motivo, me avisa ou fala direto com o Brito.

Vítor se curvou, pegou uma das alças da caixa de ferro pesada e usou a outra mão para me ajudar a soltar a alça oposta, aliviando todo o peso do fardo.

— Segura aqui comigo — Vítor instruiu. — Vamos encostar esse material na barraca do apoio e você volta direto pra tua tenda antes que o monitor da ronda passe.

Caminhei ao lado do Vítor em silêncio, pisando devagar na lama fria. Sem que ele fizesse perguntas ou desconfiasse de algo mais profundo, levamos as caixas até o abrigo de suprimentos. Vítor deu dois tapinhas no meu ombro e seguiu o caminho dele pela aleia central, deixando-me sozinho no silêncio da mata.

Quando me virei para voltar à minha barraca, vi a silhueta ereta do Tenente Brito parada perto da fogueira apagada do posto de comando. Ele estava com as mãos postas nas costas, observando a neblina rastejar entre as árvores. Ao notar minha presença, ele me fez um sinal discreto com a mão.

Aproximei-me e prestei a continência.

— Descansar, Recruta 114 — Brito disse com a voz baixa, acolhedora, sem o tom rígido das instruções. Ele olhou para as minhas mãos sujas de graxa e para a farda coberta de barro. — Vi o seu desempenho hoje na pista e no cabo aéreo. Você se superou, recruta.

— Obrigado, senhor. Tentei só não ficar pra trás.

— Você fez mais do que isso — Brito deu um sorriso curto, encarando os meus olhos na penumbra. — O quartel tenta moldar todo mundo na mesma forma, 114. Eles acham que soldado se constrói com grito e força bruta. Mas a verdadeira força de um homem está na resiliência mental, em saber engolir a dor e continuar avançando sem perder a dignidade.

O Tenente fez uma pausa, dando um passo mais perto e baixando ainda mais a voz, como um mentor dando uma lição de vida.

— Não deixe o ambiente te endurecer a ponto de te transformar no que você mais odeia. Tem muita gente aqui dentro que veste a farda pra se esconder atrás da truculência porque é fraco por dentro. Você não precisa disso. Mantenha a sua cabeça no lugar, foca no seu processo e não dê ouvidos às provocações da tropa. Você é mais forte do que imagina.

— Sim, senhor. Vou me lembrar disso — respondi, sentindo um calor bom acender no peito diante daquelas palavras.

— Excelente. Agora vá pra sua barraca e descanse. O dia amanhã vai ser longo.

Às quatro da manhã, a alvorada foi dada para a desmontagem do acampamento. O chão do Pólux continuava uma pasta de lama, e a névoa cobria todo o setor de instrução.

Enquanto eu dobrava o meu poncho impermeável com as mãos geladas, o som de risadas baixas vindo da barraca ao lado chamou minha atenção. Olhei de relance e senti o sangue subir para a cabeça.

Gustavo e Dagoberto estavam juntos, encostados em uma árvore. Dagoberto gesticulava, dando risadinhas, enquanto Gustavo dava tapinhas no ombro do gordinho, rindo de algo que ele tinha dito e mantendo uma conversa totalmente aberta e descontraída.

Depois de tudo o que o Dagoberto fez? — pensei, cravando os dentes no lábio inferior. A raiva queimou no meu peito de um jeito avassalador. O mesmo Gustavo que poucas horas atrás me beijava na barraca e me segurava no escuro agora agia como se o Dagoberto fosse seu melhor amigo no mundo, rindo e trocando ideia normal como se a sabotagem na pista de obstáculos e as humilhações nunca tivessem acontecido. A farsa do Gustavo para não levantar qualquer desconfiança do grupo era tão perfeita que me dava nojo.

Gustavo olhou na minha direção por um segundo, mas não sustentou o olhar. Ele apenas continuou rindo com o Dagoberto, desfazendo qualquer sinal de que existia algo entre nós.

