Capítulo 3 — Quando o silêncio encontrou um abraço
Existe um instante em que deixamos de pensar.
Não porque as respostas aparecem.
Mas porque as perguntas deixam de fazer sentido.
Foi assim naquela madrugada.
Depois de tantas horas dividindo o mesmo espaço, o silêncio entre nós já não era constrangedor. Era um silêncio confortável, daqueles que parecem existir apenas quando duas pessoas conseguem aceitar a presença uma da outra sem exigir explicações.
Olhei novamente pela janela.
A escuridão ainda cobria a estrada.
Os poucos postes que apareciam às margens da rodovia passavam rapidamente, desenhando sombras sobre o teto do ônibus. A cada curva, uma faixa de luz atravessava nosso rosto e desaparecia logo em seguida, como se a própria noite respirasse.
Eu já não prestava atenção no celular.
Nem ele.
Parecia que os dois haviam desistido de procurar distrações.
O que existia ao nosso redor era suficiente.
Por alguns minutos permaneci apenas ouvindo.
O motor.
O ar-condicionado.
A respiração tranquila das pessoas adormecidas.
Em algum lugar do ônibus alguém se mexeu durante o sono. Outra pessoa tossiu baixinho. Depois tudo voltou ao mesmo silêncio de antes.
Era estranho perceber como um veículo cheio de passageiros podia parecer tão vazio.
Talvez porque, naquele momento, minha atenção estivesse completamente voltada para quem estava ao meu lado.
Sem dizer uma palavra, nossos olhares finalmente se encontraram por alguns segundos.
Não houve sorriso.
Não houve constrangimento.
Apenas um reconhecimento discreto.
Como se ambos soubéssemos que alguma coisa havia mudado.
Não lembro exatamente quem diminuiu primeiro a distância.
Talvez tenha sido eu.
Talvez tenha sido ele.
Talvez tenha sido apenas a viagem seguindo seu caminho enquanto duas pessoas, pouco a pouco, deixavam de agir como completas desconhecidas.
Alguns gestos nasceram naturalmente.
Com a mão ainda firmemente em sua bunda, agora muito menos tímido, apertei com força, de várias maneiras. Ele me tocou, sua mão subindo lentamente pela minha perna, até o pênis, me incitando.
Sem combinação.
Sem planejamento.
Sem a necessidade de qualquer palavra.
Foi uma aproximação feita de confiança.
De perguntas silenciosas que encontravam respostas igualmente silenciosas.
Hoje percebo que aquele momento não me marcou porque era proibido.
Nem porque era inesperado.
Marcou porque, pela primeira vez em muito tempo, senti que alguém me enxergava sem que eu precisasse explicar quem eu era.
Não existia currículo.
Não existia profissão.
Não existia passado.
Não existiam os problemas que eu carregava do lado de fora daquele ônibus.
Existia apenas eu.
E, por algumas horas, isso pareceu suficiente.
A proximidade trouxe consigo uma mistura difícil de descrever.
Havia desejo.
Seria mentira dizer que não.
Mas havia também delicadeza.
Um cuidado quase intuitivo para respeitar o ritmo do outro.
Cada gesto parecia perguntar, antes de acontecer:
“Está tudo bem?”
E a resposta vinha da permanência.
Ninguém precisava dizer “sim”.
Bastava continuar ali.
Viramos de frente um para o outro, e ele me cobriu. Dessa vez, ele tocou diretamente meu pênis e baixou minha bermuda. Eu fiz o mesmo, e começamos a nos mexer para cima e para baixo. A sensação era indescritível, uma mistura de tensão e perigo.
Em determinado momento, fechei os olhos por alguns segundos.
Não porque estivesse com sono.
Mas porque queria guardar aquela sensação.
Às vezes fazemos isso quando percebemos que estamos vivendo algo que provavelmente nunca conseguiremos repetir exatamente da mesma forma.
Como quem tenta gravar uma fotografia dentro da própria memória.
Eu não sabia o nome completo dele.
Não conhecia sua história.
Não sabia o que havia levado aquela pessoa até aquela poltrona naquela noite.
Mesmo assim, existia uma confiança inesperada entre nós.
Uma confiança que talvez só pudesse existir justamente porque não carregava expectativas.
Naquele espaço suspenso entre uma cidade e outra, nenhum dos dois precisava decidir o futuro.
Não havia promessas.
Não havia cobranças.
Não havia a obrigação de sermos mais do que éramos naquele instante.
E talvez tenha sido isso que tornou tudo tão intenso.
Vi inclinar a cabeça para trás e, com um toque leve, tocar minha mão em seu pênis. Percebi que minha mão estava molhada, um reflexo do seu tesão, e para mim, isso foi tudo o que precisei.
Quando a madrugada avançava para suas últimas horas, senti que alguma coisa dentro de mim também mudava.
Não era uma mudança ruidosa.
Era discreta.
Como o amanhecer, que começa muito antes de o sol aparecer.
Sem perceber, eu já não estava apenas vivendo uma viagem.
Estava vivendo uma lembrança.
Uma daquelas que, mesmo antes de terminar, a gente intui que nunca vai esquecer.
E, sem saber, eu estava prestes a descobrir que o momento mais importante daquela noite ainda não tinha acontecido.
Porque o que permaneceria comigo não seria o desejo.
Seria o que viria depois dele. O instante em que, pela primeira vez em muito tempo, eu sentiria que podia descansar emocionalmente nos braços de outra pessoa, sem precisar ser forte, sem precisar esconder minhas fragilidades, apenas existindo naquele pequeno mundo iluminado pelas luzes fracas de um ônibus atravessando a madrugada.