Minutos depois, fomos convocados para embarcar nos caminhões. A tropa subiu na caçamba do veículo pesado, amontoando-se no espaço de madeira para fugir do vento gelado.

Ajeitei-me num canto perto da cabine, abraçando a minha mochila. Dagoberto sentou-se na minha frente, com aquele sorriso arrogante estampado no rosto, enquanto o Cardoso e o resto do grupo se acomodavam ao redor. Gustavo sentou-se mais afastado, ao lado de Dagoberto, entrando no papo de futebol como se nada tivesse acontecido.

O caminhão deu um tranco e começou a viagem de volta pela estrada de terra. Não demorou dois minutos para as provocações começarem.

— Pô, rapaziada... — Dagoberto soltou bem alto, olhando pra minha cara com deboche. — O Pólux foi até suave, né? Só achei sacanagem que teve gente que quase chorou pra carregar a mochila na pista. Se o barro tivesse um pouquinho mais fundo, tinha recruta aí pedindo socorro pro Tenente vir pegar na mãozinha!

Cardoso deu uma risada alta, e alguns garotos acompanharam.

— É foda, né, Dago? — Cardoso emendou, olhando para mim. — Tem gente que não nasceu pra vestir farda não, tá aqui só fazendo peso de papel.

Senti o peito ferver de raiva. Olhei direto para o Gustavo, esperando que ele dissesse algo, qualquer coisa, ou pelo menos mandasse os caras calarem a boca. Mas Gustavo permaneceu em silêncio, olhando para o chão do caminhão, fingindo que não era com ele, sem mover um único músculo para me defender.

Respirei fundo, lembrando das palavras do Tenente Brito minutos atrás: “Não deixe o ambiente te transformar no que você mais odeia.”

Engoli a seco, ajeitei o fardamento e mantive o queixo erguido, encarando o vento frio da estrada. Aturei cada piada, cada risadinha e cada indireta do Dagoberto no trajeto inteiro sem pronunciar uma única palavra, suportando o veneno em silêncio enquanto o caminhão nos levava de volta ao quartel.

Os caminhões do Exército estacionaram em fila no pátio central do batalhão, soltando uma nuvem densa de fumaça preta e o som estridente dos freios a ar. Desembarcamos com os corpos moídos, as fardas manchadas pela lama seca do Pólux e o cansaço visível no rosto de cada recruta.

Os três pelotões foram formados imediatamente em fileiras retas, cobrindo o pátio sob o sol forte do meio-dia. Todos na postura impecável de sentido.

O Sargento Rocha já nos aguardava no topo do palanque de concreto, com a prancheta debaixo do braço e aquele mesmo sorriso de sádico estampado no rosto. Ele desceu os degraus devagar, caminhando entre as fileiras como um predador avaliando o estrago da caça.

Ele parou bem na minha frente, semicerrando os olhos pequenos enquanto me olhava de cima a baixo. A surpresa e a frustração em ver que eu tinha voltado inteiro da mata eram evidentes na cara dele.

— Olha só... — Rocha soltou, a voz grave e debochada ressoando pelo pátio. — O Recruta 114 sobreviveu ao Pólux. Eu jurava que a esta hora você estaria num leito de hospital ou pedindo baixa chorando pra sua mãe.

Rocha deu dois passos para o lado, parando em frente ao Gustavo, que mantinha o queixo erguido e a expressão travada.

— Ô Recruta Gustavo! — o sargento bradou. — Me explica uma coisa aqui: como é que esse garoto conseguiu passar pela pista de obstáculos e pelo acampamento sem pedir pra ir embora? Você que é o 'brabo' do pelotão, me diz: o que aconteceu lá no mato?

Gustavo nem piscou. Com a voz alta e limpa, perfeita para fazer a média que o sargento esperava, ele disparou para o pátio inteiro ouvir:

— Ah, sargento... é que no mato não tinha espelho pra ele se arrumar e nen maquiagem, aí ele teve que correr pra terminar logo a instrução e voltar pro quartel!

A tropa ao redor caiu no riso. Dagoberto e Cardoso quase se engasgaram de dar gargalhadas na fila de trás.

Sentindo a raiva queimar o meu peito, travei o maxilar e mantive o olhar fixo no horizonte. O mesmo cara que tinha rastejado na lama, segurado a minha barraca no meio da tempestade e me beijado no escuro estava ali, usando a minha cara de piada pra manter a pose de machão perante o Rocha.

Após a liberação da tropa para a higienização, fui direto para o vestiário dos recrutas. O chuveiro quente era tudo o que eu precisava para tirar a crosta de terra e graxa do corpo. O banheiro foi se esvaziando aos poucos, até que o som da água caindo no azulejo virou o único ruído no ambiente.

Eu era o último. Quando fechei o registro e me enrolei na toalha, vi uma sombra cruzar a porta do vestiário.

Era o Gustavo. Ele entrou de cabeça baixa, com a farda na mão, mas travou assim que me viu sozinho perto dos armários de ferro.

— O que você quer aqui? — perguntei seco, sem esconder o nojo na minha voz enquanto vestia a calça jeans civil.

Gustavo deu dois passos na minha direção, soltando um suspiro pesado. A marra do pátio tinha sumido completamente.

— Michel... você sabe que no pátio eu preciso falar aquilo. Se eu não entrar na pilha do Rocha e do Dagoberto, os caras começam a desconfiar da gente. É pro nosso próprio bem.

— Nosso próprio bem? — soltei uma risada curta e amarga, dando um passo para cima dele. — Você é um covarde, Gustavo! Você deixa aqueles dois babacas pisarem em mim, ri das piadas do Dagoberto depois de tudo o que ele fez no mato e ainda acha que tá me protegendo? Você tá é com medo de descobrirem quem você é de verdade!

— Eu não sou covarde! — ele rosnou baixo, o rosto queimando de frustração. — Você não entende como esse lugar funciona! Se descobrirem qualquer coisa sobre a gente, a minha vida aqui dentro acaba!

Sem dar tempo para eu rebater, Gustavo avançou dois passos rápidos, segurou a minha nuca com a mão grande e quente e tentou selar meus lábios num beijo desesperado.

Mas eu não era mais o mesmo recruta indefeso.

Segurei o peito dele com firmeza e o empurrei para trás com força. O corpo dele cambaleou um passo, chocando-se contra a fileira de armários de ferro com um baque abafado. Gustavo me encarou com os olhos arregalados, surpreso pela minha resistência.

— Não encosta em mim — murmurei com a voz fria e firme, ajeitando a gola da minha camisa. — Guarda esse teu show pro Dagoberto e pro Rocha. Você não manda em mim.

Virei de costas sem olhar para trás, deixando o "brabo" do Terceiro Pelotão estático, surpreso e totalmente no vácuo no meio do banheiro gelado.

No corredor que levava à saída do alojamento, Dei de cara com o Emiliano, do Primeiro Pelotão. Ele já estava de roupa civil — uma camisa florida chamativa que não combinava em nada com o ambiente militar — e exibia um sorriso de orelha a orelha.

— Olha só quem voltou do inferno! — Emiliano brincou. — Caramba, 114, tu tá vivo! Eu já tava preparando o discurso do teu velório e jurando pro Sargento Mello que tu tinha sido engolido por uma anaconda no Pólux!

Soltei uma risada sincera, a primeira em dias.

— Engraçadinho. A anaconda não me engoliu, mas o barro quase me levou.

— Você sobreviveu — Emiliano brincou, farejando o ar com uma cara dramática. — Mas me conta: a comida de lá era tão ruim quanto a do rancho ou eles serviam mato com lama mesmo? Porque eu vi o Dagoberto voltando e achei que ele tinha comido a própria mochila de tanta fome.

— Você não faz ideia... — balancei a cabeça rindo, sentindo o clima leve do Emiliano dissipar boa parte da raiva que eu acumulava.

Antes que pudéssemos continuar, o som forte da corneta ecoou no pátio, acompanhado pelos gritos dos monitores convocando a tropa inteira para a última forma do dia.

Corremos para o pátio central. O Tenente Brito assumiu o palanque, observando os recrutas devidamente fardados e prontos.

— Atenção, tropa! — a voz de Brito repercutiu limpa pelo pátio. — Os senhores cumpriram o dever no Campo de Instrução Pólux com disciplina e resistência. Por ordem do Comando do Batalhão, o Terceiro Pelotão está dispensado das atividades. Os senhores têm 48 horas de folga para descanso. Apresentação impreterivelmente na segunda-feira às seis horas da manhã! Dispensados!

Um suspiro de alívio coletivo tomou conta do pátio. Dois dias inteiros longe daquele inferno pareciam um prêmio de valor inestimável.

Assim que atravessamos o portão das armas, o ar da rua finalmente pareceu mais leve. A sensação de deixar aquele concreto cinzento para trás pelas próximas 48 horas era quase libertadora.

— Ei, 114! Espera aí — Emiliano chamou, acelerando o passo na calçada e balançando a chave de um carro velho entre os dedos. — Tu não vai embora de ônibus nesse estado não. Minha lata velha tá ali dobrando a esquina. Te dou uma carona.

— Nem brinca com uma coisa dessas — respondi, soltando um riso fraco. — Aceito antes que você mude de ideia.

Caminhamos até o carro dele, um modelo antigo um pouco desbotado, mas infinitamente mais confortável do que a caçamba de madeira dos caminhões do Exército. Entramos, e o ronco do motor velho pareceu uma música suave depois de tanto grito de oficial e barulho de chuva na lona.

— Antes de te deixar em casa, a gente vai parar em uma padaria — Emiliano avisou, engatando a marcha e saindo para a avenida. — Eu preciso urgentemente de um pão na chapa com muito requeijão e um café decente. Aquela gororoba do rancho quase destruiu meu estômago.

Poucos minutos depois, encostamos em uma padaria simples de bairro, longe do raio de visão do quartel. Sentamo-nos em uma mesa de canto, dividindo uma porção de pães na chapa e dois cafés. O cheiro de comida de verdade fez meu estômago roncar.

Emiliano deu um gole demorado no café, encostou na cadeira e me encarou com curiosidade.

— Mas fala aí... como foi no Pólux? O setor de vocês tomou muita chuva?

— Foi um inferno — confessei, passando a mão no rosto ao lembrar. — A lama cobria até a canela. Mas a chuva e a pista de obstáculos nem foram o pior... Na madrugada de ontem, o Cabo da Guarda tentou me encurralar de novo.

Emiliano travou a xícara no ar na hora, o tom brincalhão sumindo da cara dele.

— O Cabo Renan? Aquele filho da mãe ainda tá nessa?

— Ele me tirou da barraca às dez da noite pra carregar umas caixas pesadas sozinho no escuro do apoio. Disse que se eu não fosse com ele pra área isolada, amanhã mesmo o relatório da pizza e do que aconteceu na guarita ia pra mesa do Comandante.

— Aquele desgraçado... — Emiliano praguejou baixo, fechando o punho sobre a mesa. — E você fez o quê, Michel? Já parou pra pensar que ele nen pode mais fazer esse relatório? Já se passaram dias, eles iriam questionar isso.

— Eu tive que ir, não tinha escolha — contei, baixando o tom de voz. — Mas o Vítor e o Gustavo tavam fazendo a ronda do perímetro. O Vítor percebeu o abuso e peitou o Cabo na hora. Falou que nenhuma punição individual podia ser feita sem ordem direta do Brito. O Cabo amarelou, ficou sem reação diante do Vítor e acabou caindo fora. O Vítor me salvou de ser chantageado por aquele cara.

Emiliano soltou um ar comprido pelo nariz, claramente aliviado, embora o olhar dele continuasse sério.

— Menos mal que o Vítor tava junto... O Vítor é um cara correto, a tropa respeita ele. Esse Cabo é um covarde que só cresce pra cima de quem ele acha que tá sozinho.

Dei um gole no meu café e olhei para o Emiliano, curioso sobre como tinha sido do lado dele.

— E vocês do Primeiro Pelotão? Como foi lá na área de vocês? Ouvi dizer que mandaram o pessoal de vocês pra um setor bem distante da mata.

— Longe é apelido, 114 — Emiliano deu uma risada irônica, chacoalhando a cabeça.

— O Comando jogou o Primeiro Pelotão lá perto da crista do morro, do outro lado do rio. A gente nem via a cor das outras companhias. Marcha na lama de dia, patrulha noturna no frio... o Mello quase moeu o pelotão na primeira noite. Se não fosse a parceria no acampamento, tinha metade pedindo baixa.

— Parceria? — perguntei, percebendo o sorriso de canto que se desenhou no rosto dele. — Você e quem?

Emiliano hesitou por um segundo, batendo a colherzinha no pires do café. Olhou para os lados para garantir que ninguém ao redor ouvia e se inclinou sobre a mesa com uma expressão sincera.

— Na real... teve um cara do meu pelotão que deixou aquele acampamento suportável.

— Quem? — pergunto, surpreso.

— O Martins — Emiliano revelou susurrando, o rosto esquentando um pouco. Ao ver a minha cara de surpresa, ele deu um risinho abafado. — Pois é. O Recruta Martins, do meu próprio alojamento. A gente já vinha se trocando umas ideias no vestiário na surdina... mas lá no morro, dividindo a lona no meio daquele temporal, o negócio engrenou de vez. O cara é sensacional, mano. Engraçado, leve, não tem nada a ver com essa casca de machão que todo mundo veste no quartel.

— Sério mesmo? O Martins? — sorri, sentindo um alívio genuíno por ele.

— Sereníssimo — Emiliano sorriu, os olhos brilhando de um jeito leve. — É a única coisa que tá me fazendo ter paciência pra voltar praquele lugar na segunda-feira. Saber que pelo menos tem alguém ali que entende o tranco e tá do meu lado.

Arregalei os olhos, me inclinando para a frente na hora.

— Não me diga que...

— Pois é — Emiliano soltou um riso abafado, cobrindo a boca com a mão. — No meio daquela tempestade desgraçada, na segunda noite... a lona de dois recrutas do nosso setor voou longe. Ficou uma confusão danada. O Martins se enfiou na minha barraca pra não ficar no sereno, dizendo que era só até o vento passar.

— E aí? — perguntei, preso em cada palavra.

— E aí que a barraca era minúscula, né? A gente colado, aquele frio congelante de rasgar a pele, a chuva caindo pesado do lado de fora... Uma hora a gente tava se encolhendo pra dividir o cobertor, no segundo seguinte o clima mudou de um jeito que não deu pra segurar. Eu olhei pra cara dele, ele olhou pra minha... e eu peguei o Martins ali mesmo, no meio do barro e do breu.

Soltei um riso desacreditado, balançando a cabeça.

— Vocês são loucos, cara! Se o monitor da ronda ou o Mello pegam vocês dois numa hora dessa...

— Ah, mas a gente foi esperto — Emiliano piscou o olho, cheio de marra. — A chuva tava rugindo tão alto no plástico que ninguém ouvia nada do lado de fora. Foi a melhor transa e a melhor sensação da minha vida naquele lugar. O cara é brabo, mas comigo... ficou todinho mole. É a única coisa que tá me fazendo ter paciência pra voltar praquele inferno na segunda-feira. Saber que pelo menos tem alguém ali que entende o tranco e tá do meu lado de verdade.

Olhei para o Emiliano e recostei na cadeira. A empolgação e a coragem dele eram contagiantes, mas no fundo o meu peito dava nós. Eu me lembrava da boca do Gustavo na minha, da respiração desgovernada no meio da tempestade... e do choque de ver aquele mesmo cara rindo com o Dagoberto horas depois.

Apertei a caneca de café entre as mãos, hesitante.

— Sabe... — comecei num tom baixo, sem conseguir segurar a confissão por mais tempo. — Eu também não passei esse acampamento em branco não.

Emiliano travou o movimento do garfo na hora e arregalou os olhos, quase se engasgando.

— O quê?! Como é que é, Michel? — ele praticamente se jogou para a frente na mesa, a voz subindo duas oitavas. — Tu tá me dizendo que rolou algo com você no Terceiro Pelotão também? Quem é o sortudo?

— Fala baixo, doido! — repreendi num riso nervoso, olhando para os lados do balcão. — Pelo amor de Deus...

— Tá bom, tá bom, parei — Emiliano sussurrou rápido, os olhos brilhando de pura empolgação. — Conta tudo! Quem foi? Não me diz que foi o Vitor?!

— Claro que não, o Vitor?! Não né!— soltei uma risada curta, sentindo o rosto esquentar de repente. Respirei fundo e engoli em seco. A palavra estava na ponta da minha língua. O Gustavo. Mas na hora de soltar o nome do cara mais marrento e barra-pesada do nosso pelotão, um bloqueio de vergonha e medo de como o Emiliano ia reagir me travou inteiro. — Foi... ah, cara, esquece. Fiquei com vergonha agora.

Emiliano abriu a boca num gesto dramático de indignação.

— Como assim "esquece", 114?! Tu solta uma bomba dessas na minha mesa, me faz soltar o nome do Martins e agora quer meter essa de vergonha?

— É sério, Emiliano... a situação é complicada pra caramba — tentei desconversar, mexendo no pires. — É um cara que você nem imagina. Se eu falar, você vai achar que é mentira.

— Ah não, agora que tu NÃO fala é que eu vou enlouquecer! — Emiliano deu um tapa fraco na mesa, caindo na gargalhada, visivelmente curioso. — Me dá só uma dica de quem seja!

— Não vou falar e ponto final — respondi, tentando segurar o sorriso, embora a lembrança do recuo e da postura do Gustavo no banheiro do quartel ainda deixasse um amargor no fundo da garganta. — Quem sabe na segunda-feira eu te conto... se ele não amarelar de vez.

Emiliano ficou me encarando por longos segundos, semicerrando os olhos com uma expressão desconfiada e um sorriso de canto provocativo.

— Tá certo, seu misterioso... Guarda o teu segredo por enquanto. Mas Segunda-feira eu vou ficar de olho em cada recruta do Terceiro Pelotão que passar perto de você!

Ele balançou a cabeça rindo, pegou a chave do carro sobre a mesa e deu dois tapinhas no meu braço.

— Agora come esse pão logo que eu vou te deixar em casa. A gente tem 48 horas pra esquecer que o Exército e esses garotos complicados existem!

[Spoiler] - O Ep10 finalmente será com cenas explícitas rsrs, espero vocês na próxima madrugada ❤️

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Comentários

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Gosto muitodo personagem do Emiliano, o cara é amigo, companheiro, divertido e se preocupa de verdade com o Michel, mas o casal do conto deve ser o Michel e Gustavo mesmo, preferia o Vitor do que esse Gustavo ai.

Parabéns pela escrita e pelo conto incrível!

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Comecei a ler tudo ontem e tá mt bom kk porém meu ódio por Gustavo é grande...Queria que Michel e Emiliano se pegassem rs

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Fico feliz que esteja gostando ❤️, sobre os dois, quem sabe né?! Kkk

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Gostando do conto, penso que Gustavo irá fazer Michel sofrer, a melhor opção pra ele seria distanciar

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